BORRACHINHA REMENDADA


No artigo anterior, a par de algumas considerações derivadas das preferências deste escriba, ilustrei com escolhas materiais para o caso do caro leitor necessitar de inspiração para pôr à prova a sua perícia. O processo prático de trocar uma câmara de ar, um pneu ou fazer um remendo, não estiveram nos objectivos do texto. Até porque uma genérica busca pela rede e resultam abundantes filmes demonstrativos de como o fazer.

Em cidade, ou quem simplesmente comuta diariamente, sentirá provavelmente a necessidade de transportar uma mala ou um alforge, pelo que o espaço não será um grande problema. Para quem costume ir para os montes ou dar largas ao pedais pelas estradas secundárias, as minha modestas recomendações não servirão e grande consolo. Uns porque podem usar pneus sem câmara de ar e recorrer a produtos do tipo autosselantes, os outros porque o peso, o espaço e o tempo são mesmo limitados.

Depois de ler alguns válidos comentários ao artigo precedente, decidi tentar descrever os procedimentos minuciosos (!) que devemos observar desde que damos com o pneu vazio até podermos seguir viagem. Existem dois tipos de furo: os por rasgo e os por picada. Normalmente o primeiro é provocado pelo trilhar do pneu e pode acontecer em todo o perímetro da câmara de ar ou pneu. A subir ou descer um passeio, pavimento empedrado ou de terra com calhaus grandes, são situações propícias a este tipo de azares. Pode ainda acontecer que a câmara de ar ficou dobrada dentro do pneu ou a fita da jante já não cumpre a sua missão de proteção entre a borracha e a extremidade dos raios.

O segundo ocorre normalmente por impacto contra um objeto pontiagudo e verifica-se maioritariamente na faixa de rolamento do pneu/câmara. Pregos e outros objetos metálicos, pequenos ramos resistentes, espinhos, pedras e gravilha nova, cacos de vidro sobretudo de garrafas, podem originar furos lentos que só se fazem notar já muitas pedaladas à frente. No caso dum rasgo, o esvaziamento do pneu é rápido e muitas vezes até se ouve o silvo do ar a sair. Neste caso, o rasgo pode até nem ter remendo, ou requererá um remendo de maiores dimensões e a melhor maneira é usar-se um pedaço de borracha duma câmara de ar inutilizada.

Uma vez detetado o furo há que desmontar a roda do quadro. Se o pneu não estiver totalmente vazio será preciso abrir os travões de pinças para que a roda passe no meio das pastilhas. De seguida, com um dos desmontas enfiado entre o pneu e a jante de forma a que a borracha passe para o lado de fora do aro, circunda-se com o outro desmonta todo o pneu de forma a que um dos seus lados fique totalmente fora do aro e se possa extrair a câmara de ar.

A válvula, caso seja do tipo francesa (ou Presta), pode estar presa à jante por uma anilha que tem de ser desenroscada. A câmara de ar furada deve ser inspecionada mesmo que não a queiramos remendar logo. Encontrar o buraquinho ajudará a perceber o que esteve na origem do furo. Embora não seja necessário desmontar completamente o pneu do aro, eu prefiro fazê-lo. Assim posso verificar pelo tato e pelo olhar o estado da fita de jante e limpar qualquer impureza que esteja no interior no aro. Posso inspecionar melhor o interior e exterior do pneu à procura de alguns detrito que lhe tenha ficado espetado e eventualmente aplicar um remendo no interior do próprio pneu antes de voltar a montar a nova câmara de ar.

Há quem recorte uma tira de câmara velha e a fixe no interior do pneu como reforço na zona de rolamento. Acrescenta peso mas também resistência a furos por picada. Observando o sentido de rotação do pneu volta a montar-se um dos lados de novo na jante. Insufla-se algum ar na câmara de ar nova de modo a que ganhe forma e instala-se a válvula no lugar não apertando totalmente a anilha e observando que faz um ângulo de noventa graus com a tangente interior do aro (gostaram?). Com muito cuidado introduz-se a câmara de ar no pneu e, mantendo todo o cuidado para a não trilhar, passamos o segundo lado do pneu para o lado de dentro do aro. Se se tiver que recorrer aos desmontas, é fundamental que se redobrem os cuidados para não ferir a fina borracha da câmara.

Antes de encher de novo o pneu, convém verificar uma vez mais ambos os lados para certificar que tudo está uniforme e sem entalar a câmara de ar. Uma vez o pneu ajustado com a pressão correspondente, fixas-se a anilha da válvula mas sem aplicar demasiado aperto. Volta-se a montar a roda no quadro, reapertam-se os travões e verifica-se o seu funcionamento e faz-se a roda girar para ver se tudo está como deve. A câmara de ar furada arrumada e ala que se faz tarde!

No caso de se pretender remendar o furo no local, há que limpar e raspar a câmara na zona do furo, aplicar uma fina e uniforme camada de cola. Cuidado para não entrar cola pelo furo ou arrisca-se a inutilizar de vez a câmara de ar. Retirar a película protetora do remendo e pressionar bem as duas superfícies por um minuto ou dois. Deixar secar bem e encher um pouco para ver se a colagem foi eficaz. Reinstalar a câmara no pneu de acordo com o que ficou escrito acima.

Eu faço assim e não me tenho dado mal.

Há sugestões? Venham elas!

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4 Respostas to “BORRACHINHA REMENDADA”

  1. Excelente artigo!

    Para além dos conselhos que aqui deixas, eu tenho ainda outro hábito que é o de usar auto-vedante (por exemplo, Slime http://www.slime.com/) nas câmaras de ar. O auto-vedante é capaz de selar pequenos furos que possam ir acontecendo. O inconveniente é adicionar um pouco de peso às rodas, mas nas deslocações urbanas isso nem se nota!

    Há vários anos que não mudo uma câmara de ar na rua graças ao auto-vedante. O máximo que já me aconteceu foi ter um furo ligeiramente maior que o auto-vedante não conseguia selar totalmente, mas foi apenas uma questão de parar duas ou três vezes para encher o pneu e conseguir chegar a casa.

    Ainda assim transporto sempre comigo as alavancas, uma câmara de ar suplente, e a bomba de ar, pois o melhor a fazer em relação a furos é mesmo prevenir – sei que se algum dia me esqueço de um destes objectos em casa vou ficar com um pneu vazio de certeza! :)

    • Obrigado!
      Só não aprovo os autosselantes por questões ambientais, mas… quem sou eu para moralismos ainda que verdes?

      • Tens toda a razão em ter essa preocupação ambiental! O que eu faço para minimizar não só esse impacto mas também o da carteira é guardar a garrafa do Slime com o aplicador e quando realmente preciso de trocar uma câmara de ar, espremo o Slime da câmara de ar antiga para a garrafa para deste modo o poder utilizar na câmara de ar nova. ;)

        Por outro lado, se usar uma garrafa de auto-vedante faz com que não precise de usar mais do que um par de câmaras de ar durante pelo menos um par de anos… Acho que é um compromisso ambiental interessante. :)

  2. […] um kit de prevenção e alguns conhecimentos práticos como remendar a borrachinha, rapidamente podemos retomar o passeio, no entanto nem sempre estamos precavidos porque não […]

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