Arquivo de capacete

AS FORMIGAS E OS CARREIROS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , on 14 de Maio de 2013 by Humberto

Os transportes públicos ou colectivos, o carro particular, as ciclovias e os capacetes são os lados que marcam o perímetro dentro do qual a bicicleta tenta encontrar o seu espaço. Sobre os TC escrevi um texto, seguido de outro sobre o automóvel e o que se segue é sobre ciclovias. Fica a faltar o lado dos capacetes.

Os transportes colectivos e o automóvel são o que todos temos de mais certo quando pensamos em sair de casa. Tanto Lisboa e Porto como outras cidades de dimensão têm bons ou razoáveis serviços de transporte urbano. Não sendo a solução para todas as necessidades de deslocação e cada vez mais com preços pouco competitivos com o carro, os TC são um factor determinante de desenvolvimento urbano e medidor da qualidade de vida dos cidadãos. O carro particular é o rei & senhor das nossas cidades e só muito aos poucos e em casos sempre pontuais que se lhe tolhe os movimentos. É efectivamente possível aceder a toda a cidades de carro. Eventualmente não de todos os carros, mas há sempre um carro que lá consegue entrar. Tomemos aqui em Lisboa o Terreiro do Paço. Dizer-se que a Praça do Comércio está fechada ao trânsito é um pouco exagerado olhando o exclusivo parque de estacionamento em que na realidade se transformou.

A bicicleta, esforçada e sempre prestável, consegue adaptar-se para ser complemento tanto dos TC como do carro. É já comum verem-se transeuntes com uma bicicleta numa mão e um bilhete na outra. Para quem vive numa zona menos central e menos servida de TC, tem por exemplo de levar os miúdos à escola, pode mesmo assim contar com a bicicleta como solução complementar, se não de todos os dias pelo menos quando não chove. O capaceteduque davial antiga -ao qual voltarei um destes dias mas sobre o qual pode ir lendo alguma coisa– representa um pouco como cada cabeça encara a bicicleta e de dentro do qual se podem tirar todas as discussões, as ciclovias são o lado mais prático, ainda que apenas virtualmente, e seguramente mais mediático da bicicleta urbana. As ciclovias ou faixas cicláveis ou como quiserem chamar aos carreiros específicos para bicicletas, são sempre o lado mais visível e transformador do (re)aparecimento da bicicleta na cidade. As ciclovias introduzem um elemento novo na paisagem, infelizmente quase sempre, no passeio.

Sendo certo que as estradas não foram construídas para os carros, hoje existem exclusivamente para eles e tantas vezes contra tudo o resto. É compreensível que os maus da fita não abram facilmente mão de tamanho privilégio. Direi que estamos no ponto em que ganha consciência a necessidade de tirar o domínio ao carro. Depois virá o dia da manifesta “vontade política” de fazer, o que já se sente por aí… Mais tarde virá a “decisão” a que se seguirá o “pôr em prática” realmente.  Nas economias ditas emergentes o aumento do poder de compra de maiorias até há pouco tempo afastadas do grande consumo, leva à concretização do sonho legítimo de ser proprietário dum automóvel. Lá como cá o carro é o mais apetecível sinal social de sucesso. Lá como cá abre-se o livro das contradições comuns tão conhecidas no velho mundo ocidental. Globais são também os erros e as soluções. Tal como cá, constroem-se milhares de quilómetros de asfalto ao mesmo tempo que se renovam os transportes colectivos. Agora que esses países se deparam com a queda do número de ciclistas e de peões, aplicam-se os mais avançados conhecimentos de planeamento urbano. O mundo inteiro está a mudar, é só olhar à volta.

As ciclovias são uma das formas de tirar ao carro algum do totalitarismo de que tem beneficiado nas últimas décadas. O automobilista que circula nas cidades onde as ciclovias estão por todo o lado, sente-se mais como um “par” no espaço público e não como “dono”. Quando é construída uma via que segrega positivamente qualquer meio de transporte, há uma imposição da partilha, não só em termos do espaço concreto mas sobretudo em termos de direito ao espaço. A questão que persiste por ser esclarecida é, numa cidade como Lisboa, qual o papel reservado à bicicleta no contexto dos problemas mais abrangentes da mobilidade. Vamos por momentos situar-nos na zona de Campo de Ourique. Bairro residencial, com muito comércio e alguns serviços, bem servido por transportes públicos e simpáticos locais de paragem e convívio.

Quais os problemas de mobilidade que existem em Campo de Ourique? Arrisco a dizer que todos estão relacionados com o excesso de automóveis. Não apenas dos que circulam mas sobretudo dos que páram. Ou seja, o carro é literalmente dono de Campo de Ourique, o rei, e como é tratado o rei para além de ser tratado com toda a impunidade? Vamos agora olhar para o estado da Rua Ferreira Borges. Poderia ser outra das tantas que Lisboa tem nas mesmas condições. Conheço muitas estradas de terra-batida em melhores condições que a Ferreira Borges! Se os carros, os donos da estrada, os senhores de Campo de Ourique são servidos desta maneira, acredita alguém que as ciclovias sejam solução para a circulação de bicicletas em Lisboa? Porque é que se vê tantos ciclistas nos passeios da Avenida de Roma? Porque não há ciclovia ou porque não há segurança no asfalto?

Lisboa é pequena mesmo para quem a faz a pedalar, como deixou claro o Paulo Guerra dos Santos. Quando ouço que Lisboa tem um problema de trânsito costumo responder que sim, que tem, mas é um pequeno problema. Paris, Londres, Madrid, Berlim têm problemas de trânsito! O que Lisboa não tem, o que Portugal não tem, é a vontade política de pegar pelos cornos a besta. Timidamente introduz-se as zonas de 30km/h mas continua a ser permitido a total anarquia no estacionamento. No tempo da realidade aumentada vivemos uma verdadeira mobilidade reduzida tal o número de barreiras arquitectónicas, autênticas ratoeiras como as esferas de mármore nos passeios. Basta ver o que foi feito na Duque d’Ávila. No papel a coisa prometia mas quando olhamos ao nível o peão, o que encontramos? Uma floresta de pilaretes, canteiros, carros estacionados e uma ciclovia que é por onde toda a gente anda, com ou sem rodas, porque é o único caminho a direito.

Neste vídeo está tanto de Lisboa que quase dói!

Tirado daqui à Bicicleta Voadora

Ficou melhor? Sem dúvida, mas a questão não é apenas essa. Resta saber que tipo de melhor é que se anda a construir. As ciclovias não fazem falta nenhuma na Lisboa de hoje. Se amenizar a paulada que já está a pensar em dar-me, acrescento: salvo poucas excepções -nenhuma contemplada até agora. Quem tem beneficiado com as ciclovias são os peões que assim podem evitar as escorregadelas e tropeções da velhinha calçada. O que fará muito melhor que as ciclovias, a peões e a ciclistas, serão medidas muito mais urgentes como a acalmia de velocidade, a regulação efectiva do estacionamento e a proibição absoluta de estacionamento selvagem, nivelamento de passeios e elevação de todas as zonas de atravessamento, restauro dos passeios de forma a que seja possível andar a pé, com um carrinho de bebé ou cadeira de rodas.

As minhas excepções são uma ciclovia no eixo Liberdade/Fontes Pereira de Melo/Republica; Alcântara/Algés; Martin Moniz/Relógio; Baixa/Parque das Nações; na Marginal da Linha. Que dizer das ciclovias de Telheiras e de Benfica? Voltamos à mesma conversa do excesso de liberdade dada ao carro. Ambas são em bairros e os bairros não precisam de ciclovias para nada! A não ser que Telheiras e Benfica sejam bons mercados eleitorais… Tenho muita curiosidade em ver como vai resultar a requalificação do Bairro do Charquinho, em Benfica, já que finalmente alguma coisa de verdadeiramente relevante pode ser iniciada. É um projecto que mistura coragem política com envolvimento das populações mas sobretudo uma verdadeira transformação da estrutura. Vai sair caro em tempo perdido, o dinheirão que se tem gasto em meter ciclovias onde mal cabe um passeio, a fazer percursos que mais se assemelham às gincanas políticas dalguns autarcas. Apesar do fervor tantas vezes visto nas discussões que as ciclovias geram entre facções do activismo a pedal, as ciclovias têm sido pouco mais que uma artimanha para pescar votos e conseguir a simpatia dalguns militantes da causa ciclista.

BROCHURA INSEGURA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 12 de Maio de 2013 by Humberto

Se há frases completamente esbatidas, a “que uma imagem vale mais que mil palavras” é uma. Mas é também uma frase com um certo grau de, digamos, imprecisão. Uma imagem pode necessitar de mais de mil palavras para ser descrita ou ser até impossível de traduzir por adjectivos e subjectivos e preposições. Uma imagem é sempre uma mensagem e a mensagem é palavras. Comunicamos por imagens e palavras, associando sempre umas às outras. Reflectimos enclausurando imagens em palavras e socializamos a escolher as palavras que melhor transmitem as imagens pretendidas.

A escolha das imagens que usamos como mensagem é um acto voluntário e consciente e essa escolha é a construção da imagem que queremos de nós. Nós somos a mensagem porque somos comunicação. Uma imagem serve de ilustração ao texto da mesma forma que pode o texto ser completado pela imagem. A coerência de cada um é uma linha viável que une o discurso -pensamento, valores, ideais- e a acção -a parte visível de cada um aos demais.

O Ministério da Administração Interna através da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana, a FPCUB e a SportZone, protocolizaram (grande palavrão) a campanha de segurança rodoviária que deu um cartaz, uns autocolantes e até um filme simpático. Chama-se tudo “Duas ou Quatro Rodas, Há Espaço Para Todas”. É uma iniciativa importante já que marca o reconhecimento tácito pelo Governo da relevância que a bicicleta ganhou enquanto veículo de transporte. Esta campanha é um muito bom exemplo duma série de mensagens que remetem constantemente para imagens.

cartaz_campanha_2_4_rodasAs campanhas do tipo “partilhe a estrada” são sempre úteis para quem tenta dia-a-dia ganhar algum espaço, num meio tão desfavorável como são as estradas vistas e sentidas do selim. Recordar que a estrada é de todos e que um ciclista é tantas vezes um automóvel a menos no engarrafamento e a roubar o precioso estacionamento, lembrar que a bicicleta é um veículo perfeitamente viável em grande parte das deslocações urbanas, além de ser uma excelente forma de fazer exercício, são ideias muito positivas e especialmente bem vindas olhando às necessidades particulares e colectivas dos tempos actuais.

Embora ressaltem algumas imprecisões objectivas na brochura, como por exemplo afirmar que os automobilista e os ciclistas partilham os “mesmos direitos e deveres” ou argumentar que numa rotunda o ciclista se deve comportar “como qualquer outro veículo”, a campanha tem mérito também pela oportunidade de re-centrar a discussão na necessidade de adoptarmos todos, independentemente da quantidade de pares de rodas que usamos, comportamentos mais tolerantes e seguros. Claro que conseguir a disponibilidade do MAI e das Polícias, todos fundamentais na definição das políticas, da novas e desejadas políticas, que regulem, em lugar de desregular a estrada, é um feito relevante e que deve orgulhar a federação ciclo-turística. Ainda que seja tudo pago em publicidade.

Não seria particularmente motivo de admiração se os governamentais subscritores do referido protocolo, defendessem a obrigatoriedade do uso de capacete para quem se faz à estrada de bicicleta. Já estar a FPCUB associada a uma campanha em que o capacete aparece obrigatoriamente em todas as imagens, poderá aos mais incautos -escriba presente à cabeça- oferecer um travo de surpresa. Pois não é que todos os “bonequinhos” da brochura têm ou a cabeça bicuda ou uma semi-circunferência no alto do cocuruto? Pois é, a bonecada saiu toda pelo bico da caneta de capacete na carola! Vai-se a ver e as duas fotografias pespegadas no dito flyı -e aqui acrescento: uma menina numa e um menino na outra, tal qual manda o figurino, com ar de estranjas na certa! são de felizes ciclistas com a moleirinha bem aconchegada. Está tudo de capacete!

Leio com novidade que para os subscritores da dita brochura, FPCUB incluída, o uso do capacete é “altamente recomendável”. A ver se me faço entender: eu aceito a posição expressa na campanha com toda a naturalidade. A recomendação do uso do capacete é legitima desde que não envolva a defesa da submissão dos que assim não pensam a essa opinião. Ou seja, todos somos livres de opinar, mas cada um é livre de decidir. Mas quando se põe, numa brochura sobre a segurança dos ciclistas na estrada, todos de capacete, faz-se objectivamente uma declaração política. Ou não? E agora vamos tentar encaixar nesta posição a que diz “eu não uso capacete, pergunte-me porquê”.

Desconheço em que é que se baseia essa alta recomendação. O capacete será tão recomendável como um par de joelheiras e outro de cotoveleiras e já agora uma protecção de coluna e uns calções almofadados. E o capacete é fechado ou aberto e com protecção de queixo. A imagem que está escarrapachada na brochura é que um ciclismo seguro passa “obrigatoriamente” pelo uso do capacete. E disso há tantas provas que sim como há que não. O que há é a colagem da “obrigatoriedade” do uso do capacete à imagem da FPCUB. Será isso um investimento na segurança dos ciclistas?

QUANDO EU FOR GRANDE…

Posted in cycle of live with tags , on 3 de Setembro de 2010 by Humberto

… quero ter uma bicicleta sem pedais!
Embora seja politicamente incorrecto mostrar imagens de gente feliz a andar de bicicleta com capacete e associar este imaculado blog a marcas comerciais, não resisti a partilhar este vídeo.
Não tentem fazer isto com os filhos dos outros!

PARTILHAR PARA ALÉM DAS BICICLETAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 30 de Agosto de 2010 by Humberto

Sem pretender voltar a reacender a eterna questão que tão profundamente divide a comunidade ciclomotora, e apenas para tentar mais uma vez mostrar como nos é tão fácil distrairmos a atenção do que é essencial quase com fervor religioso, vou tentar ligar o capacete e a bicicleta, no caso a partilhada.

As ciclovias em Lisboa têm crescido a um ritmo que a uns parecerá lento, a outros ideal e de certeza que há quem ache que o barco vai a todo o gás. Eu sou dos que acha que se está a fazer a casa pelo telhado, mas adiante que não é disso que quero falar agora.

Vem isto por conta duma visita que fui levado a fazer ao lugar onde a Câmara Municipal de Lisboa afixou informação sobre as ditas ciclovias. Embora todo o palavreado estendido abaixo dum mapa catita onde aparecem as linhas que indicam os caminhos para a bicicleta, não ser nada pacífico naquilo que anuncia como objectivo e estratégia para o atingir, não é nisso que vos quero prender a atenção desta vez.

Tanto quanto sei, embora manifestado de forma muito tímida, o interesse da Câmara Municipal de Lisboa em dotar a cidade dum serviço de aluguer de bicicletas, à imagem de Paris, Barcelona e, mais recentemente Londres, mantém-se. Apesar de, se a memória não me falha, ter havido algum… exagero quanto a prazos, neste momento o exagero parece-me ser apenas o peso da bicicleta (até 24kg!), o número de velocidades que pode vir a ser de apenas 3(!) e não está previsto o funcionamento 24 horas por dia! Mas avancemos que também não é por aqui que vou hoje.

Por ora vamos ler as recomendações que a edilidade faz em matéria de segurança para quem pretenda partir à aventura pela Lisboa ciclável. Pelo meio dumas quantas generalidades, começando logo pela do “cumpra o código da estrada”, atão não é que os senhores da CML nos recomendam o uso do capacete?! Ah pois é, está lá escrito ipsis verbis “Para sua segurança recomenda-se o uso de capacete e luvas”. Capacete e luvas!

Não acho que seja apropriado comparar a realidade londrina, holandesa ou outra com a lisboeta, nem é isso que pretendo. Reafirmo que não é O capacete que aqui me trás, acessório que eu uso e recomendo. Nem tampouco acho que faça sentido decalcar exemplos de realidades tão díspares. Mas acompanhar o tipo de discussão à volta de temáticas contemporâneas a outras metrópoles, é na minha modesta opinião, uma mais valia no sentido em que nos permite tirar partido do conhecimento gerado por essas experiências.

No programa de rádio da BBC4 More or Less, do passado dia 27, Tim Harford confronta o sistema das Boris Bikes -nome por que são conhecidas as bicicletas partilhadas da capital inglesa- com o uso, ou não, do capacete. Uma reportagem onde são dados argumentos a favor e contra, mas donde ressalta uma abordagem séria duma questão de princípio. Em síntese, quando se recomenda o uso do capacete, como é que se mantém a coerência disponibilizando bicicletas que não vêm equipadas com um?

Por cá, voltando à bicicleta alfacinha, massa crítica continua a ser praticamente e apenas uma passeata no calendário, onde cada um pedala a sua bicicleta…

LEITURAS PARA O FIM DE SEMANA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 29 de Agosto de 2009 by Humberto

As férias do presidente dos EUA, capacetes, Londres e o exemplo da capital dinamarquesa, são motivo de reportagem no Los Angeles Times e na BBC.

Independentemente do interesse factual das notícias aqui referidas, estas peças, algumas apenas disponíveis no sítio da televisão inglesa e servindo de complemento à que foi emitida, dão uma ideia da seriedade com que são abordadas as questões da bicicleta inseridas no contexto da mobilidade.

A escolha destes temas revela qual o entendimento que os jornalistas, bem como as linhas editoriais, fazem da sua importância na actualidade informativa e do peso que julgam ter estes assuntos no interesse e nas vidas das respectivas audiências.

Los Angeles Times

  • Entrevista com o director da London Cycling Campaign, Koy Thompson. BBC
  • Can London be a cycling cityBBC
  • Entrevista com Andreas Rohl, city’s bicycle programme manager, Copenhagen. BBC
  • Copenhaga lançou um plano para se tornar a melhor cidade do mundo para os ciclistas. BBC

E tenham um muito bom fim-de-semana!

DE ALGÉS AO COL DE LA MADONE

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 17 de Agosto de 2009 by Humberto

Bicycle-FlorencePara alguém que já viajou um pouco ou teve até a oportunidade de viver durante numa cidade dum qualquer país europeu, e falo além fronteiras, terá muito provavelmente a memória de espaços urbanos mais ordenados que estes por onde andamos diariamente. Longe de mim partilhar a opinião que Portugal é o pior lugar do mundo para se viver, mas em questões de urbanidade e mobilidade, somos efectivamente muito atrasados. Nada de novo até aqui e daqui se poderia ir agora para muitos lugares e por outros tantos caminhos.

Escolho um que nos põe em cima da bicicleta em Florença quinze anos atrás. Conta-me uma colega que por lá andou e morou e estudou e trabalhou, enfim, por lá viveu, que se lembra de parques perto de estações de comboio com centenas (ou seriam milhares?) de bicicletas. Onde, se ao chegar não se encontrasse a respectiva, outra serviria. Cidade onde existiam, repito há mais de 15 anos! tomadas para recarregar veículos eléctricos. Onde existia uma razoável rede de ciclovias, embora os ciclistas as preterissem pelo largo tapete de asfalto.

Esta conversa acompanhou-nos num encontro de café matinal e foi consequência da colega ter decidido tirar a bicicleta do armário para ir experimentar a ciclovia ribeirinha do Tejo. Apesar da experiência não ter sido convincente uma vez mais por causa do traçado e do pavimento, foi suficiente prazenteira para dar alento a que no próximo dia dois de Setembro sejamos mais um cycle-Wednesday-buddies. Aqui chegados, tenho perante este texto, nova encruzilhada. Para onde continuar agora? Retomar o debate sobre o papel das ciclovias na promoção da bicicleta? Não me apetece.

Vou então agarrar a oportunidade de ter alguém ao alcance da retórica, com vontade de se juntar na próxima primeira quarta-feira. Especialmente alguém que me surpreende particularmente. Muitas vezes os preconceitos à nossa volta têm a capacidade de meterem outros preconceitos na nossa cabeça, com menos palavras e tempo perdido, já eu deveria ter desafiado esta colega a se nos juntar. Bom, mas o importante é que se deu um passo na boa direcção e outra parte interessante é que vamos poder combinar o trajecto de forma a virmos juntos desde Algés até cá acima. Esta perspectiva deixou-a um pouco apreensiva, pois está em crer que terá de competir com o ritmo de quem vai a subir para o Col de la Madone na peugada dos fantasmas do Tour.

Ir para o trabalho de bicicleta não é uma prova de velocidade ou de resistência. Quanto muito será prova de persistência, vontade, disponibilidade e bom senso. Apagar a ideia que pedalar é uma actividade desportiva pura e passar a olhar para uma bicicleta como algo que serve primeiramente para nos levar do ponto A ao ponto B, é uma passo importante na mudança de mentalidade e dos preconceitos com que muitos de nós ainda olhamos a bicicleta. Espero que a vontade não se lhe esmoreça, porque será seguramente um excelente exemplo para muitos outros colegas.

O REGRESSO

Posted in cycle to work with tags , , , , , , , on 6 de Agosto de 2009 by Humberto

Depois de um dia de trabalho, o regresso a casa é o momento em que, aos poucos, vamos desligando uns interruptores e ligando outros. De bicicleta é muito mais fácil desligar uns e muito melhor ligar outros. Experimentem!

Ontem a viagem de volta ao bem-bom, se bem que demasiado demorada, revelou como a marginal do rio Tejo merecia melhores acessos e mais visitas.

A ida para a SIC tinha sido de comboio desde Oeiras até Algés e a ideia era que o regresso fosse pelo mesmo caminho. Mas os planos são como os pneus, às vezes saem furados.

Entre acelerarmos a cadência para um comboio que já chiava dos travões  ou esperar pelo próximo, optámos por continuar a pedalar. E optámos bem!

O percurso de Algés a Carcavelos foi feito sob uma lua cheia de maresia. Quase sempre pela calçada, que o asfalto requer outro equipamento. A parceira ocasional não tinha capacete e as luzes cansaram-se de tanto tempo sem uso. Em alguns bocados fomos mesmo a passo. Desnecessariamente? Se calhar, mas quem tem uma bicicleta pode sempre desmontar e seguir a pé.

Chegados a Paço de Arcos seguimos pelo passeio marítimo, aqui já a par, à conversa, a desfrutar da companhia e de como é mesmo bom estar longe dos carros, dos seus motores e respectivos donos. A sede e a conversa convidaram a uma imperial fresquinha na nova marina de Oeiras, o problema foi a forte penalização para o controle do relógio.

Já li que o Verão tem sido bom para a SIC. Garanto que Agosto começou em grande!

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