BORRACHINHA FURADA


Um furo no pneu é seguramente um dos azares mais tremidos por quem sai por aí a pedalar. Não é prático transportarmos uma roda sobressalente com um pneu montado para o caso de alguma eventualidade desagradável ocorrer mas se uma roda não cabe no alforge, alguns pequenos artigos podem de lá sair caso a tal eventualidade surja pontiaguda no caminho. Um ciclista que comute regularmente sabe que a melhor maneira de evitar um furo é a prevenção. E como é que se previne um furo? Olhando à volta quase que me apetece dizer que a maioria dos ciclistas escolhe à partida bicicletas de montanha, equipadas com pneus grossos e cardados, com perfis capazes de enfrentar o mais agreste tapete faquir e ficar a rir das cócegas, pelo que a prevenção de furos está, aparentemente, no topo das prioridades. Se é verdade que os pneus de btt são mais resistentes que os outros, também é verdade que a resistência ao rolamento é uma grande desvantagem.

Com o aumento das bicicletas de cidade e outras mais versáteis, são também mais frequentes os pneus finos, oferecendo melhor rendimento e conforto. Contrariamente ao que possa parecer, uma faixa de rolamento lisa pode ser mais segura que um perfil com relevo. Por exemplo, pequenas pedras de gravilha, ao ficarem retidas entre as ranhuras do perfil, podem originar um furo muito tempo depois. Prevenir os furos passa inicialmente por escolher pneus reforçados na zona de contacto. Manter os pneumáticos com a pressão recomendada e usar uma câmara de ar indicada para a medida do pneu, bem instalada de forma a evitar vincos que possam originar rasgos mesmo a rolar em pisos seguros, é igualmente importante. Claro que evitar pavimentos com muitas arestas, como a calçada portuguesa ou zonas onde o álcool da noite anterior se transformou em cacos de vidro, ajuda e muito, à -parafraseando Paulo Bento- tranquilidade.

Nestas coisas de prevenção não há seguro que valha e que eles acontecem, lá isso acontecem, pelo que não fica mal a nenhum ciclista, por muito ocasional que seja, saber que reparar um furo on the road não é nenhum berbicacho desde que, claro está, disponha de ferramentas e não tenha problemas em sujar as mãos. Nos meus tempos de cidadão da invicta cidade, não poucas vezes, ao rolar pelo macadame do nobre Parque da Cidade fui traído pela resistência da borracha tailandesa. Se numa primeira vez subi a avenida da Boavista com a Trek pela mão, das outras desmontei, remendei e montei o pneu sob o olhar curioso dos passeantes portuenses. Soubessem que o desafortunado ciclista era mouro e outro olhar faiscaria…

A bicicleta é um meio de transporte que convida à evasão, à contemplação, à calma, à aventura. Quando o furo acontece é bom que nos lembremos disto! Vamo-nos atrasar, teremos que analisar o problema serenamente e preparar-mo-nos para a tarefa. O processo é simples: Tirar a roda do quadro; procurar no pneu a razão do furo, desmontar o dito cujo e a câmara de ar; caso não seja ainda visível o furo, vistoriar a câmara; colar o remendo; remontar o conjunto e repor a roda no lugar. Se tudo correr bem poderá não demorar mais que trinta minutos, a maior parte deles à espera que a cola seque. Conhecer as lojas de bicicleta que ficam nas imediações dos nossos trajetos habituais pode também servir de ajuda. Mas então o que convém ter dentro do alforge?

  • um conjunto de desmontas
  • uma câmara de ar
  • um kit de remendos
  • uma bomba
  • um conjunto de ferramentas
  • toalhetes

Einstein's Patch Kit

Park Tool Pre-Glued Patches

Continental Tour 28 Slim

Wrench Force & SKS

Chave de luneta 8 & Kit Ferramentas Scott

Ferramenta Multi-funções Leatherman Wave

Muita coisa? Depende da perícia. Esmiucemos então as bugigangas. Um par de desmontas em plástico duro ou metal pesa pouco e não ocupa espaço. A câmara de ar é para o caso do furo ser irreparável na estrada para além de permitir não perder tempo com os remendos. É muito prática se o azar chegar com jackpot, isto é, com chuva ou à noite. Os remendos podem ser de dois tipos. Os clássicos que envolvem um tubo de cola e um pequeno pedaço de borracha e os mais recentes remendos autocolantes. No dia a dia confio nos segundos mas para os passeios não dispenso o método ortodoxo. Bombas há muitas, embora também se possam dividir em dois tipos: as de dar ao braço e as de garrafinha de ar comprimido. Por ser mais rápida e prática mantenho sempre à mão a de recarga, mas prefiro sem dúvida a outra até porque tem um fiável  manómetro. O conjunto de ferramentas pode ser dedicado a estas coisas das duas rodas a pedais ou uma coisa mais elaborada. Preciso esmiuçar os toalhetes? Bem me parecia…

Então e a tal perícia? A relação que se estabelece entre nós e a bicicleta assumirá tantas formas como binómios houver. Embora possamos encarar a máquina como um simples e utilitário objeto, a bicicleta retribuirá todo o carinho e atenção que lhe dedicarmos. Trocar um pneu pode não ser pêra doce mas é seguramente uma bonita prova de dedicação. E quem não tem uma história de furo para contar? Você aí. Sim, o caro leitor -ou leitora que este blog é contra a discriminação por género- já remendou um furo? E quer partilhar essa experiência? Que tal essa perícia?

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8 Respostas to “BORRACHINHA FURADA”

  1. Daniela Saraiva Says:

    Todos os dias no caminho para o trabalho penso nisto…. e fico realmente preocupada. Na teoria sei reparar o furo sem problema mas a verdade é que até agora só tive furos lentos, daqueles que vazam o pneu durante a noite e quando acordo voilá e como estou em casa delego a tarefa ao marido :)
    Mas agora com o dia-a-dia sobre duas rodas não poderá ser bem assim…
    Quando apanhar o meu primeiro imprevisto partilharei convosco LOL iremos dar belas gargalhadas sobre o assunto mas a primeira estratégia que me passa pela cabeça é mesmo apelar ao primeiro ciclista que passe por mim :D:D:D

  2. Miguel Barroso Says:

    Há uma maneira de simplificar o procedimento – andar sempre com uma câmara de ar atrás… uma substituição nunca me dura mais de 5-10min. Mais rápido do que trocar um pneu de um automóvel.
    Depois, em casa, remendo a câmara de ar com todo o tempo do mundo. Com prática, e se o pneu não fôr daqueles muito justos ao aro, também se dispensam os desmontas – mas convém confirmar isso antes de retirar os ditos acessórios da bolsa que nos acompanha…

    Excelente artigo!

  3. Paulo guerra dos Santos Says:

    Um 1994 quando fiz o primeiro curso de Formação Pedagógica de Formadores, para a primeira autoescopia (pequena sessão de 15 minutos em que temos de ensinar algo e ser avaliados por isso) escolhi como tema “Substituir uma câmara de ar de uma roda de bicicleta”. Mal eu sabia o quanto esse conhecimento me iría ser útil, não tanto na cidade (onde é raro furar) mas nas voltas a pedalar por esse país fora. Excelente post!

    • Pedro Pinto Says:

      Paulo Guerra dos Santos, podes disponibilizar essa pequena apresentação online ? (Powerpoint suponho).
      Dava jeito a muitas pessoas, inclusive a mim.
      Obrigado, Abraco.

  4. Mário Trindade Says:

    Queria acrescentar umas coisinhas:
    Os pneus com pressão baixa furam mais facilmente, encher os pneus a gosto mas sempre dentro dos valores indicados no mesmo;
    Os pneus trazem uma indicação do sentido de rotação que deve ser respeitado;
    Inspeccionar meticulosamente o pneu furado passando os dedos por dentro, é muito frequente ficar lá o bico e sucederem-se novos furos;
    Do kit deve fazer parte uma chave para retirar a válvula, ou umas tampas com a mesma função. Repara-se monta-se e arruma-se a câmara estando totalmente vazia.
    E para terminar, também se remendam furos com borracha de uma câmara inutilizada. Eu ando sempre com um bocado de câmara das mais finas e uma tesoura pequenina para fazer o remendo á medida.
    Eu sou do tempo em que havia falta de remendos, aproveitava cortando e emendando câmaras de rodas grandes para a minha primeira bicicleta roda 22 e até se substituiam pipos.
    Nesse tempo todas as bicicletas eram bicicletas todo o terreno,

  5. Vários comentários assertivamente recomendaram o essencial do que iria sugerir. Levar um kit é fundamental e sem pressão trocar a câmara de ar. Sei que existem outros métodos para evitar furos, como uma fita anti-furos que se coloca entre o interior do pneu e da câmara de ar, e o liquido anti-furos com que se introduz na câmara de ar. Um outro cuidado a não descurar, e com essa me tornei um expert no que toca a trocar câmaras de bicicleta, é inspeccionar bem o interior do aro. Na minha bicicleta de estrada tive 3 furos na mesma viagem. Por sinal dessa vez havia levado duas câmaras sobresselentes, mas ao terceiro e estranho furo um companheiro de viagem lá me safou ter de continuar a penantes. Já em casa verifiquei que as câmaras haviam furado precisamente no mesmo sítio e estranhamente fora do local de rolamento. Verifiquei então que a fita que serve para cobrir os orifícios dos raios, no interior do aro, estava a deslocar-se e a deixar um espaço onde a câmara ia sendo trilhada até furar.

  6. Houve uma altura em que tentei câmaras de ar de marca branca de grandes superficies comerciais desportivas, que custavam 1€ (roda 700C com pressão indicada). 4 furos em 3 dias e descobri que não aguentavam a pressão e descolavam pelas juntas das várias partes de borracha que constituem a câmara de ar. Resolvi ir à loja da esquina, gastei 8€ numa câmara de ar e já lá vai mais de um ano sem furos.

  7. […] simples passeio de bicicleta pode rapidamente tornar-se num simples passeio a pé com a bicicleta, se algum dos pneus resolver furar. E uma das razões porque furam os pneus é  por circularem com frequência sem a pressão […]

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