Arquivo de ciclovias

MENTALIDADE SEGURA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 5 de Novembro de 2013 by Humberto

esquemaA segurança dum ciclista na estrada é posta em causa não pela acção concreta dos automobilistas mas sobretudo pelas ideias de segurança que tem a grande maioria dos automobilistas. Eu explico.

É legítimo um automobilista, ou qualquer outra pessoa, achar que quem pedala na estrada põe em risco a própria segurança, e até a segurança dele, automobilista. É razoável que quem de dentro dum automóvel, olha aqueles que se transportam em cima duma estrutura frágil, sem nada que os proteja dos elementos para além da própria pele e enfrentam na mesma arena máquinas muito mais fortes e velozes, pareça estar a arriscar muito e dessa forma, a pôr em risco a própria segurança.

Por haver um efectivo risco quando se anda de bicicleta no meio do trânsito automóvel, é reconhecida a necessidade de adaptar e actualizar a legislação, especialmente o Código da Estrada (CE), de maneira a aumentar a segurança para todos os utilizadores das vias. Mas uma vez publicadas as regras ideais, ficaríamos todos mais seguros? Como se implementa uma lei que obriga os automobilistas a passarem a pelo menos metro e meio dum bicicleta?

Um rápido olhar pela janela e damo-nos conta de como, apesar de tantas regras e sinais, o estacionamento automóvel é livre. quase anárquico. Ou como as velocidades impostas como limite, são na verdade e quase sempre as velocidades mínimas.

Não é o CE que vai fazer os automobilistas deixarem de me passar tangentes na Marginal. Muito menos será a polícia a medir as ultrapassagens irregulares. Quando tenho de ser automobilista existe uma única razão pela qual me afasto dum ciclista para uma distância segura e só então o ultrapasso. E essa é a única razão que fará com que outro qualquer automobilista se afaste também: a consciência de que ao agir doutra maneira, poria sempre uma vida em risco.

Em cidades onde a bicicleta é um alien, ainda que um alien simpático, é impossível circular sem rolar pelo passeio, desmontar sempre que se cruza numa passadeira, respeitar todos os semáforos ou nunca passar um verde-tinto, descer uma rua em contra-mão. Quer dizer, não é que seja uma impraticabilidade pura, é mais uma coisa natural já que um ciclista sente-se sempre mais próximo do peão que dum veículo motorizado. Andamos, vemos e ouvimos como um peão e é normal que interajamos com o meio duma semelhante maneira.

Faz sentido tirar as bicicletas do passeio quando se continuam a desenhar ciclovias pelo meio da calçada? Estender uma carpete vermelha pelo meio dum velho e esburacado tapete não é um convite ao “passeio”? Claro que é! É mais ou menos como marcar um seminário sobre nutrição na Confeitaria do Marquês.

A alteração das regras só é motor para mudar as mentalidades se houver implementação efectiva ditas. Embelezar os calhamaços sem cuidar do lado prático pode até contribuir para a ideia de que a “lei” não serve para nada. Tirar as bicicletas do passeio porque assim obriga a segurança dos peões, vai fazer com que, à medida que em Lisboa e noutras cidades, forem crescendo as áreas pedonais, estas sejam proibidas aos ciclistas. E isso não faz sentido nenhum!

Neste interessante artigo é sugerido o que pode a cultura da bicicleta no Japão ensinar ao Reino-Unido. Podemos aprender todos uns com os outros desde que acertemos na ideia que o que é essencial mudar são as mentalidades.

autocarro

AS FORMIGAS E OS CARREIROS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , on 14 de Maio de 2013 by Humberto

Os transportes públicos ou colectivos, o carro particular, as ciclovias e os capacetes são os lados que marcam o perímetro dentro do qual a bicicleta tenta encontrar o seu espaço. Sobre os TC escrevi um texto, seguido de outro sobre o automóvel e o que se segue é sobre ciclovias. Fica a faltar o lado dos capacetes.

Os transportes colectivos e o automóvel são o que todos temos de mais certo quando pensamos em sair de casa. Tanto Lisboa e Porto como outras cidades de dimensão têm bons ou razoáveis serviços de transporte urbano. Não sendo a solução para todas as necessidades de deslocação e cada vez mais com preços pouco competitivos com o carro, os TC são um factor determinante de desenvolvimento urbano e medidor da qualidade de vida dos cidadãos. O carro particular é o rei & senhor das nossas cidades e só muito aos poucos e em casos sempre pontuais que se lhe tolhe os movimentos. É efectivamente possível aceder a toda a cidades de carro. Eventualmente não de todos os carros, mas há sempre um carro que lá consegue entrar. Tomemos aqui em Lisboa o Terreiro do Paço. Dizer-se que a Praça do Comércio está fechada ao trânsito é um pouco exagerado olhando o exclusivo parque de estacionamento em que na realidade se transformou.

A bicicleta, esforçada e sempre prestável, consegue adaptar-se para ser complemento tanto dos TC como do carro. É já comum verem-se transeuntes com uma bicicleta numa mão e um bilhete na outra. Para quem vive numa zona menos central e menos servida de TC, tem por exemplo de levar os miúdos à escola, pode mesmo assim contar com a bicicleta como solução complementar, se não de todos os dias pelo menos quando não chove. O capaceteduque davial antiga -ao qual voltarei um destes dias mas sobre o qual pode ir lendo alguma coisa– representa um pouco como cada cabeça encara a bicicleta e de dentro do qual se podem tirar todas as discussões, as ciclovias são o lado mais prático, ainda que apenas virtualmente, e seguramente mais mediático da bicicleta urbana. As ciclovias ou faixas cicláveis ou como quiserem chamar aos carreiros específicos para bicicletas, são sempre o lado mais visível e transformador do (re)aparecimento da bicicleta na cidade. As ciclovias introduzem um elemento novo na paisagem, infelizmente quase sempre, no passeio.

Sendo certo que as estradas não foram construídas para os carros, hoje existem exclusivamente para eles e tantas vezes contra tudo o resto. É compreensível que os maus da fita não abram facilmente mão de tamanho privilégio. Direi que estamos no ponto em que ganha consciência a necessidade de tirar o domínio ao carro. Depois virá o dia da manifesta “vontade política” de fazer, o que já se sente por aí… Mais tarde virá a “decisão” a que se seguirá o “pôr em prática” realmente.  Nas economias ditas emergentes o aumento do poder de compra de maiorias até há pouco tempo afastadas do grande consumo, leva à concretização do sonho legítimo de ser proprietário dum automóvel. Lá como cá o carro é o mais apetecível sinal social de sucesso. Lá como cá abre-se o livro das contradições comuns tão conhecidas no velho mundo ocidental. Globais são também os erros e as soluções. Tal como cá, constroem-se milhares de quilómetros de asfalto ao mesmo tempo que se renovam os transportes colectivos. Agora que esses países se deparam com a queda do número de ciclistas e de peões, aplicam-se os mais avançados conhecimentos de planeamento urbano. O mundo inteiro está a mudar, é só olhar à volta.

As ciclovias são uma das formas de tirar ao carro algum do totalitarismo de que tem beneficiado nas últimas décadas. O automobilista que circula nas cidades onde as ciclovias estão por todo o lado, sente-se mais como um “par” no espaço público e não como “dono”. Quando é construída uma via que segrega positivamente qualquer meio de transporte, há uma imposição da partilha, não só em termos do espaço concreto mas sobretudo em termos de direito ao espaço. A questão que persiste por ser esclarecida é, numa cidade como Lisboa, qual o papel reservado à bicicleta no contexto dos problemas mais abrangentes da mobilidade. Vamos por momentos situar-nos na zona de Campo de Ourique. Bairro residencial, com muito comércio e alguns serviços, bem servido por transportes públicos e simpáticos locais de paragem e convívio.

Quais os problemas de mobilidade que existem em Campo de Ourique? Arrisco a dizer que todos estão relacionados com o excesso de automóveis. Não apenas dos que circulam mas sobretudo dos que páram. Ou seja, o carro é literalmente dono de Campo de Ourique, o rei, e como é tratado o rei para além de ser tratado com toda a impunidade? Vamos agora olhar para o estado da Rua Ferreira Borges. Poderia ser outra das tantas que Lisboa tem nas mesmas condições. Conheço muitas estradas de terra-batida em melhores condições que a Ferreira Borges! Se os carros, os donos da estrada, os senhores de Campo de Ourique são servidos desta maneira, acredita alguém que as ciclovias sejam solução para a circulação de bicicletas em Lisboa? Porque é que se vê tantos ciclistas nos passeios da Avenida de Roma? Porque não há ciclovia ou porque não há segurança no asfalto?

Lisboa é pequena mesmo para quem a faz a pedalar, como deixou claro o Paulo Guerra dos Santos. Quando ouço que Lisboa tem um problema de trânsito costumo responder que sim, que tem, mas é um pequeno problema. Paris, Londres, Madrid, Berlim têm problemas de trânsito! O que Lisboa não tem, o que Portugal não tem, é a vontade política de pegar pelos cornos a besta. Timidamente introduz-se as zonas de 30km/h mas continua a ser permitido a total anarquia no estacionamento. No tempo da realidade aumentada vivemos uma verdadeira mobilidade reduzida tal o número de barreiras arquitectónicas, autênticas ratoeiras como as esferas de mármore nos passeios. Basta ver o que foi feito na Duque d’Ávila. No papel a coisa prometia mas quando olhamos ao nível o peão, o que encontramos? Uma floresta de pilaretes, canteiros, carros estacionados e uma ciclovia que é por onde toda a gente anda, com ou sem rodas, porque é o único caminho a direito.

Neste vídeo está tanto de Lisboa que quase dói!

Tirado daqui à Bicicleta Voadora

Ficou melhor? Sem dúvida, mas a questão não é apenas essa. Resta saber que tipo de melhor é que se anda a construir. As ciclovias não fazem falta nenhuma na Lisboa de hoje. Se amenizar a paulada que já está a pensar em dar-me, acrescento: salvo poucas excepções -nenhuma contemplada até agora. Quem tem beneficiado com as ciclovias são os peões que assim podem evitar as escorregadelas e tropeções da velhinha calçada. O que fará muito melhor que as ciclovias, a peões e a ciclistas, serão medidas muito mais urgentes como a acalmia de velocidade, a regulação efectiva do estacionamento e a proibição absoluta de estacionamento selvagem, nivelamento de passeios e elevação de todas as zonas de atravessamento, restauro dos passeios de forma a que seja possível andar a pé, com um carrinho de bebé ou cadeira de rodas.

As minhas excepções são uma ciclovia no eixo Liberdade/Fontes Pereira de Melo/Republica; Alcântara/Algés; Martin Moniz/Relógio; Baixa/Parque das Nações; na Marginal da Linha. Que dizer das ciclovias de Telheiras e de Benfica? Voltamos à mesma conversa do excesso de liberdade dada ao carro. Ambas são em bairros e os bairros não precisam de ciclovias para nada! A não ser que Telheiras e Benfica sejam bons mercados eleitorais… Tenho muita curiosidade em ver como vai resultar a requalificação do Bairro do Charquinho, em Benfica, já que finalmente alguma coisa de verdadeiramente relevante pode ser iniciada. É um projecto que mistura coragem política com envolvimento das populações mas sobretudo uma verdadeira transformação da estrutura. Vai sair caro em tempo perdido, o dinheirão que se tem gasto em meter ciclovias onde mal cabe um passeio, a fazer percursos que mais se assemelham às gincanas políticas dalguns autarcas. Apesar do fervor tantas vezes visto nas discussões que as ciclovias geram entre facções do activismo a pedal, as ciclovias têm sido pouco mais que uma artimanha para pescar votos e conseguir a simpatia dalguns militantes da causa ciclista.

A BICICLETA TEM AS COSTAS LARGAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 25 de Maio de 2012 by Humberto

Que anda meio mundo a enganar outro meio, mais coisa menos coisa e fora uns pozinhos, já o povo, sabedor e experimentado mas nem sempre aprendedor, diz. Que isto da bicicleta tem sido uma forma de gente muito dada à palavra fácil trepar ao cume da popularidade sempre tão rentável em votos e poleiros, não me tenho cansando de apontar. E acrescento: a bicicleta tem as costas realmente muita largas!

O regresso do festival de música rock ao alto de Marvila deu mais uma oportunidade de, a pretexto do desfraldar duns quantos mais metros de ciclovia alfacinha, estenderem-se ao comprido os habilidosos do costume. Tirando o ar casual do Caetano e uns quantos senhores que não saem de casa sem sentirem as carnes bem aconchegadas, a filha do Roberto que se não pedala, malha muito, e mais uns quantos pedalantes de inaugurais, as fotografias são até cómicas. É que isto das bicicletas, quando toca a andar, requer equilíbrio senhores, equilíbrio!

Mais do que me ficar a rir da azelhice alheia ou apenas dar lastro à má língua anti-festivaleira, até porque vou finalmente poder rever o boss em Portugal, a ideia de poder fazer o regresso a casa montado e a pedalar é muito convidativa -não fora o facto de cá para os meus caminhos esta passadeira rosa não servir para nada, quero apenas chamar a atenção para pequenos detalhes. Acredito que são os detalhes que definem se uma coisa é bem ou apenas feita. São os pequenos pormenores que fazem a diferença. São as picuinhices que dão o brilho. Mas… nem tudo o que brilha é oiro.

Reparem nas manetas de travão da bicicleta do senhor da boina. Deve ser adepto duma cena mais racing

A quantidade de fotografias em que o José Caetano aparece ao lado do António Costa!

Onde está a ciclovia?

A boa da Roberta deve ficar a pensar que andar de bicicleta em Lisboa dá barriga!

E para terminar, a revista Caras diz que o José Sá Fernandes é que é o presidente da FPCUB. Sim, era só o que nos faltava!

CICLISTAS MARGINAIS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 14 de Abril de 2012 by Humberto

Existem junto das entradas do passeio marítimo de Oeiras, na Marginal, uns sinais colocados pela Câmara Municipal condicionando, proibindo, a circulação em bicicleta. Sinais que são das coisas mais estúpidas que uma Câmara já fez! A de Oeiras achou que tinha de limitar o acesso a quem pense em ir de bicicleta para a faixa ribeirinha, por alegadas razões de segurança. Para evitar acidentes entre quem por lá caminhe e bicicletas, a CMO proibiu o acesso a velocípedes. Repito: é uma decisão estúpida sem qualquer sentido de justiça e perfeitamente irresponsável! A bicicleta é um veículo de passeio mas também é um veículo de transporte. Um cidadão pode usar a bicicleta para dar um passeio na zona ribeirinha de Oeiras e pode usar a bicicleta para se deslocar passando por essa mesma zona. Um munícipe pode chegar lá com a bicicleta em cima do carro, descarregar a bicla e dar por ali umas pedaladas ou pode ir até lá a pedalar desde casa. Uma pessoa pode ir sozinho ou levar os filhos de qualquer idade, a mãe, a avó, o vizinho ou quem quiser e ir pedalar junto ao rio.

Nos trajectos que um cidadão percorre no concelho de Oeiras quantos perigos enfrenta? Quantos atropelamentos ocorrem em Oeiras provocados ou sequer envolvendo bicicletas, por dia? Quantos cruzamentos, quantas ruas há no concelho de Oeiras sem passadeira? Quantas ruas há sem passeios? Quantos automóveis estão neste momento -em qualquer momento- estacionados em Oeiras de forma ilegal, pondo em risco a segurança dos utilizadores da via pública? Quantos automóveis são multados diariamente em Oeiras por velocidade excessiva ou mau estacionamento? Quanto gasta a CMO em arranjos de passeios devido aos danos causados pelo estacionamento abusivo? Quantos acidentes na via pública têm lugar em Oeiras por falhas de segurança?

Se a circulação de pessoas, porque é disso verdadeiramente que se trata, tem de ser limitada no passeio da Marginal em Oeiras, evocando questionáveis razões de segurança,  porquê só a quem quer circular de bicicleta? Então e quem escolher calçar um par de patins? Ou for de trotineta? Ou levar cães e ainda por cima com aquelas trelas extensíveis? E quem empurrar uma cadeira de rodas? E não serão os calções curtos de jogging um atentado à segurança cardíaca? Independentemente da perigosidade efectiva que são os eventuais danos causados numa criança pelo impacto com uma bicicleta circulando ainda que a muito baixa velocidade, será proibir a circulação em bicicleta a solução? E o que dizer do horário? De Abril a Outubro pode-se pedalar entre as 8 da noite e as 9 da manhã. Porquê? Porque não entre as 5 e as 7 da manhã e entre as 17:45 e as 22:17? Porque apeteceu ao empregado do Isaltino escrever aqueles algarismos e não outros quaisquer? E qual a razão para a exclusão permitir crianças até aos oito anos? Quer dizer que os pais das crianças constituem um perigo e os petizes não? Será que uma criança de oito anos não consegue pedalar depressa nem nunca poderá provocar um acidente?

No meu commuting cruzo-me com todo o tipo de ciclistas, desde o bike ninja ao licrafanático, a menina na bicicleta com cestinho e a velhinha pasteleira, o ranger da bicicleta de supermercado e a ligeireza da dobrável very english. Pessoas de colete reflector e capacete e outros de blazer e cycle cap. Uma coisa arrisco concluir: a atitude na “estrada” de quem pedala tem tudo que ver com o aspecto gráfico do conjunto homem-máquina e sugiro até um ditado, para constar num futuro dicionário, do tipo “diz-me como te vestes, dir-te-ei como pedalas”. Em paralelo, o aumento significativo de ciclistas urbanos a pedalarem em circuitos até há pouco exclusivamente utilizados por bêtetistas pouco convictos, faz com que os ciclistas mais desportistas se comecem a sentir assim a modos que deslocados. Realmente enfiar o corpito dentro duma fatiota plastificada e no mínimo de gosto duvidoso para ir pedalar para a Baixa é, direi curioso… Em Monsanto, no Jamor ou à volta da albufeira do Alqueva, ainda vá, mas na ciclovia do Tejo!?

Quero com isto dizer que não é preciso proibir -fosse isso possível! um determinado tipo de roupa para prevenir determinado tipo de comportamento. Sim, é de comportamento que estamos sempre a falar nos blogs sobre bicicletas, ou não é? Não é por proibir o excesso de velocidade na auto-estrada que o pessoal vai passar a poupar no combustível, ou é? Com sinalética própria, algumas marcações no pavimento e uns cartazes com umas dinamarquesas giras (porque não?), seria perfeitamente possível adaptar o trajecto, agora vedado aos ciclistas, à sã convivência de todos, de forma normal e civilizada. Se esse tivesse sido o caminho, teria a CMO dado prova efectiva de preocupação com a segurança dos seus munícipes e de todos os que visitam o passeio marítimo de Oeiras, independentemente da forma como se fazem delocar. Demonstraria bom senso no pensamento, inteligência no estudo e vanguarda na acção.

Uso quase diariamente o passeio de Oeiras, na medida em que tenho por principio utilizar as vias que me permitem circular com maior segurança. Adapto a minha velocidade de acordo com a via e com o trânsito, seja ele pedonal ou motorizado. Poder pedalar ao longo da água é não só um prazer individual pela paisagem que me acompanha mas também porque me cruzo com pessoas que partilham sentimentos semelhantes para com aquele espaço. A bicicleta é um veículo que, ao contrário do automóvel, promove a interacção e da integração. A Marginal é um lugar privilegiado da foz do Tejo. Percorrer toda a extensão desde Algés até Cascais ao longo do rio já mar, seja de carro, bicicleta ao a pé, permite desfrutar de boas vistas em lugares muito bonitos e agradáveis. É um caminho que se pode fazer a qualquer hora do dia ou da noite, em ambas as direcções e com qualquer tipo de tempo, sempre com prazer.

A atitude da CMO promove a associação entre insegurança e bicicleta. Faz com que alguns cidadãos -uma minoria, é verdade, que se cruzam comigo  me olhem de lado, com cara feia, como que dizendo “oh palhaço, não sabes que não podes andar aqui”. Esta proibição estúpida e injusta é mais uma prova que muitos autarcas, apesar de acções pontuais de relativo impacto mediático,  continuam ancorados numa arquitectura de pensamento contrária aos interesses da bicicleta. Proibir as pessoas de pedalar não resolve nada. As pessoas devem não só ser autorizadas a pedalar como devem ser incentivadas a pedalar. Pedalar aproxima-as umas das outras e do espaço que partilham. Torna-as mais parte do espaço comum. Pedalar torna-nos mais responsáveis para com o ambiente. Pedalar torna-nos melhor cidadãos. Perceber isto é meio caminho para não proibir ninguém de pedalar.

Não são umas ciclovias abandonadas e ineficientes ou meia dúzia de horas de Marginal sem carros que resolvem problemas estruturais e contribuem para uma melhor mobilidade no concelho de Oeiras. Todas as semanas aumentam as razões para experimentar ir para o trabalho de bicicleta na razão proporcional do aumento dos combustíveis e multiplicadas pelo preço-dos-transportes. A bicicleta está aí para ficar e proibir é não estar a ver um boi à frente do nariz! Será o caro leitor um commuter em Oeiras ou na Linha de Cascais? Utiliza o prezado leitor o passeio marítimo apesar da proibição? O que acha que podemos fazer para corrigir a situação?

DE COERÊNCIAS E PROPORCIONALIDADES

Posted in cycle of live with tags , , , on 20 de Março de 2012 by Humberto

A frequência com que me têm pedido conselhos para a escolha duma bicicleta tem sido inversamente proporcional à minha assiduidade escrevinhadora. Partilhar com alguém a decisão de comprar uma bicicleta no contexto em que me pedem opinião, é uma verdadeira honra. E é também um sinal que anda por aí muito boa gente repensar nas coisas que por aqui se julgam relevantes. Não precisamos partilhar a mesma opinião sobre o sentido da vida mas gostamos de bicicletas.

Há cada vez mais bicicletas nas ruas. Em qualquer parte de cidade de Lisboa já não surpreende ver uma bicicleta a passar, pedalada por um cidadão com ar de quem vai na sua vida normal. Há até quem em tempos de incerteza, aposte no negócio de bicicletas e ainda por cima com preços da outra Europa! Florescem na blogoesfera bicicletas pedaladas por esse país adentro. São editados a revista B e o jornal Pedal, dedicados ambos à bicicleta-de-trazer-pela-cidade. Surgem espaços onde se convida a bicicleta a entrar, a viver a bicicleta. Há hoje, comparativamente claro, bicicletas por todo o lado!

A bicicleta é, desde que se tornou comum, o mais democrático dos veículos. Foi sempre um transporte libertador e, de alguma forma, livre. A bicicleta serve como afirmação da necessidade de modelos de vida e mobilidade alternativos sendo uma opção voluntária e ponderada para muitos ao mesmo tempo que para outros é a única alternativa, é mesmo o único meio de transporte disponível, acessível. Independentemente das motivações ou constrangimentos, até aí somos todos iguais, quando pedalamos: é preciso ter perninhas.

Respondendo à curiosidade por ter optado pela bicicleta para se deslocar em Manhattan, David Byrne respondeu que a escolha nada tinha a ver com preocupações ambientais nem era resultado de qualquer dilema filosófico, prendia-se apenas com o facto de, na sua cidade, ser a maneira mais rápida de chegar do ponto A ou ponto B. Olhando para o percurso de artista e, mais recentemente a intervenção activa na defesa da bicicleta urbana do autor de “Nothing But Flowers”, não lhe são seguramente indiferentes as encruzilhadas que o Homem do século XXI tem pela frente. A bicicleta é apenas uma coerência mais na sua existência.

E é de certeza por coerência que o velocípede faz parte da vida de muitos de nós. Sem grandes debates filosóficos ou questões morais. Simplesmente porque precisamos delas para nos sentir melhor, porque não temos outra maneira de ir de aqui-prali, porque a gasolina está pela hora da morte, porque o ambiente agradece, porque odiamos automóveis, et cetera & tal… Vá uma pessoa desleixar-se e a bicicleta entra de tal maneira na nossa vida que alguns até lhe dedicam -imagine-se!, blogs! Arrisco mesmo, e sem qualquer base cientifica, que nunca houve tanto estudo, tanta tese académica sobre a utilização da bicicleta e assuntos adjacentes. O que é coerente.

Ela, a bicicleta, move-se e, entretanto o tempo passa. Os poderes acomodam as massas e a crítica esbate-se com medo de desagradar e ficar de fora da fotografia. No Parlamento perde-se a oportunidade de alterar efectivamente o Código da Estrada e sugere-se em vez uma oportunidade ao Governo de ficar com os louros. Basta ver o que aconteceu com a chamada lei das 125, e perceber que o que se aprovou foi uma perda de tempo. As ciclovias do Zé são cada vez mais certificadas de inúteis na promoção duma cidade ciclável. Quando não geram conflito com o peão roubando-lhe o já precioso espaço dos passeios, servem de poiso ao inimputável carro!

Não é preciso ser doutor para perceber que a bicicleta mexe com interesses, alguns instalados outros em fase de instalação. A escola da vida ensina-nos que no entretanto saem prejudicados os interesses dos do costume, do cidadão que só quer seguir a sua vida, pedalando para todo o lado, seja essa escolha mais ou menos académica. Porque é simplesmente mais rápido ou porque não é amigo do Gaspar, o tal que anda a deixar o cidadão cada vez mais curto de massas. Ainda por cima é mais saudável para todos! Ao fim e ao cabo é tudo uma questão de coerência

UM PEQUENO PASSO PARA O HOMEM…

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , , , , on 8 de Outubro de 2011 by Humberto

… um grande passo para a bicicleta. Desta forma se poderia resumir o dia de sexta-feira, sete de Setembro de 2011. Por volta da hora do almoço a SIC, embora com o atraso de um dia, transmitiu uma reportagem sobre a bicicleta em Lisboa. A pretexto da entrega duma bicicleta oferecida pela Federação a um bombeiro ciclista e criativo, a peça jornalística abordou -com a profundidade que permite uma peça de televisão mas sem a música dos Queen, o que já é um passo importante- dizia eu que a peça da SIC abordou a questão da bicicleta partilhada em Lisboa que nunca mais sai do papel. Pouco de novo foi adiantado, mesmo assim ficámos a saber que o vereador encarregue deste assunto, o senhor dos parques, jardins & ciclovias, também conhecido pelo Zé, espera ter a solução, que é como quem diz, espera limpar a areia da engrenagem até ao final do ano.

Foi um melhor almoço porque vi a bicicleta regressar à televisão numa abordagem que sobra do trivial da excentricidade costumeira. Miguel Barroso foi um excelente anfitrião e provou que tem pernas, porque dar boleia ao repórter de imagem de serviço na sua xtracycle requer muita entrega à causa, ainda para mais sem ajuda eléctrica. Só foi pena não ter sobrado fôlego para soprar de forma mais veemente o que lhe vai na alma sobre o imbróglio alfacinha! Já vinha o café a caminho para rematar o repasto quando o telefone acordou dum luto triste, para me dar boas notícias: manhã cedo tinha entrado a bicicleta pela porta grande na casa da democracia. A Federação Portuguesa de Cicloturismo e Amantes da Bicicleta assistiu na bancada dos convidados à apresentação de duas propostas de resolução, PPD/PSD e CDS/PP, e de dois projectos Lei, um do BE e outro do PEV, que recuperam no essencial as propostas já feitas na anterior legislatura. Por sugestão do PEV as propostas baixaram à comissão sem votadação com o compromisso numa solução consensual a todos os grupos parlamentares.

É exactamente este consenso que faria notícia, fosse este assunto parangonas na imprensa. Independentemente das diferenças ideológicas entre as seis forças políticas representadas na AR, existem hoje condições verdadeiras para que algo mude sem que fique tudo na mesma. Tanto o Bloco como Os Verdes mantém o compromisso para com a comunidade ciclista assumido em anteriores propostas. Os centristas assumem no Parlamento o que tinham prometido na campanha, nomeadamente num documento que enviaram após solicitação da Federação. O PSD, pela mão e voz dum deputado ciclista convicto, sócio da FPCUB e membro do Conselho Consultivo para a Mobilidade e do Biciauto, Pedro Roque de Oliveira, leu um texto consentâneo com as suas responsabilidades uma vez ser o seu, o Partido que sustenta o Governo. O PS, embora não tenha feito qualquer proposta nem guarde um passado feliz enquanto Governo, mostrou-se disponível para o tal consenso na discussão em Comissão da Especialidade.

Foi realmente um dia feliz para a bicicleta em Portugal, um dia que reacende a esperança de que algo vai finalmente ser feito. Uma manhã que nos faz acreditar que valeu a pena os esforços da Direcção da Federação no seu trabalho incansável de procurar apoios, abrir horizontes, promover este consenso que parece agora estar ali reunido à mesa da tal comissão. Mas é também um dia que exige de nós um brinde ao muito que há por fazer! A alteração do Código da Estrada não é a panaceia que corrigirá a anarquia rodoviária. A estipulação de todas as regras sobre a construção de ciclóvias e demais estruturas para peões e bicicletas não vai resolver a incapacidade inata da maioria dos autarcas automobilizados. Os senhores Barbosas estão por todo o lado e pensar que não entram no Parlamento é menosprezar o inimigo, primeiro passo para a derrota certa!

Mais importante que a bicicleta é quem pedala nela. E nela pedalam pessoas que perdem diariamente qualidade de vida. Diariamente nos apresentam um futuro onde não cabemos como seres humanos inteiros, um futuro sem direitos nem dinheiro, onde a sobrevivência será um luxo. O neoliberalismo galopante empurra os povos para a miséria a vemo-nos gregos ao espelho das notícias. Infelizmente não será a bicicleta que fará a revolução necessária, mas como prova a intenção de consenso na AR, é a vontade dos homens e a sua acção transformadora que pode mudar o rumo das coisas. Sem dúvida que seguirei o caminho mais feliz, farei girar os pedais mais confiante, olharei para o simplycommuting com, permitam-me a falta de modéstia, mais vontade, em consequências dum almoço bem acompanhado. Mas convém lembrar sempre que a única maneira de não cair é manter o equilíbrio, continuando a pedalar. Uma revolução de cada vez, uma volta dos pedais a cada passo.

OFERECE-SE AJUDA

Posted in cycle to know with tags , , , on 4 de Outubro de 2011 by Humberto

Nem toda a ajuda que vem de fora nos deixa mais pobres. Neste caso estendem-nos a mão e oferecem-nos mais de meio século de experiência em algo que estamos agora a tentar iniciar. Não aproveitar estes tempos de recessão para alterar hábitos de mobilidade e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis a par da defesa do ambiente e da qualidade de vida dos cidadãos, será agravar o atraso estrutural do nosso país em relação à tal Europa unida.

Cycling For Everyone from Dutch Cycling Embassy on Vimeo.

Até se deram ao trabalho de imprimir uma brochura em Português!

BICICLETAS, FOLHETINS & PARTILHAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , on 29 de Setembro de 2011 by Humberto

O folhetim das bicicletas partilhadas de Lisboa ganha interesse de dia para dia e promete entreter-nos durante muito tempo. Aquando da estreia, com o anúncio da implementação de um sistema de aluguer de bicicletas para daí a pouco meses, logo se viu que a coisas estava pensada para durar. No início do Verão 2008, há três anos portanto, foram as desejadas bicicletas prometidas pelo voluntarismo eleitoralista do recém eleito edil. Mesmo que passado todo este tempo essa informação tenha sido apagada do Portal do Cidadão, o texto tinha um sonoro título “Lisboa Vai Ter Rede de Bicicletas Partilhadas no Próximo Verão”.

Já em 2007 a agência Lusa noticiava contactos entre então vereador Marcos Perestrello e a J. C. Decaux com vista à introdução dum serviço de bicicleta partilhada na capital. O gabinete do vereador negou os contactos mas a empresa francesa assumiu o estudo por auto-iniciativa. Sintomático! Estas suspeitas serviram para aguçar o apetite dos espectadores para as peripécias que haviam de seguir-se. Desde então e por entre desavenças no seio dos correlegionários do presidente, dúvidas da oposição tanto à esquerda como à direita e a prepotência do eu-é-que-sei Sá Fernandes, foram sendo pintadas e marcadas coisas parecidas com ciclovias e lá foi lançado um concurso para a mediática Vélib à lisboeta. Já corria bem adiantado o ano da graça de 2009 quando finalmente foi aprovado em reunião de Câmara o relatório do júri mas  foi preciso esperar por Fevereiro do ano seguinte para ver proposto pela presidência o convite à apresentação de propostas e respectivo Caderno de Encargos.

Entretanto caiu o Governo da Nação arrastando-nos a quase todos para um buraco onde os de agora, que nos (des)governam, ameaçam enterrar-nos. Os tempo são duros, mais duros ainda, e não sobra dinheiro para “excentricidades”. Se por enquanto ainda ninguém nos veio dizer para esquecermos isto das partilhadas, a verdade é que estas coisas só se fazem com dinheiro, que não há. Dizem. De atraso em atraso lá vieram as pressões do vencedor do concurso, a tal empresa que faz estudos por livre iniciativa, de que a imprensa deu eco. “Se não há dinheiro para avançar com o total do projecto, que se avance com uma parte para segurar os nossos interesses” -parece ser o que dizem os senhores Decaux. Poderia ser uma solução, digo eu, mas será que existe viabilidade para Lisboa num projecto de bicicletas que custará bem mais de 3 milhões de euros por ano à autarquia?

Surge agora a notícia duma proposta(?) do vereador da mobilidade, Fernando Nunes da Silva. Segundo se lê trata-se dum sistema de bicicletas eléctricas a correr ao longo do rio que difere do defendido pelo seu camarada independente Sá Fernandes. E ficamos todos novamente colados ao ecrã a ver onde é que isto vai dar… A ajudar à festança, e como seria de esperar, estes assuntos são tratados com os pés (ainda por cima fora dos pedais) pelo jornalista de serviço, neste caso a senhora dona Ana Henriques no Público. O texto é mau sobre vários aspectos. Primeiro na escolha do título, porque se há coisa que não é novidade é a areia na engrenagem e a confusão na rede de partilha de velocípedes em Lisboa. Segundo porque na verdade não há incompatibilidade nos sistemas visto o agora apresentado(?) não ser substituto do primeiro, já que -e como diz no texto- se destinar sobretudo aos turistas. Ainda para mais sendo este assegurado pela empresa Ciclocidade que, garante a jornalista, será a custo zero para a autarquia. Terceiro, a jornalista não verifica a informação, por exemplo não confirma a questão -ridícula- da malha da rede dos cestos. Quarto, não ouve a presidência da autarquia. Quinto, nunca efectua um verdadeiro contraditório entre os visados na notícia.

E este tem sido um folhetim à antiga, onde os seus autores não vão atrás de modas e não auscultam a vontade dos espectadores, vão desenvolvendo o enredo a seu belo prazer e, verdade seja dita, sucesso não lhe tem faltado. Sabemos nós e sabem eles que há na blogoesfera páginas e mais páginas de, digo eu, bons contributos para o debate. Sabem eles como sabemos nós da existência duma velhinha e muito actual federação activamente empenhada na bicicleta urbana como meio de transporte. Conhecem eles e conhecemos nós uma embrionária e muito viva associação para a mobilidade em bicicleta. Mas recusam militantemente qualquer aproximação ao dialogo, à procura de contributos, parece que com medo que os cidadãos se envolvam e questionem as suas verdades sofismáveis! Perante isto, mais do que comunicados e disponibilidade para colaborações com o poder, o que os ciclistas de Lisboa precisam é de se demarcar desta forma de fazer cidade. É mostrar que estão fartos destes maus actores e ainda piores autores e folhetins reles. Ou será que também temos por aí uns interesses escondidos com pedais de fora e vale tudo para ascender ao estrelato?…

Quando vejo um político a fazer o pino numa campanha eleitoral, fico sempre com a sensação de estar a assistir a um número de circo. Chamem-lhe defeito profissional mas a verdade é que raramente me surpreendo pela positiva. O actual presidente Costa sentou efectivamente o rabo num selim e deixou-se fotografar a sorrir de capacete e tudo mas, como se vê, as fotografias apenas servem para continuar a promover este inglório folhetim. As imagens então captadas são usadas mais para denegrir a imagem das bicicletas do que o objectivo que estava na mente de quem escreveu aquele episódio. Só nos faltava mesmo é que os promotores de ideias nossas amigas andassem aos tiros aos pés uns dos outros! Porque na guerra pela cadeira do poder na capital, a imprensa vai jogar um papel decisivo e o Público vai marcando aos poucos o seu campo neste jogo. Basta ver o artigo que acompanha o que aqui nos trouxe.

VIVA O FIM-DE-SEMANA! v.1.2

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 3 de Julho de 2011 by Humberto

De repente e num só fim de semana, aconteceram em Lisboa três iniciativas mobilizadores de ciclistas. A azafama começou no sábado com o Lisbon Cycle Chic versão 1.2, despertou o domingo no Lisbon Bike Tour 2011 e terminou à tarde no 1º Naked Bike Ride. Apetece perguntar que seria dos ciclistas alfacinhas se não soubessem inglês? Mas adiante que as questões de idioma são meras picuinhices.

Todo o país tomou conhecimento sobre as diferentes passeatas por via das abundantes reportagens televisivas, radiofónicas e impressas. Mas será que o país foi devidamente informado? Será que os três acontecimentos originaram uma reflexão minimamente séria sobre o que ocorreu neste mui sui generis último fim de semana de Junho? Não me parece. Seria pedir demasiado a uma classe automobilizada e desmobilizada de causas.

Tanto o LCC como o NBR são eventos que pela dimensão e adesão, e pelos meios logísticos envolvidos, não se podem comparar ao LBT. Enquanto em cada dos dois primeiros estiveram cerca de 200 bicicletas, no segundo participaram para cima de seis mil pessoas. Olhando as fotografias de todos os eventos, o único fator comum é a bicicleta, embora nas de domingo à tarde outro atrativo motivo de interesse rivalizasse com os pares de rodas. Sabe bem ver que a Federação de Cicloturismo se associa aos eventos amadores mas é triste que a organização do Tour da ponte deixe de fora quem mais e melhor pugna pela bicicleta no nosso país.

Se ao chic se associaram duas lojas ativistas e uma marca dentro do espírito, já ao nu nem um vendedor de havaianas ou designer de biquínis quis despir o seu nome de preconceitos. Por outro lado, no outro lado do rio, até um fabricante de automóveis se associou a outras grandes empresas nacionais e várias mais pequenas, mais as autarquias de Lisboa e Loures e, imagine-se, a Associação Portuguesa de Surdos! Só parceiros de media foram quatro incluindo a rádio e televisão públicas e um jornal de negócios…

O LBT é um acontecimento puramente comercial, onde a troco de umas bicicletas de supermercado -pagas pelos inscritos! uma série de entidades se promovem, sob a capa de nos consciencializar para a necessidade dum futuro melhor. Pragmaticamente a verdade é que se muita daquela gente que, enfiada dentro de autocarros fez um domingo mais poluído, nunca dará uso à bicicleta que leva para casa ao ponto de perceber que aquilo não vale um chinelo, também é verdade que prova que com o incentivo correto milhares de pessoas enfiam um capacete horrível e ridiculamente verde na cabeça e pagam para atravessar o Tejo de bicicleta. Mais de seis mil pessoas foram ciclistas por breves momentos, gosto de acreditar que alguns ganharam o bichinho…

Quem por aqui vai passando saberá da minha opinião sobre a importação do conceito cycle chic. Não há evidentemente em Lisboa, ou noutra cidade portuguesa, matéria prima suficiente para alimentar um blog de fotografias que faças jus ao espírito da coisa. O Miguel tem no entanto feito um trabalho hercúleo na dinamização do chic virtual e do chique concreto e o encontro do Campo Pequeno é disso prova. Claro que o facto de aparecerem uns crominhos de joelheiras e cotoveleiras ou umas betetes xispête-ó só pode ter que ver com a conhecida incompatibilidade dos portugueses com o inglês técnico.

A maioria dos jornalistas, porque não percebem como se pode andar a pedalar só porque sim às voltas em Lisboa, a não ser para dar nas vistas e sair de casa mascarado, logo reparam que afinal só havia um ciclista de sombrinha e uma ciclista de chapéu a la Côte d’Azure. E por aqui se fica a possibilidade de falarem e escreverem sobre os mitos das colinas e do esforço para as subir, do medo do trânsito automóvel, das aberrantes ciclovias do senhor Zé, ou até e simplesmente de como pode ser normal andar de bicicleta na cidade, apenas com a roupa do dia a dia! Cheira-me que com a precarização nos medium e a diminuição geral de rendimentos de quem vive apenas do trabalho, a classe jornalística será das que mais depressa porá os pés nos pedais… mas isso é outra história.

Arrisco-me a dizer que o LCC é uma excelente oportunidade para nos encontrarmos espalhados pelos bancos do jardim e estender as bicicletas na relva, e ao sabor dumas imperiais e ao som de amenas cavaqueiras, convivermos também a falar de bicicletas. Talvez o LCC possa ser uma coisa mais informal, sem batedores nem ambulâncias*, em que o prazer esteja na viagem que todos faremos para lá chegar e, porque não, num passeio de 15 minutos à volta dum par de quarteirões em vez de quase uma vintena de quilómetros à moda da Massa Crítica. Para mim isto do chic é uma coisa mais contemplativa, mais na onda do “e na próxima semana vou ser o mais chique de todos!”

Para o fim ficou o último mas que era sem dúvida o mais aguardado dos três passeios. Conhecendo a capacidade interpretativa dos media antevi que a nudez anunciada, mais ou menos efetiva, relegaria para secundaríssimo plano os principais propósitos dos organizadores. Como é evidente não existe uma cidade de qualquer país onde seja possível circular como se veio ao mundo. Lisboa nem nisso é original. A originalidade prende-se com o facto de aqui a polícia se dar ao trabalho de mais uma vez evidenciar ao mundo a tacanhez e o provincianismo dos costumes.

Se todas aquela gente que foi desde o Parque Eduardo VII até à Torre de Belém tivesse mesmo tirado toda a roupa, o que é que a polícia faria? Deteria todos? Distribuiria mantas do exército? Ofereceria preservativos? Carregava a cavalo? Despia as fardas e dançava apenas com os cassetetes na mão? Taparia os olhos dos desprevenidos transeuntes? Que imagem ofereceriam aos turistas os policias? É que para a maioria das pessoas que das beiras dos passeios assistissem ao desfile dos ciclistas nus, a novidade seria a reação das forças da ordem.

Desde que soube da ideia de se organizar um desfile nu em defesa da bicicleta pelas ruas de Lisboa, que achei que a visibilidade do acontecimento ficaria preso aos corpos dos ciclistas e nem reparariam nas bicicletas. Assim de repente só me consigo lembrar da parte debaixo dum biquíni preto e esta nem é a minha cor preferida para usar na praia… Proponho que no próximo Naked Ride se vá apenas vestido com capas de chuva transparente e se transforme a defesa por uma mobilidade sustentável na luta por uma mentalidade sustentada! Ao menos assim poderia ser que os jornalistas falassem das bicicletas na cidade… Que me dizem?

* Acrescento que não houve ambulância no LCC.

Houve foi uma viva argumentação entre alguns ciclistas mais militantes e experientes e um polícia menos habituado às bicicletas e pouco sensível ao espírito de quem em cima delas desfruta da vida.

A autoridade defendeu a obrigatoriedade da presença dum veículo desse tipo, ainda para mais sabendo que o organizador tinha ido de charola, com argumentação meramente formal como aliás lhes é habitual, à autoridade claro.

Num país onde a assistência médica de proximidade é cada vez mais gerida desde uma visão troiquista (não confundir com Trotskista!), é aberrante –to say the least– este tipo de exigências.

CADA JORNALISTA TEM O PAÍS QUE MERECE

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , on 23 de Abril de 2011 by Humberto

O Bike Blog do diário inglês Guardian é uma excelente fonte de informação para quem não gosta de sentir os horizontes tolhidos pela pequenês da discussão portuguesa sobre as questões da bicicleta e, de forma mais lata, sobre mobilidade. No Bike Blog vários autores expõem a sua visão do mundo desde o ponto de vista de quem olha a vida por cima do guiador da bicicleta e os artigos quase diários frequentemente suscitam para cima da centena de comentários.

Talvez a principal razão para a diferença que existe entre o número de caracteres que as questões da sustentabilidade e do ambiente conseguem na imprensa lusa ou o tempo que é a estes temas dedicado pela rádio e televisão resida  na proporcionalidade que o envolvimento dos profissionais da comunicação social têm nestes assuntos sobretudo de forma pessoal. Naquilo a que às duas rodas a pedal diz respeito, quantos jornalistas viajam diariamente em transportes públicos e quantos pedalam no seu dia-a-dia?

Apesar de alguma maior atenção dispensada recentemente na comunicação social à bicicleta enquanto transporte urbano, a abordagem é, grosso modo, leviana e incipiente refletindo quase sempre preconceitos de senso comum. O jornalismo lusitano de forma geral é pouco dado a lançar discussões mobilizadoras, provavelmente por receio de poder ser acusado de ter algum interesse escondido, confundido falta de rigor com falta de independência. Claro que a isto não é estranho o facto dos jornais serem pouco lidos, a rádio ouvida sobretudo no carro e a televisão dominada por notícias sobre política, justiça e futebol.

Há já bastante tempo que guardava este texto nos rascunhos do Simply Commuting. É motivado por um comentário ao artigo que pode ser lido aqui. Matt Seaton escreve sobre o momento particular que se vive na cidade de Nove Iorque, Estados Unidos da América, em que forças políticas concorrentes em jogos de poder, usam uma pequena polémica a propósito duma ainda menor ciclovia dessa enorme cidade. O jornalista relaciona a forma como o sucesso do plano revolucionário de transporte da grande maçã, personalizado pelo Mayor Michael Bloomberg e pela sua Comissária para os Transportes Janette Sadik-Khan, pode afetar a nível global o triunfo da bicicleta nas cidades.

O autor do comentário, um Joseph de Maastricht, já usou este mesmo texto em vários artigos no Guardian mas nem por isso as suas palavras deixam de ter interesse. Se por um lado o artigo de Matt Seaton é de relativa importância para quem não vive nos states, é também uma demonstração da forma como estes assuntos são acompanhados por publicações que têm vários milhões de pageviews por dia no mundo inteiro. Por outro lado o comentário dará a quem ler este artigo aqui no SC -e caso seja jornalista melhor ainda! uma lista da quantidade de bandeiras que poderemos todos erguer no sentido de tornar o nosso Portugal definitivamente num seguidor de boas práticas ao nível da mobilidade.

Numa altura em que até a “ajuda” nos é vendida por um preço que não poderemos nunca pagar, o caminho para o desenvolvimento de Portugal passa cada vez mais por uma alternativa às políticas ruinosas que nos conduziram aqui. A lista abaixo lembra que o futuro do nosso país passa por investimento público de qualidade. Joseph inomera várias razões para Maastricht não ser apenas uma cidade de má memória…

Aqui fica o texto do comentário no original:

For the interested here is the list of Key policies and innovative measures used in Dutch cities to promote safe and convenient cycling

Extensive systems of separate cycling facilities
• Well-maintained, fully integrated paths, lanes and special bicycle streets in cities and surrounding
regions
• Fully coordinated system of colour-coded directional signs for bicyclists
• Off-street short-cuts, such as mid-block connections and passages through dead-ends for cars

Intersection modifications and priority traffic signals
• Advance green lights for cyclists at most intersections
• Advanced cyclist waiting positions (ahead of cars) fed by special bike lanes facilitate safer and
quicker crossings and turns
• Cyclist short-cuts to make right-hand turns before intersections and exemption from red traffic
signals at T-intersections, thus increasing cyclist speed and safety
• Bike paths turn into brightly coloured bike lanes when crossing intersections
• Traffic signals are synchronized at cyclist speeds assuring consecutive green lights for cyclists
(green wave)
• Bollards with flashing lights along bike routes signal cyclists the right speed to reach the next
intersection at a green light
Traffic calming
• Traffic calming of all residential neighbourhoods via speed limit (30 km/hr) and physical
infrastructure deterrents for cars
• Bicycle streets, narrow roads where bikes have absolute priority over cars
• ‘Home Zones’ with 7 km/hr speed limit, where cars must yield to pedestrians and cyclists using
the road
Bike parking
• Large supply of good bike parking throughout the city
• Improved lighting and security of bike parking facilities often featuring guards, video-surveillance
and priority parking for women
Coordination with public transport
• Extensive bike parking at all metro, suburban and regional train stations
• ‘Call a Bike’ programmes: bikes can be rented by cell phone at transit stops, paid for by the minute
and left at any busy intersection in the city
• Bike rentals at most train stations
• Deluxe bike parking garages at some train stations, with video-surveillance, special lighting,
music, repair services and bike rentals
Traffic education and training
• Comprehensive cycling training courses for virtually all school children with test by traffic
police
• Special cycling training test tracks for children
• Stringent training of motorists to respect pedestrians and cyclists and avoid hitting them
Traffic laws
• Special legal protection for children and elderly cyclists
• Motorists assumed by law to be responsible for almost all crashes with cyclists
• Strict enforcement of cyclist rights by police and courts

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