Arquivo de automóvel

FEIRA DE CARCAVELOS

Posted in cycle of live with tags , , , , , on 23 de Setembro de 2010 by Humberto

Quinta-feira é dia de feira em Carcavelos e isso faz parte da cultura urbana de pelo menos três concelho, Cascais, Oeiras e Lisboa. As peregrinações à feira são pedaço da minha memória adolescente e das primeiras andanças no comboio da linha, bem antes de alguma vez imaginar que para cá me havia de mudar.

A-Mercado•B-Futura Feira•C-Parque Feirantes D-Feira Actual•1-Variante•2-Linha REFER

O lugar da venda é um terreno baldio, do lado mar da linha férrea, junto à via rápida que liga a Marginal à A5. Um terreno com cerca dum hectare, de terra compacta e vedado por rede, sem nenhum tipo de infraestrutura de conforto para feirantes nem compradores.

Apesar de esforçados funcionários camarários limparem o recinto depois da venda semanal acabar, e só o recinto, quem por ali passar num qualquer dia sem feira, pode apreciar as centenas de sacos de plástico presos na vegetação rasteira, acumulados ao redor do perímetro.

Nos dias de feira, uma mancha multicolor dum lado da estrada e uma mancha branca do outro. As alvas furgonetas dos feirantes, preenchem um parque automóvel improvisado como improvisado parece ser tudo nesta feira. Porque são muitas as pessoas que vêm de carro, é ver as latas abandonados por todo o lado, enquanto os orgulhosos donos poupam na roupa os trocos para a gasolina.

Um pouco mais para dentro da vila, está o mercado de Carcavelos. A praça. Com peixarias, talhos, florista, padaria, fruta e legumes em venda diária, que às quinta-feiras transborda frescura pelo pátio. Nos últimos meses tem sido ouvido com mais insistência um pedido para que se junte a feira dos trapos com a dos comes, pois se muita gente vem à procura dum par de truces, porque não levar um quilo de tomates da horta do senhor António?

E que diabo tem a feira de Carcavelos a ver com a mobilidade? Tem tudo, digo eu. Maus acessos, estacionamento automóvel anárquico, pavimento em péssimo estado, tudo dentro duma pequena vila, da minha vila morena de adopção. Vila que afinal de contas, calcorreio sem problemas, pedalando calmamente e utilizando os numerosos e tão desrespeitados sinais de transito como bikerack, quando vou e venho como hoje, encher os alforges de frescos semi-biológicos, beber um café em chávena fria e comer um duchese à pastelaria Primavera.

Mas se eu não tenho problemas em andar por Carcavelos, em ir à feira ou ao mercado, porquê todo o paleio? Ora, porque é tão fácil solucionar o que está mal e este mal arrasta-se há tantos anos! E como? Vejamos: os “trapos” passariam a serem vendidos no terreno em frente ao mercado; as carrinhas dos feirantes estacionadas no mesmo espaço que é hoje usado para esse efeito, mas devidamente pavimentado e organizado; bem como o actual lugar da feira, transformado em parque para visitantes. Como tudo isto está nos limites do miolo da vila, mantinha-se as ruas livres das latas forasteiras. Já agora, uma cobertura retráctil sobre o mercado, que abrigasse produtos e pessoas das agruras do tempo e desse um aspecto mais limpo que velhos toldos de lona sujos e gastos. E, claro, um parque para bicicletas!

Resultado, mais pessoas viriam, mais se venderia, mais qualidade de vida existiria. Alguém dúvida que até o comércio tradicional ganharia com isso? Carcavelos seria um melhor lugar para se viver e para comprar!

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , on 17 de Setembro de 2010 by Humberto

Ainda mal a semana da mobilidade tinha começado, ainda andava eu a tentar perceber como a data iria ser celebrada por terras lusas, quando encontrei o presidente do Automóvel Clube de Portugal ali pela baixa da Invícta. A pretexto dos números de atropelamentos e das vítimas por eles causadas, lembrou-se o ACP de lançar uma campanha sob o lema “todos somos peões”. Ao ouvir o presidente do clube em directo na RTP, fiquei atordoado, senti-me como que atropelado na minha inteligência.

O senhor Carlos Barbosa acha que o problema dos atropelamentos é responsabilidade dos peões! Admirados? Ouçam o sujeito aqui e digam lá se não é de bradar aos céus? Em matéria de mobilidade, o presidente do ACP é uma pessoa medieval. No seu entendimento, deveria reinar a lei do mais forte nas relações entre peões e automóveis.

Em 2006, a Ordem dos arquitectos organizou um encontro dedicado ao tema da cidade para os cidadãos em que foi apresentado um trabalho da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M) com o título “Somos Todos Peões”. A diferença entre a iniciativa do ACP e o documento da ACA-M não se fica pela troca de duas palavras. Enquanto para o ACP, a defesa do peão importa na medida em que seja razão para desimpedir a via pública para o automóvel circular como “é seu direito”, para a ACA-M a defesa do peão tem que ver com um direito inalienável e universal que todos temos.

Ao contrário do condutor de qualquer veículo motorizado, o peão não necessita de nenhuma condição prévia para poder circular. Ao peão não é exigido nenhum exame para andar na via pública. Um cidadão limitado nas suas faculdades, não tem qualquer tipo de restrição à mobilidade enquanto peão, ao contrário do cidadão que pretende conduzir um automóvel ou um motociclo, logo os direitos e deveres entre condutor e peão são diferentes, nomeadamente em matéria de segurança e integridade.

Se todos somos peões, essa é uma condição universal, e essa é uma condição que quando em conflito com um veículo motorizado, dá ao peão uma desvantagem evidente entre capacidade de criar dano e risco de sofrer dano. Claro que quem conduz uma tonelada de ferro mesmo a “apenas” 30/40 km/h comporta maior perigo potêncial que alguém que translada 70kg a 2 km/h! Ou não, senhor Barbosa?

Imaginemos por momentos que num qualquer parque automóvel ou avenida de Lisboa vários lugares de estacionamento, para não dizer todos, estavam ocupados por peões a ler o jornal, a saborear uma bica ou um cimbalino, a brincar com os filhos numa manta estendida, a dormir a sesta. Imaginemos que de cada vez que um condutor não respeita uma passadeira, um sinal vermelho ou faz uma razia a um ciclista, a conta bancária é descontada em cerca de 200€ (valor duma multa por não respeitar um stop em Portland, EUA). Quem invade o espaço nas cidades?

Em querendo, o ACP teria variadíssimas alternativas a esta absurda campanha. Que tal sensibilizar os seus sócios e demais condutores, para respeitarem escrupulosamente os limites de velocidade? Ou imprimir autocolantes do clube com a conhecida frase “Eu nunca estaciono nos passeios nem nas passadeiras“? Ou apelar à condução defensiva com o lema “O meu sexo é melhor que o meu carro”?

O que mais espanta é ver a Câmara do Porto e a de Lisboa a embarcarem nesta farsa do senhor Barbosa. As duas maiores cidades do país associaram-se a uma iniciativa que aborda o mundo ao contrário, porque equaciona mal um problema grave, indo ao arrepio de tudo o que é vanguarda no pensamento das questão da mobilidade e da cidadania. Por muito que custe aos senhores Barbosas desta vida, por muito que a sua tacanha mentalidade egoísta recuse olhar o mundo em que vivemos, somos mesmo todos cada vez mais peões!

A VIDA NUM ANO E NUMA BICICLETA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 16 de Dezembro de 2009 by Humberto

SONHO DE NOITE DE VERÃO

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 29 de Setembro de 2009 by Humberto

A margem direita da foz do rio Tejo e a frente de mar a ela contígua é gerida desde o aconchego de muitos gabinetes. As câmaras de Loures, Lisboa, Oeiras, Cascais e a Capitania do Porto de Lisboa têm a seu cargo muitos quilómetros. Nestes públicos organismos labutam decisores políticos e responsáveis técnicos pelos destinos de tão belos lugares. Aqui se olha hoje para o Concelho de Cascais e a capacidade que esta autarquia tem tido nos últimos anos de estender tapetes de cimento e asfalto naquilo que é o ex libris do concelho, as praias e arribas ao longo da Marginal.

Ponhamos os olhos, por exemplo, na praia de Carcavelos, o seu extenso areal e a faixa entre a Marginal e a praia. Façamos o exercício de nos lembrarmos em quantas cidades se pode encontrar semelhante mini-paraíso. E digo cidade porque ista anda tudo ligado e na verdade Lisboa está ali ao lado e em menos dum credo estamos em Belém a saborear uma bica e um Pastel de Nata. Mais de um quilómetro de praia, ainda para mais larga de areia. Um mar que ora piscina, ora lugar de culto para surfistas. Bares e esplanadas para todos os gostos. Restaurantes com vista para um pôr de sol que dura todo o ano.

Quando a C. M. de Cascais resolveu “requalificar” a praia e área envolvente, quais foram as suas opções? Como aplicou os largos milhares de euros que destinou à empreitada? Facilitou os acessos? Aumentou a zona de passeio? Criou novos espaços onde se possa parar, sentar, ler, fora dos bares e restaurantes? Instalou parques infantis? Plantou árvores e fez mais sombras? Melhorou os acessos do lado de terra e pintou mais passadeiras? Reformou os túneis pedonais e facilitou a acesso às bicicletas com parques seguros?

Claro que com estas perguntas pretendo afirmar o que, em minha opinião naturalmente, não foi feito. Bem noto, quase diariamente, o que foi feito, mais uma vez em minha opinião, mal. E é por isso que acho ser a praia de Carcavelos um bom exemplo de como se faz tanto mal. Um exemplo de como a CMC olha para a faixa de costa do seu concelho, e fiquemos apenas pela virada a sul. Do quão fácil é afinal, se dúvidas restassem, algarvernizar o país.

Foi requalificado o areal, despejando toneladas de areia e criando assim uma melhor e maior praia para estender a toalha, pintaram, revestiram, muraram e fizeram mais escadas de acesso à areia. Reformaram balneários e instalações de apoio. Foram limpos de tags e graffitis os túneis pedonais, (esforço inglório pois nada mais apelativo que uma parede limpinha para os amigos das gravuras rupestres). Tudo obras de manutenção necessárias e bem vindas.

E como foi a intervenção estrutural? Aquela que de hora em diante define e condiciona a nova conjuntura. Optou por “afunilar” o passeio, quase conduzindo quem por ali anda até às esplanadas e bares para, supõe-se, consequente consumo. Proporcionalmente entregou-se muito mais espaço ao carro que às pessoas, desrespeitando o plano de ordenamento da orla costeira que obriga retirar do lado mar da Marginal todos os parques de estacionamento.

Estendeu um enorme tapete de asfalto, sem qualquer tipo de ordenamento, sem marcações, destinado ao estacionamento mais anárquico que se possa imaginar. Cabem centenas de carros de outros tantos automobilistas preguiçosos, já que segundo a CMC, não fora a facilidade de estacionamento à porta e ficariam os bares e restaurantes privados do seus clientes, incapazes que são de andar a pé. Só assim se compreende a opção, pois à praia, como se vê no Verão, chega gente que deixa o pó-pó bem longe da toalha.

Basta uma ligação à internet e alguns segundos de espera para se poder, através do Google ou serviço semelhante, constatar a existência de um enorme parque de estacionamento mesmo do outro lado da estrada, dispondo de acessos à  praia pela superfície e por baixo da Marginal. Por uma fracção do valor gasto nas obras aqui criticadas, teria sido possível melhorar as condições dessa área e torna-la mais apelativa e acolhedora (se é que um parque de estacionamento pode ser alguma destas coisas…) aos potenciais clientes (ah!).

Por muito atraso que se produza, por muitos pequenos interesses egoístas que se privilegie, um dia os carros vão mesmo desaparecer da praia de Carcavelos. Desaparecerão porque não pertencem àquele lugar, não fazem lá falta, porque usurpam chão cada vez mais raro, transformando-o numa zona seca, morta. Por muito que isso possa custar ao nacional egoísmo bacoco, um dia todo aquele espaço vai ser preenchido por coisas úteis e será finalmente entregue a quem dele faça bom uso e o merece: as pessoas, nós todos! Nesse dia, até os condutores de automóvel e os empresários da restauração ficarão a ganhar!

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