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BROCHURA INSEGURA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 12 de Maio de 2013 by Humberto

Se há frases completamente esbatidas, a “que uma imagem vale mais que mil palavras” é uma. Mas é também uma frase com um certo grau de, digamos, imprecisão. Uma imagem pode necessitar de mais de mil palavras para ser descrita ou ser até impossível de traduzir por adjectivos e subjectivos e preposições. Uma imagem é sempre uma mensagem e a mensagem é palavras. Comunicamos por imagens e palavras, associando sempre umas às outras. Reflectimos enclausurando imagens em palavras e socializamos a escolher as palavras que melhor transmitem as imagens pretendidas.

A escolha das imagens que usamos como mensagem é um acto voluntário e consciente e essa escolha é a construção da imagem que queremos de nós. Nós somos a mensagem porque somos comunicação. Uma imagem serve de ilustração ao texto da mesma forma que pode o texto ser completado pela imagem. A coerência de cada um é uma linha viável que une o discurso -pensamento, valores, ideais- e a acção -a parte visível de cada um aos demais.

O Ministério da Administração Interna através da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana, a FPCUB e a SportZone, protocolizaram (grande palavrão) a campanha de segurança rodoviária que deu um cartaz, uns autocolantes e até um filme simpático. Chama-se tudo “Duas ou Quatro Rodas, Há Espaço Para Todas”. É uma iniciativa importante já que marca o reconhecimento tácito pelo Governo da relevância que a bicicleta ganhou enquanto veículo de transporte. Esta campanha é um muito bom exemplo duma série de mensagens que remetem constantemente para imagens.

cartaz_campanha_2_4_rodasAs campanhas do tipo “partilhe a estrada” são sempre úteis para quem tenta dia-a-dia ganhar algum espaço, num meio tão desfavorável como são as estradas vistas e sentidas do selim. Recordar que a estrada é de todos e que um ciclista é tantas vezes um automóvel a menos no engarrafamento e a roubar o precioso estacionamento, lembrar que a bicicleta é um veículo perfeitamente viável em grande parte das deslocações urbanas, além de ser uma excelente forma de fazer exercício, são ideias muito positivas e especialmente bem vindas olhando às necessidades particulares e colectivas dos tempos actuais.

Embora ressaltem algumas imprecisões objectivas na brochura, como por exemplo afirmar que os automobilista e os ciclistas partilham os “mesmos direitos e deveres” ou argumentar que numa rotunda o ciclista se deve comportar “como qualquer outro veículo”, a campanha tem mérito também pela oportunidade de re-centrar a discussão na necessidade de adoptarmos todos, independentemente da quantidade de pares de rodas que usamos, comportamentos mais tolerantes e seguros. Claro que conseguir a disponibilidade do MAI e das Polícias, todos fundamentais na definição das políticas, da novas e desejadas políticas, que regulem, em lugar de desregular a estrada, é um feito relevante e que deve orgulhar a federação ciclo-turística. Ainda que seja tudo pago em publicidade.

Não seria particularmente motivo de admiração se os governamentais subscritores do referido protocolo, defendessem a obrigatoriedade do uso de capacete para quem se faz à estrada de bicicleta. Já estar a FPCUB associada a uma campanha em que o capacete aparece obrigatoriamente em todas as imagens, poderá aos mais incautos -escriba presente à cabeça- oferecer um travo de surpresa. Pois não é que todos os “bonequinhos” da brochura têm ou a cabeça bicuda ou uma semi-circunferência no alto do cocuruto? Pois é, a bonecada saiu toda pelo bico da caneta de capacete na carola! Vai-se a ver e as duas fotografias pespegadas no dito flyı -e aqui acrescento: uma menina numa e um menino na outra, tal qual manda o figurino, com ar de estranjas na certa! são de felizes ciclistas com a moleirinha bem aconchegada. Está tudo de capacete!

Leio com novidade que para os subscritores da dita brochura, FPCUB incluída, o uso do capacete é “altamente recomendável”. A ver se me faço entender: eu aceito a posição expressa na campanha com toda a naturalidade. A recomendação do uso do capacete é legitima desde que não envolva a defesa da submissão dos que assim não pensam a essa opinião. Ou seja, todos somos livres de opinar, mas cada um é livre de decidir. Mas quando se põe, numa brochura sobre a segurança dos ciclistas na estrada, todos de capacete, faz-se objectivamente uma declaração política. Ou não? E agora vamos tentar encaixar nesta posição a que diz “eu não uso capacete, pergunte-me porquê”.

Desconheço em que é que se baseia essa alta recomendação. O capacete será tão recomendável como um par de joelheiras e outro de cotoveleiras e já agora uma protecção de coluna e uns calções almofadados. E o capacete é fechado ou aberto e com protecção de queixo. A imagem que está escarrapachada na brochura é que um ciclismo seguro passa “obrigatoriamente” pelo uso do capacete. E disso há tantas provas que sim como há que não. O que há é a colagem da “obrigatoriedade” do uso do capacete à imagem da FPCUB. Será isso um investimento na segurança dos ciclistas?

SAI UM EXPRESSO À BARBOSA

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 22 de Agosto de 2012 by Humberto

As assessorias de comunicação do Governo conseguiram vender ao Expresso e, pelo menos à RTP Porto também, a “notícia” da tão esperada, e prometida pelo Sec. Est. dos Transportes no Congresso da Murtosa, revisão do Código da Estrada. A promessa é que as alterações tenham finalmente em linha de conta e de acordo com o que é prática na UE, a bicicleta como veículo de transporte de pleno direito, a par dos demais veículos que circulam nas estradas.

O texto também informa, realçando o contraste entre circulação segura em automóvel versus circulação perigosa em bicicleta, que houve uma diminuição do número de acidentes envolvendo veículos motorizados. Ora se há uma efectiva redução do número de quatro rodas em circulação e o preço exorbitante que os combustíveis atingiram, faz finalmente com que muitos condutores levantem o pé do acelerador, circula-se as velocidades mais baixas, não tão excessivas (velocidade excessiva ≠ excesso de velocidade). De acordo com o que vem nos livros: menos velocidade + menos carros = menos acidentes…

No texto é referido, e bem, que não há estatísticas sobre a utilização da bicicleta. Eu acrescento, observando a crescente utilização da bicicleta em muitas cidades portuguesas, sobretudo desde há um par de anos, é bem provável que esse aumento seja muito superior a 21%. Embora a ocorrência de apenas um único acidente envolvendo um ciclista já seria de lamentar, podemos provavelmente considerar que o número de “acidentes” é até razoável, tendo em conta as condições de circulação em geral e as condições especificas para o uso da bicicleta em particular e, claro a conhecida (in)segurança rodoviária nacional.

E esta de que o Governo vai alterar o CE para aumentar a segurança dos utilizadores mais vulneráveis só pode ser sarcasmo! Há muitos anos que a FPCUB e outras entidades fazem pressão junto dos Governos e dos Partidos para as necessárias alterações ao CE. Foram já a votação na Assembleia da República vários Projecto Lei nesse sentido, tendo o PSD na oposição e mais recentemente já no poder, votado contra. Pelo que não nos venham agora com a conversa de que é por causa do aumento dos acidentes. Até porque estes senhores não sabem nada sobre a bicicleta nem sobre quem a usa!

Aliás, o governo não tem que anunciar alterações ao CE para proteger este ou aquele grupo de utilizadores das estradas. O CE TEM de ser um normativo de regras que visem a segurança de TODOS os utilizadores da estrada! Esta visão da bicicleta e de quem a usa alimenta a ideia de que os velocípedes necessitam dum tratamento de excepção. Que andar de bicicleta é perigoso. Realça o conflito latente entre automobilistas e ciclistas. Mais uma peça “jornalística” escrita com base numa acção de propaganda/promessa do Governo e da sua máquina de comunicação, sem ser questionada pelo jornalista de serviço a essência da informação.

Para que a “notícia” não ficasse completamente coxa, e porque é assim que estas coisas se fazem, foi preciso arranjar algum “facto” que justificasse o interesse numa promessa do executivo que, nas suas próprias palavras é apenas “uma alteração cirúrgica de diversas normas”. O “facto” normalmente vem no título: “Acidentes com bicicletas estão a aumentar”, et voilá! Tanto na RTP como no Expresso os jornalistas vestiram-se de patinhos e foram para o computador. Resultado: trabalhinhos muito fracos! A Joana Pereira Bastos, que assina a notícia do Expresso até pôs no topo, qual cereja podre, as obtusas e costumeiras barboseiras!

A BICICLETA TEM AS COSTAS LARGAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 25 de Maio de 2012 by Humberto

Que anda meio mundo a enganar outro meio, mais coisa menos coisa e fora uns pozinhos, já o povo, sabedor e experimentado mas nem sempre aprendedor, diz. Que isto da bicicleta tem sido uma forma de gente muito dada à palavra fácil trepar ao cume da popularidade sempre tão rentável em votos e poleiros, não me tenho cansando de apontar. E acrescento: a bicicleta tem as costas realmente muita largas!

O regresso do festival de música rock ao alto de Marvila deu mais uma oportunidade de, a pretexto do desfraldar duns quantos mais metros de ciclovia alfacinha, estenderem-se ao comprido os habilidosos do costume. Tirando o ar casual do Caetano e uns quantos senhores que não saem de casa sem sentirem as carnes bem aconchegadas, a filha do Roberto que se não pedala, malha muito, e mais uns quantos pedalantes de inaugurais, as fotografias são até cómicas. É que isto das bicicletas, quando toca a andar, requer equilíbrio senhores, equilíbrio!

Mais do que me ficar a rir da azelhice alheia ou apenas dar lastro à má língua anti-festivaleira, até porque vou finalmente poder rever o boss em Portugal, a ideia de poder fazer o regresso a casa montado e a pedalar é muito convidativa -não fora o facto de cá para os meus caminhos esta passadeira rosa não servir para nada, quero apenas chamar a atenção para pequenos detalhes. Acredito que são os detalhes que definem se uma coisa é bem ou apenas feita. São os pequenos pormenores que fazem a diferença. São as picuinhices que dão o brilho. Mas… nem tudo o que brilha é oiro.

Reparem nas manetas de travão da bicicleta do senhor da boina. Deve ser adepto duma cena mais racing

A quantidade de fotografias em que o José Caetano aparece ao lado do António Costa!

Onde está a ciclovia?

A boa da Roberta deve ficar a pensar que andar de bicicleta em Lisboa dá barriga!

E para terminar, a revista Caras diz que o José Sá Fernandes é que é o presidente da FPCUB. Sim, era só o que nos faltava!

CONCLUINDO DAS CONCLUSÕES DO CONGRESSO

Posted in cycle to know with tags , , , on 8 de Maio de 2012 by Humberto

Não estive presente no IX Congresso Ibérico da Bicicleta e a Cidade. Tive acesso às conclusões pelo documento que a Federação de Cicloturismo, organizadora em parceria com a congénere espanhola ConBici, gentilmente me enviou. O que sei do que se passou na Murtosa resume-se a notícias da imprensa local, algumas notas nas redes sociais e uma ou duas conversas informais, para além claro está, da informação oficial disponibilizada no sitio do Congresso. Sei tanto sobre o evento e  sobre as discussões que lá tiveram lugar como qualquer cidadão pode saber sem se ter deslocado à Murtosa.

As conclusões do IX Congresso estão impressas em três páginas A4 onde se resume as preocupações, ambições, expectativas, alertas e outros pensamentos da organização ibérica do encontro. As conclusões dum conclave, dum congresso são assim como uma espécie de testemunho passado pela presente edição até à seguinte. Pela análise das conclusões dos sucessivos congressos é possível ter uma ideia da evolução não só do pensamento mas sobretudo das dinâmicas que presidem ao próprio movimento. As conclusões não são o resumo das comunicações e apresentações a uma reunião como um congresso mas deveriam levar em conta o que foi dito pelos delegados. As conclusões, como a própria palavra indica, deverão deduzir, ajustar, sintetizar ilações sobre o debate suscitado e desenvolvido pelos participantes.

Avaliando as apresentações submetidas ao nono Congresso da Bicicleta e lendo as suas conclusões, ou fazendo o mesmo exercício para os outros congressos disponíveis, fiquei sempre com a sensação que o texto final se enquadra mais num documento tipo manifesto/moção/carta-reivindicativa do que em conclusões dos trabalhos. Este entendimento é um problema meu e peco seguramente por deficiente entendimento. Mas como eu sou mesmo chato, dei-me ao trabalho de ir reler as Conclusões do VII CIBC, o último a ter tido lugar em Portugal, na vila de Vilamoura no ano de 2008. Moveu-me a curiosidade para perceber a evolução da bicicleta em Portugal aos olhos dos principais interessados e, admito, uma leve sensação de dejá lu.

Nas conclusões do congresso de 2008 notava-se que a evolução da situação da bicicleta tinha “sido maior em Espanha do que em Portugal”. Agora, em 2012 afirma-se que começou a “verificar-se uma inversão nesta tendência”. Ou seja, as conclusões começam por notar uma alteração substancial e qualitativa na situação da bicicleta nos dois países nos últimos quatro anos, mas continuando a ler o documento não se encontra qualquer justificação para esta viragem. Aliás acompanhando eu à distância, pela rede, o que se passa no país vizinho e sabendo o que por cá se lavra, seria preciso Espanha parar tudo o que à promoção da bicicleta diz respeito para as conclusões baterem certo com a realidade. Admito que não esteja a ver o quadro completo mas a verdade é que não encontro na realidade nada que me faça acreditar que estamos a ultrapassar pela esquerda a bicicleta do país vizinho.

Quatro anos volvidos desde que o congresso teve lugar em Portugal não sou apenas eu que concluo que muito pouco mudou, é o próprio relator que, ao decalcar parágrafos inteiros das Conclusões de 2008, tem essa convicção. Ao ler as conclusões deste ano depois de ter relido as de há quatro anos, dei por mim a pensar na Margarida Rebelo Pinto! Copy-paste! Nem uma virgula alterada, nada: “O direito à acessibilidade deve ser reconhecido, em cada país, através das formas mais adequadas, como resposta à nova dimensão da bicicleta nas cidades modernas. Neste âmbito o acesso à mobilidade e do uso pleno da bicicleta como modo de deslocação deve estar consagrado na Constituição da República Portuguesa a exemplo do direito à saúde e à educação.” Ou “É necessária uma alteração do status quo da bicicleta. A bicicleta não é apenas um brinquedo de crianças e deve ser entendida como um veículo que deve ocupar o seu espaço na via pública.” Este tipo de afirmações, que mantêm a actualidade pelo menos durante quatro anos, são mais próprias duma carta de princípios que das conclusões dum congresso.

Algumas diferenças entre os dois textos têm relativa importância, embora sintomáticas dum certo debate que anda adiado. Se em 2008 o Congresso viu como “necessária a criação em Portugal de uma comissão cívica que inclua os utilizadores de bicicleta, a exemplo de Espanha”, na redacção de 2012 apela-se a que não lutemos “cada um para o seu lado”, porque isso “traduz-se num desperdício de energias, e em alguns casos com resultados contraproducentes”. Em quatro anos muitas coisas aconteceram no seio do movimento associativo ciclista urbano e esta clarificação da posição saída da Murtosa, que aqui é particular dos congressistas portugueses, tem seguramente a ver com as divergências entre as tendências mais activas, sobretudo em Lisboa, que podem, e há que dizê-lo com toda a frontalidade, ser encontradas por um lado na Federação e por outo na Mubi. Claro que a unidade faz a força e claro que não existe uma verdade absoluta. Há que encontrar os pontos de contacto e pedalar em frente. Duma vez por todas.

Sobre o famigerado Código da Estrada, pode ler-se no texto deste ano que mais ou menos o mesmo que foi escrito em 2008. “É urgente uma alteração do Código da Estrada português a exemplo do que está consagrado em inúmeros Códigos de outros países europeus, adaptando-o às necessidades dos ciclistas e corrigindo lacunas e omissões, numa visão de que na estrada se deve proteger os utilizadores mais vulneráveis, não os ignorando, não os segregando.” É omitida apenas uma referência comparativa aos peões e é acrescentada -sinal dos tempos- uma declaração de fé no actual secretário de estado dos transportes. Não está claro no entanto se o governante se deslocou à Murtosa para anunciar brevidade na apresentação do novo Código da Estrada ou se para anunciar as tão necessárias e esperadas alterações ao dito código. Volto a lembrar que os Partidos que suportam a actual maioria governativa derrotaram recentemente um Projecto de Lei do Bloco de Esquerda que, caso tivesse passado, teria dado ao senhor secretário de estado a oportunidade de fazer um brilharete anunciando verdadeira e inequivocamente um novo CE! Entretanto continuemos à espera…

No parágrafo sobre sistemas de Bicicletas de Utilização Pública, é novamente sugerido a sua implantação “nos interfaces de transportes e junto a parques de estacionamento dissuasores”, como “excelente opção para a intermodalidade, com benefícios na economia de tempo, de espaço e de custos.” Outra vez se cita o exemplo de várias cidades espanholas com resultados encorajadores. Referem-se os “pequenos projectos piloto” de alguns municípios lusos e anseia-se pelo protelado sistema lisboeta. A verdade é que se em quatro anos muita coisa mudou em Espanha ao contrário de Portugal onde, para além de discursos mais ou menos de circunstância e tímidas iniciativas “piloto”, nada de substancial aconteceu. E a resposta para nada de relevante ter acontecido é dada nas mesmas conclusões no parágrafo referente às ciclovias e vias cicláveis.

Também aqui em quatro anos nada aconteceu que tenha levado à alteração do texto, salvo pequenas actualizações de letra. Quando as conclusões reafirmam que “o aumento da segurança da utilização (da bicicleta) deve se feita através da redução da velocidade dos veículos, fiscalização da obrigatoriedade de cumprimento dos limites de velocidade, criação de zonas 30 e partilha de circulação”, mantém que enquanto não forem efectivamente introduzidas medidas de verdadeira acalmia de tráfego e se deixar de ver a bicicleta como uma ferramenta para essa mesma acalmia, a segurança na estrada não será implementada. Nem para ciclistas, nem para peões, nem para ninguém!

“No referente à relação entre a bicicleta e o transporte colectivo reconhecem-se nas duas nações ibéricas os claros avanços em relação ao transporte das bicicletas nos metropolitanos, eléctricos e comboios, especialmente nos subúrbios das cidades. No entanto há problemas nos comboios de longa distância, pelo que seria da maior importância que que também a esse nível fosse autorizado e facilitado o transporte da bicicleta.” Ipsis verbis! Este parágrafo volta a confirmar que, apesar de do Congresso ter atestado uma maior evolução das condições para a utilização da bicicleta, a verdade é que passados quatro anos tudo está praticamente na mesma na relação da bicicleta com o transporte colectivo…

Num salto de quatro anos foi também copiado o paragrafo que pede aos municípios para instituírem “por norma, que sempre que haja uma obra se aproveite para deixar espaço ou fazer alterações que beneficiem a utilização da bicicleta ou que pelo menos não a compliquem, como a questão da colocação de sarjetas, colocação de postes de iluminação e sinalização vertical que roubam espaço e visibilidade à circulação”. Mais uma vez relembro que a Assembleia da Republica vetou um Projecto Lei do Partido Ecologista “Os Verdes” que propunha legislar exactamente neste âmbito criando as bases para uma rede nacional de ciclovias onde muitas das norma ambicionadas caberiam. A meu ver o congresso faz mal em ignorar iniciativas como a do BE e dos Verdes, que ainda por cima nem sequer são tomadas pela primeira vez, e caso tivessem sido levadas por diante, teriam tido muito mais impacto que outras iniciativas que se ficam por palavras.

Os Congressos Ibéricos da Bicicleta e da Cidade são acontecimentos de extrema importância e têm desde 1996 contribuído para o regresso da bicicleta às nossas cidades. A FPCUB desenvolve um trabalho muito relevante na defesa dos interesses de todos que pretendem utilizar a bicicleta no dia a dia, como veículo de transporte, como meio de deslocação regular, único. Todos os que pedalamos nas cidades ibéricas devemos muito ao empenho da Federação e da ConBici e ao trabalho das suas direcções e associados. As sociedades são transformadas pela acção dos Homens e estes homens e mulheres têm agido permanente e consequentemente para transformar. Ainda que nem sempre em acordo uns com os outros, ainda que nem sempre de acordo com o que cada um de nós possa julgar mais correcto.

As apresentações feitas na Murtosa são de elevado interesse e reflectem o grau de pensamento e análise presente em ambas as sociedades ibéricas ao mesmo tempo que revelam, se dúvidas houvesse pelo menos deste lado da fronteira, pela total ausência de cobertura nacional, a total incapacidade da comunicação social para lidar com a bicicleta de forma séria. É muito recomendável a consulta disponível no sitio do Congresso às apresentações feitas. Pelo pouco impacto mediático do acontecimento teve, podemos confirmar que a bicicleta ainda não conseguiu entrar nas redacções de informação mas tampouco é com redacções plagiadas de conclusões de anos anteriores, com um baixo índice reivindicativo e com a ausência de polémica enriquecedora que se dá visibilidade a uma iniciativa com a importância do Congresso Ibérico da Bicicleta e da Cidade. A bicicleta tem que ser combativa e não se pode acomodar ao poder -qualquer que ele seja- nem servir de veículo de poder. A bicicleta tem de falar alto, exigir e apontar dedos. A bicicleta é minoritária e nunca será maioritária.

Na edição deste ano o congresso alterou a periodicidade do congresso, deixou de ser bianual e passou a anual, pelo que dentro de dois anos temos novamente um encontro em Portugal. Quero acreditar que nessa altura já teremos verdadeiros sistemas de bicicletas partilhadas a funcionar em cidades portuguesas, já terá sido alterado o Código da Estrada, já existirá um normativo nacional para a construção de estradas e infraestruturas que levem em conta a bicicleta, a Avenida da Liberdade em Lisboa já será ciclavel e os passeios caminháveis, Lisboa terá efectivamente uma rede de ciclovias e não uma rede de passeios pintados, as zonas de 30km/h serão uma realidade e o estacionamento estará ordenado. Daqui a dois anos quero crer que haverá razões para o secretário de estado de então não vá ao congresso fazer um discurso bonitinho ao mesmo tempo que deixa no gabinete em Lisboa o computador a processar formas de dificultar a mobilidade para quem pretende não depender do carro. Espero sinceramente que em 2014 se chegue a novas conclusões!

JORNALISTAS CYCLE CHIC

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 22 de Abril de 2012 by Humberto

No sábado 19 de Maio poderemos de novo celebrar a bicicleta com hora marcada e todos juntos. Os eventos Lisboa Cycle Chic cumprem o destino de se afirmarem como uma marca também da cultura ciclista urbana alfacinha. Lisboa merece dias assim. As nossas cidades merecem bicicletas. E nós merecemos celebrar uma opção de futuro.

A bicicleta na cidade está aí, por todo o lado a pedalar mais a cada dia, a aparecer mais a cada curva. Apesar das ciclovias vazias e dos autismo dos senhores da burocracia, as ruas são mais felizes de cada vez que um par de rodas as cruzam. De cada vez que uma criança vê, da janela do carro, um adulto numa bicicleta a rua também é mais dela.

Na esplanada solarenga já todos levantámos o olhar para acompanhar a passagem duma bicicleta, abstraído-nos da conversa impressa. Mesmo que as palavras nos falem de bicicletas, o olhar é puxado para quem segue suavemente, a deslizar. A experiência de pedalar é inultrapassável, e o jornalista nunca nos poderá prender o olhar duma bicicleta ali, a ir.

Sempre que leio um texto -e ultimamente tenho lido muitos, sobre a nova bicicleta, vejo um jornalista à conversa na porta duma loja, à conversa num telemóvel, sentado numa mesa com um gravador de permeio. Ali está o jornalista e do outro lado ali está o mundo. Mas tem de ser assim? E se a montanha descesse de bicicleta?

Recentemente a ECF publicou um texto com o sugestivo título “How Do You Get Journalists to Love Cycling?”. Que tal sentarmos os jornalistas em bicicletas e levá-los de passeio? Todos chiques, alegres, receosos, corrompidos? Que tal convidarmos os jornalistas todos desta país (ainda por cima são cada vez menos!) para irem pedalar no sábado 19 de Maio pelas míticas 7 maravilhosas colinas de Lisboa? Que tal levarmos os jornalistas pela mão para uma caçada ao Tritão?

Pois daqui proponho à Federação e ao Miguel, parceiros neste passeio, que tratem de enviar às redacções convites para que os seus enviados participem no 2º (que na verdade é o terceiro mas acho que o Miguel quer esquecer um dos outros e razões até terá) passeio Lisboa Cycle Chic montados em bicicletas. E que se os rapazes não tiveram uma bicicleta lá no jornal, na dispensa da rádio ou no parque dos carros da televisão, a organização terá à disposição dos profissionais da informação muitas para emprestar.

Assim os moços e as moças poderão escrever sobre selins com o rabo calejado por um. Poderão reportar sobre o pedal e sentir a dor no gémeo. Escreverão letras torneadas pelo girar da roda, ao som das campainhas, com o cheiro daquela mistura de adrenalina e suor que nos cobre os corpos quando fazemos algo de que tanto gostamos. Assim de certeza que, quando a bicicleta passar pela esplanada, levantaremos o olhar dum texto com mais paixão.

O SOL FOI ANDAR DE BICICLETA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 1 de Abril de 2012 by Humberto

O Jornal Sol de 30 de Março deu à bicicleta chamada na primeira página para uma reportagem do jornalista Frederico Pinheiro, sob o título “Bicicletas pedalam a alta velocidade”. O texto aborda a situação da indústria nacional do ramo. Tem também uma caixa sobre a Cicloficina, outra sobre transportes públicos e a bicicleta e dez respostas do José Manuel Caetano a outras tantas perguntas.

Não se pode dizer que faltou vontade ao jornalista para ir um pouco mais além naquilo que é habitual quando se fala de bicicleta na imprensa portuguesa, mas também não se pode dizer que tenha conseguido enfiar o Rossio na Rua da Betesga. Ainda a sim é de louvar a capacidade de publicar sobre este tema num jornal com a importância do Sol. Infelizmente não coube no texto duas simples frases que caracterizam a importância que o nosso país tem na produção de bicicletas no mundo. A saber: a Rodi é o maior fabricante europeu de aros de bicicleta e Portugal é o maior fabricante europeu de quadros de bicicleta. Ou será que a camisola amarela é coisa de somenos?

Graças a Portugal, a Europa mantém parte substancial das suas necessidades de bicicletas suprimidas internamente. Num tempo em que a procura não tende a abrandar, ignorar este facto é atirar um nadinha ao lado. Como é ao lado dizer-se que as bicicletas de ginásio são uma “nova tendência”. Nova tendência é deixar de pedalar fechado numa sala a cheirar a cavalo e vir pedalar para a rua! Além de que se há negócio que está neste momento a ser repensado é o dos ginásios. Basta ver as promoções que por aí andam e o número de pessoas que se passou a exercitar-se ao ar livre.

Úteis as informações publicadas sobre o transporte de bicicletas nos comboios, barcos, Metro e autocarros e sobre o funcionamento da Cicloficina. Cada um merece uma reportagem de per si e vamos fazer figas para que o Frederico se continue a interessar pelo tema. Apesar das críticas aqui feitas, o artigo escrito no Sol não fala de colinas nem dos outros lugares comuns para quem olha as bicicletas desde o acento engarrafado numa icê suburbana.

Conhecendo o presidente da Federação dos Utilizadores de Bicicleta e lendo as 10 perguntas que lhe fez o Sol, facilmente se imagina as 10 páginas de jornal que seriam precisas para transcrever as respostas. As prestações mediáticas do homem forte da FPCUB são infelizmente sempre limitadas a caixas em notícias ou curtas respostas em inquéritos sobre o sentido da vida em duas rodas a pedal. Já é tempo do Zé Caetano ter direito a ser o centro da peça, ficávamos todos a ganhar. Ficamos sempre a ganhar quando temos o prazer de conhecer melhor pessoas com coisas para contar. Mesmo se não concordamos sempre, mesmo se não jogamos na mesma equipa.

Nas parcas linhas das suas respostas Caetano fala da economia paralela no negócio da bicicletas, do novo-riquísmo duma certa burguesia ciclo-mobilizada, da aberração da maioria das ciclovias que vão sendo construídas, da falta de visão dos empresários portugueses e de como o barato sai caro também no que mete bicicletas. Li e foi assim que entendi. Deixei a questão relacionada com o código da estrada para o fim de propósito. Quem por aqui vai pedalando mais amiúde, sabe que considerei um atraso, uma perca de tempo, uma mera jogada política, a Proposta de Resolução n.º 14/2012 aprovada recentemente na Assembleia, ao mesmo tempo que foi derrotado o Projecto de Lei 82/XII apresentado pelo Bloco de Esquerda que avançaria efectivamente na alteração ao CE nos aspectos penalizadores para quem anda de bicicleta na estrada.

Mesmo com o discurso editado ficamos a saber pelas palavras do presidente, que a Federação vai “agora propor ao Governo” que altere o CE para permitir que pedalemos nas faixas BUS. Então mas não foi para isso que foi aprovada a PR? Então mas o assunto não estava já arrumado em relação às recomendações? Pois não, não está! Se o PL do BE tivesse passado, teria baixado à comissão da especialidade, teria sido apreciado pelos membros da Comissão Parlamentar e a versão que subiria ao plenário para votação final, incluiria todos os contributos. Nestes casos as comissões podem ouvir e considerar as opiniões de entidades que representem os interesses visados. Não se falaria mais de recomendação mas sim de decisões!

O que o Frederico Pinheiro talvez não tenha percebido é como isto anda tudo tão ligado. No artigo do Sol está lá esse tudo mas lê-se muito pouco. É que da mesma forma que a maioria dos empresários da industria da bicicleta não souberam adaptar-se e deixaram escapar muitas oportunidades de negócio que lhes teriam permitido sobreviver num mundo em mudança, também alguns políticos não percebem hoje que os interesses da bicicleta passam pela coragem em assumir responsabilidades em vez de deixarem que o jogo partidário atrase uma solução mais que encontrada, mais que necessária. Permito-me lembrar que quem agora cancelou uma outra alta velocidade, foram os mesmos que a anunciaram. Espero que o título do Sol não seja um presságio.

Após ter publicado este texto, dei-me de caras com duas publicações replicadas aqui que merecem louvor. Com conteúdo muito mais abrangente que o artigo do Sol, ambos os trabalhos, o do Jornal de Notícias por Sérgio Almeida e o da Time Out por Mariana Duarte, dão um retrato detalhado da bicicleta urbana no Porto e arredores, devendo ser guardados para referência futura. Muito factuais quase se completando, deixam vontade para fazer um circuito por todas as novas catedrais da bicicleta a norte do Douro, sem esquecer a pérola escondida que é o Velódromo no Museu Soares dos Reis.

UM PEQUENO PASSO PARA O HOMEM…

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , , , , on 8 de Outubro de 2011 by Humberto

… um grande passo para a bicicleta. Desta forma se poderia resumir o dia de sexta-feira, sete de Setembro de 2011. Por volta da hora do almoço a SIC, embora com o atraso de um dia, transmitiu uma reportagem sobre a bicicleta em Lisboa. A pretexto da entrega duma bicicleta oferecida pela Federação a um bombeiro ciclista e criativo, a peça jornalística abordou -com a profundidade que permite uma peça de televisão mas sem a música dos Queen, o que já é um passo importante- dizia eu que a peça da SIC abordou a questão da bicicleta partilhada em Lisboa que nunca mais sai do papel. Pouco de novo foi adiantado, mesmo assim ficámos a saber que o vereador encarregue deste assunto, o senhor dos parques, jardins & ciclovias, também conhecido pelo Zé, espera ter a solução, que é como quem diz, espera limpar a areia da engrenagem até ao final do ano.

Foi um melhor almoço porque vi a bicicleta regressar à televisão numa abordagem que sobra do trivial da excentricidade costumeira. Miguel Barroso foi um excelente anfitrião e provou que tem pernas, porque dar boleia ao repórter de imagem de serviço na sua xtracycle requer muita entrega à causa, ainda para mais sem ajuda eléctrica. Só foi pena não ter sobrado fôlego para soprar de forma mais veemente o que lhe vai na alma sobre o imbróglio alfacinha! Já vinha o café a caminho para rematar o repasto quando o telefone acordou dum luto triste, para me dar boas notícias: manhã cedo tinha entrado a bicicleta pela porta grande na casa da democracia. A Federação Portuguesa de Cicloturismo e Amantes da Bicicleta assistiu na bancada dos convidados à apresentação de duas propostas de resolução, PPD/PSD e CDS/PP, e de dois projectos Lei, um do BE e outro do PEV, que recuperam no essencial as propostas já feitas na anterior legislatura. Por sugestão do PEV as propostas baixaram à comissão sem votadação com o compromisso numa solução consensual a todos os grupos parlamentares.

É exactamente este consenso que faria notícia, fosse este assunto parangonas na imprensa. Independentemente das diferenças ideológicas entre as seis forças políticas representadas na AR, existem hoje condições verdadeiras para que algo mude sem que fique tudo na mesma. Tanto o Bloco como Os Verdes mantém o compromisso para com a comunidade ciclista assumido em anteriores propostas. Os centristas assumem no Parlamento o que tinham prometido na campanha, nomeadamente num documento que enviaram após solicitação da Federação. O PSD, pela mão e voz dum deputado ciclista convicto, sócio da FPCUB e membro do Conselho Consultivo para a Mobilidade e do Biciauto, Pedro Roque de Oliveira, leu um texto consentâneo com as suas responsabilidades uma vez ser o seu, o Partido que sustenta o Governo. O PS, embora não tenha feito qualquer proposta nem guarde um passado feliz enquanto Governo, mostrou-se disponível para o tal consenso na discussão em Comissão da Especialidade.

Foi realmente um dia feliz para a bicicleta em Portugal, um dia que reacende a esperança de que algo vai finalmente ser feito. Uma manhã que nos faz acreditar que valeu a pena os esforços da Direcção da Federação no seu trabalho incansável de procurar apoios, abrir horizontes, promover este consenso que parece agora estar ali reunido à mesa da tal comissão. Mas é também um dia que exige de nós um brinde ao muito que há por fazer! A alteração do Código da Estrada não é a panaceia que corrigirá a anarquia rodoviária. A estipulação de todas as regras sobre a construção de ciclóvias e demais estruturas para peões e bicicletas não vai resolver a incapacidade inata da maioria dos autarcas automobilizados. Os senhores Barbosas estão por todo o lado e pensar que não entram no Parlamento é menosprezar o inimigo, primeiro passo para a derrota certa!

Mais importante que a bicicleta é quem pedala nela. E nela pedalam pessoas que perdem diariamente qualidade de vida. Diariamente nos apresentam um futuro onde não cabemos como seres humanos inteiros, um futuro sem direitos nem dinheiro, onde a sobrevivência será um luxo. O neoliberalismo galopante empurra os povos para a miséria a vemo-nos gregos ao espelho das notícias. Infelizmente não será a bicicleta que fará a revolução necessária, mas como prova a intenção de consenso na AR, é a vontade dos homens e a sua acção transformadora que pode mudar o rumo das coisas. Sem dúvida que seguirei o caminho mais feliz, farei girar os pedais mais confiante, olharei para o simplycommuting com, permitam-me a falta de modéstia, mais vontade, em consequências dum almoço bem acompanhado. Mas convém lembrar sempre que a única maneira de não cair é manter o equilíbrio, continuando a pedalar. Uma revolução de cada vez, uma volta dos pedais a cada passo.

PONTO DE ORDEM PARTILHADO

Posted in cycle to know with tags , , on 3 de Outubro de 2011 by Humberto

"Pensador" - Escultura Kioka, Angola

As polémicas são úteis à sociedade na medida em que podem ajudar a derrubar preconceitos, a encontrar soluções e alternativas, a desfazer equívocos e destapar problemas. São úteis porque fazem as ideias avançar e promovem a transformação. As polémicas alimentam-se da discussão, da argumentação de opiniões contrárias ou pelo menos não coincidentes, numa dialéctica que se quer objectiva e pragmática.

A recente polémica em torno das divergências mais ou menos claras entre a vereação da Câmara Municipal de Lisboa respeitante ao sistema de bicicletas de aluguer da cidade teve pouco eco na imprensa e quase nenhum na restante comunicação social, originou um aglomerado de ideias e uma ânsia de protagonismo nalguns ciclos mais militantes e alguns textos na esfera bloguista.

Talvez o melhor contributo para a clarificação do que está em jogo e um excelente ponto de ordem é o texto abaixo se transcreve. Só a experiência e a seriedade com que a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Amantes da Bicicleta acompanha o folhetim da partilhada de Lisboa possibilita este tipo de análises. Mais uma razão para se fazer sócio. O resto são boas intenções e conversa fiada!

COMUNICADO

Promoção da bicicleta urbana com a própria energia a pedalar

Na sequência das notícias que colocam em causa o projecto das bicicletas partilhadas em Lisboa, vem a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), defender que a promoção do uso da bicicleta a pedal deve ser uma constante das políticas de saúde, de mobilidade, de energia e da sustentabilidade. Desta forma promove-se o movimento físico e a deslocação diária utilizando a sua própria energia, desincentivando o consumo de combustíveis fósseis importados e poluentes.

Os lisboetas têm grande expectativa na existência de uma rede de bicicletas partilhadas na cidade de Lisboa como já existe em Paris, Londres, Bruxelas, Toulouse, Lion, Barcelona e Sevilha, por exemplo.

Quando a implementação da prometida rede já peca por tardia, somos confrontados com declarações do Vereador da Mobilidade da CML que refere uma nova ideia da CML de disponibilização de bicicletas eléctricas para turistas na zona ribeirinha, limitando a partilha a um único local da cidade e para uma utilização turística.

Confunde-se assim o essencial para ajudar a solucionar os problemas da mobilidade em Lisboa e dar resposta a todos aqueles que pretendem usar bicicletas de uso público e partilhado. A rede não foi pensada para lazer e não deve ser exclusivamente para esse fim, à semelhança do que foi feito nas cidades referidas.

Não nos podemos esquecer que a electricidade é poluente. Além disso propor uma rede de bicicletas eléctricas para circular numa zona plana é promover a preguiça, contribuindo para a obesidade que alastra em Portugal.

Mais de metade da electricidade é produzida recorrendo a combustíveis fósseis ou nucleares (importada de Espanha e França). Incentivar o uso de electricidade é ̶ quer queiramos, quer não ̶ uma forma de promover o consumo de energias fósseis. É fazer aumentar a nossa factura energética, é aumentar a nossa dependência face ao exterior. É contribuir para aumentar o nosso crónico deficit da balança de transacções correntes, é endividar ainda mais o País. É ajudar a que Portugal tenha ainda mais dificuldades para cumprir os compromissos internacionais em termos de emissões de gases poluentes.

A exploração de uma rede de bicicletas partilhada deve-se sustentar a ela própria, com receitas provenientes quer dos utilizadores, quer da publicidade. A autarquia terá de dar resposta, primeiro aos seus munícipes e ainda potenciar a utilização turística, compatibilizando o bom uso do espaço público. Velocípedes com motor devem circular em estrada.

Velocípedes com motor e bicicletas são assuntos distintos. Tratar de forma diferente o que é diferente. A promoção da bicicleta deve estar restrita apenas às que funcionam com a energia da pessoa e nunca para promover mobilidades pseudo-sustentáveis.

Recordemos o protocolo entre a FPCUB e a CML, onde se afirma: considera “que devem ser facilitadas as condições de mobilidade dos utilizadores de bicicleta bem como dos seus potenciais utilizadores, por forma a garantir o acesso a escolas, locais de trabalho, serviços públicos, zonas de lazer, etc.”. Ambas as entidades estimam ainda que “a bicicleta é um modo de transporte a privilegiar e deve fazer parte de uma política de diminuição da poluição atmosférica”.

Lisboa, 30 de Setembro de 2011

FPCUB

BICICLETAS, FOLHETINS & PARTILHAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , on 29 de Setembro de 2011 by Humberto

O folhetim das bicicletas partilhadas de Lisboa ganha interesse de dia para dia e promete entreter-nos durante muito tempo. Aquando da estreia, com o anúncio da implementação de um sistema de aluguer de bicicletas para daí a pouco meses, logo se viu que a coisas estava pensada para durar. No início do Verão 2008, há três anos portanto, foram as desejadas bicicletas prometidas pelo voluntarismo eleitoralista do recém eleito edil. Mesmo que passado todo este tempo essa informação tenha sido apagada do Portal do Cidadão, o texto tinha um sonoro título “Lisboa Vai Ter Rede de Bicicletas Partilhadas no Próximo Verão”.

Já em 2007 a agência Lusa noticiava contactos entre então vereador Marcos Perestrello e a J. C. Decaux com vista à introdução dum serviço de bicicleta partilhada na capital. O gabinete do vereador negou os contactos mas a empresa francesa assumiu o estudo por auto-iniciativa. Sintomático! Estas suspeitas serviram para aguçar o apetite dos espectadores para as peripécias que haviam de seguir-se. Desde então e por entre desavenças no seio dos correlegionários do presidente, dúvidas da oposição tanto à esquerda como à direita e a prepotência do eu-é-que-sei Sá Fernandes, foram sendo pintadas e marcadas coisas parecidas com ciclovias e lá foi lançado um concurso para a mediática Vélib à lisboeta. Já corria bem adiantado o ano da graça de 2009 quando finalmente foi aprovado em reunião de Câmara o relatório do júri mas  foi preciso esperar por Fevereiro do ano seguinte para ver proposto pela presidência o convite à apresentação de propostas e respectivo Caderno de Encargos.

Entretanto caiu o Governo da Nação arrastando-nos a quase todos para um buraco onde os de agora, que nos (des)governam, ameaçam enterrar-nos. Os tempo são duros, mais duros ainda, e não sobra dinheiro para “excentricidades”. Se por enquanto ainda ninguém nos veio dizer para esquecermos isto das partilhadas, a verdade é que estas coisas só se fazem com dinheiro, que não há. Dizem. De atraso em atraso lá vieram as pressões do vencedor do concurso, a tal empresa que faz estudos por livre iniciativa, de que a imprensa deu eco. “Se não há dinheiro para avançar com o total do projecto, que se avance com uma parte para segurar os nossos interesses” -parece ser o que dizem os senhores Decaux. Poderia ser uma solução, digo eu, mas será que existe viabilidade para Lisboa num projecto de bicicletas que custará bem mais de 3 milhões de euros por ano à autarquia?

Surge agora a notícia duma proposta(?) do vereador da mobilidade, Fernando Nunes da Silva. Segundo se lê trata-se dum sistema de bicicletas eléctricas a correr ao longo do rio que difere do defendido pelo seu camarada independente Sá Fernandes. E ficamos todos novamente colados ao ecrã a ver onde é que isto vai dar… A ajudar à festança, e como seria de esperar, estes assuntos são tratados com os pés (ainda por cima fora dos pedais) pelo jornalista de serviço, neste caso a senhora dona Ana Henriques no Público. O texto é mau sobre vários aspectos. Primeiro na escolha do título, porque se há coisa que não é novidade é a areia na engrenagem e a confusão na rede de partilha de velocípedes em Lisboa. Segundo porque na verdade não há incompatibilidade nos sistemas visto o agora apresentado(?) não ser substituto do primeiro, já que -e como diz no texto- se destinar sobretudo aos turistas. Ainda para mais sendo este assegurado pela empresa Ciclocidade que, garante a jornalista, será a custo zero para a autarquia. Terceiro, a jornalista não verifica a informação, por exemplo não confirma a questão -ridícula- da malha da rede dos cestos. Quarto, não ouve a presidência da autarquia. Quinto, nunca efectua um verdadeiro contraditório entre os visados na notícia.

E este tem sido um folhetim à antiga, onde os seus autores não vão atrás de modas e não auscultam a vontade dos espectadores, vão desenvolvendo o enredo a seu belo prazer e, verdade seja dita, sucesso não lhe tem faltado. Sabemos nós e sabem eles que há na blogoesfera páginas e mais páginas de, digo eu, bons contributos para o debate. Sabem eles como sabemos nós da existência duma velhinha e muito actual federação activamente empenhada na bicicleta urbana como meio de transporte. Conhecem eles e conhecemos nós uma embrionária e muito viva associação para a mobilidade em bicicleta. Mas recusam militantemente qualquer aproximação ao dialogo, à procura de contributos, parece que com medo que os cidadãos se envolvam e questionem as suas verdades sofismáveis! Perante isto, mais do que comunicados e disponibilidade para colaborações com o poder, o que os ciclistas de Lisboa precisam é de se demarcar desta forma de fazer cidade. É mostrar que estão fartos destes maus actores e ainda piores autores e folhetins reles. Ou será que também temos por aí uns interesses escondidos com pedais de fora e vale tudo para ascender ao estrelato?…

Quando vejo um político a fazer o pino numa campanha eleitoral, fico sempre com a sensação de estar a assistir a um número de circo. Chamem-lhe defeito profissional mas a verdade é que raramente me surpreendo pela positiva. O actual presidente Costa sentou efectivamente o rabo num selim e deixou-se fotografar a sorrir de capacete e tudo mas, como se vê, as fotografias apenas servem para continuar a promover este inglório folhetim. As imagens então captadas são usadas mais para denegrir a imagem das bicicletas do que o objectivo que estava na mente de quem escreveu aquele episódio. Só nos faltava mesmo é que os promotores de ideias nossas amigas andassem aos tiros aos pés uns dos outros! Porque na guerra pela cadeira do poder na capital, a imprensa vai jogar um papel decisivo e o Público vai marcando aos poucos o seu campo neste jogo. Basta ver o artigo que acompanha o que aqui nos trouxe.

MODÉSTIAS À PARTE

Posted in cycle of live with tags , on 26 de Setembro de 2011 by Humberto

foto FPCUB

A Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores da Bicicleta decidiu reconhecer no cidadão eu contributos para a utilização da bicicleta junto dos colegas de profissão e como autor de textos de qualidade neste blog e no anterior que lhe deu origem, de boa memória sicbybikeday. Por tanto decidiu atribuir-me o Prémio Nacional de Mobilidade em Bicicleta na categoria de Cidadania na sua sexta edição. Aceitei o reconhecimento sem falsas modéstias e com a certeza de ser pelo reconhecimento dos bons exemplos que podemos contribuir também para a sua multiplicação. Particularmente porque fui par de outros galardoados de respeitáveis méritos na defesa da mobilidade em bicicleta.

Quase todos os presentes no auditório do Metropolitano de Lisboa partilham a paixão pelas bicicletas. Embora cada um a imagine com trajes diferentes, uns preferem vê-la de lycra e outros mais à moda, todos alimentam uma relação de fidelidade com uma máquina que continua a desempenhar papel importante na nossa mobilidade. Apesar das diferenças de utilização quase todos os presentes na sala convergem no muito que há por fazer em Portugal, nas nossas cidades, para incorporar a bicicleta como veículo de transporte de pleno direito. Mesmo não existindo unanimidade na comunidade ciclista quanto aos caminhos que devem ser trilhados, julgo não errar ao afirmar que coincidimos na direcção necessária: melhorar as condições e promover os chamados meios de transporte suave.

E digo quase todos os presentes porque quem usou o microfone, premiados e convidados, o único que revelou não ter uma, digamos, relação próxima com o velocípede de duas rodas a pedal, foi o representante do Secretário Estado dos Transportes, presidente da Autoridade Metropolitanos de Transportes de Lisboa, de sua graça Germano Farias Martins. Num palavreado coerente com o alheamento com que o Estado na sua forma governativa encara a mobilidade em bicicleta, o senhor proferiu uma série de lugares comuns e trivialidades onde não faltou – pasme-se! – a referência às míticas e tenebrosas colinas de Lisboa. Será que nuca mostraram a este senhor, ou a quem lhe enfia papéis dactilografados no bolso, o que academicamente já se provou a respeito das malfadadas colinas alfacinhas? Irra!…

Eu esperava, por puro lirismo bem sei, outro discurso do senhor. O presidente da AMTL teve uma boa oportunidade de fazer um brilharete. Defronte tinha dois presidentes de Câmara com obra feita, vários órgãos de informação, cidadãos que dão o seu  tempo em prole da causa, empresários e representantes de empresas activas na promoção da bicicleta, mas não foram suficiente inspiração, sequer incentivo, para umas palavras que apontassem um caminho, nem que fosse de cabras, um discurso eivado de ténue esperança, umas luzes, ainda que das velhinhas encandechentes, lançadas sobre o destino que o Estado tem para nos oferecer por horizonte, uma vaga ideia do projecto para o país que governa. Pelo contrário, lembrou “ao padre a missa” das dificuldadesinhas e sacou da sempre-a-jeito-crise que tão bem justifica o todo nada feito e o tanto eternamente por fazer.

Não iremos sair do buraco onde nos enfiaram a pedalar, estamos conversados em relação a isso, mas também não iremos ultrapassar as dificuldades ao volante dos obsoletos automóveis, mesmo que sejam topos de gama equipados com chauffer público nunca excedentário. Só com investimentos em transportes colectivos, públicos; sistemas de tarifários integrados; gestão efectiva dos espaços para estacionamento e restrições à circulação de veículos motorizados; valorização e incentivo de todas as alternativas ao automóvel individual, é que poderemos manter alguma esperança contra o fatalismo das autoridades, com a pequeno ou com A grande. E sobre isto parece nada pensar aquele que representa o tal Estado governativo.

A crise pode ser uma oportunidade para mudar e corrigir. Pode ser mas se nada fizermos será apenas mais uma oportunidade perdida. A promoção da bicicleta ajudará a indústria portuguesa do sector, que por acaso é a maior da Europa, financiará o comércio e dinamizará novos serviços, poupará combustível, promoverá hábitos de vida saudáveis e melhorará a qualidade de vida não só de quem pedala. Dará um pequeno mas não insignificante empurrão na economia. Para tal é necessária vontade política, audácia, ousadia, imaginação como a que têm revelado as autoridades por exemplo na Moita, em Vila Real de Santo António, em Peniche, em Águeda, em Almada. Do que não precisamos, nem temos sinceramente paciência, é para o discurso derrotado pelas dificuldades, especialmente de quem é pago para nos vir apresentar soluções.

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