Arquivo de trek

BICICLETA QUENTE EM TELHADO DE LATA

Posted in cycle to know with tags , , , , , , on 23 de Abril de 2012 by Humberto

Já fiz muitos quilómetros de carro com uma bicicleta agarrada ao tejadilho. Quando decidi desafiar a cidade invicta de bicicleta escolhi um modelo que não era opção para o consumidor que se limitasse a procurar dentro de fronteiras. Como já por aqui repeti, foi na Galiza, mais precisamente na Bici Total de Vigo que, depois de crescido, comprei a primeira bicicleta. Influenciado pelos sucessos de Lance Armstrong no Tour, escolhi um modelo híbrido da Trek, bicicleta que ainda hoje é a mais usada no meu commuting diário. Passado sensivelmente um ano e quando resolvi aventurar-me por trilhos mais selvagens, mantive-me fiel à loja e à marca optando por uma Fuel e, já de regresso à capital, mandei vir da Galiza um modelo feminino de montanha da marca de Waterloo.

Thule Tour 510

Ir do Porto a Vigo no início do século XXI por estradas ainda não portajadas já era coisa que compensava por várias razões. O marisco e o peixe, a movida e as tapas, o passeio e as gentes, o preço da gasolina e até o preço das bicicletas, tudo atractivos para aquele tempo e vai-não-vai, me meter no carro e cruzar a fronteira. Por duas vezes fiz o caminho de volta com mais um par de rodas. Se o primeiro ainda fez a viagem apertadinho na bagageira, o segundo já veio preso no tejadilho num suporte da Thule. Como as revisões são grátis para todas as bicicletas compradas na loja, foram várias as vezes em que, enquanto eu ia de copas, as meninas ficavam no salão a fazerem tratamentos de rejuvenescimento. Muito boas recordações e saudades dessas viagens guardo e do fantástico e muito profissional atendimento na loja galega.

Por causa da itinerância de então e por ter duas bicicletas que me eram inseparáveis, tive de comprar um segundo suporte. Já nessa altura eram caros, tão caros como uma bicicleta de supermercado! Com ambos os suportes podia transportar as duas bicicletas ou partilhar a viagem de carro com quem quisesse ir à procura de trilhos e aventuras montanhistas. Nunca transportei mais de duas bicicletas, embora já tenha visto carros com quatro e até cinco suportes no tejadilho. A resistência provocada pelas bicicletas no tejadilho aumenta significativamente o consumo e exerce sobre a estrutura do automóvel uma elevada tracção. Não é à toa que os fabricantes de suportes recomendam que se limite a velocidade quando se viaja utilizando esse tipo de equipamento. Se algum dia tiver que transportar mais que duas bicicletas -coisa que mais cedo ou mais tarde acabará por acontecer, mandarei montar uma gancho de reboque para poder usar um suporte próprio na traseira do carro. Se entretanto ainda houver carro!

Dois dos suportes estão mal montados

Quando se monta um segundo suporte no tejadilho, a fechadura dum deles terá acesso muito difícil visto ficar do lado de dentro, pelo que há que montar esse suporte apenas após inverter o braço basculante. Isto deve ser feito para facilitar o acesso a cada um dos suportes desde o respectivo lado do carro mas sobretudo por uma questão de segurança. O segmento que segura a bicicleta pelo quadro deverá sempre estar de modo a que a roda da frente da bicicleta esteja virada para a frente do carro. Desta forma a força exercida sobre a estrutura não contraria o sistema de retenção, não empurrando a bicicleta para fora do suporte. No caso de se instalar um terceiro suporte, o do meio poderá ficar com a fechadura virada para qualquer dos lado, desde que esteja apontado na direcção correcta. Basta ler atentamente o manual de instalação das bases para não cometer esse erro.

Mont Blanc Barracuda

Vejo todos os dias carros com suportes no tejadilho mal montados e não foram poucas a vezes que abordei condutores no sentido dos alertar para essa questão. Já me responderam que o facto de um ou mais suportes estarem ao revés tem que ver com o espaço disponível para arrumar tantas bicicletas. Noutros casos pura e simplesmente meteram mãos à obra sem olhar para o folheto de instruções ou foram “outros” quem montou os suportes. Escusado será dizer que os vendedores destes suportes também estão a pecar por omissão no acto da venda mas também sabemos o tipo de ajuda técnica que podemos esperar da maior parte das lojas. Quando se tem que transportar mais que duas bicicletas pode haver dificultar em desencontrar os guiadores. A solução mais fácil é realmente intercalar a direcção das bicicletas. Fácil mas pouco inteligente, visto que dessa forma não são respeitadas as regras de montagem e qualquer garantia do fabricante é assim anulada, além que põe em risco a cobertura do seguro em caso de (longe vá o agoiro!) acidente. Não são raros os relatos de situações envolvendo bicicletas voadoras com mais ou menos consequências mas sempre com um grande susto.

Thule OutRide 561

Para além dos modelos “normais”, existem suportes específicos para bicicletas mais pesadas como as de descida, de downhill, outros em que a bicicleta é fixada ao suporte directamente pelo forqueta, desmontando a roda da frente, recomendados para bicicletas de estrada, que pelo seu reduzido peso e fragilidade, ficam dessa maneira menos expostas à velocidade do automóvel. Há-os de vários fabricantes e para quase todas as bolsas. Qualquer que seja o suporte que escolha, é imprescindível que leia e respeite as indicações do manual de instalação! Como dizem os fabricantes, “em caso de dúvida deve contactar-se o fornecedor”. Por vezes, uma simples consulta online e o problema fica solucionado. Por causa das tosses, a verdade é que quando viajo nunca fico muito tempo atrás dum carro que transporte bicicletas no tejadilho, sobretudo se reparar que vão guiadores virados para trás.

Três suportes bem montados

Bem, a terminar este aviso à navegação e desafiando novamente a vontade dos caríssimos leitores para perderem o vosso precioso tempo a comentarem as minhas divagações, tenho ainda assim a ousadia de perguntar: usa o meritíssimo leitor suportes de tejadilho para bicicletas? No caso de se dar ao trabalho de responder e na eventualidade de ser de forma afirmativa, já reparou se os tem bem montados? E, correndo o risco de me tornar insuportavelmente maçador, só mais uma pergunta: costuma vossa senhoria rever apertos e ajustes antes de viajar? Muito obrigado pela participação neste mini-inquérito. Um bem haja! E boa viagem.

VAI DE CONTA-VOLTINHAS?

Posted in cycle to know with tags , , , , , , , , , , , on 2 de Outubro de 2011 by Humberto

O primeiro acessório que comprei para a Trek foi um ciclo-computador! Longe ainda vinham os tempos em que troquei o automóvel pelos pedais mas entretanto passei a saber sempre a quantos ia Boavista abaixo e se a volta pelo Parque da Cidade Invicta tinha sido maior que no dia anterior. Sabia exactamente a média horária e esperava bater a máxima sempre que tinha pela frente uma descida mais apelativa. Tudo funcionava a pedais excepto aquela caixinha que consumia uma pilha por ano, mas valia a pena, pois até me avisava para ir ao mecânico ver os óleos! Não havia bicicleta que não merecesse uma coisa daquela e a minha não seria excepção.

Com a chegada da montada todo-o-terreno só tive de instalar um novo sensor na suspensão dianteira e um suporte de guiador porque o “conta-voltinhas” aceitava dois tamanhos de roda. Em pouco tempo já eram mais as vezes em que me esquecia de o mudar de bicicleta. De regresso a Lisboa e a mudança de hábitos, chegou a primeira dobrável e houve que a equipar também com o respectivo computador de bordo. Desta vez e de forma a não estender mais cabos na Dahon, optei por um conjunto sem fios o que significou duas pilhas, uma no receptor e outra no emissor. Esta última de longa duração mas mais cara quando foi preciso substituir.

Quando me tornei um commuter em bicicleta, e já lá vão mais de seis anos, a curiosidade alheia traduzia-se em perguntas diárias, muitas delas respondidas com recurso aos dados mostrados no pequeno ecrã. Quantos quilómetros fazia, a que velocidade, em quanto tempo e eu, admito até um pouco orgulhoso, lá ia carregando nos botãozinhos e fazendo aparecer os valores que, se para uns seriam modestos, para a maioria estavam acima da pedalada. A verdade é que sem um destes aparelhómetros não saberia quantos quilómetros fazia por mês, quanto da viagem era a pedalar e quanto de comboio. Pude até comparar a velocidade média em duas e em quatro rodas.

Entretanto foram já vários os conta quilómetros que me passaram pelas bicicletas. Uns mais simples e outros com funções que nunca cheguei a utilizar, até porque a maioria dos computadores para bicicleta estão pensados com o ciclista-desportista em mente. São realmente fundamentais para um atleta monitorizar a evolução do treino através do controlo da cadência de pedalada, do batimento cardíaco, da energia produzida. Tudo através da medição da ponderação de vários valores por estes pequenos computadores. Os mais avançados permitem trabalhar a informação referente a todos os atletas duma equipa de ciclismo por meio duma aplicação informática dedicada. Nos equipamentos mais caros é até possível juntar todas estas funções ao registo GPS e obter uma análise total do desempenho em determinado percurso.

À media que a bicicleta vai ganhando terreno na cidade aparecem mais produtos desenvolvidos especificamente para o ciclista urbano. Quase todas as marcas mantêm uns quantos modelos de funções básicas como seja a distância percorrida total e parcial, velocidades máxima, média e no momento (VDO X1, Sigma BC509). Estes são normalmente mais baratos o que relativiza o prejuízo em caso de roubo ou perca. Há os mais específicos para commuting com ecrã iluminado para poderem ser utilizados à noite e existem até com cálculo do CO2 não produzido (Cateye Commuter). Existem modelos disponíveis em cores pouco ortodoxas (Knog N.E.R.D.) mas não menos atractivas(?).

Da última vez que o meu computador de bordo ficou sem bateria, acabou esquecido no fundo do alforge. É o que há mais tempo me acompanha e marcava já algarismos nas casas dos milhares. O totalizador era basicamente a única função que consultava a par do relógio. Com o tempo deixei de valorizar a sua utilidade. Com a rotina das deslocações já sabia os valores de cor e as médias mantêm-se inalteradas há muito. Quando concluí o projecto Raleigh ainda andei a ver na net um computador merecedor de ser instalado no seu guiador mas ainda não encontrei um que lhe faça jus à personalidade, embora esta bicicleta seja a que mais partido tiraria dum conta quilómetros já que é a mais errante de todas.

Um ciclista na cidade precisa de todos os sentidos bem acordados para lidar em segurança com os obstáculos. Se é engraçado ter a leitura imediata da velocidade a que passamos pelo meio dos engarrafamentos automóveis, não será menos certo que à mínima desatenção oferecemos um retrovisor novo a um desconhecido. Mesmo nos trajectos diários, há sempre boas razões para tirar partido da paisagem e não será ciclo+computador apenas um corta-barato?

Este texto foi muito tempo um dos inacabados rascunhos que guardo mas ao ler isto inspirei-me, mesmo arriscando ser acusado de plagiar, mais não seja o timming da publicação. Será que os ciclo-computadores fazem algum sentido para quem anda de bicicleta no dia-a-dia ou serão apenas instrumentos de apoio ao treino dos atletas? E o caro leitor usa ciclo-computador? E qual a importância que lhe dá?

BORRACHINHA FURADA

Posted in cycle to know with tags , , , , , , , , , , on 10 de Julho de 2011 by Humberto

Um furo no pneu é seguramente um dos azares mais tremidos por quem sai por aí a pedalar. Não é prático transportarmos uma roda sobressalente com um pneu montado para o caso de alguma eventualidade desagradável ocorrer mas se uma roda não cabe no alforge, alguns pequenos artigos podem de lá sair caso a tal eventualidade surja pontiaguda no caminho. Um ciclista que comute regularmente sabe que a melhor maneira de evitar um furo é a prevenção. E como é que se previne um furo? Olhando à volta quase que me apetece dizer que a maioria dos ciclistas escolhe à partida bicicletas de montanha, equipadas com pneus grossos e cardados, com perfis capazes de enfrentar o mais agreste tapete faquir e ficar a rir das cócegas, pelo que a prevenção de furos está, aparentemente, no topo das prioridades. Se é verdade que os pneus de btt são mais resistentes que os outros, também é verdade que a resistência ao rolamento é uma grande desvantagem.

Com o aumento das bicicletas de cidade e outras mais versáteis, são também mais frequentes os pneus finos, oferecendo melhor rendimento e conforto. Contrariamente ao que possa parecer, uma faixa de rolamento lisa pode ser mais segura que um perfil com relevo. Por exemplo, pequenas pedras de gravilha, ao ficarem retidas entre as ranhuras do perfil, podem originar um furo muito tempo depois. Prevenir os furos passa inicialmente por escolher pneus reforçados na zona de contacto. Manter os pneumáticos com a pressão recomendada e usar uma câmara de ar indicada para a medida do pneu, bem instalada de forma a evitar vincos que possam originar rasgos mesmo a rolar em pisos seguros, é igualmente importante. Claro que evitar pavimentos com muitas arestas, como a calçada portuguesa ou zonas onde o álcool da noite anterior se transformou em cacos de vidro, ajuda e muito, à -parafraseando Paulo Bento- tranquilidade.

Nestas coisas de prevenção não há seguro que valha e que eles acontecem, lá isso acontecem, pelo que não fica mal a nenhum ciclista, por muito ocasional que seja, saber que reparar um furo on the road não é nenhum berbicacho desde que, claro está, disponha de ferramentas e não tenha problemas em sujar as mãos. Nos meus tempos de cidadão da invicta cidade, não poucas vezes, ao rolar pelo macadame do nobre Parque da Cidade fui traído pela resistência da borracha tailandesa. Se numa primeira vez subi a avenida da Boavista com a Trek pela mão, das outras desmontei, remendei e montei o pneu sob o olhar curioso dos passeantes portuenses. Soubessem que o desafortunado ciclista era mouro e outro olhar faiscaria…

A bicicleta é um meio de transporte que convida à evasão, à contemplação, à calma, à aventura. Quando o furo acontece é bom que nos lembremos disto! Vamo-nos atrasar, teremos que analisar o problema serenamente e preparar-mo-nos para a tarefa. O processo é simples: Tirar a roda do quadro; procurar no pneu a razão do furo, desmontar o dito cujo e a câmara de ar; caso não seja ainda visível o furo, vistoriar a câmara; colar o remendo; remontar o conjunto e repor a roda no lugar. Se tudo correr bem poderá não demorar mais que trinta minutos, a maior parte deles à espera que a cola seque. Conhecer as lojas de bicicleta que ficam nas imediações dos nossos trajetos habituais pode também servir de ajuda. Mas então o que convém ter dentro do alforge?

  • um conjunto de desmontas
  • uma câmara de ar
  • um kit de remendos
  • uma bomba
  • um conjunto de ferramentas
  • toalhetes

Einstein's Patch Kit

Park Tool Pre-Glued Patches

Continental Tour 28 Slim

Wrench Force & SKS

Chave de luneta 8 & Kit Ferramentas Scott

Ferramenta Multi-funções Leatherman Wave

Muita coisa? Depende da perícia. Esmiucemos então as bugigangas. Um par de desmontas em plástico duro ou metal pesa pouco e não ocupa espaço. A câmara de ar é para o caso do furo ser irreparável na estrada para além de permitir não perder tempo com os remendos. É muito prática se o azar chegar com jackpot, isto é, com chuva ou à noite. Os remendos podem ser de dois tipos. Os clássicos que envolvem um tubo de cola e um pequeno pedaço de borracha e os mais recentes remendos autocolantes. No dia a dia confio nos segundos mas para os passeios não dispenso o método ortodoxo. Bombas há muitas, embora também se possam dividir em dois tipos: as de dar ao braço e as de garrafinha de ar comprimido. Por ser mais rápida e prática mantenho sempre à mão a de recarga, mas prefiro sem dúvida a outra até porque tem um fiável  manómetro. O conjunto de ferramentas pode ser dedicado a estas coisas das duas rodas a pedais ou uma coisa mais elaborada. Preciso esmiuçar os toalhetes? Bem me parecia…

Então e a tal perícia? A relação que se estabelece entre nós e a bicicleta assumirá tantas formas como binómios houver. Embora possamos encarar a máquina como um simples e utilitário objeto, a bicicleta retribuirá todo o carinho e atenção que lhe dedicarmos. Trocar um pneu pode não ser pêra doce mas é seguramente uma bonita prova de dedicação. E quem não tem uma história de furo para contar? Você aí. Sim, o caro leitor -ou leitora que este blog é contra a discriminação por género- já remendou um furo? E quer partilhar essa experiência? Que tal essa perícia?

EU NÃO VOU AO DOLCE VITA TEJO

Posted in cycle of live with tags , , , , , , , on 10 de Maio de 2011 by Humberto

foto de LINK2GREENWAY

Vi este poster pela primeira vez na estação de Carcavelos, numa solarenga manhã de fim de semana, enquanto esperava pelo comboio que me havia de levar até Algés. A bicicleta de todos os dia, apoiada no descanso, ao notar o meu olhar fixo, atentou também no alvo da minha incredulidade. Pareceu-me que para tentar animar-me, lembrou-me que naquele espaço gigantesco ao menos existe uma não menos gigantesca loja de bicicletas, como que a dizer-me que compreenderia acaso eu lá quisesse ir, mesmo sabendo ela que são bicicletas doutro pedigree.

Absorto nas letras e números, quais coordenadas GPS, que nos indicam o caminho, levei algum tempo a perceber que o meu ar de náusea não tinha passado despercebido à minha fiel companheira, mas logo tratei de a confortar. Nunca lá irei! disse-lhe e acrescentei, Nada existe naquele lugar que me faça falta. Tudo o que ali está representado é a pura negação daquilo em que acredito, da razão que me leva a procurar viver da maneira que vivo.

Neste efémero cartaz publicitário também está o comércio de rua bem como todos os temas académicos sobre modelos de desenvolvimento urbano e social. Mas o que me chamou a atenção foram as indicações viárias para chegar a um lugar chamado doce vida que fica num buraco longe do rio que lhe dá o nome e em que nem há baleias! Toda a simbologia da coisa é incongruente. E aquilo foi tudo feito por gente inteligente, paga por gente rica, a mesma gente que anda a vender um futuro a um povo que tem a cabeça enterrada na areia. Areia do deserto em que isto se tornará se não dermos o salto para longe desta linha!

O comboio apagou da minha vista este borrão sujo e deprimente, levou-me ao destino de onde segui pedalando ao ritmo da verdadeira vida, doce como o rio que aos poucos vê regressar os saltos dos corvineiros brincalhões. Parei numa esplanada e pedi uma bica em chávena fria. A Trek sorria feliz.

DE BICICLETA ATÉ AO FUTURO

Posted in cycle of live with tags , , , , , , , , on 7 de Abril de 2011 by Humberto

A bicicleta entrou na minha vida no dia em que o meu pai me levou para onde é hoje o Parque das Nações e me deixou em cima duma Vilar vermelha, a minha primeira dobrável, num estradão alcatroado, bem perto dum enorme cemitério de material de guerra usado no ultramar. Nessa estrada com cheiro a rio e a lodo tive a minha primeira batalha com as duas rodas e a força de gravidade. Uma rodinha montada do lado direito ajudou-me a manter o equilíbrio nas primeiras pedaladas, lançado por uma voz de incentivo e dum momento para o outro a mão que segurava o selim já lá não estava e um magnifico mundo estendia-se à minha frente.

Depressa a Vilar rumou ao sul para a casa dos avós onde ficou até hoje a chorar saudades de tanto e de tantos. O corpo cresceu-me e ganhou uma Esmaltina, verde com mudanças e guiador de corrida, comprada no Areeiro. Foi o tempo das corridas à volta do quarteirão e das primeiras quedas a sério mas foi a Esmaltina que me permitiu alargar os horizontes tantas vezes bem para além do salvo conduto familiar. Passados esses gloriosos tempos da meninice e durante demasiado tempo a bicicleta foi posta de lado. Demasiado tempo!

Até que resolvi trocar a cidade capital pelo Porto. Eram os tempos dourados da internet e do ecrã do computador saía muito e saíam também bicicletas. Lance Armstrong vestia camisolas amarelas como quem abre garrafas de champanhe e por todo o lado começaram a surgir bicicletas de montanha. Numa viagem de visita a Lisboa fui convencido por um compincha de outra pedaladas a dar uma volta de ginga. Foi depois desse regresso ao pedal que decidi comprar uma bicicleta já que a velhinha Esmaltina tinha ficado pequena, mas recusava-me a comprar uma BTT. Não queria os pneus largos nem aquele ar de jipe porque simplesmente não iria andar no monte. Queria uma híbrida que procurei, procurei e não encontrei. Na verdade existiam umas lojas que vendiam umas marcas que as tinham em catálogo mas… teria de encomendar sem testar, sem ver, pagando logo um sinal. A sorte é que do Porto a Vigo é um saltinho!

Se já sabia que na Galiza havia bom peixe e melhor marisco, fiquei também a conhecer boas lojas de bicicletas com modelos em exposição que não eram vendidos por cá. E com a diferença do IVA e o mercado e as diferenças do costume, o preço lá era mais baixo, certa sexta-feira cruzei o Minho de regresso a casa com a barriga cheia de percebes e uma bicicleta desmontada na bagageira. Com algumas alterações e acrescentos, esta ainda é a minha bicicleta do dia-a-dia. A essa loja fui entretanto buscar uma de montanha quando as suspensões totais ficaram acessíveis e a vontade de desbravar caminhos pediu uma atitude mais radical.

O regresso ao sul fixou-me residência na linha de Cascais e depressa as agruras da vida motorizada pela Marginal deixavam-me os nervos em franja. A decisão de tirar a versátil Trek da arrecadação e tentar o percurso até Carnaxide foi natural. Apesar do esforço necessário para vencer a subida por Miraflores me ter feito duvidar da minha própria sanidade mental a teimosia foi maior. Nessa altura as bicicletas pagavam bilhete no comboio aos dias de semana, o que encarecia e muito o preço das viagens. Mas como o que importa não são os problemas mas as soluções que lhes damos, decidi comprar a primeira dobrável, que como era considerada bagagem pela CP, não me custava bilhete a ainda tinha a vantagem de me permitir conjugar melhor a mobilidade familiar.

Quando a CP deixou de cobrar bilhete de bicicleta, criou um esquema de horário para o livre transporte de velocípedes a bordo mas que não me afectava porque a Dahon continuava a ter livre acesso a qualquer hora, desde que fosse dobradinha e sossegada ao meu lado. Hoje que acabaram as limitações nos comboios da linha de Cascais e porque se tornaram mais frequentes as viagens sem recurso ao caminho de ferro, a Trek voltou à liça e até ganhou recentemente um dínamo lateral para deixar de usar pilhas, mesmo das recarregáveis.

Claro que ao longo de todos estes anos, de toda esta vida, a minha relação com a bicicleta evoluiu bem mais que a simples empatia material com a dita coisa. As formas com que olhei e olho hoje para as bicicletas foram-se alterando e a importância que atribuo à mobilidade e aos problemas associados com a sustentabilidade de meu estilo de vida é hoje infinitamente maior do que quando esta aventura começou à beira Tejo. Neste texto cabe a lycra e os pedais de encaixe, cabem as suspensões auto-bloqueantes e os travões de titânio, as intermináveis polémicas e seus equívocos sobre o uso do capacete.

Cada um pedala a sua bicicleta e a forma como a pedala deveria ser indiferente para os demais. De fatreino, de pijama, fraque ou nu (cruz credo!) o importante é que cada um considere que pode incluir a bicicleta nos planos de transportabilidade pessoal. Um dia a bicicleta vai ser equiparada a qualquer outro veículo independentemente do combustível que use. Quem sabe um dia existirão pastagens comunais para que os nosso burricos, mulas e puros-sangue de transporte se alimentem? Aconteceu há bem pouco tempo em Cuba aquando do período especial, no início da década de noventa do século passado.

Um dia a bicicleta vai atingir por cá o mesmo estatuto de que já hoje em dia goza por outras paragens e nesse dia nós, os que já a guardamos no armário da paixões, vamos ser olhados como os pioneiros desta nova alvorada ciclopédica. Um dia os chiques e os outros serão apenas modas. E tudo isto vai acontecendo na cadência da pedalada descomprometida e feliz de quem olha para a vida por cima do horizonte do guiador da bicicleta.

DIA DE MERCADO EM CARCAVELOS

Posted in cycle of live with tags , , , , , on 30 de Setembro de 2010 by Humberto

OLHAR PARA CÁ DAS MONTRAS

Posted in cycle of sighns with tags , , on 25 de Agosto de 2009 by Humberto

Imagine que em todas as lojas de automóveis que conhece, mais não seja de vista, sempre que olha para a montra ou entra na sala de exposição, os carros que lá estão expostos são só veículos todo-o-terreno. Imagine que sempre que vai a uma loja de roupa apenas encontra exposta roupa para actividades ao ar livre. Imagine que quando vai ao super-mercado nada mais há nas prateleiras que comida pronta a comer.

Com as lojas que vendem bicicletas passa-se algo parecido com a ideia absurda que pedi para imaginar. Salvo raras excepções, as lojas que vivem de nos vender bicicletas e produtos associados, só nos propõem que compremos bicicletas desenhadas, feitas e montadas para nos ajudar a explorar as entranhas de montes e vales ou que rivalizem com a máquina do Sérgio Paulino. Na melhor da sortes, existe lá no meio uns quantos, poucos, exemplares de velocípedes mais próprios às ruas das nossas cidades, mas na maioria das lojas são excepções que só confirmam a regra.

A bicicleta de montanha teve o seu ponto alto na transição do milénio. Uns anos antes o mercado nacional, até então dominado por marcas nacionais e uma oferta pobre em termos de tecnologia e qualidade quer de modelos de estrada, quer das velhinhas “pasteleiras”, foi revolucionado pela importação. Aos poucos cresceu o domínio de três ou quatro marcas de origem transatlântica, que chegaram a Portugal pelas mãos de agentes locais. Algumas destas empresas mostraram mais pedalada que outras e o sucesso das suas marcas está ai como prova. As bicicletas fora de estrada ganharam terreno e impuseram-se na paisagem ao ponto serem a maioria das bicicletas que se viam “dentro de estrada”.

Nos últimos três anos houve um aumento exponencial de bicicletas na cidade. Algumas btt passaram a sair à rua para lá dos fim-de-semana e dos passeios mais ou menos desportivos e alguns candidatos a ciclistas começaram a procurar nas lojas modelos mais versáteis. Poucas lojas arriscaram apostar nesses modelos, sendo a Decathlon um exemplo com os seus modelos híbridos, tendo dessa forma alargado os horizontes de quem se propunha comprar uma bicicleta, mas não queria levar para casa um jeep! A verdade é que tudo isto foi acontecendo muito a medo e a oferta foi sempre menos que pouca. Poucos vendedores encomendaram modelos híbridas ou marcas novas com ofertas direccionadas para pavimentos citadinos, mas mesmo nesses espaços, as montras continuaram a apelar aos instintos off-road.

O sector de negócios mais beneficiado com o aumento do uso das duas rodas a pedal, será seguramente, para além da venda das ditas cujas, as lojas de vendem de acessórios. Não é preciso ser engenheiro para perceber que por muita tralha que se consiga impingir a alguém cujo desejo é ter a bicicleta mais leve lá da rua, a parafernália disponível para bicicletas de cidade é muito superior. É, mas não se encontra em lado nenhum! Quer dizer, encontrar encontra-se, na rede, nas lojas on-line espalhadas por esta Europa unificada, mas aquele gostinho de entrar numa loja, tocar, experimentar e comprar é ainda um luxo raro quando se procura até uma simples câmara de ar.

Bem, mas para vender os acessórios, é preciso que o cliente tenha onde os montar. Ou seja, é preciso que o cliente tenha uma bicicleta, e para isso que as lojas lhe vendam uma. Só que as lojas parece que não querem. Pelo menos agem como quem não quer. A maior parte pensa que o cliente é alguém que deve ficar extremamente agradecido por se lhe dignarem a vender algo, e esse algo é sempre o que o cliente verdadeiramente necessita, seja lá o que o cliente vier à procura, o vendedor é que sabe o que é bom para ele. “Mas para que é que quer essa câmara de ar? Tenho aqui esta que é outra referência, mas que também dá!” ou nunca ouviram nada disto da boca de algum vendedor?

A verdade é que a maioria das lojas não fazem grande esforço para promover novos produtos para além das bicicletas de montanha. Refiro-me às bicicletas “roda 28” de cidade, com pneus mais estreitos, guiador mais direito, posição de pedalar mais confortável, guarda-lamas, luzes, grade para alforges, sistemas de transmissão de baixa manutenção, etc. Se se listar os acessórios então nem chega a paciência… Fora de Portugal a maioria das lojas de bicicleta são especializadas em modelos vocacionados para o transporte. Claro que também há lojas especializadas na vertente desportiva, mas há seguramente uma diferenciação positiva que só favorece o cliente.

Como diz a canção, isto anda tudo ligado. No primeiro ano da introdução em Paris da Velib’, as receitas das lojas de bicicletas da capital francesa aumentaram  setenta por cento. Por cá, quem usa a bicicleta como meio de transporte queixa-se da falta de investimento público na criação de condições de mobilidade, por outro lado, os agentes económicos enquanto parte interessada, não se mostram minimamente activos na defesa dos seus próprios interesses. Promovam mais a bicicleta enquanto meio de transporte, sejam mais agressivos na introdução de modelos utilitários, tornem-se mais visíveis nas campanhas de divulgação da bicicleta e só terão a ganhar. Teremos todos a ganhar. Todos mesmos, incluindo os que não andam de bicicleta. Porque uma cidade com mais bicicletas, é uma cidade melhor. Ponto!

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