Arquivo de Copenhaga

Aufsteigen, bitte!

Posted in cycle to know with tags , , , on 11 de Novembro de 2013 by Humberto

mercedes_bike

A Alemanha pode ser o motor da Europa por algumas boas e algumas más razões. É sobretudo um país onde se tenta fazer sempre melhor. Um país grande e diverso em que a bicicleta há tempo ganhou o estatuto de primeira escolha. Os índices de transporte urbano em duas rodas podem não ser os mais altos mas são bastante invejáveis. Nuremberga desenvolve desde 2009 um ambicioso projecto de promoção da bicicleta. Em quatro anos Nuremberga é mais ciclável e muito mais ciclada.

Os responsáveis alemães pelo projecto foram recentemente até Copenhaga e fizeram um filme inspirador. Copenhaga é a cidade que mais se tem afirmado como líder da promoção da bicicleta urbana. Pelo cruzamento de vertentes paisagísticas e arquitetónicas, do planeamento urbano alicerçado numa gestão sustentada do espaço público e das redes de transporte, e sobretudo pela colocação do Homem enquanto ser social, como centro do desenho urbano, Copenhaga tornou-se num verdadeiro berço e laboratório de ideias, um bebedoiro de modernidade onde todo o mundo vai beber um pouco de saber.

O filme está narrado e algumas entrevistas são em Alemão. Eu não encontrei nenhuma versão legendada em Português ou sequer em Inglês, mas como as entrevistas feitas na capital Dinamarquesa foram respondidas no idioma de Bradley Wiggins, vale bem a pena ouvir. E ver já que as imagens duma cidade submersa em bicicletas é sempre muito refrescante! Imaginem se eles tivessem este nosso fantástico clima! Os entrevistados são Camilla van Deurs, Partner Gehl Architects, Mikael Colville-Anderson do Copenhagenize e a Andres Røhl, Manager of Cycling em Copenhaga.

E já agora, alguém que daí desse lado saiba como, faça o favor de fazer chegar este filme às vereações municipais. Quem dera que valesse a pena fazer chegar até ao Governo mas como o filme passa o tempo a falar em diferentes formas de investimento público, o mais certo era o actual secretário de estado dos transportes (com letra pequenina, muito pequenina de propósito) fazer logo um dos seus discursos, com as habituais doses de desconhecimento, lugares comuns e demagogia barata!

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… E AGORA, ALGO DIFERENTE

Posted in cycle to know with tags , , , , , on 18 de Outubro de 2013 by Humberto

Os níveis de debate têm sempre a ver com o estado em que os debatentes se encontram. Por isso é que há sempre, em matérias que digam respeito a tudo o que gira à volta das bicicletas, alguém que está tantos anos, ou mesmo mundos, à frente do nosso dia-a-dia ciclista.

Da mesma forma que podemos aprender muito sobre como resgatar a soberania e a independência para Portugal com a história recente de tantos países da América do Sul, podemos percorrer pedalando outras longitudes para, pelo menos tentar não repetir erros e, quem sabe, ser até inovadores.

Aqui fica um pequeno exemplo elucidativo, bem elucidativo até, do nível da “coisa”.

AS MODAS DA BICICLETA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 26 de Março de 2012 by Humberto

A bicicleta vai de moda em popa. Está in que é como quem diz é bem. É bem andar de bicicleta, é bem dizer que se anda, é bem falar da bicicleta. À medida que se vai implantando de novo no dia-a-dia duma certa urbanidade, torna-se mais apetecível e monta uma escala de valores e relações à sua volta e dos que a usam. É mais transversal que outras modas como o skate ou o surf, e mais barata que a das motos. Tem adeptos novos e não tão novos, ricos e remediados, elas e eles, à esquerda e à direita, de tweed e de lycra, em NY e em Xangai, Lisboa e Bogotá.

É chic! E chic no original quer dizer sexy, uma mistura de sensualidade com sexualidade. Quem põe a bicicleta no altar da moda, pinta-lhe os lábios, desce-lhe o decote e rasga-lhe rachas nas sais. Da mesma maneira que o faz quando costura peças de roupa da moda. Pode parecer estranho, mas Copenhaga não é uma cidade habitada quase exclusivamente por mulheres jovens, altas, bonitas e ciclistas. Essa é uma imagem da moda da bicicleta exportada tão bem mas, como todas as imagens da moda, é apenas uma metáfora. E que boa metáfora!

A Notícias Magazine número 1035 deu à estampa página e tal sob o título “A moda das Bicicletas”. Só não percebo a razão do plural já que só lá pode estar por engano, visto que apenas um par de rodas ilustra a reportagem: uma solitária linda e apetecível bicicleta da avozinha. E moda porquê? Por causa duma mão cheia de retratos em formato pequeno de gente-que-vai-a-todas? Actores, cantores & políticos, flagrados enquanto pedalavam? Poupem-me… E o texto com três parágrafos a assinalar 45 anos da história do velocípede no… século XIX? Estranha noção de actualidade. Para completar o quadro fashion lá estão quatro objectos relacionados com a bicicleta com o quanto & onde, a remeterem para o sempre tão desejado consumo a pedal. Não fora a oportuna referência ao jornal Pedal, agora que saiu o número dois, e a incongruência seria total.

Já nem digo que acho fantástico que a austeridade portuguesa, aplicada à bicicleta, dê em tamanha pobreza mas nem a Fátima Lopes, que como se sabe é rapariga poupadinha quando toca a desenhar roupa e ainda mais nos trapinhos que veste, tem uma visão tão limitadinha de a Moda. Por muito que vir e revir a revista, não encontro glamour nenhum numa multi-ferramenta de bolso nem no mini-Sarkozi, embora me surjam algumas ideias interessantes sobre o que fazer a um com o outro… Já sei que é sempre bom que se vá falando e que mais vale pouco que nada e a lenga-lenga do pobrezinho-e-mal-agradecido mas, ó gente, atão isto é que é a moda das bicicletas???

Reconhecendo-se que há uma moda das bicicletas então mostrem-se bicicletas da moda, mostrem-se objectos em voga, mostrem-se as tendências do ciclismo urbano e do desportivo se for esse o caso e se é que sabem as diferenças. Não me precisam de mostrar mais uma vez a mesma fotografia do Brad Bitt para falar da moda das bicicletas. Será que não vêem que é repetitivo, que estão fartos de mostrar famosos de ocasião a pedalarem ocasionalmente? Quanto tempo é que NM vai estar agora sem voltar ao tema das bicicletas? Por isso é que me custa o tempo que se perde e o papel que se gasta de forma tão inconsequente. Eu não sou mal agradecido, sou é um nadinha exigente sobretudo com gente que não sabe nada para além de fazer uns quantos telefonemas e arranjar umas fotografias para um “oh-tão-giro-compra-compra”.

E estava eu neste inquieto cogitar e a abanar a cabecinha um tom reprovador, quanto ao virar a página da revista aparece a Fátima Lopes. Agente a falar nela e ela aqui à coca, de bracitos cruzados e até muito vestidinha. A revista quis saber que três objectos ajudam a designer a ordenar o agitado quotidiano. A saber: um telemóvel que a mantém sempre ligada ao mundo; um imprescindível computador muito mais rápido a desenhar que o lápis; um automóvel, esse “objecto de primeira necessidade”, sinónimo de liberdade de movimentos e independência. E eu imagino logo a Fátima Lopes -que é moça inspiradora de imaginações descuidadas, num escaldante vestido escarlate, a acelerar pelo Bairro Alto o seu intrépido Mercedes-Benz, como naqueles anúncios a carros onde as ruas das cidades são sempre desertas, onde nunca há engarrafamentos. Onde somos sempre livres e felizes.

Está na moda dizer-se que a bicicleta está na moda, mesmo que não se saiba bem porquê, da mesma maneira que a Fatinha julga que o carrito dela lhe dá total liberdade. Como é que uma pessoa, ao mesmo tempo que admite total dependência do automóvel, afirma que esse mesmo objecto lhe dá liberdade? Liberdade teria a estilista se não dependesse do carro para se deslocar na cidade e pudesse fazer como faz a Vivienne Westwood que usa a bicicleta no agitado quotidiano londrino. E o que ganharia Lisboa com muitas alfacinhas a pedalar colina acima, colina a baixo embrulhadinhas pela FL! Conheço um rapaz que não se importava nada de registar isso para partilhar e mais tarde recordar. E não estou a falar de mim..

Ia a Fátima a Londres e levava com ela, nem que fosse numa viagem de estudo virtual, a malta da NM para verem como é que, em vez de andar atrás de modas, se faz moda. Aos senhores do DN e JN não lhes daria muito trabalho e poderia ser que tivessem umas ideias. Daqui dos altos desta tribuna lhes grito “dêem uma vista de olhos às páginas do liberal The Guardian e às do conservador The Times e aprendam como se pode tratar a bicicleta de forma jornalística, às vezes mais a sério, outras mais light, com mais ou menos decote mas sempre com critério e com respeito por quem os lê. Nem que seja apenas por moda“.

BICICLETA DO POVO

Posted in cycle to know with tags , , , , , on 28 de Setembro de 2010 by Humberto

A razão para o antigo blog ter derivado para esta coisa do commuting, foi por eu achar que a solução para os problemas de mobilidade só se poderem resolver com soluções integradas, que incluam todos os que “comutam” diariamente. Façam-no por não importa que meios. Não tenho, ou pelo menos procuro não ter, uma visão sectária e redutora da bicicleta.

Tenho para mim que compete a quem planifica e implementa os diverso sistemas de transportes, quem gere e ordena o espaço para estacionamento e quem regula as vias de comunicação, criar condições para todos nós encontrarmos uma alternativa para as nossas deslocações regulares em condições sustentadas e sustentáveis.

Tirar ao veículo privado o papel preponderante nas nossas cidades não é a mesma coisa que ser anti carro, porque isso seria, para lá dum erro, uma impossibilidade prática, da mesma forma que imaginar uma cidade moderna sem considerar a bicicleta é uma grandessíssima asneira com dispendiosas consequências. Tirar o carro do centro da nossa vida é, acima de tudo, contribuir para que todos, incluindo os empedernidos dependentes dele, tenhamos uma melhor qualidade de vida.

O carro, tal qual como o conhecemos hoje e os que aí hão-de vir, fará parte da nossa mobilidade durante muito tempo. Avaliando o que se passa nas cidades onde as políticas de mobilidade são mais progressistas, o carro continua a ser uma presença massiva. Apesar das grandes restrições à circulação de carros particulares, Londres não ficou sem engarrafamentos, nem muito menos Copenhaga é propriamente um exemplo de cidade com pouco automóveis, para lembrar apenas duas urbes tão na berlinda.

A bicicleta que a Volkswagen apresentou na China -e que melhor lugar para apresentar uma bicicleta!- é um veículo pensado para um determinado e muito especifico utilizador. Uma bicicleta exclusivamente eléctrica, sem propulsão a pedal, dobrável e arrumável no espaço da roda sobresselente do carro, é ideal para quem queira, e possa! levar o carro até determinado ponto da viagem e daí continuar sentado num selim. A marca promete que não se trata apenas dum prototipo.

Este tipo de proposta ao mercado é bem reveladora do valor que a mobilidade em duas rodas assume mesmo para o “inimigo”. Uma empresa globalmente capitalista, o grupo VW, seguramente que não desperdiça uma boa oportunidade de negócio sempre que ela surja, nem que para isso tenha de dizer aos seus clientes para aderirem à moda do pedal.

SEREI CHIC? OU WHO CARES!

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 1 de Setembro de 2010 by Humberto

Este post vem como resposta a uma resposta a um comentário deixado por este vosso amigo no recém nacionalizado cicle chic. Por ser demasiado longo, preferi pô-lo aqui.


Não querendo problematizar a minha opinião sobre o senhor de Copenhaga, pois não passa disso mesmo: da minha opinião, permita-me, caro Miguel, que acrescente o seguinte.

Eu também acho que o trabalho do Mikael tem sido muito notório, já quanto aos resultados em todo o mundo, depende um bocado do que entendermos por resultados.

Acompanho os blog do senhor Colville desde muito cedo. Já contribui com algumas fotografias para o seu acervo e, como vê mesmo aqui à direita, existe a ligação para o copenhagenize.

Acompanho, como por certo também acompanhará, o trabalho de muitos outros blogs e especialistas em mobilidade urbana, transportes sustentáveis, arquitectura, e demais apaixonados pela bicicleta e do modo de vida que ela propõe, deste e do outro lado do Atlântico.

Saberá, como eu sei, que existe uma aposta institucional por parte das entidades dinamarquesas para fazer de Copenhaga a cidade mais ciclável do mundo. O trabalho do Mikael encaixa na perfeição nessa estratégia, sobretudo porque a capital da Dinamarca não está sozinha na corrida…

Na minha modesta opinião, que é menos entusiasta dos efeitos práticos que a vida do senhor Colville – em particular do CCC- tem na divulgação da bicicleta, que a opinião do Miguel, o cicle chic tem muito menor impacto no real que no virtual. É, isso sim, um lugar com, e repito, belas fotos de belas raparigas em cima de belas bicicletas. Ponto! Isso ajuda muita gente a olhar a bicicleta de outra maneira? Seguramente! Mas quando fala de massas, refere-se exactamente a quê?

Ando diariamente de bicicleta. Para o trabalho, para o mercado, para todo o lado, e vejo todos os dias muitas pessoas que também andam de bicicleta. Muitas usam roupas casuais, algumas até chinelos. Será que têm net em casa? Pensam sobre a bicicleta? São gente chic?

Conheço pessoas que vão da Parede para o aeroporto de bicicleta. Mais de 60km ida e volta! Concordará que é uma viagem, digamos, difícil para ir de sandálias. Claro que quando passam pelo Terreiro do Paço, com as suas roupas apropriadas ao percurso, se o Mikael as visse através da sua elegante objectiva, ignoraria-as enquanto objecto “cicle-chic”. Eventualmente até diria: “cruz-credo, que gente tão pirosa! que falta de estilo!” E no entanto…

É deste sectarismo que falo. E já o discuti com o senhor Colville, que me argumentou com a vocação mais glamorosa que do seu blog, não pretendendo abordar “questões fora de determinada estética” (sic). É legítimo!

Mas basta ler um dos últimos post que o Mikael escreveu, para a questão sobre inclusão ou exclusão ficar esclarecida. O ciclismo de estrada é um desporto nacional em Espanha, em Portugal, na Holanda, na Bélgica, em França, até na Dinamarca! e uma das grandes montras para promover a bicicleta. E um atleta é sempre alguém com muito estilo!

Numa realidade como a nossa, não faz sentido manter à margem uma população como aquela que já pedala, já tem bicicleta e muitas vezes só precisa dum empurrão. Um empurrão para a pôr a rolar para lá daquela volta a Monsanto ou ir ali a Santarém e voltar. Ostracizar todos os que pedalam por “desporto” e afunilar no gueto dos que se acham chic, creio não ser um bom trabalho em prol da promoção da bicicleta. É o Mikael que segrega quando escreve “Here’s the Vuelta a Espana for the rest of us” (o sublinhado é meu).

Acredito que as intenções do Miguel não sejam a transposição para paisagens da cidade de Lisboa, de pritty girls on old dutch bikes, até porque ao fim dum mês tinha esgotado os modelitos. Vejo Lisboa como uma cidade humanamente mais genuína que Copenhaga, com melhor clima e cerveja bem mais barata.

Numa sociedade cada vez mais mercantilizada, choca-me sempre que uma causa nobre -no caso, a bicicleta como meio de transporte sustentável-  é utilizada exactamente para promover o consumo.

Na vida, o lado estético é muito importante, mas não o podemos dissociar da questão prática e funcional. Eu sou dos que prefere uma mulher normal. Os modelos são para os homens sem imaginação.

UM CAPUCHINHO AMERICANO EM COPENHAGA

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 8 de Agosto de 2010 by Humberto

Embora os tempos modernos não nos dêem muitas razões para cruzar o Atlântico em busca de bons exemplos, até porque os senhores que por lá governam se esforçam -e com bastante sucesso, diga-se de passagem, por exportar umas quantas coisas ruins. A verdade é que não se pode tomar o todo pela parte. Ou partes. Refiro-me, claro está, aos Estados Unidos da América.

Felizmente que existem bastantes partes com um olhar interessante sobre o resto do mundo. Duma destas partes de gente estado-unidense, saiu um grupo que veio até ao lado de cá do oceano, passou-nos por cima (mais coisa menos coisa) e aterrou em Copenhaga, a tal cidade que aspira a ser a capital do movimento urban cycle chic, por ocasião da Conferência Velo-City 2010.

Nota-se, arrisco eu, alguma escassez de horizontes, certo andar-às-voltas, pouca dinâmica do movimento institucional pró-bicicleta por terras lusas. Num também mea culpa, e depois da última campanha para as eleições autárquicas, em que a temática das duas rodas a pedal esteve muito na ordem mediática, temos andado todos a olhar um pouquinho mais para as nossas sombras no asfalto e, exceptuando algumas e pontuais iniciativas de carácter mais ou menos regular, no passa nada!

Embalados pela crise, entretidos com a bola, protegidos da chuva, o tempo vai correndo e o estacionamento automóvel gangrena o que resta de cidade, os pavimentos são dignos dos melhores bairros de Luanda –no offense! os transportes públicos agonizam… enfim, a coisa continua como se o mundo tivesse parado de rolar.

Neste vídeo, vêem-se imagens de encher o olho! mais uma vez captadas pelo pessoal do Street Films. Ouvem-se opiniões e impressões de pessoas empenhadas em tornar as suas cidades mais humanas, urbanas, modernas. Cidades que estão lá longe. Umas mais frias, outras mais quentes. Umas maiores, mas algumas do mesmo tamanho, com problemas semelhantes e de certeza com gente como nós.

Descubra as diferenças!

O SEU A SEU DONO

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 20 de Setembro de 2009 by Humberto

Embora não tenha dados estatísticos, arrisco dizer que sair de casa-entrar no carro-deixar-se conduzir pelo fluir do trânsito-estacionar, é, grosso modo, a rotina matinal e diária de muito de nós.

Com pouco esforço e usando uma expressão da moda, facilmente se consegue esmiuçar cada um destes passos e perceber por exemplo que, no particular da vida de cada uma, entrar no carro pode ser no abrigo duma garagem ou ao relento em cima da passadeira que há noite ninguém multa, e que a viagem duns é feita por ruas frias e cinzentas e a doutros encandeados do sol nascente lá longe no Tejo oriental. E que estacionar pode ser tarefa mais ou menos fácil, não dependendo isso apenas da destreza do condutor, mas sobretudo da hora a que se chega e do destino onde se arriba.

Pearl Street Triangle Plaza, DUMBO, Brooklyn

O espaço necessário para deixar parados todos os carros que entram na cidade de Lisboa, ou noutras que isto de carros está o país muito bem servido, não é pouco e se pensarmos no valor que tem o metro quadrado de terreno urbano percebemos quantos euros de terra ocupa um estacionamento. Imaginemos que cada pessoa que não se faz chegar ao trabalho de carro, exige o mesmo espaço à Câmara para estender uma espreguiçadeira ou montar uma mesa de piquenique e almoçar com os colegas. Poderia sempre argumentar que não polui e humaniza a cidade. Porque raio haveria de ter menos direito ao estacionamento?

O transporte público, a bicicleta e outros meios de transporte suave (adoro esta expressão e lembro-me de certos troços deixados em “paralelo” da ciclovia do Tejo) são as opções que as cidades devem incentivar.  São opções democráticas porque tratam todos da mesma maneira e devolvem aos cidadãos o poder sobre as suas ruas. Os espaços pedonais que sirvam todos os cidadãos, quer sejam condutores ou não, os espaços verdes, os bancos onde podemos parar e descansar, as esplanadas, são sinais de cidades democráticas onde o valor da terra -um bem de todos que é único e que não se fabrica mais- é justamente repartido por todos.

Continuar a construir túneis, avenidas pretas e largas, alamedas de quatro faixas, perímetros listados de laranja e branco, despejar contentores aos milhares no centro da cidade, é continuar a entregar o espaço que a todos pertence a apenas alguns, os quais, as mais das vezes, nada pagam por esse privilegio. É continuar a investir os fundos escassos e valiosos num modelo de cidade que tem os dias contados, e que nos condena a viver numa urbe que nos grita aos ouvidos: Não vos quero aqui! Cidade com muros e ameias onde não somos bem vindos, a não ser que nos apresentemos revestidos de plástico e chapa.

Copenhaga, Amesterdão, Melboourne, Nova Iorque, Almada, são algumas das cidade exemplares no que à sustentabilidade concerne e isso deve-se a trabalho intenso e persistente ao longo de anos. Quando as decisões políticas começaram a encurralar o carro e a tirar-lhe o protagonismo houve o mesmo tipo de resistências que por cá se ouve por parte dos homólogos protagonistas. A sensação que menos um lugar à porta da loja deixará mais um consumidor fora do negócio, é um entendimento normal, mesmo quando visto longe da luta partidária pelo poder autárquico. Em Copenhaga esse entendimento mudou.

As cidades de Bogotá, Dublin, Londres, Praga, Roterdão, Zurique, Milão, Malmö , Sevilha, dizem-nos que é possível reivindicar o espaço que por tempo demasiado nos foi subtraído. Basta apenas que se faça por isso. Duma vez por todas!

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