Arquivo de segurança

BICICLETAS PARA A ESTRADA JÁ!

Posted in cycle of sighns with tags , , on 18 de Novembro de 2013 by Humberto

cais das colunas

Tenho passado nos últimos meses, muitas horas ali para os lados do Terreiro do Paço. Volta não volta e estou de plantão à porta do Ministério da Troika à espera que mais um rol de maus presságios escorra dos gabinetes, desça pelos microfones e se abata sobre o nosso futuro. Pela porta da rua entra a luz dum Tejo a correr para o mar mas sem força para lavar a cidade nem levar a mágoas. Lá fora passam bêbados curiosos, namorados resignados, desempregados arrumados e arrumadores empregados, polícias desesperados, prostitutas baratas, turistas assustados, bombeiros apressados, donas de casa atrasadas, carros a apitar, pedreiros a xingar. E muitas bicicletas.

Raras vão sendo as oportunidades de prender o olhar a Lisboa e para ouvir falar de liberdade escolhi descer ao rio e embalar-me pelo piar das gaivotas. Estava o céu vestido de azul e aquecia a fria manhã de domingo. Uma pequena praia deixava-se mostrar na maré baixa e o rapaz que faz do cais palco encantava tainhas e um par de alforrecas asfixiadas, enquanto todos os outros seres vivos tentavam imaginar como seria só ouvir o rio. A calmaria das águas contrastava com a corrente de ciclistas equipados a preceito para uma volta ao Alqueva, que ia e vinham pela estreita calçada. Mas porque raio não vai aquela gente toda na estrada?

Passam diariamente dezenas de bicicletas na cidade que se estende de Santa Apolónia ao Cais do Sodré. Muitas são levadas pela estrada, altivas e afirmativas, donas do seu lugar. Outras mais amedrontadas vão cuidadosas pelo passeio do lado do antigo Paço e deixam-se ficar a fazer preguiçosos oitos na Praça do Comércio. Muitas seguem ainda covardemente, fugazes por entre quem foge para apanhar o barco, pelo passeio em frente ao Cais das Colunas, esgueiram-se por entre distraídos fotógrafos de ocasião, driblam carrinhos de bebé, rabeando a sorte pelo meio do azar do peão.

O que faz um tipo sair de casa enfiado em lycra dos pés à cabeça, pôr-se em cima dumas boas centenas de euros e, em vez de ir pedalar para o monte, ir chatear quem vai a passear? Pelo passeio! Parecem putos, uma cambada de miúdos medricas mascarados de homens, todos equipados como nas fotografias dos catálogos da marca da bicicleta preferida, mas que não se atrevem a pôr um pedal na estrada. Às tantas, ia eu na direcção do poente, ali onde as eternas obras da Ribeira das Naus obrigam a caminhar por um corredor de grades, ouço um compincha a dizer ao outro “até Santos? mas assim tem que ser pela estrada…”. O mesmo pessoal que afugenta aos gritos e solta impropérios de cada vez que um peão pisa aquela espécie de ciclocoisa mais à frente a caminho de Belém, foge para a calçada como se o asfalto queimasse os pneus xpto-de-corrida! Até quando? Apre!!!

MENTALIDADE SEGURA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 5 de Novembro de 2013 by Humberto

esquemaA segurança dum ciclista na estrada é posta em causa não pela acção concreta dos automobilistas mas sobretudo pelas ideias de segurança que tem a grande maioria dos automobilistas. Eu explico.

É legítimo um automobilista, ou qualquer outra pessoa, achar que quem pedala na estrada põe em risco a própria segurança, e até a segurança dele, automobilista. É razoável que quem de dentro dum automóvel, olha aqueles que se transportam em cima duma estrutura frágil, sem nada que os proteja dos elementos para além da própria pele e enfrentam na mesma arena máquinas muito mais fortes e velozes, pareça estar a arriscar muito e dessa forma, a pôr em risco a própria segurança.

Por haver um efectivo risco quando se anda de bicicleta no meio do trânsito automóvel, é reconhecida a necessidade de adaptar e actualizar a legislação, especialmente o Código da Estrada (CE), de maneira a aumentar a segurança para todos os utilizadores das vias. Mas uma vez publicadas as regras ideais, ficaríamos todos mais seguros? Como se implementa uma lei que obriga os automobilistas a passarem a pelo menos metro e meio dum bicicleta?

Um rápido olhar pela janela e damo-nos conta de como, apesar de tantas regras e sinais, o estacionamento automóvel é livre. quase anárquico. Ou como as velocidades impostas como limite, são na verdade e quase sempre as velocidades mínimas.

Não é o CE que vai fazer os automobilistas deixarem de me passar tangentes na Marginal. Muito menos será a polícia a medir as ultrapassagens irregulares. Quando tenho de ser automobilista existe uma única razão pela qual me afasto dum ciclista para uma distância segura e só então o ultrapasso. E essa é a única razão que fará com que outro qualquer automobilista se afaste também: a consciência de que ao agir doutra maneira, poria sempre uma vida em risco.

Em cidades onde a bicicleta é um alien, ainda que um alien simpático, é impossível circular sem rolar pelo passeio, desmontar sempre que se cruza numa passadeira, respeitar todos os semáforos ou nunca passar um verde-tinto, descer uma rua em contra-mão. Quer dizer, não é que seja uma impraticabilidade pura, é mais uma coisa natural já que um ciclista sente-se sempre mais próximo do peão que dum veículo motorizado. Andamos, vemos e ouvimos como um peão e é normal que interajamos com o meio duma semelhante maneira.

Faz sentido tirar as bicicletas do passeio quando se continuam a desenhar ciclovias pelo meio da calçada? Estender uma carpete vermelha pelo meio dum velho e esburacado tapete não é um convite ao “passeio”? Claro que é! É mais ou menos como marcar um seminário sobre nutrição na Confeitaria do Marquês.

A alteração das regras só é motor para mudar as mentalidades se houver implementação efectiva ditas. Embelezar os calhamaços sem cuidar do lado prático pode até contribuir para a ideia de que a “lei” não serve para nada. Tirar as bicicletas do passeio porque assim obriga a segurança dos peões, vai fazer com que, à medida que em Lisboa e noutras cidades, forem crescendo as áreas pedonais, estas sejam proibidas aos ciclistas. E isso não faz sentido nenhum!

Neste interessante artigo é sugerido o que pode a cultura da bicicleta no Japão ensinar ao Reino-Unido. Podemos aprender todos uns com os outros desde que acertemos na ideia que o que é essencial mudar são as mentalidades.

autocarro

CUIDEM -TAMBÉM- DE MIM, POR FAVOR

Posted in cycle of live with tags , , , on 9 de Agosto de 2013 by Humberto

Post muita bem gamado:

Nos últimos dias foram-me chegando notícias de 7 ou 8 atropelamentos graves de ciclistas, amadores e profissionais. Por favor enquanto conduzem se passarem por um ciclista abrandem, ultrapassem só quando não vier nenhum carro em sentido contrário e tentem deixar a distância mínima de segurança de 1,5 mt. Eu sei que também há ciclistas que não cumprem as regras de trânsito, mas lembrem-se que nós somos o elemento mais fraco e um simples toque pode ter o pior dos resultados. Cuidem dos ciclistas, cuidem de mim. Uma vida humana por uns segundos da tua vida.

cartaz distancia que aproxima

BROCHURA INSEGURA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 12 de Maio de 2013 by Humberto

Se há frases completamente esbatidas, a “que uma imagem vale mais que mil palavras” é uma. Mas é também uma frase com um certo grau de, digamos, imprecisão. Uma imagem pode necessitar de mais de mil palavras para ser descrita ou ser até impossível de traduzir por adjectivos e subjectivos e preposições. Uma imagem é sempre uma mensagem e a mensagem é palavras. Comunicamos por imagens e palavras, associando sempre umas às outras. Reflectimos enclausurando imagens em palavras e socializamos a escolher as palavras que melhor transmitem as imagens pretendidas.

A escolha das imagens que usamos como mensagem é um acto voluntário e consciente e essa escolha é a construção da imagem que queremos de nós. Nós somos a mensagem porque somos comunicação. Uma imagem serve de ilustração ao texto da mesma forma que pode o texto ser completado pela imagem. A coerência de cada um é uma linha viável que une o discurso -pensamento, valores, ideais- e a acção -a parte visível de cada um aos demais.

O Ministério da Administração Interna através da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana, a FPCUB e a SportZone, protocolizaram (grande palavrão) a campanha de segurança rodoviária que deu um cartaz, uns autocolantes e até um filme simpático. Chama-se tudo “Duas ou Quatro Rodas, Há Espaço Para Todas”. É uma iniciativa importante já que marca o reconhecimento tácito pelo Governo da relevância que a bicicleta ganhou enquanto veículo de transporte. Esta campanha é um muito bom exemplo duma série de mensagens que remetem constantemente para imagens.

cartaz_campanha_2_4_rodasAs campanhas do tipo “partilhe a estrada” são sempre úteis para quem tenta dia-a-dia ganhar algum espaço, num meio tão desfavorável como são as estradas vistas e sentidas do selim. Recordar que a estrada é de todos e que um ciclista é tantas vezes um automóvel a menos no engarrafamento e a roubar o precioso estacionamento, lembrar que a bicicleta é um veículo perfeitamente viável em grande parte das deslocações urbanas, além de ser uma excelente forma de fazer exercício, são ideias muito positivas e especialmente bem vindas olhando às necessidades particulares e colectivas dos tempos actuais.

Embora ressaltem algumas imprecisões objectivas na brochura, como por exemplo afirmar que os automobilista e os ciclistas partilham os “mesmos direitos e deveres” ou argumentar que numa rotunda o ciclista se deve comportar “como qualquer outro veículo”, a campanha tem mérito também pela oportunidade de re-centrar a discussão na necessidade de adoptarmos todos, independentemente da quantidade de pares de rodas que usamos, comportamentos mais tolerantes e seguros. Claro que conseguir a disponibilidade do MAI e das Polícias, todos fundamentais na definição das políticas, da novas e desejadas políticas, que regulem, em lugar de desregular a estrada, é um feito relevante e que deve orgulhar a federação ciclo-turística. Ainda que seja tudo pago em publicidade.

Não seria particularmente motivo de admiração se os governamentais subscritores do referido protocolo, defendessem a obrigatoriedade do uso de capacete para quem se faz à estrada de bicicleta. Já estar a FPCUB associada a uma campanha em que o capacete aparece obrigatoriamente em todas as imagens, poderá aos mais incautos -escriba presente à cabeça- oferecer um travo de surpresa. Pois não é que todos os “bonequinhos” da brochura têm ou a cabeça bicuda ou uma semi-circunferência no alto do cocuruto? Pois é, a bonecada saiu toda pelo bico da caneta de capacete na carola! Vai-se a ver e as duas fotografias pespegadas no dito flyı -e aqui acrescento: uma menina numa e um menino na outra, tal qual manda o figurino, com ar de estranjas na certa! são de felizes ciclistas com a moleirinha bem aconchegada. Está tudo de capacete!

Leio com novidade que para os subscritores da dita brochura, FPCUB incluída, o uso do capacete é “altamente recomendável”. A ver se me faço entender: eu aceito a posição expressa na campanha com toda a naturalidade. A recomendação do uso do capacete é legitima desde que não envolva a defesa da submissão dos que assim não pensam a essa opinião. Ou seja, todos somos livres de opinar, mas cada um é livre de decidir. Mas quando se põe, numa brochura sobre a segurança dos ciclistas na estrada, todos de capacete, faz-se objectivamente uma declaração política. Ou não? E agora vamos tentar encaixar nesta posição a que diz “eu não uso capacete, pergunte-me porquê”.

Desconheço em que é que se baseia essa alta recomendação. O capacete será tão recomendável como um par de joelheiras e outro de cotoveleiras e já agora uma protecção de coluna e uns calções almofadados. E o capacete é fechado ou aberto e com protecção de queixo. A imagem que está escarrapachada na brochura é que um ciclismo seguro passa “obrigatoriamente” pelo uso do capacete. E disso há tantas provas que sim como há que não. O que há é a colagem da “obrigatoriedade” do uso do capacete à imagem da FPCUB. Será isso um investimento na segurança dos ciclistas?

SAI UM EXPRESSO À BARBOSA

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 22 de Agosto de 2012 by Humberto

As assessorias de comunicação do Governo conseguiram vender ao Expresso e, pelo menos à RTP Porto também, a “notícia” da tão esperada, e prometida pelo Sec. Est. dos Transportes no Congresso da Murtosa, revisão do Código da Estrada. A promessa é que as alterações tenham finalmente em linha de conta e de acordo com o que é prática na UE, a bicicleta como veículo de transporte de pleno direito, a par dos demais veículos que circulam nas estradas.

O texto também informa, realçando o contraste entre circulação segura em automóvel versus circulação perigosa em bicicleta, que houve uma diminuição do número de acidentes envolvendo veículos motorizados. Ora se há uma efectiva redução do número de quatro rodas em circulação e o preço exorbitante que os combustíveis atingiram, faz finalmente com que muitos condutores levantem o pé do acelerador, circula-se as velocidades mais baixas, não tão excessivas (velocidade excessiva ≠ excesso de velocidade). De acordo com o que vem nos livros: menos velocidade + menos carros = menos acidentes…

No texto é referido, e bem, que não há estatísticas sobre a utilização da bicicleta. Eu acrescento, observando a crescente utilização da bicicleta em muitas cidades portuguesas, sobretudo desde há um par de anos, é bem provável que esse aumento seja muito superior a 21%. Embora a ocorrência de apenas um único acidente envolvendo um ciclista já seria de lamentar, podemos provavelmente considerar que o número de “acidentes” é até razoável, tendo em conta as condições de circulação em geral e as condições especificas para o uso da bicicleta em particular e, claro a conhecida (in)segurança rodoviária nacional.

E esta de que o Governo vai alterar o CE para aumentar a segurança dos utilizadores mais vulneráveis só pode ser sarcasmo! Há muitos anos que a FPCUB e outras entidades fazem pressão junto dos Governos e dos Partidos para as necessárias alterações ao CE. Foram já a votação na Assembleia da República vários Projecto Lei nesse sentido, tendo o PSD na oposição e mais recentemente já no poder, votado contra. Pelo que não nos venham agora com a conversa de que é por causa do aumento dos acidentes. Até porque estes senhores não sabem nada sobre a bicicleta nem sobre quem a usa!

Aliás, o governo não tem que anunciar alterações ao CE para proteger este ou aquele grupo de utilizadores das estradas. O CE TEM de ser um normativo de regras que visem a segurança de TODOS os utilizadores da estrada! Esta visão da bicicleta e de quem a usa alimenta a ideia de que os velocípedes necessitam dum tratamento de excepção. Que andar de bicicleta é perigoso. Realça o conflito latente entre automobilistas e ciclistas. Mais uma peça “jornalística” escrita com base numa acção de propaganda/promessa do Governo e da sua máquina de comunicação, sem ser questionada pelo jornalista de serviço a essência da informação.

Para que a “notícia” não ficasse completamente coxa, e porque é assim que estas coisas se fazem, foi preciso arranjar algum “facto” que justificasse o interesse numa promessa do executivo que, nas suas próprias palavras é apenas “uma alteração cirúrgica de diversas normas”. O “facto” normalmente vem no título: “Acidentes com bicicletas estão a aumentar”, et voilá! Tanto na RTP como no Expresso os jornalistas vestiram-se de patinhos e foram para o computador. Resultado: trabalhinhos muito fracos! A Joana Pereira Bastos, que assina a notícia do Expresso até pôs no topo, qual cereja podre, as obtusas e costumeiras barboseiras!

BICICLETA QUENTE EM TELHADO DE LATA

Posted in cycle to know with tags , , , , , , on 23 de Abril de 2012 by Humberto

Já fiz muitos quilómetros de carro com uma bicicleta agarrada ao tejadilho. Quando decidi desafiar a cidade invicta de bicicleta escolhi um modelo que não era opção para o consumidor que se limitasse a procurar dentro de fronteiras. Como já por aqui repeti, foi na Galiza, mais precisamente na Bici Total de Vigo que, depois de crescido, comprei a primeira bicicleta. Influenciado pelos sucessos de Lance Armstrong no Tour, escolhi um modelo híbrido da Trek, bicicleta que ainda hoje é a mais usada no meu commuting diário. Passado sensivelmente um ano e quando resolvi aventurar-me por trilhos mais selvagens, mantive-me fiel à loja e à marca optando por uma Fuel e, já de regresso à capital, mandei vir da Galiza um modelo feminino de montanha da marca de Waterloo.

Thule Tour 510

Ir do Porto a Vigo no início do século XXI por estradas ainda não portajadas já era coisa que compensava por várias razões. O marisco e o peixe, a movida e as tapas, o passeio e as gentes, o preço da gasolina e até o preço das bicicletas, tudo atractivos para aquele tempo e vai-não-vai, me meter no carro e cruzar a fronteira. Por duas vezes fiz o caminho de volta com mais um par de rodas. Se o primeiro ainda fez a viagem apertadinho na bagageira, o segundo já veio preso no tejadilho num suporte da Thule. Como as revisões são grátis para todas as bicicletas compradas na loja, foram várias as vezes em que, enquanto eu ia de copas, as meninas ficavam no salão a fazerem tratamentos de rejuvenescimento. Muito boas recordações e saudades dessas viagens guardo e do fantástico e muito profissional atendimento na loja galega.

Por causa da itinerância de então e por ter duas bicicletas que me eram inseparáveis, tive de comprar um segundo suporte. Já nessa altura eram caros, tão caros como uma bicicleta de supermercado! Com ambos os suportes podia transportar as duas bicicletas ou partilhar a viagem de carro com quem quisesse ir à procura de trilhos e aventuras montanhistas. Nunca transportei mais de duas bicicletas, embora já tenha visto carros com quatro e até cinco suportes no tejadilho. A resistência provocada pelas bicicletas no tejadilho aumenta significativamente o consumo e exerce sobre a estrutura do automóvel uma elevada tracção. Não é à toa que os fabricantes de suportes recomendam que se limite a velocidade quando se viaja utilizando esse tipo de equipamento. Se algum dia tiver que transportar mais que duas bicicletas -coisa que mais cedo ou mais tarde acabará por acontecer, mandarei montar uma gancho de reboque para poder usar um suporte próprio na traseira do carro. Se entretanto ainda houver carro!

Dois dos suportes estão mal montados

Quando se monta um segundo suporte no tejadilho, a fechadura dum deles terá acesso muito difícil visto ficar do lado de dentro, pelo que há que montar esse suporte apenas após inverter o braço basculante. Isto deve ser feito para facilitar o acesso a cada um dos suportes desde o respectivo lado do carro mas sobretudo por uma questão de segurança. O segmento que segura a bicicleta pelo quadro deverá sempre estar de modo a que a roda da frente da bicicleta esteja virada para a frente do carro. Desta forma a força exercida sobre a estrutura não contraria o sistema de retenção, não empurrando a bicicleta para fora do suporte. No caso de se instalar um terceiro suporte, o do meio poderá ficar com a fechadura virada para qualquer dos lado, desde que esteja apontado na direcção correcta. Basta ler atentamente o manual de instalação das bases para não cometer esse erro.

Mont Blanc Barracuda

Vejo todos os dias carros com suportes no tejadilho mal montados e não foram poucas a vezes que abordei condutores no sentido dos alertar para essa questão. Já me responderam que o facto de um ou mais suportes estarem ao revés tem que ver com o espaço disponível para arrumar tantas bicicletas. Noutros casos pura e simplesmente meteram mãos à obra sem olhar para o folheto de instruções ou foram “outros” quem montou os suportes. Escusado será dizer que os vendedores destes suportes também estão a pecar por omissão no acto da venda mas também sabemos o tipo de ajuda técnica que podemos esperar da maior parte das lojas. Quando se tem que transportar mais que duas bicicletas pode haver dificultar em desencontrar os guiadores. A solução mais fácil é realmente intercalar a direcção das bicicletas. Fácil mas pouco inteligente, visto que dessa forma não são respeitadas as regras de montagem e qualquer garantia do fabricante é assim anulada, além que põe em risco a cobertura do seguro em caso de (longe vá o agoiro!) acidente. Não são raros os relatos de situações envolvendo bicicletas voadoras com mais ou menos consequências mas sempre com um grande susto.

Thule OutRide 561

Para além dos modelos “normais”, existem suportes específicos para bicicletas mais pesadas como as de descida, de downhill, outros em que a bicicleta é fixada ao suporte directamente pelo forqueta, desmontando a roda da frente, recomendados para bicicletas de estrada, que pelo seu reduzido peso e fragilidade, ficam dessa maneira menos expostas à velocidade do automóvel. Há-os de vários fabricantes e para quase todas as bolsas. Qualquer que seja o suporte que escolha, é imprescindível que leia e respeite as indicações do manual de instalação! Como dizem os fabricantes, “em caso de dúvida deve contactar-se o fornecedor”. Por vezes, uma simples consulta online e o problema fica solucionado. Por causa das tosses, a verdade é que quando viajo nunca fico muito tempo atrás dum carro que transporte bicicletas no tejadilho, sobretudo se reparar que vão guiadores virados para trás.

Três suportes bem montados

Bem, a terminar este aviso à navegação e desafiando novamente a vontade dos caríssimos leitores para perderem o vosso precioso tempo a comentarem as minhas divagações, tenho ainda assim a ousadia de perguntar: usa o meritíssimo leitor suportes de tejadilho para bicicletas? No caso de se dar ao trabalho de responder e na eventualidade de ser de forma afirmativa, já reparou se os tem bem montados? E, correndo o risco de me tornar insuportavelmente maçador, só mais uma pergunta: costuma vossa senhoria rever apertos e ajustes antes de viajar? Muito obrigado pela participação neste mini-inquérito. Um bem haja! E boa viagem.

CICLISTAS MARGINAIS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 14 de Abril de 2012 by Humberto

Existem junto das entradas do passeio marítimo de Oeiras, na Marginal, uns sinais colocados pela Câmara Municipal condicionando, proibindo, a circulação em bicicleta. Sinais que são das coisas mais estúpidas que uma Câmara já fez! A de Oeiras achou que tinha de limitar o acesso a quem pense em ir de bicicleta para a faixa ribeirinha, por alegadas razões de segurança. Para evitar acidentes entre quem por lá caminhe e bicicletas, a CMO proibiu o acesso a velocípedes. Repito: é uma decisão estúpida sem qualquer sentido de justiça e perfeitamente irresponsável! A bicicleta é um veículo de passeio mas também é um veículo de transporte. Um cidadão pode usar a bicicleta para dar um passeio na zona ribeirinha de Oeiras e pode usar a bicicleta para se deslocar passando por essa mesma zona. Um munícipe pode chegar lá com a bicicleta em cima do carro, descarregar a bicla e dar por ali umas pedaladas ou pode ir até lá a pedalar desde casa. Uma pessoa pode ir sozinho ou levar os filhos de qualquer idade, a mãe, a avó, o vizinho ou quem quiser e ir pedalar junto ao rio.

Nos trajectos que um cidadão percorre no concelho de Oeiras quantos perigos enfrenta? Quantos atropelamentos ocorrem em Oeiras provocados ou sequer envolvendo bicicletas, por dia? Quantos cruzamentos, quantas ruas há no concelho de Oeiras sem passadeira? Quantas ruas há sem passeios? Quantos automóveis estão neste momento -em qualquer momento- estacionados em Oeiras de forma ilegal, pondo em risco a segurança dos utilizadores da via pública? Quantos automóveis são multados diariamente em Oeiras por velocidade excessiva ou mau estacionamento? Quanto gasta a CMO em arranjos de passeios devido aos danos causados pelo estacionamento abusivo? Quantos acidentes na via pública têm lugar em Oeiras por falhas de segurança?

Se a circulação de pessoas, porque é disso verdadeiramente que se trata, tem de ser limitada no passeio da Marginal em Oeiras, evocando questionáveis razões de segurança,  porquê só a quem quer circular de bicicleta? Então e quem escolher calçar um par de patins? Ou for de trotineta? Ou levar cães e ainda por cima com aquelas trelas extensíveis? E quem empurrar uma cadeira de rodas? E não serão os calções curtos de jogging um atentado à segurança cardíaca? Independentemente da perigosidade efectiva que são os eventuais danos causados numa criança pelo impacto com uma bicicleta circulando ainda que a muito baixa velocidade, será proibir a circulação em bicicleta a solução? E o que dizer do horário? De Abril a Outubro pode-se pedalar entre as 8 da noite e as 9 da manhã. Porquê? Porque não entre as 5 e as 7 da manhã e entre as 17:45 e as 22:17? Porque apeteceu ao empregado do Isaltino escrever aqueles algarismos e não outros quaisquer? E qual a razão para a exclusão permitir crianças até aos oito anos? Quer dizer que os pais das crianças constituem um perigo e os petizes não? Será que uma criança de oito anos não consegue pedalar depressa nem nunca poderá provocar um acidente?

No meu commuting cruzo-me com todo o tipo de ciclistas, desde o bike ninja ao licrafanático, a menina na bicicleta com cestinho e a velhinha pasteleira, o ranger da bicicleta de supermercado e a ligeireza da dobrável very english. Pessoas de colete reflector e capacete e outros de blazer e cycle cap. Uma coisa arrisco concluir: a atitude na “estrada” de quem pedala tem tudo que ver com o aspecto gráfico do conjunto homem-máquina e sugiro até um ditado, para constar num futuro dicionário, do tipo “diz-me como te vestes, dir-te-ei como pedalas”. Em paralelo, o aumento significativo de ciclistas urbanos a pedalarem em circuitos até há pouco exclusivamente utilizados por bêtetistas pouco convictos, faz com que os ciclistas mais desportistas se comecem a sentir assim a modos que deslocados. Realmente enfiar o corpito dentro duma fatiota plastificada e no mínimo de gosto duvidoso para ir pedalar para a Baixa é, direi curioso… Em Monsanto, no Jamor ou à volta da albufeira do Alqueva, ainda vá, mas na ciclovia do Tejo!?

Quero com isto dizer que não é preciso proibir -fosse isso possível! um determinado tipo de roupa para prevenir determinado tipo de comportamento. Sim, é de comportamento que estamos sempre a falar nos blogs sobre bicicletas, ou não é? Não é por proibir o excesso de velocidade na auto-estrada que o pessoal vai passar a poupar no combustível, ou é? Com sinalética própria, algumas marcações no pavimento e uns cartazes com umas dinamarquesas giras (porque não?), seria perfeitamente possível adaptar o trajecto, agora vedado aos ciclistas, à sã convivência de todos, de forma normal e civilizada. Se esse tivesse sido o caminho, teria a CMO dado prova efectiva de preocupação com a segurança dos seus munícipes e de todos os que visitam o passeio marítimo de Oeiras, independentemente da forma como se fazem delocar. Demonstraria bom senso no pensamento, inteligência no estudo e vanguarda na acção.

Uso quase diariamente o passeio de Oeiras, na medida em que tenho por principio utilizar as vias que me permitem circular com maior segurança. Adapto a minha velocidade de acordo com a via e com o trânsito, seja ele pedonal ou motorizado. Poder pedalar ao longo da água é não só um prazer individual pela paisagem que me acompanha mas também porque me cruzo com pessoas que partilham sentimentos semelhantes para com aquele espaço. A bicicleta é um veículo que, ao contrário do automóvel, promove a interacção e da integração. A Marginal é um lugar privilegiado da foz do Tejo. Percorrer toda a extensão desde Algés até Cascais ao longo do rio já mar, seja de carro, bicicleta ao a pé, permite desfrutar de boas vistas em lugares muito bonitos e agradáveis. É um caminho que se pode fazer a qualquer hora do dia ou da noite, em ambas as direcções e com qualquer tipo de tempo, sempre com prazer.

A atitude da CMO promove a associação entre insegurança e bicicleta. Faz com que alguns cidadãos -uma minoria, é verdade, que se cruzam comigo  me olhem de lado, com cara feia, como que dizendo “oh palhaço, não sabes que não podes andar aqui”. Esta proibição estúpida e injusta é mais uma prova que muitos autarcas, apesar de acções pontuais de relativo impacto mediático,  continuam ancorados numa arquitectura de pensamento contrária aos interesses da bicicleta. Proibir as pessoas de pedalar não resolve nada. As pessoas devem não só ser autorizadas a pedalar como devem ser incentivadas a pedalar. Pedalar aproxima-as umas das outras e do espaço que partilham. Torna-as mais parte do espaço comum. Pedalar torna-nos mais responsáveis para com o ambiente. Pedalar torna-nos melhor cidadãos. Perceber isto é meio caminho para não proibir ninguém de pedalar.

Não são umas ciclovias abandonadas e ineficientes ou meia dúzia de horas de Marginal sem carros que resolvem problemas estruturais e contribuem para uma melhor mobilidade no concelho de Oeiras. Todas as semanas aumentam as razões para experimentar ir para o trabalho de bicicleta na razão proporcional do aumento dos combustíveis e multiplicadas pelo preço-dos-transportes. A bicicleta está aí para ficar e proibir é não estar a ver um boi à frente do nariz! Será o caro leitor um commuter em Oeiras ou na Linha de Cascais? Utiliza o prezado leitor o passeio marítimo apesar da proibição? O que acha que podemos fazer para corrigir a situação?

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