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GREVE DE BICICLETA? SEMPRE!

Posted in cycle to work with tags , , , on 23 de Novembro de 2010 by Humberto

A história da bicicleta é também a história da industrialização e da proletarização. Ao mesmo tempo que o engenho inventivo foi convertendo o Dandy Horse no que viria a ser a Safety Bicycle, através da incorporação de dezenas de novidades tecnológicas, a bicicleta foi revolucionária também na mobilidade que possibilitou aos trabalhadores.

As novas indústrias poderiam instalar-se mais perto das fontes de energia e onde estavam as matérias primas, porque os operários dispunham finalmente dum meio de transporte que lhes possibilitava deslocarem-se diariamente para a fábrica. Era um tempo em que qualquer nova actividade industrial requeria abundante mão de obra e muita especialização, o que contrastava com a enorme dispersão pelo território e com a absoluta iliteracia das classes mais baixas, agricultores na maioria e pequenos artesãos.

Um destes dias de fim de Verão e ao passar por Canal Caveira, ali uns poucos quilómetros a sul de Grândola pela estrada nacional 120, meu pai contou-me dos quilómetros que palmilhara em miúdo pelo meio do montado, para  levar a bucha a meu avô que então trabalhava na construção dessa mesmo estrada e por lá pernoitava. Foi outra a estrada que ele e muitos mais construíram pois que dessa primeira restam apenas vestígios abandonados duma ou doutra curva. Houvesse já nesse tempo uma bicicleta na família e muita sola (se de sola se tratava) se teria poupado.

Mais a sul, onde existe uma casa que já foi de fado, chegam mãos de muitos lugares da Europa, mãos que agora têm a liberdade de ser pobres em qualquer lugar do mundo e escolhem o nosso Alentejo para vir colher alfaces e morangos que nascem já com sotaque inglês. Não terá sido seguramente o doce do fruto vermelho ou a frescura das hortas que clamou longe mas a verdade é que chegaram  jovens tailandeses para trabalhar nas estufas e por cada um destes improváveis agricultores alentejanos há uma bicicleta. Quando se deslocam para o trabalho ou vão à venda comprar a bucha não são peões, são ciclistas.

A bicicleta é não só um produto do desenvolvimento humano como é uma ferramenta para esse mesmo desenvolvimento. Hoje vivemos numa sociedade que volta a olhar, mesmo que seja de soslaio, para a bicicleta como chave para a solução de parte do problema da mobilidade. Uma sociedade construída também por operários que, do selim duma bicicleta ou construindo-as, produzem riqueza como nunca, ao mesmo tempo que vêm essa riqueza ser cada vez mais injustamente repartida. Uma sociedade que  permite a acumulação de mais valias recorde por parte dos senhores do capital. Uma sociedade dominada pelo poder financeiro, enfeudada na maximização do lucro e condenando à precarização todos os que do seu trabalho vivem. Uma sociedade onde quem pedala tem cada vez menos direitos.

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