Arquivo de Carcavelos

EU NÃO VOU AO DOLCE VITA TEJO

Posted in cycle of live with tags , , , , , , , on 10 de Maio de 2011 by Humberto

foto de LINK2GREENWAY

Vi este poster pela primeira vez na estação de Carcavelos, numa solarenga manhã de fim de semana, enquanto esperava pelo comboio que me havia de levar até Algés. A bicicleta de todos os dia, apoiada no descanso, ao notar o meu olhar fixo, atentou também no alvo da minha incredulidade. Pareceu-me que para tentar animar-me, lembrou-me que naquele espaço gigantesco ao menos existe uma não menos gigantesca loja de bicicletas, como que a dizer-me que compreenderia acaso eu lá quisesse ir, mesmo sabendo ela que são bicicletas doutro pedigree.

Absorto nas letras e números, quais coordenadas GPS, que nos indicam o caminho, levei algum tempo a perceber que o meu ar de náusea não tinha passado despercebido à minha fiel companheira, mas logo tratei de a confortar. Nunca lá irei! disse-lhe e acrescentei, Nada existe naquele lugar que me faça falta. Tudo o que ali está representado é a pura negação daquilo em que acredito, da razão que me leva a procurar viver da maneira que vivo.

Neste efémero cartaz publicitário também está o comércio de rua bem como todos os temas académicos sobre modelos de desenvolvimento urbano e social. Mas o que me chamou a atenção foram as indicações viárias para chegar a um lugar chamado doce vida que fica num buraco longe do rio que lhe dá o nome e em que nem há baleias! Toda a simbologia da coisa é incongruente. E aquilo foi tudo feito por gente inteligente, paga por gente rica, a mesma gente que anda a vender um futuro a um povo que tem a cabeça enterrada na areia. Areia do deserto em que isto se tornará se não dermos o salto para longe desta linha!

O comboio apagou da minha vista este borrão sujo e deprimente, levou-me ao destino de onde segui pedalando ao ritmo da verdadeira vida, doce como o rio que aos poucos vê regressar os saltos dos corvineiros brincalhões. Parei numa esplanada e pedi uma bica em chávena fria. A Trek sorria feliz.

ORELHAS DE BURRO

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 1 de Novembro de 2010 by Humberto

A escola é um porto de abrigo de onde se parte na aventura do conhecimento. É à escola que vamos para nos tornarmos cidadãos mais conscientes e participativos na sociedade em que vivemos. Por muitas ideias diferentes de escola que tenhamos, coincidiremos na obrigação que esperamos ser atributo da escola: um exemplo de valores e um modelo de comportamento. Pelo menos é desta forma que penso a escola. Já aqui prosei de como a escola, ou a falta dela, é também um problema de mobilidade. Hoje venho porque a escola da mobilidade é um problema de educação.

Na rotunda da via rápida (adoro este nome) que liga a Marginal à A5, que dá acesso ao centro de Carcavelos, esteve “abandonada” uma pickup com atrelado pertencente à Escola de Condução de Carcavelos, do grupo Segurança Máxima, que dessa forma se fazia anunciar a quem passava. Até aqui nada de novo, já que são frequentes os camiões estacionados por este país fora em lugares estratégicos, transformados em outdoors gigantes. “E se deixássemos o carro ali na rotunda parado de forma a que quem passe fique a saber da existência da nossa escola e venha cá dar-nos o seu dinheirinho? Poupávamos na publicidade e ainda mostramos que temos bons carros”, devem ter pensado os gestores da E de C de Carcavelos. Assim como assim têm de compensar os baixos preços anunciados. Só que a coisa não correu bem: vieram os senhores da empresa de estacionamento e zás! bloquearam a furgoneta modernaça e o atrelado!

Tendo em conta a importância que o automóvel ocupa nas nossas vidas, não é preciso elaborar muita teoria para reconhecer a importância que têm as instituições onde vamos aprender a conduzir-los. Em sociedades carrocêntricas como a em que vivemos, as escolas de condução têm um peso muito superior na formação dos cidadãos, mais do que a responsabilidade que lhes é exigida. Mais do que uma simples formação técnica e prática sobre a utilização da máquina/veículo automóvel e como coabitar na estrada com os outros condutores, é nas escolas de condução que aprendemos o código da estrada e as suas regras. Mais do que aulas sobre mecânica e com fazer um ponto de embraiagem, é nas E de C que aprendemos o Código da Estrada.

Quando uma E de C escolhe estacionar as suas salas de aula à lá garder pelas bermas das estradas à volta de Lisboa revela não só incumprimento das regras contidas no manual que se propõe leccionar, mas também uma profunda falta de civismo ao usurpar espaço público para seu exclusivo benefício. Atendendo neste sinal exterior de chico-espertismo que tipo de condução ensinarão nesta escola? Que espécie de condutores formará esta gente? E lembro que isto acontece num país onde uma professora não pode mostrar as mamocas por dar um mau exemplo à criançada!

A integração no ensino normal da aprendizagem das normas de circulação na estrada e na via pública, seja enquanto peões -que somos todos- patinadores, ciclistas ou motoristas, seria uma prioridade se a segurança rodoviária fosse realmente uma preocupação para quem nos governa. Se a educação física é importante para o desenvolvimento individual dum miúdo de dez anos, saber comportar-se na estrada também o é, e pode salvar-lhe a vida. De que morrem mais crianças em Portugal, de doenças sexualmente transmissíveis ou de acidentes de viação? Se se considera a maternidade adolescente um problema com custos sociais altos, porque não se olha com mais atenção para que prováveis futuros condutores estamos a preparar? Porque não há nas escolas Educação para a Mobilidade a par da Educação Sexual?

Não estou à espera de dar o pontapé de partida num debate nacional sobre esta questão, nem sequer proponho um aumento da despesa do Estado, a não ser claro está, se contratarem estudos de consultoria aos ex-directores dum qualquer instituto público encerrado. Também sei que há escolas em que as questões da mobilidade estão presentes nos afazeres académicos das criancinhas, da mesma forma que sempre houve professores que se interessaram por transmitir aos alunos um pouco mais de mundo para além das formatadas páginas dos manuais escolares. Mas se uma criança tem de aprender as regras do futebol, porque não pode aprender a andar de bicicleta na escola? Pronto, dirão alguns que já estou a delirar!… Estarei?

Quando encontramos na rua um carro de instrução temos sempre a tendência a enfatizar o seu comportamento. Ou porque vai a empatar, ou porque não usou o pisca, ou porque parou na passadeira, ou porque lhes lembrei a mãezinha quando me fazem razias. Até há pouco tempo muita gente pensava que se podia aprender a conduzir se se comprasse uma determinada marca de farinha e mais tarde veio a provar-se que não era bem farinha que alguns instrutores pediam por favor… Os carros das E de C são assim uma espécie de concentrado da fruta que se encontra pelas estradas. E já agora, se são escolas porque em vez de professores têm instrutores? Não é um bocadinho esquisito?

Moral, ou melhor, morais da história? Primeiro, afinal sempre há quem controle o estacionamento em Carcavelos, mesmo que seja só à volta da vila e onde não incomoda os transeuntes. Segundo, a E de C de Carcavelos não é lá grande coisa como exemplo e não mostra muito respeito pelo Código da Estrada. Terceiro, este é o artigo do blog com mais pontos de interrogação. Quarto, mais uma vez se verifica a máxima: não basta ser, há que parecer.

CHOVER NA PRAIA

Posted in cycle of live with tags , , on 10 de Outubro de 2010 by Humberto

Na quinta, sete, tinha marcado jantar com uns colegas -na verdade alguns já não são mas é como se fossem – na pizzaria simpática da praia de Carcavelos. Havia tempo que não nos juntávamos mas desta vez tinha sido tão simples marcar o encontro e havia todas as confirmações esperadas, que me deu um certo ar de satisfação quando liguei ao restaurante. Os caros leitores não acham também que vai sendo demasiado difícil conseguir juntar pessoas à volta duma mesa?

De manhã cedo tinha tirado a bicicleta da arrecadação e saído, como todas as quintas, à feira de Carcavelos e feito o avio do costume, tomado o café com o duchese do costume -na verdade o duchese foi embrulhado e viajou de alforge para ser compartido no lar, porque os natas estavam deliciosamente queimados. De volta ao ninho, prendi a Trek com o cadeado U ao sinal de rua-sem-saída em frente ao prédio e deixei-a a apanhar ar até que chegou a hora do encontro.

Ainda não pedalava havia um minuto e já a chuva me molhava a campainha, o guiador, o guarda-lamas, o boné, as calças, os sapatos. Tinha vestido um leve impermeável por causa das coisas mas a verdade é que as pedaladas entre o viaduto da estação de Carcavelos e a passagem subterrânea da Marginal fiquei que encharcado. Apanhei a primeira molha da época.

A cabeça estava seca porque a lã de chaxemira escocesa do boné cumpriu com os pergaminhos mas as coxas estavas ensopadas, os ténis encharcados e o casaco escorria água até aos bolsos. Aproveitei a forte corrente de ar que soprava pelos túneis, baixei o descanso a meio da passagem para salvaguardar a montada e abri os braços. Ajudou. Lá fora o mar enrolava a areia e gotas fortes eram empurradas para a sombra. Sozinho na penumbra senti-me bem. Eu e a bicicleta sem testemunhas, de braços abertos sequei o casaco.

Amainou a chuva e voltei a pedalar. As mesas por onde passaram os atletas amadores e destemidos que se cruzaram comigo, estavam vazias. Terá sido a chuva que os lavou de gente? A falta de  clientela tão habitual nestes privilegiados spots, apesar dos asfaltados parques de estacionamento, simboliza bem o desperdício de recursos e revelam à luz da lua o tanto que falta fazer para dinamizar este espaço. Às vezes o melhor é pedalar para esquecer…

Uma bicicleta amarrada à entrada da pizzaria ia anunciando aos comensais que eu já esperava lá dentro. A surpresa deles surpreendia-me: Como diabo havia eu de ter ido ao jantar? Por muito tempo comemos e conversámos pinceladas dos quadros das nossas vidas. Não se falou de bicicletas nem de carros nem de passeios nem de estradas até que a chuva ofuscou a vista escura da praia e ameaçava-me com um dilúvio no regresso a casa. Ai os olhares convergiram no meu ar de indiferença. À pergunta muda do “e agora?” respondi “parece que vou ter de tomar um bom duche quente à chegada”.

Algumas das viagens que fazemos oferecem-nos inesperados contratempos, sem olhar à maneira que escolhemos para ir ao destino. O autocarro que se atrasou, o furo no pneu do carro, o Bobi que resolveu desaparecer à última da hora, o puto que nos pede para parar porque bebeu muita água, a fila na ponte, o acidente na segunda circular. Cada um que acrescente de memória. Eu atrasei-me pela chuva. Na pior das hipóteses teria voltado para trás a pedalar até ao tal duche e feito a desfeita de faltar ao encontro. Mas isso não aconteceu, pois não? Então tudo está bem.

Lá pela uma da manhã, quando a única mesa que nos fazia companhia se levantou, os quatro resistentes seguimos-lhes os passos para alivio do staff. Já na rua contaram-se mais uns dedos de conversa. Não caía água do céu e as estrelas espreitavam por entre nuvens promissoras. Sacudi os salpicos do velho Brooks e acenei um “até à próxima” por entre os estalitos da corrente. A luz da frente ressentia-se da bênção outonal mas a viagem foi seca de água e rápida de grappa. Afinal nem foi preciso tomar um duche quente.

 

DIA DE MERCADO EM CARCAVELOS

Posted in cycle of live with tags , , , , , on 30 de Setembro de 2010 by Humberto

GENTE COM PRIVILÉGIOS

Posted in cycle of live with tags on 29 de Setembro de 2010 by Humberto

Há gente com sorte. Há gente que consegue levar uma vida de acordo com os seus valores, ou pelo menos tem mais facilidade em fazer por se sentir coerente neles. No meio da tempestade dos dias que correm, olhar à volta e não ver que o caminho pelo qual nos empurram nos leva a nenhum bom porto, é saber de experiência certo e os princípios, tecidos pela malha da coerência, serão o fio de Ariadne que nos ajudará a encontrar uma saída.

Entre a porta da casa e a pátio da escola onde o V reencontra cada manhã tanto do seu mundo, percorremos ambos, quando não temos a sorte da companhia da P e da mãe, uma centena de metros mal medidos. E não importa o rigor da distância porque se num dia é curta logo noutro pode ser mais demorada, e mais que aspirar ao fim da caminhada, vou-vos reter no andar até lá. Fechem os olhos.

Podemos começar pela música das sandálias de sola batendo na pedra das escadas e como esse som me faz trocar de calçado com o V e ouvir-me a descer outras escadas de outro prédio noutro tempo. Lá em baixo, lá fora, a rua chega-nos com um sol nascente e irradiante, quente como é a mão do V que me ajuda a atravessar a rua, contornar os carros -sempre os mesmos carros invariavelmente estacionados nos passeios, passar pela “floresta assustadora”, sentir o cheiro da salva, do alecrim e chegar à ribeira encanada pela mania de tudo comprimir.

Pelo meio da sebe, já se ouve a voz da Paulinha com os novos V, já tão parte do passado do meu V. Passamos pelo par de Testemunhas, testemunhas de como andam perdidos tantos homens e mesma assim tentam convencer outros que a solução não está na sua vontade. Sempre me pergunto porque não têm estes crentes os cem anos de solidão debaixo do braço e se oferecem para ler pedaços da obra a quem passa? Ou porque não entregam a quem lhes cruza o caminho, páginas rasgadas de velhas tele-culinárias?

Mas a resposta para todas as perguntas chega: pai, quero cavalitas. E lá seriam meia centena de vértebras cansadas que me tirariam o prazer daquele peso lindo a flutuar lá em cima? Até ao portão rimos por baixo dos ramos das buganvílias, tocamos a campainha com a ponta da sandália e acenamos bom dia à dona Eugénia. Penduro o saco feito pela mãe com a muda de roupa, o carrinho, as varinhas mágicas, a folha para a girafa e as pedrinhas, visto-lhe o bibe e, sim V, o pai vem buscar-te de bicicleta. Chegámos. À nossa volta giram apressados progenitores e rodopiam dormentes crianças, ainda envoltos nos doces odores a estofo automobilizado. Um privilégio!

fotografias tiradas pelo V

FEIRA DE CARCAVELOS

Posted in cycle of live with tags , , , , , on 23 de Setembro de 2010 by Humberto

Quinta-feira é dia de feira em Carcavelos e isso faz parte da cultura urbana de pelo menos três concelho, Cascais, Oeiras e Lisboa. As peregrinações à feira são pedaço da minha memória adolescente e das primeiras andanças no comboio da linha, bem antes de alguma vez imaginar que para cá me havia de mudar.

A-Mercado•B-Futura Feira•C-Parque Feirantes D-Feira Actual•1-Variante•2-Linha REFER

O lugar da venda é um terreno baldio, do lado mar da linha férrea, junto à via rápida que liga a Marginal à A5. Um terreno com cerca dum hectare, de terra compacta e vedado por rede, sem nenhum tipo de infraestrutura de conforto para feirantes nem compradores.

Apesar de esforçados funcionários camarários limparem o recinto depois da venda semanal acabar, e só o recinto, quem por ali passar num qualquer dia sem feira, pode apreciar as centenas de sacos de plástico presos na vegetação rasteira, acumulados ao redor do perímetro.

Nos dias de feira, uma mancha multicolor dum lado da estrada e uma mancha branca do outro. As alvas furgonetas dos feirantes, preenchem um parque automóvel improvisado como improvisado parece ser tudo nesta feira. Porque são muitas as pessoas que vêm de carro, é ver as latas abandonados por todo o lado, enquanto os orgulhosos donos poupam na roupa os trocos para a gasolina.

Um pouco mais para dentro da vila, está o mercado de Carcavelos. A praça. Com peixarias, talhos, florista, padaria, fruta e legumes em venda diária, que às quinta-feiras transborda frescura pelo pátio. Nos últimos meses tem sido ouvido com mais insistência um pedido para que se junte a feira dos trapos com a dos comes, pois se muita gente vem à procura dum par de truces, porque não levar um quilo de tomates da horta do senhor António?

E que diabo tem a feira de Carcavelos a ver com a mobilidade? Tem tudo, digo eu. Maus acessos, estacionamento automóvel anárquico, pavimento em péssimo estado, tudo dentro duma pequena vila, da minha vila morena de adopção. Vila que afinal de contas, calcorreio sem problemas, pedalando calmamente e utilizando os numerosos e tão desrespeitados sinais de transito como bikerack, quando vou e venho como hoje, encher os alforges de frescos semi-biológicos, beber um café em chávena fria e comer um duchese à pastelaria Primavera.

Mas se eu não tenho problemas em andar por Carcavelos, em ir à feira ou ao mercado, porquê todo o paleio? Ora, porque é tão fácil solucionar o que está mal e este mal arrasta-se há tantos anos! E como? Vejamos: os “trapos” passariam a serem vendidos no terreno em frente ao mercado; as carrinhas dos feirantes estacionadas no mesmo espaço que é hoje usado para esse efeito, mas devidamente pavimentado e organizado; bem como o actual lugar da feira, transformado em parque para visitantes. Como tudo isto está nos limites do miolo da vila, mantinha-se as ruas livres das latas forasteiras. Já agora, uma cobertura retráctil sobre o mercado, que abrigasse produtos e pessoas das agruras do tempo e desse um aspecto mais limpo que velhos toldos de lona sujos e gastos. E, claro, um parque para bicicletas!

Resultado, mais pessoas viriam, mais se venderia, mais qualidade de vida existiria. Alguém dúvida que até o comércio tradicional ganharia com isso? Carcavelos seria um melhor lugar para se viver e para comprar!

BAR DOS GÉMEOS

Posted in cycle of live with tags , , on 21 de Agosto de 2009 by Humberto

O Agosto deste Verão afinal é um verdadeiro Agosto!

Os fins de tarde e as noites têm sido como se espera que sejam as noites de Agosto e, quando o Agosto acabar, todos teremos por ter saudades dele.

Aproveitemos então o fim-se-semana!

O Bar dos Gémeos, na praia de Carcavelos é um bom destino para um passeio e o pôr do sol com sabor a gim tónico uma boa razão para tirar a bicicleta do descanso.

Bom fim-de-semana!

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