Arquivo de David Byrne

DE COERÊNCIAS E PROPORCIONALIDADES

Posted in cycle of live with tags , , , on 20 de Março de 2012 by Humberto

A frequência com que me têm pedido conselhos para a escolha duma bicicleta tem sido inversamente proporcional à minha assiduidade escrevinhadora. Partilhar com alguém a decisão de comprar uma bicicleta no contexto em que me pedem opinião, é uma verdadeira honra. E é também um sinal que anda por aí muito boa gente repensar nas coisas que por aqui se julgam relevantes. Não precisamos partilhar a mesma opinião sobre o sentido da vida mas gostamos de bicicletas.

Há cada vez mais bicicletas nas ruas. Em qualquer parte de cidade de Lisboa já não surpreende ver uma bicicleta a passar, pedalada por um cidadão com ar de quem vai na sua vida normal. Há até quem em tempos de incerteza, aposte no negócio de bicicletas e ainda por cima com preços da outra Europa! Florescem na blogoesfera bicicletas pedaladas por esse país adentro. São editados a revista B e o jornal Pedal, dedicados ambos à bicicleta-de-trazer-pela-cidade. Surgem espaços onde se convida a bicicleta a entrar, a viver a bicicleta. Há hoje, comparativamente claro, bicicletas por todo o lado!

A bicicleta é, desde que se tornou comum, o mais democrático dos veículos. Foi sempre um transporte libertador e, de alguma forma, livre. A bicicleta serve como afirmação da necessidade de modelos de vida e mobilidade alternativos sendo uma opção voluntária e ponderada para muitos ao mesmo tempo que para outros é a única alternativa, é mesmo o único meio de transporte disponível, acessível. Independentemente das motivações ou constrangimentos, até aí somos todos iguais, quando pedalamos: é preciso ter perninhas.

Respondendo à curiosidade por ter optado pela bicicleta para se deslocar em Manhattan, David Byrne respondeu que a escolha nada tinha a ver com preocupações ambientais nem era resultado de qualquer dilema filosófico, prendia-se apenas com o facto de, na sua cidade, ser a maneira mais rápida de chegar do ponto A ou ponto B. Olhando para o percurso de artista e, mais recentemente a intervenção activa na defesa da bicicleta urbana do autor de “Nothing But Flowers”, não lhe são seguramente indiferentes as encruzilhadas que o Homem do século XXI tem pela frente. A bicicleta é apenas uma coerência mais na sua existência.

E é de certeza por coerência que o velocípede faz parte da vida de muitos de nós. Sem grandes debates filosóficos ou questões morais. Simplesmente porque precisamos delas para nos sentir melhor, porque não temos outra maneira de ir de aqui-prali, porque a gasolina está pela hora da morte, porque o ambiente agradece, porque odiamos automóveis, et cetera & tal… Vá uma pessoa desleixar-se e a bicicleta entra de tal maneira na nossa vida que alguns até lhe dedicam -imagine-se!, blogs! Arrisco mesmo, e sem qualquer base cientifica, que nunca houve tanto estudo, tanta tese académica sobre a utilização da bicicleta e assuntos adjacentes. O que é coerente.

Ela, a bicicleta, move-se e, entretanto o tempo passa. Os poderes acomodam as massas e a crítica esbate-se com medo de desagradar e ficar de fora da fotografia. No Parlamento perde-se a oportunidade de alterar efectivamente o Código da Estrada e sugere-se em vez uma oportunidade ao Governo de ficar com os louros. Basta ver o que aconteceu com a chamada lei das 125, e perceber que o que se aprovou foi uma perda de tempo. As ciclovias do Zé são cada vez mais certificadas de inúteis na promoção duma cidade ciclável. Quando não geram conflito com o peão roubando-lhe o já precioso espaço dos passeios, servem de poiso ao inimputável carro!

Não é preciso ser doutor para perceber que a bicicleta mexe com interesses, alguns instalados outros em fase de instalação. A escola da vida ensina-nos que no entretanto saem prejudicados os interesses dos do costume, do cidadão que só quer seguir a sua vida, pedalando para todo o lado, seja essa escolha mais ou menos académica. Porque é simplesmente mais rápido ou porque não é amigo do Gaspar, o tal que anda a deixar o cidadão cada vez mais curto de massas. Ainda por cima é mais saudável para todos! Ao fim e ao cabo é tudo uma questão de coerência

DE GERHY A GEHL

Posted in cycle to know with tags , , , , on 17 de Dezembro de 2011 by Humberto

Há uns quantos anos a cidade de Lisboa teve por presidente alguém cuja obra que marcou o seu condado foi um buraco em forma de túnel com o mérito prometido e alcançado de meter mais depressa, mais carros dentro da cidade.

Esse senhor, dando seguimento ao imbróglio que ligou a CML e a empresa Bragaparques, os terrenos da Feira Popular e o Parque Mayer, resolveu contratar um gabinete de arquitectura conhecido por obras que não ficam exactamente escondidos em becos… conhecidos autores de alguns museus Guggenheim e do hotel Marqués de Riscal, Espanha.

Pelos serviços contratados à Gehry Partners foi paga uma quantia, digo eu… alta. E acrescento: foi paga muito justamente, já que o trabalho tem de ser remunerado, e afirmo-o porque andam por aí uns senhores amigos do ex-presidente a tentar impor o contrário, mas isso é outra história. Ou talvez não…

Bom, mas dizia eu que o contrato foi cumprido na medida do executado. Uns desenhos e umas reuniões e passa para cá os euros. Não escrevo considerações sobre a obra do mestre canadiano. A tanto não me alcança a pretensão! Sendo um arquitecto com obra espalhada por todo o mundo, considero um privilégio para a capital ter um edifício projectado pela dimensão de Gehry.

Não seria apenas o ego do edil presidente que engordaria com a assinatura de Frank Gehry pespegada numa parede de Lisboa. Eu, que associo à linha intelectual santanista os violinos de Chopin ou o CCBamarracho, reconheço modestamente que gostaria de também viver numa cidade Gehry, Lloyd Wright, Soutinho, Siza, Ando, Calatrava.

Duas ordens de razão assistem porém às minha dúvidas sobre a empresa do então autarca: primeiro, o lugar escolhido para acolher a mestria do arquitecto, a imponência do seu talento confinado num beco sombrio e segundo, relevância do projecto nas necessidades da cidade. Tanto por tão pouco.

De tudo quanto se gastou -ainda por cima em vão! o mais caro foi o tempo. Durante meses foi andando um comboio que chegou a lugar nenhum. O dinheiro foi-se e nada apareceu no seu lugar. O tempo passou e não se pode voltar atrás.

Quanto tempo e quanto dinheiro custaria ter pago por algo que em minha opinião, tarda por chegar: um projecto verdadeiro para reformar a rede viária? Um estudo sobre mobilidade e consequente acção transformadora? Quanto custaria, em tempo e em dinheiro, chamar Jan Gehl e Helle Søholt para virem conhecer o Cais do Sodré e a Mouraria, as Avenidas Novas e a Gulbenkian, o Fado e a luz -uma e outra, o maduro e o verde, a Senhora do Monte e as tasquinhas de Marvila, o Mercado da Ribeira e as bifanas, as chamussas do Martim Moniz?

Mas sobretudo, o quando se ganharia em dinheiro e em tempo!

O pequeno filme que se segue é uma viagem por Nova Iorque feita em jeito de estudo in loco por gente que passa a vida a tornar as cidades dos outros um nadinha melhores. Enquanto grande fã dos dotes musicais e escrevinhadores do anfitrião Byrne, ciclista aficionado e praticante, desde já me proponho para ser o Byrne alfacinha. Ofereço o meu tempo e, se for por ajuste directo, levo baratinho.

O QUE FAZER COM ESTE U

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 25 de Outubro de 2009 by Humberto

A Câmara Municipal de Lisboa retirou um parque que havia instalado mesmo em frente a uma loja de bicicletas perto da Praça do Município e no seu lugar pintou um para, imagine-se… motos!

Antes existia um estacionamento de bicicletas em U como outros que foram instalados em diferentes pontos da cidade. Agora há uma caixa pintada de amarelo, delimitada por pinos para uso exclusivo dos motociclos. Ao lado foi reservado um espaço para as máquinas sem motor, mas já sem direito a UU o que faz com que esteja sempre ocupado pelas vizinhas mais fortes.

Em conversa informal com um elemento da gestão do trânsito lisboeta, fiquei a saber que houve necessidade de encontrar espaço para as motos, que o parque de bicicletas não era usado e que outras lojas em Lisboa pediram para que lhes fosse montado uma parque à porta também.

Em vez de se encontrar um lugar para as motos no estacionamento para carros, até porque há um parque subterrâneo mesmo ali ao lado, ou elaborar um plano que disponibilizasse bike-racks onde isso fosse possível e se justificasse, em vez de privilegiar a inovação e o propalado investimento na bicicleta, a prática é demonstrativa do longo caminho que ainda têm de percorrer certas mentalidades.

Infelizmente a loja não vende motos, porque já lá entraram interessados cidadãos nesse ramo de actividade. Desculpem os mais sensíveis porque apesar deste blog tentar, até à exaustão, manter-se longe de interesses comerciais não publicitando produtos, marcas e lojas, neste caso a notícia fala mais alto.

Já agora, e para dar uma ideia de como podem as coisas ser diferentes, em Manhatan, por ideia do David Byrne, foi lançado um concurso para bike-racks. David ficou tão entusiasmado com a ideia que desenhou umas quantas, mas como não podia concorrer, as suas foram feitas extra concurso e montadas nos lugares que serviram de inspiração à sua concepção. Segue o vídeo feito pelo The Wall Street Journal online.

O NATAL É QUANDO UM HOMEM QUISER

Posted in cycle to work with tags , , , , on 14 de Outubro de 2009 by Humberto

O segundo inquérito que aqui foi proposto mostrou que a instalação de cacifos na SIC seria o melhor incentivo ao uso da bicicleta. Metade das respostas coincidiram na necessidade de serem criados espaços onde se possa guardar o kit de higiene, uma toalha e um par de chinelos, o mínimo para quem pretende ficar como novo depois do esforço a pedalar. A outra metade das respostas dividiu-se equitativamente entre a existência de um parque de bicicletas e pelo financiamento à compra das bicicletas.

The Villager bike rack by David Byrne in NYC

Os parques de bicicletas são cada vez mais frequentes na paisagem urbana. Um pouco por todo o lado, por iniciativa pública ou por decisão privada, há já um considerável número de espaços onde se pode deixar a bicla mais ou menos segura, sem necessidade de recorrer ao poste do sinal. Nem sempre o tipo de estrutura ou o lugar onde é instalada é o mais eficiente, mas estamos ainda no início do regresso da bicicleta e admitamos que o método de tentativa e erro é muito apreciado sempre que se trata de intervenções no espaço público.

Recentemente o Partido Ecologista Os Verdes tentou que a Assembleia legislasse deduções sobre despesas com bicicletas. Se as empresas puderem participar em esquemas fiscais que facilitem aos seus funcionários a aquisição de bicicletas, passarão a envolver-se activamente na mobilidade sustentável. Medidas desde tipo são ainda vistas com muitas reservas, com mostra o resultado da iniciativa parlamentar, há no entanto a esperança que as empresas encontrem maneiras próprias de acompanharem os tempos de mudança. Parcerias comerciais ou financiamentos próprios são algumas das soluções que as empresas  podem adoptar e assim corresponderem à vontade de um quarto das respostas ao inquérito.

A existência de um lugar seguro onde guardar alguns pertences pessoais era comum em muitas empresas. Na tentativa de “racionalizar” espaço, os cacifos e outras amenities foram sendo abolidas. Depois de alguns anos sem acesso a instalações sanitárias completas, os funcionários da SIC viram essa lacuna colmatada. Esse pequeno esforço da empresa foi muito importante na mobilidade de alguns dos seus trabalhadores. E deu um sinal positivo para dentro e fora da empresa.

Menos de trinta pessoas responderam ao inquérito, o que significa que outros tantos cacifos reduziriam as desculpas dos ainda renitentes. Aqui fica o desafio!

BICYCLE DIARIES por DAVID BYRNE

Posted in cycle of live with tags , , , on 4 de Agosto de 2009 by Humberto

Quando juntamos na mesma frase Nova Iorque e bicicleta, dificilmente não nos virá à lembrandura o nome e a música de David Byrne. Porque amanhã é bike wednesday aqui fica uma sugestão de banda sonora e um livro para ir lendo nas pausas do caminho*.

Since the early 1980s, David has been riding a bike as his principal means of transportation in New York City. Two decades ago, he discovered folding bikes and started taking them with him when travelling around the world. DB’s choice was initially made out of convenience rather than political motivation, but the more cities he saw from his bicycle, the more he became hooked on this mode of transport and the sense of liberation, exhilaration, and connection it provided. This point of view, from his bike seat, became his panoramic window on urban life, a magical way of opening one’s eyes to the inner workings and rhythms of a city’s geography and population.

Bicycle Diaries chronicles David’s observations and insights — what he is seeing, whom he is meeting, what he is thinking about — as he pedals through and engages with some of the world’s major cities. In places like Buenos Aires, Istanbul, San Francisco, and London, the focus is more on the musicians and artists he encounters. Politics comes to the fore in cities like Berlin and Manila, while chapters on New York City, and on the landscaped suburban industrial parks and contemporary ruins of such spots as Detroit, Pittsburgh, and Columbus are more concerned with history in the urban landscape. Along the way, DB has thoughts to share about fashion, architecture, cultural isolation, globalization, and the radical new ways that some cities, like his home town, are becoming more bike-friendly — all conveyed with a highly personal mix of humor, curiosity, and humanity.

* Ouvir música enquanto se pedala pode evitar escutar os sons do trânsito e é prática pouco segura. O bom senso deve imperar, sempre.

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