HÁ DIAS ASSIM


Há dias assim. Sai uma pessoa de casa para enfrentar um segunda-feira já bem entrada no dia, monta na bicicleta e faz-se ao caminho com o sol pelas costas, quentinho. A nortada promete acompanhar a costumeira viagem e a temperatura é perfeita. Chegado ao túnel da praia, o mar ao fundo, a cadência descontraída, a maresia, a campainha que perdeu a mola e tilinta a cada buraco do caminho. A vida é tão simples em cima do selim!

Lá em cima os carros passam apressados, como que parecem fugir, como se tivessem medo de se deixar aprisionar pela beleza da paisagem. Tão perto e tão longe. Passo pela marina nova de Oeiras onde belos barcos embalam o mar e sonham com viagens por mares nunca navegados. Um cachorro leva a dona pela trela e um par de patins desliza em ritmo de câmara lenta.

Da curva surgem duas rodas a par, duas fardas iguais, dois agentes da autoridade. Um casal desvia-se das três bicicletas e ainda ouve a pergunta “já viu aquele sinal”. Outra bicicleta que pára e a mesma pergunta. O atlético corredor poderia levar nos auscultadores a informação de trânsito “congestionamento na Marginal” mas apenas se desvia. Ao fundo outro casal pára a comentar a cena “olha aquele já está”. Um par de olhos verdes em passo estocado fita-me tentando descortinar quem é o mau da fita.

Que ainda não estamos a multar mas que vamos começar”. “Que é proibido“. “Há sinais em todas as entradas”. “Já “houveram” acidentes graves, até com uma senhora grávida”. “Pois, terá de ir por… não sei, pela estrada”. “São 24 euros e 90 ou lá que é e mais 30 se não tiver o bê i e mais metade por causa do…”. “Pois pois que a bicicleta é um veículo e tem de usar capacete que vem no Código”. “Ai vem vem!”. “Está aqui, quer ver?”. “Não tens aí o Código? É que ‘tive a formatar isto e desinstalei o Código”.

Neste palavra-puxa-palavra claro que houve o “então e onde fica a minha segurança”. “Eu sou responsável apenas pelos meus actos”. “Qual é a diferença entre o antes de Abril e o depois de Abril”? “E quem fiscaliza a velocidade ali em cima”? “E o aumento de bicicletas”? “E os turistas e a imagem do país”?  “Capacete obrigatório? Olhe que não senhor agente, olhe que não”. “Isso é um Galaxy“? “Não tem internet“? “Ah ok, não é da polícia, é seu”.

Por fim o homem escreveu o meu e-mail no tablet espanhol barato e eu ganhei a promessa que me vai chegar o artigo do tal Código onde consta a obrigatoriedade de usar capacete quando conduzimos o veículo bicicleta. Calhando o Governo já alterou o Código da Estrada seguindo recomendações surpresa. Calhando os agentes estavam apenas equivocados. Calhando eu vivo num país onde tudo está sempre a começar. Calhando o e-mail foi parar ao filtro de spam.

Enquanto a conversa com o par de fardas durou, mais por militância minha que por convicção deles, foram admoestados os ciclistas que entretanto passaram. Todos perigosos radicais, com o ar mais ameaçador que se pode imaginar em cima duma bicicleta. Todos desejosos de serem escorraçados para o asfalto seguro da Marginal. Todos aliviados por nunca mais ali poderem pedalar! Todos orgulhosos das ordens e da autoridade que escrupulosamente zela pela nossa segurança… Epá, ‘pera aí… então eu nunca mais vou passar ali? Então quer dizer que já não vou parar numa daquelas esplanadas e beber uma imperial. Aquela gente dos bares vai perder clientes? Querem lá ver que isto anda tudo ligado?

Imaginem a seguinte situação: estão a ver aquela rua na Baixa de Lisboa que começa na Praça do Comércio, aquela com o arco? Sim essa, totalmente pedonal, a Rua Augusta. Agora imaginem que a polícia a vigia de carro. Estão a ver? Vigiar uma rua pedonal de carro? Pois é o que a PSP faz no passeio marítimo de Oeiras. Um passeio pedonal, onde não podem circular bicicletas, a policia faz vigilância de? Bi-ci-cle-ta! E andam aos pares e ainda por cima a par! Estão a ver?

Ontem foi dia de seca no aeroporto à conta do atraso do voo de Bilbo. Normalmente nestas situações começo a ter alucinações ao fim duma hora. Bem sei, estou a perder qualidades. Ontem a coisa foi grave, deu-me para ver chegarem e partirem alegres passageiros que se deslocavam de bicicleta. Poucos táxis, alguns autocarros e nenhuns carros. A maioria das pessoas chegavam de bicicleta ao aeroporto, em todo o tipo de bicicletas, eléctricas, dobráveis, singles, tandem, atafulhadas de bagagem, impecáveis! Iam e vinham por ciclovias perfeitas.

Mas quando a senhora conseguiu finalmente tirar o carrinho da bagagem de cima do meu pé, acordei deste desvario. Voltei a focar na realidade enquanto duas Koga passavam do outro lado do passeio carregadas com alforges ávidos de aventura. Ainda atravessei a estrada a correr mas acho que já não me ouviram quando gritei a pleno plumão: keep away from the sea in Oeiras!

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9 Respostas to “HÁ DIAS ASSIM”

  1. Hilariante para não ter que dizer enervante a atitude dessa patrulha a pedais.

  2. Há de facto duas soluções (talvez haja mais, mas não me apetece pensar nisso): a primeira é a malta decidir desafiar a polícia, circulando aos magotes no Passeio Marítimo, ao mesmo tempo que questiona os agentes dos motivos de se preocuparem tanto com o perigo que as bicicletas constituem para os peões, quando eles não multam os mesmos peões que deixam o carro em cima dos passeios, nas passadeiras e noutros locais do estilo, colocando em perigo os outros peões. (Já agora, os polícias podem circular de bicicleta no Passeio Marítimo porque estão obviamente especificamente e altamente treinados para circular de bicicleta entre os peões, coisa que tu, paisano, nunca conseguirás fazer. ;) )
    A outra solução (é o que eu faço) é circular sempre na N6. Imagina ciclistas aos magotes na N6. O caos, o martírio que magotes de ciclistas iriam provocar sobre os pobres automobilistas! Depois de um dia angustiante no trabalho, ainda têm de levar com hordas de ciclistas na estrada deles! Um automobilista suporta seguir a 2 km/h atrás de outro automobilista, suporta as bichas provocadas por poucas dezenas de outros automobilistas, mas seguir a 15 km/h atrás de um ciclista é um suplício de Tântalo! Não se faz nem ao nosso pior inimigo! Aposto contigo que era um instante que a CMO levantava a interdição de bicicletas no Passeio Marítimo!

    • Começando pelo fim, não aposte que perde. Não acredito que a CMO mude o quer que seja apenas porque nos manifestemos. Acho mesmo que, como as coisas andam, mandaria um batalhão de robotcops varrer à bastonada todos os prevaricadores da ordem e perigosos anarquistas ciclomobilizados.

      Creio verdadeiramente que a solução está na consciencielização de quem elege, de quem vota, para escolher pessoas que sirvam o interesse das populações, mesmo que isso custe popularidade.

      O ex-mayor de Londres e actual desafiador do demagogo Boris, Ken Livingston, obteve apenas 30% de apoio quando introduziu a conjestion charge, a taxa cobrada para aceder ao centro da capital inglesa. No ano em que perdeu a autarquia a expansão da área onde a medida é aplicada contava com o apoio de 70% dos londrinos.
      Por muito retrocesso que o Conservador Boris Johnson tenha trazido à cidade, as avanços conseguidos durante o tempo do independente eleito pelos Trabalhistas, perduram e Londres é hoje uma cidade mais amiga das bicicletas e das pessoas.

      Enquanto não pusermos gente capaz nos lugares próprios…

  3. Surreal! :)
    Imagino que as horas em cima do selim estimulem a inspiração para esta abordagem criativa e divertida, face a um cenário tão ridiculo…
    Cumps,
    Júlio

    • Conseguir desmontar as situações é o verdadeiro segredo para as destruir.
      Usar de violência verbal – obviamente a única disponível mas que não deixava de ser a primeira e primária vontade, apenas fragilizaria a minha posição e a de todos quantos gostam de pedalar por ali.

  4. Humberto
    Há um equívoco da tua parte. Eu não sugiro que se faça uma manifestação. Sugiro simplesmente que os ciclistas utilizem a estrada. As pessoas, nas suas deslocações regulares em bicicleta, devem utilizar a estrada. Um tipo precisa de ir a algum lado, pega na ginga e utiliza a estrada. Se muitos fizerem isso, é evidente que fatalmente a estrada acabará por ter muitos pedalantes, sem necessidade de convocar manifestações ou exigências em levar uma panela para preparar esparguete crítico. Tal como acontece, aliás, com os carros. Um tipo quer ir a algum lado, entra no carro e utiliza a estrada. A N6 está regularmente engarrafada por lata, e tanto quanto sei, não há convocações diárias para a malta levar o chasso para lá.

    • Não me fiz entender e concordo em absoluto com o que escreveste. Apenas dúvido que a CMO mude o que quer que seja sem sermos nós a muda-los.
      A sério que não há convocações diárias para ir andar de carro para a Marginal? Ia jurar que há!…
      ;)

  5. Concordo plenamente com a vossa opiniao! Ainda no outro dia vinha de bike pela marginal e vi 2 agentes a abordar os ciclistas no passeio maritimo…ia sendo atropelado varias vezes por carros, é k esta gente k anda na estrada nao respeita os ciclistas. Mas como nao gosto de desrrespeitar as regras do codigo da estrada la tem k ser, ha k cumprir senao seremos pior k eles! Quanto ao passeio maritimo, bem, digamos k ninguem respeita ninguem, em londres se formos a ver as pessoas sao civilizadas… aki como antes do 25 de abril nao se podia nada, axo k agr devia mudar, é k hj em dia existe uma falta de respeito, ou melhor, agora todos podem tudo! Para resolver isto era facil, como ninguem respeita nada e vale tudo, e ja k nao precisamos da policia, era os pobres rapazes de todo o pais ficarem em casa uma semana, e agente assim podiamos fazer tudo… se as bicicletas podem, porque nao de mota?? Ja k estamos a falar de veiculos… ou de carro…pagamos os impostos podemos fazer tudo! Em vez de nos respeitarmos uns aos outros vamos so pensar na barriga de cada um e aproveitar para tirar cada vez mais um bocadinho de poder à policia! O pais esta mal devido aos nossos governantes sim, mas so porque somos todos iguais a eles ou pior! Em vez de publicar cenas sem nexo, que tal começar a pensar em sermos todos civilizados e respeitar as leis? Assim com essas mentalidades, muito à frente vamos mudar Portugal…para pior com certeza!

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