Arquivo de bicicleta partilhada

O MAU DA FITA

Posted in cycle to know with tags , , , , , on 27 de Agosto de 2012 by Humberto

Um dos quatro temas mais debatidos pela tribo das bicicletas dá mote ao texto que pode ler hoje. No seguimento deste e como anunciado, publico agora algumas considerações sobre a relação entre o carro e a bicicleta. Brevemente ainda me vão ouvir falar das ciclovias e a terminar a saga, dos capacetes.

O carro é o mau da fita. Tem sempre que haver um mau da fita: é o carro. Só os fósforos perdem mais valor que o carro com o uso. O carro é insaciável. O carro é exigente. O carro dita-nos os destinos, os quandos e os ondes. Nada nos dá mais estatuto social que o carro que levamos nas mãos. Nada nos detém por detrás do para-brisas! Quando estamos protegidos dentro do carro, somos indestrutiveis! Somos cativos do conforto do carro, apaixonados pelo som do motor, sonhamos com o cheiro a novo, ávidos de tecnologia de ponta. Há muito que o carro faz o mesmo que o Viagra, com versões também para mulher. O carro representa nações, povos, regimes, épocas. O carro alimenta paixões e gera ódios. Transporta a vida e leva a morte. Vai à guerra e é a guerra. Há carros para todos gostos, para todas as algibeiras, de todas as cores e feitios. O carro é o mau da fita perfeito!

O carro está por tudo o lado e não parece que esteja com vontade de ir embora. Apesar te ser uma máquina relativamente simples e até algo arcaica, o automóvel tem sido o mais bem conseguido objecto de consumo da indústria da publicidade. Desde que nascemos que vivemos rodeados e carros. O carrinho de bebé e os carrinhos do bebé. O carro do supermercado e o carro de mão. Nos desenhos animados os animais da selva têm rodas e no cinema nunca vi um actor a fazer de carro mas já vi carros a fazer de actor… O carro é o rei! Não há artista da música ‘róh que viva longe dos carros e no futebol o jogador é o carro com que chega ao treino. Se a imagem dos deuses não andasse hoje em dia tão desvalorizada, diria que o carro é um deles. Verdadeiramente omnipresente.

Não são só os combustíveis e óleos que alimentam o carro mas praticamente tudo nele gira à volta do petróleo. O carro reflecte melhor que tudo, a dependência em que a sociedade de consumo vive da indústria do ouro negro. Esta dependência é por vezes voluntária e noutras nem tanto. Um cidadão pode querer depender do carro ou pode não ter escolha. E é aí que bate o ponto! É possível que muitos cidadãos encontrem alternativas ao automóvel, mas pensando numa emancipação social em relação à dependência do quatro rodas, ela só chegará quando isso for entendido pela sociedade em geral como uma necessidade. Quando a política de transportes, rodoviária, educativa, fiscal, quando as prioridades de  desenvolvimento (?) passarem por diminuir essa mesma dependência.

Cada um de nós que opte, por exemplo, pela bicicleta em detrimento do carro, está a contribuir de várias maneiras para reduzir a famigerada dependência do carro. Mas a bicicleta, porque não é opção para a maioria dos transeuntes, não é o santo graal da mobilidade. Pode ser que um dia venha a ser mas esse dia ainda está longe. O grande predador do automóvel é o transporte público e será por essa via que se reduzirá a dependência do carro. Outras formas de reduzir o impacto do automóvel nas nossas vidas têm que ver com a gestão do espaço alocado ao estacionamento, com a limitação ou eliminação total do acesso por carro a áreas sensíveis das cidades, com a maior e mais efectiva responsabilização do automobilista pelos impactos negativos que pode causar, quer de forma activa -velocidades excessivas, quer de forma passiva -estacionamento em passadeiras.

O homem move-se para trabalhar, conviver. Andamos dum lado para o outro por tudo e por nada. A mobilidade é vital. Uma vez que foi dado às pessoas “o direito” a acederem a todo o lado de carro, uma vez que se pretende, e bem, cortar esse “direito”, é forçoso que duas coisas aconteçam. Primeiro que sejam convencidas das vantagens desse “corte”; segundo que lhes sejam dadas alternativas. Valorizar o trânsito pedonal, melhorar as redes de transportes colectivos e (hélas!) incentivar a utilização da bicicleta, são necessidades imperiosas para requalificar as cidades, promover o desenvolvimento económico e social mas sobretudo para diminuir a dependência que Portugal padece do carro. Será que é nesse sentido que se tem caminhado? Como sempre há de tudo. A nível local tem havido algum progresso e podem citar-se felizmente bons exemplos que nos dão esperança que há uma nova mentalidade a tomar conta de algumas cadeiras com poder. E a nível do Governo? O Governo está a fazer o seu melhor para nos pôr a todos a andar a pé e de bicicleta ou não andar mesmo. Com os preços galopantes dos transportes e dos combustíveis estamos perante o mais forte impulso de sempre dado à bicicleta. Já para não falar que à velocidade que fecham empresas, em muitas estradas do país foi substancialmente reduzido o trânsito nas horas de ponta!

Por vezes confunde-se a fome com a vontade de comer. É fácil -e cada vez mais comum nos exemplos que nos chegam de cima- encontrar soluções populistas para problemas estruturais. Institui-se universalmente a teoria do utilizador-pagador e aquilo que é um problema de todos, merecedor duma solução global, passa a ser um problema de cada um, a ser resolvido de forma individual. Tenho a certeza que o aumento do custo de vida tem levado muitas pessoas a considerar alternativas na sua vida. Há seguramente quem tenha descoberto a bicicleta por causa do aumento do preço da gasolina. Daí até se concluir que aumentar o preço dos combustíveis é resolver os problemas da mobilidade, ou que por essa via se promove a bicicleta, vai um grande engano. Quando ouço vozes a pedir aumentos ainda maiores para a gasolina, pois dessa forma as pessoas deixariam de vez o popó parado, creio que o essas vozes esquecem é que o pão que lhes cala a boca, o leite dos petizes, a saladinha que levam na lunch box tão cool, não chegam montadas num burro!

Ver no automobilista um inimigo, alguém que vive nas trevas, que polui só porque quer, que odeia a vida, alguém que vive empenhado em destruir a Terra, ver em cada automobilista a personificação do mal, um Barbodemo! não nos leva muito além do ponto a que chegámos. Talvez ver em quem está sentado ao volante um possível-futuro ciclista, seja meio caminho para se conseguir transformar mentalidades. Não é por eu andar de bicicleta que tenho uma qualquer superioridade moral, nem foi por via dos pedais que adquiri o direito de julgar os outros apenas pelos meus interesses. Lá porque quando me desloco de bicicleta não gasto petróleo, não me nascem verdades absolutas na cabeça. A minha opção de vida, a minha escolha velocipedista é um exemplo de mobilidade mas tem de ser também um exemplo de cidadania, de respeito, nunca um motivo de conflito.

Ninguém contesta a imagem de ser o carro muito mais potente que a bicicleta. O mundo do carro quero eu dizer. Enfrentar um mundo tão vasto e poderoso como o do carro requer mais que um par de punhos. Requer perceber bem o que está em jogo do lado de lá. Que interesses se fazem transportar de carro, quem se alimenta desta dependência. Quem ganha com as PPP rodoviárias e quem lucra com o fecho da linha férrea. Quem enriquece com os lucros da GALP e quem constrói parques nos centros das cidades. Quem tem ganho com o atraso da rede de bicicletas partilhadas em Lisboa. Quem encolhe a barriga em cima da bicicletas de frente para os fotógrafos mas não mexe uma palha para punir quem estaciona no passeio? Sim, porque aqui como em quase tudo, há a quem apontar dedos. Ou não há? O que foi que tornou possível que em países com muito mais poder de compra, os cidadãos optem por limitar a dependência do automóvel? Pode ter acontecido que os cidadãos desse lugares tenham perdido a paciência e tenham punido quem lhes tolhia a qualidade de vida. Pode ser que se tenham tornado exigentes. Lutar contra o poder do carro requer que se escolha bem os aliados, que não se acabe a dar armas aos que nos garantem um futuro em quatro rodas. Mas implica também olhar do lado de fora do pára-brisas e perceber que quem vai lá dentro é sobretudo vítima.

Porém o mundo gira e as coisas mudam. No império do carro, nos Estados Unidos da América, um recente estudo deu conta que pela primeira vez o carro deixou de ocupar o primeiro lugar no sonho americano dos jovens gringos. Na última década e pela primeira vez a industria automóvel dos EUA vendeu marcas e a capital do carro Detroit, quase que desapareceu do mapa. O preço dos combustíveis e o fim dos apoios federais aos SUV levou ao primeiro lugar das vendas, marcas asiáticas e o diesel entrou no léxico dos automobilistas. Marcas alemãs publicitam os modelos de topo com base nos baixos consumos. Os motores já não se medem apenas em cavalos mas sobretudo em quilómetros por litro. Tornaram-se blue e green. Novos motores eléctricos podem-se recarregar como um vulgar telemóvel. O carro é cada vez mais um electrodoméstico. Acabar com a supremacia do carro nas nossas cidades passa seguramente por escolhas pessoais que vão muito para lá das questões da mobilidade.

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UM PEQUENO PASSO PARA O HOMEM…

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , , , , on 8 de Outubro de 2011 by Humberto

… um grande passo para a bicicleta. Desta forma se poderia resumir o dia de sexta-feira, sete de Setembro de 2011. Por volta da hora do almoço a SIC, embora com o atraso de um dia, transmitiu uma reportagem sobre a bicicleta em Lisboa. A pretexto da entrega duma bicicleta oferecida pela Federação a um bombeiro ciclista e criativo, a peça jornalística abordou -com a profundidade que permite uma peça de televisão mas sem a música dos Queen, o que já é um passo importante- dizia eu que a peça da SIC abordou a questão da bicicleta partilhada em Lisboa que nunca mais sai do papel. Pouco de novo foi adiantado, mesmo assim ficámos a saber que o vereador encarregue deste assunto, o senhor dos parques, jardins & ciclovias, também conhecido pelo Zé, espera ter a solução, que é como quem diz, espera limpar a areia da engrenagem até ao final do ano.

Foi um melhor almoço porque vi a bicicleta regressar à televisão numa abordagem que sobra do trivial da excentricidade costumeira. Miguel Barroso foi um excelente anfitrião e provou que tem pernas, porque dar boleia ao repórter de imagem de serviço na sua xtracycle requer muita entrega à causa, ainda para mais sem ajuda eléctrica. Só foi pena não ter sobrado fôlego para soprar de forma mais veemente o que lhe vai na alma sobre o imbróglio alfacinha! Já vinha o café a caminho para rematar o repasto quando o telefone acordou dum luto triste, para me dar boas notícias: manhã cedo tinha entrado a bicicleta pela porta grande na casa da democracia. A Federação Portuguesa de Cicloturismo e Amantes da Bicicleta assistiu na bancada dos convidados à apresentação de duas propostas de resolução, PPD/PSD e CDS/PP, e de dois projectos Lei, um do BE e outro do PEV, que recuperam no essencial as propostas já feitas na anterior legislatura. Por sugestão do PEV as propostas baixaram à comissão sem votadação com o compromisso numa solução consensual a todos os grupos parlamentares.

É exactamente este consenso que faria notícia, fosse este assunto parangonas na imprensa. Independentemente das diferenças ideológicas entre as seis forças políticas representadas na AR, existem hoje condições verdadeiras para que algo mude sem que fique tudo na mesma. Tanto o Bloco como Os Verdes mantém o compromisso para com a comunidade ciclista assumido em anteriores propostas. Os centristas assumem no Parlamento o que tinham prometido na campanha, nomeadamente num documento que enviaram após solicitação da Federação. O PSD, pela mão e voz dum deputado ciclista convicto, sócio da FPCUB e membro do Conselho Consultivo para a Mobilidade e do Biciauto, Pedro Roque de Oliveira, leu um texto consentâneo com as suas responsabilidades uma vez ser o seu, o Partido que sustenta o Governo. O PS, embora não tenha feito qualquer proposta nem guarde um passado feliz enquanto Governo, mostrou-se disponível para o tal consenso na discussão em Comissão da Especialidade.

Foi realmente um dia feliz para a bicicleta em Portugal, um dia que reacende a esperança de que algo vai finalmente ser feito. Uma manhã que nos faz acreditar que valeu a pena os esforços da Direcção da Federação no seu trabalho incansável de procurar apoios, abrir horizontes, promover este consenso que parece agora estar ali reunido à mesa da tal comissão. Mas é também um dia que exige de nós um brinde ao muito que há por fazer! A alteração do Código da Estrada não é a panaceia que corrigirá a anarquia rodoviária. A estipulação de todas as regras sobre a construção de ciclóvias e demais estruturas para peões e bicicletas não vai resolver a incapacidade inata da maioria dos autarcas automobilizados. Os senhores Barbosas estão por todo o lado e pensar que não entram no Parlamento é menosprezar o inimigo, primeiro passo para a derrota certa!

Mais importante que a bicicleta é quem pedala nela. E nela pedalam pessoas que perdem diariamente qualidade de vida. Diariamente nos apresentam um futuro onde não cabemos como seres humanos inteiros, um futuro sem direitos nem dinheiro, onde a sobrevivência será um luxo. O neoliberalismo galopante empurra os povos para a miséria a vemo-nos gregos ao espelho das notícias. Infelizmente não será a bicicleta que fará a revolução necessária, mas como prova a intenção de consenso na AR, é a vontade dos homens e a sua acção transformadora que pode mudar o rumo das coisas. Sem dúvida que seguirei o caminho mais feliz, farei girar os pedais mais confiante, olharei para o simplycommuting com, permitam-me a falta de modéstia, mais vontade, em consequências dum almoço bem acompanhado. Mas convém lembrar sempre que a única maneira de não cair é manter o equilíbrio, continuando a pedalar. Uma revolução de cada vez, uma volta dos pedais a cada passo.

ONDE PÁRA A COERÊNCIA?

Posted in cycle to know with tags , , , , on 5 de Outubro de 2011 by Humberto

Quem nunca mudou de opinião que atire a primeira pedra. Esta pode ser uma variante ao popular ditado muito bem adaptado ao que aqui me traz hoje. Podemos facilmente aceitar a mudança no pensar, ou melhor ainda a evolução das ideias, a renovação de conceitos, a alteração de mentalidades, como algo positivo e desejável. Mas se a mudança foi, partindo duma visão vanguardista e renovadora, na direcção de conceitos mais conservadores e reaccionários, podemos então sacar das pedras.

Outro ditado que também me acorre é o que afirma que até os asnos aprendem. Aprender não é mais que mudar de opinião, evoluir, avançar. Olhando à nossa volta e observando a paisagem urbana que nos rodeia podemos pelo menos ter a certeza de que não foram burros que permitiram, que desenharam e projectaram o espaço urbano, as nossa vilas e cidades, praças, ruas, avenidas, bairros. Foram apenas pessoas que não aprendem ou, de forma benévola, podemos antes dizer que aprender, aprendem mas muito devagar, muito mais devagar do que a velocidade a que tudo cresceu.

Visite-se a Pontinha, Vila Nova de Gaia, a Maia, Vila Franca, Telheiras, Campo Alegre, a Costa de Caparica, a Póvoa de Varzim e percebe-se que os valores urbanísticos, de qualidade de vida, de mobilidade, foram sempre os mesmos, arcaicos e condenados, provadamente falidos. À margem de  intervenções pontuais, de ténues tentativas de fazer melhor, na fotografia geral a imagem é a mesma. Umas pinceladas mais alegres aqui, uns tons mais suaves ali, mas o mesmo traço grosso, tordo, anodizado dá a Portugal este ar de anarquia urbana pequeno burguesa onde parece que as pessoas todas calçam carros e não sapatos.

Andamos nós, seguramente a maioria dos que por aqui passam, preocupados em construir ideias, em contribuir para a tal mudança de mentalidades. Ávidos de encontrar de entre os decisores aqueles que connosco partilhem esta necessidade de mudança das opiniões, de capacidade para corrigir erros e emendar gestos e vai não vai levamos uns socos que nos deixam outra vez à beira dum ataque de cepticismo. Ainda estou a falar do imbróglio na CML entre as vereação do ambiente e a da mobilidade sobre o sistema de bicicletas partilhadas para a capital.

Chegou-me pela mão dum guardião de memória este pequeno recorte do Jornal de Notícias publicado em 11 de Setembro de 2000, há portanto mais de onze anos, que transcreve a opinião dum senhor identificado como Urbanista, de sua graça Fernando Nunes da Silva. Pelo que se lê na palavra do senhor -está o texto integralmente entre aspas- fica-se a saber que o senhor acreditava num monte de coisas boas que tinham de ser feitas pelas autarquias. Pena foi o jornalista não lhe ter perguntado o que pensava o senhor Urbanista sobre as bicicletas de aluguer. Ou qual a opinião sobre o outro senhor agora colega dele na vereação…

Ficam as palavras do senhor Nunes da Silva e digam lá qual foi a direcção em que mudou a sua opinião?

PONTO DE ORDEM PARTILHADO

Posted in cycle to know with tags , , on 3 de Outubro de 2011 by Humberto

"Pensador" - Escultura Kioka, Angola

As polémicas são úteis à sociedade na medida em que podem ajudar a derrubar preconceitos, a encontrar soluções e alternativas, a desfazer equívocos e destapar problemas. São úteis porque fazem as ideias avançar e promovem a transformação. As polémicas alimentam-se da discussão, da argumentação de opiniões contrárias ou pelo menos não coincidentes, numa dialéctica que se quer objectiva e pragmática.

A recente polémica em torno das divergências mais ou menos claras entre a vereação da Câmara Municipal de Lisboa respeitante ao sistema de bicicletas de aluguer da cidade teve pouco eco na imprensa e quase nenhum na restante comunicação social, originou um aglomerado de ideias e uma ânsia de protagonismo nalguns ciclos mais militantes e alguns textos na esfera bloguista.

Talvez o melhor contributo para a clarificação do que está em jogo e um excelente ponto de ordem é o texto abaixo se transcreve. Só a experiência e a seriedade com que a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Amantes da Bicicleta acompanha o folhetim da partilhada de Lisboa possibilita este tipo de análises. Mais uma razão para se fazer sócio. O resto são boas intenções e conversa fiada!

COMUNICADO

Promoção da bicicleta urbana com a própria energia a pedalar

Na sequência das notícias que colocam em causa o projecto das bicicletas partilhadas em Lisboa, vem a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), defender que a promoção do uso da bicicleta a pedal deve ser uma constante das políticas de saúde, de mobilidade, de energia e da sustentabilidade. Desta forma promove-se o movimento físico e a deslocação diária utilizando a sua própria energia, desincentivando o consumo de combustíveis fósseis importados e poluentes.

Os lisboetas têm grande expectativa na existência de uma rede de bicicletas partilhadas na cidade de Lisboa como já existe em Paris, Londres, Bruxelas, Toulouse, Lion, Barcelona e Sevilha, por exemplo.

Quando a implementação da prometida rede já peca por tardia, somos confrontados com declarações do Vereador da Mobilidade da CML que refere uma nova ideia da CML de disponibilização de bicicletas eléctricas para turistas na zona ribeirinha, limitando a partilha a um único local da cidade e para uma utilização turística.

Confunde-se assim o essencial para ajudar a solucionar os problemas da mobilidade em Lisboa e dar resposta a todos aqueles que pretendem usar bicicletas de uso público e partilhado. A rede não foi pensada para lazer e não deve ser exclusivamente para esse fim, à semelhança do que foi feito nas cidades referidas.

Não nos podemos esquecer que a electricidade é poluente. Além disso propor uma rede de bicicletas eléctricas para circular numa zona plana é promover a preguiça, contribuindo para a obesidade que alastra em Portugal.

Mais de metade da electricidade é produzida recorrendo a combustíveis fósseis ou nucleares (importada de Espanha e França). Incentivar o uso de electricidade é ̶ quer queiramos, quer não ̶ uma forma de promover o consumo de energias fósseis. É fazer aumentar a nossa factura energética, é aumentar a nossa dependência face ao exterior. É contribuir para aumentar o nosso crónico deficit da balança de transacções correntes, é endividar ainda mais o País. É ajudar a que Portugal tenha ainda mais dificuldades para cumprir os compromissos internacionais em termos de emissões de gases poluentes.

A exploração de uma rede de bicicletas partilhada deve-se sustentar a ela própria, com receitas provenientes quer dos utilizadores, quer da publicidade. A autarquia terá de dar resposta, primeiro aos seus munícipes e ainda potenciar a utilização turística, compatibilizando o bom uso do espaço público. Velocípedes com motor devem circular em estrada.

Velocípedes com motor e bicicletas são assuntos distintos. Tratar de forma diferente o que é diferente. A promoção da bicicleta deve estar restrita apenas às que funcionam com a energia da pessoa e nunca para promover mobilidades pseudo-sustentáveis.

Recordemos o protocolo entre a FPCUB e a CML, onde se afirma: considera “que devem ser facilitadas as condições de mobilidade dos utilizadores de bicicleta bem como dos seus potenciais utilizadores, por forma a garantir o acesso a escolas, locais de trabalho, serviços públicos, zonas de lazer, etc.”. Ambas as entidades estimam ainda que “a bicicleta é um modo de transporte a privilegiar e deve fazer parte de uma política de diminuição da poluição atmosférica”.

Lisboa, 30 de Setembro de 2011

FPCUB

BICICLETAS, FOLHETINS & PARTILHAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , on 29 de Setembro de 2011 by Humberto

O folhetim das bicicletas partilhadas de Lisboa ganha interesse de dia para dia e promete entreter-nos durante muito tempo. Aquando da estreia, com o anúncio da implementação de um sistema de aluguer de bicicletas para daí a pouco meses, logo se viu que a coisas estava pensada para durar. No início do Verão 2008, há três anos portanto, foram as desejadas bicicletas prometidas pelo voluntarismo eleitoralista do recém eleito edil. Mesmo que passado todo este tempo essa informação tenha sido apagada do Portal do Cidadão, o texto tinha um sonoro título “Lisboa Vai Ter Rede de Bicicletas Partilhadas no Próximo Verão”.

Já em 2007 a agência Lusa noticiava contactos entre então vereador Marcos Perestrello e a J. C. Decaux com vista à introdução dum serviço de bicicleta partilhada na capital. O gabinete do vereador negou os contactos mas a empresa francesa assumiu o estudo por auto-iniciativa. Sintomático! Estas suspeitas serviram para aguçar o apetite dos espectadores para as peripécias que haviam de seguir-se. Desde então e por entre desavenças no seio dos correlegionários do presidente, dúvidas da oposição tanto à esquerda como à direita e a prepotência do eu-é-que-sei Sá Fernandes, foram sendo pintadas e marcadas coisas parecidas com ciclovias e lá foi lançado um concurso para a mediática Vélib à lisboeta. Já corria bem adiantado o ano da graça de 2009 quando finalmente foi aprovado em reunião de Câmara o relatório do júri mas  foi preciso esperar por Fevereiro do ano seguinte para ver proposto pela presidência o convite à apresentação de propostas e respectivo Caderno de Encargos.

Entretanto caiu o Governo da Nação arrastando-nos a quase todos para um buraco onde os de agora, que nos (des)governam, ameaçam enterrar-nos. Os tempo são duros, mais duros ainda, e não sobra dinheiro para “excentricidades”. Se por enquanto ainda ninguém nos veio dizer para esquecermos isto das partilhadas, a verdade é que estas coisas só se fazem com dinheiro, que não há. Dizem. De atraso em atraso lá vieram as pressões do vencedor do concurso, a tal empresa que faz estudos por livre iniciativa, de que a imprensa deu eco. “Se não há dinheiro para avançar com o total do projecto, que se avance com uma parte para segurar os nossos interesses” -parece ser o que dizem os senhores Decaux. Poderia ser uma solução, digo eu, mas será que existe viabilidade para Lisboa num projecto de bicicletas que custará bem mais de 3 milhões de euros por ano à autarquia?

Surge agora a notícia duma proposta(?) do vereador da mobilidade, Fernando Nunes da Silva. Segundo se lê trata-se dum sistema de bicicletas eléctricas a correr ao longo do rio que difere do defendido pelo seu camarada independente Sá Fernandes. E ficamos todos novamente colados ao ecrã a ver onde é que isto vai dar… A ajudar à festança, e como seria de esperar, estes assuntos são tratados com os pés (ainda por cima fora dos pedais) pelo jornalista de serviço, neste caso a senhora dona Ana Henriques no Público. O texto é mau sobre vários aspectos. Primeiro na escolha do título, porque se há coisa que não é novidade é a areia na engrenagem e a confusão na rede de partilha de velocípedes em Lisboa. Segundo porque na verdade não há incompatibilidade nos sistemas visto o agora apresentado(?) não ser substituto do primeiro, já que -e como diz no texto- se destinar sobretudo aos turistas. Ainda para mais sendo este assegurado pela empresa Ciclocidade que, garante a jornalista, será a custo zero para a autarquia. Terceiro, a jornalista não verifica a informação, por exemplo não confirma a questão -ridícula- da malha da rede dos cestos. Quarto, não ouve a presidência da autarquia. Quinto, nunca efectua um verdadeiro contraditório entre os visados na notícia.

E este tem sido um folhetim à antiga, onde os seus autores não vão atrás de modas e não auscultam a vontade dos espectadores, vão desenvolvendo o enredo a seu belo prazer e, verdade seja dita, sucesso não lhe tem faltado. Sabemos nós e sabem eles que há na blogoesfera páginas e mais páginas de, digo eu, bons contributos para o debate. Sabem eles como sabemos nós da existência duma velhinha e muito actual federação activamente empenhada na bicicleta urbana como meio de transporte. Conhecem eles e conhecemos nós uma embrionária e muito viva associação para a mobilidade em bicicleta. Mas recusam militantemente qualquer aproximação ao dialogo, à procura de contributos, parece que com medo que os cidadãos se envolvam e questionem as suas verdades sofismáveis! Perante isto, mais do que comunicados e disponibilidade para colaborações com o poder, o que os ciclistas de Lisboa precisam é de se demarcar desta forma de fazer cidade. É mostrar que estão fartos destes maus actores e ainda piores autores e folhetins reles. Ou será que também temos por aí uns interesses escondidos com pedais de fora e vale tudo para ascender ao estrelato?…

Quando vejo um político a fazer o pino numa campanha eleitoral, fico sempre com a sensação de estar a assistir a um número de circo. Chamem-lhe defeito profissional mas a verdade é que raramente me surpreendo pela positiva. O actual presidente Costa sentou efectivamente o rabo num selim e deixou-se fotografar a sorrir de capacete e tudo mas, como se vê, as fotografias apenas servem para continuar a promover este inglório folhetim. As imagens então captadas são usadas mais para denegrir a imagem das bicicletas do que o objectivo que estava na mente de quem escreveu aquele episódio. Só nos faltava mesmo é que os promotores de ideias nossas amigas andassem aos tiros aos pés uns dos outros! Porque na guerra pela cadeira do poder na capital, a imprensa vai jogar um papel decisivo e o Público vai marcando aos poucos o seu campo neste jogo. Basta ver o artigo que acompanha o que aqui nos trouxe.

DIZ-ME COM QUEM PEDALAS…

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , on 28 de Fevereiro de 2011 by Humberto

 

Projecto para Edimburgo pelo atlier de Jan Gehl

O tempo passa e este blog mesmo com a publicação de textos quase parada ainda regista um melhor desempenho que o avanço na construção das infraestruturas necessárias a uma cada vez mais urgente mobilidade sustentável em Lisboa. Pode parecer fixação deste escriba mas não tenho forma de me conformar com o atraso a que a cidade capital está condenada apesar de tanta cosmética gasta. Adoraria poder escrever loas à política camarária de elevação da qualidade de vida dos cidadãos que nela vivem ou trabalham. Mas a verdade é que não há mesmo razões para isso.

Os militantes contributos do Menos Um Carro ou Passeio Livre são infelizmente retratos sistemáticos e constantes duma cidade que definha à espera da salvação. Para lá da recuperação de alguns espaços verdes e de umas quantas tímidas mexidas na teia do trânsito, Lisboa continua a mesma cidade arcaica onde o carro é o rei e o senhor.

Uma das (pseudo)inovações da Lisboa pós-moderna é a rede de ciclovias e o adiado projecto das chamadas bicicletas partilhadas, a que eu prefiro chamar de bicicletas de aluguer. Nem uma coisa nem outra são propriamente novidades sequer cá pelas nossas amadas terras, mas da capital espera-se uma coisa em grande, com pompa! Tanta pompa que já devem ter gasto o orçamento todo nos foguetes.

Diz quem já experimentou bicicletas do projecto, as tais que podem ter até vinte e tal quilos e apenas três velocidades, que são boas para andar ali à beira rio, mas sobre isso basta ler o absurdo caderno de encargos do projecto alfacinha e eu já disse o que penso sobre isso aqui. O projecto enquanto negócio apelativo no produto e rentável no retorno -e nessa matéria não acredito que os preços sejam muito diferentes do que se pratica noutras cidades europeias- tem a viabilidade indissociável do meio onde se vai desenvolver: as ruas de Lisboa.

 

Hangzhou, China

E Lisboa precisa que os carros que nela entram diariamente fiquem longe das ruas e especialmente de cima dos passeios. Precisa que os senhores barbosas paguem um preço desencorajador pelo estacionamento. Precisa de mais autocarros e corredores bus, de passeios mais largos, ruas pedonais, mais passadeiras e o fim do flagelo do estacionamento em segunda fila. Precisa de efectiva redução da velocidade máxima e de gestão do semáforos orientada para o peão.

As cidades devem ser pensadas desde o ponto de vista do peão e à velocidade a que nos deslocamos andando a pé. Só quando isso acontecer em Lisboa poderemos afirmar que estão criadas as condições para a bicicleta invadir a ruas. Não sou eu que o digo, dizem-no os Gehl, os Lerner, os Jacobs e tantos mais que têm transformado a vida de milhões de cidadãos cosmopolitas nos quatro cantos do mundo. Se ao menos o vereador Sá Fernandes fosse amigo de algum deles…

 

E agora para algo muito à frente:

O REI PEDALA NU?

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 18 de Outubro de 2010 by Humberto

Este artigo vem a propósito duma discussão lançada no fórum Conversas de Bicicultura onde se pergunta a opinião dos participantes sobre a pertinência duma iniciativa do tipo Corrida-de-Nus-em-Bicicleta na cidade capital. Esta manifestação, tal como o desfile da Massa Crítica, teve origem em lugares onde a realidade da bicicleta -já para não falar em tantas outras realidades- era e é bem diferente. Quem pedalava e quem não pedalava era encarado e encarava o outro, bem como o entorno, de formas mais, digamos, esclarecidas. Outra gente, outros costumes.

Lisboa -e escrevendo Lisboa, escrevo as pessoas de Lisboa- é uma cidade que precisa urgentemente de encontrar formas especificas de se indignar, de protestar, de marcar o debate, de ser mais afirmativa. Formas próprias de alertar para a necessidade duma mudança de atitude. Mudança a nível individual (dos peões e dos automobilistas que, eventualmente se cruzariam com a nacked), ou a nível institucional dos vários poderes com autoridade nestas questões. Até porque uma leva a outra. Recentemente, o vereador dos jardins de Lisboa -que é também o senhor que tem às costas as ciclovias- disse numa entrevista a uma publicação da própria CML- que a Avenida da Liberdade é uma rua difícil de se fazer a pedal, quando o caderno de encargos para a bicicleta de uso partilhado -de que o mesmo senhor é  parte responsável- prevê uma bicicleta de mínimo 3(!) velocidade e um máximo de mais de 20 quilos(!). Gostava de ter lido alguma prosa sobre isto, mas ainda nada… ou quase.

E a mudança é necessária na forma como se aborda o problema da mobilidade em Lisboa. Um problema que é gravíssimo e para o qual a bicicleta é parte de solução. Se a bicicleta pode resolver alguma coisa, o estacionamento resolve, por exemplo, muito mais. Os commuters ciclistas alfacinhas podem contribuir para denunciar problemas e soluções para questões que não tenham a bicicleta no centro da “encenação”. Até porque qualquer iniciativa que beneficie quem anda a pé, beneficia praticamente sempre quem pedala. Não sei se me estou a fazer perceber?!

Chamar a atenção para a falta de passeios, para a falta de passadeiras, para a falta de esplanadas, espaços verdes e por aí fora, é chamar a atenção para a falta de condições para se andar de bicicleta, e é uma forma muito eficaz de levar a água ao nosso moinho. Acho as iniciativas do tipo ParkingDay, onde se permite a pessoas (ciclistas ou não) se sentarem onde antes havia uma lata estacionada, uma iniciativa muito mais adaptada à nossa realidade. Ou ocupar a faixa de rodagem em hora de ponta com várias estruturas, cada uma delimitando o espaço equivalente ao dum automóvel, com bicicletas (ou peões) no seu interior, bem mais eficazes que marchas de ciclistas a mostrarem partes do corpo de interesse muito subjectivo…

Num futuro que espero não estar assim tão longe como na verdade parece (confuso?) acredito que desfiles de gente em cima de bicicletas com o rabinho ao léu possam vir a ser viáveis e positivos, mas julgo ser necessário queimar algumas etapas antes. Dado o efectivo número de utilizadores diários da bicicleta em Lisboa versus o número de carros na cidade, é essa desproporção que tem de ser evidenciada, não a excentricidade do “nosso” lado. Em termos mediáticos seguramente que a naked conseguiria atrair muitos mirones, mas do que se transpiraria na imprensa da manhã seguinte ou nas televisões quase nada seria propaganda positiva a formas de mobilidade sustentadas ou a melhor planeamento urbano. E olhem que eu sei bem do que falo. Dar alternativas a quem ainda não encontrou a luz não é bem a mesma coisa que dar razões para nos escreverem nas costas mais uns quantos epítetos simpáticos…

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