Arquivo de automóvel

O MAU DA FITA

Posted in cycle to know with tags , , , , , on 27 de Agosto de 2012 by Humberto

Um dos quatro temas mais debatidos pela tribo das bicicletas dá mote ao texto que pode ler hoje. No seguimento deste e como anunciado, publico agora algumas considerações sobre a relação entre o carro e a bicicleta. Brevemente ainda me vão ouvir falar das ciclovias e a terminar a saga, dos capacetes.

O carro é o mau da fita. Tem sempre que haver um mau da fita: é o carro. Só os fósforos perdem mais valor que o carro com o uso. O carro é insaciável. O carro é exigente. O carro dita-nos os destinos, os quandos e os ondes. Nada nos dá mais estatuto social que o carro que levamos nas mãos. Nada nos detém por detrás do para-brisas! Quando estamos protegidos dentro do carro, somos indestrutiveis! Somos cativos do conforto do carro, apaixonados pelo som do motor, sonhamos com o cheiro a novo, ávidos de tecnologia de ponta. Há muito que o carro faz o mesmo que o Viagra, com versões também para mulher. O carro representa nações, povos, regimes, épocas. O carro alimenta paixões e gera ódios. Transporta a vida e leva a morte. Vai à guerra e é a guerra. Há carros para todos gostos, para todas as algibeiras, de todas as cores e feitios. O carro é o mau da fita perfeito!

O carro está por tudo o lado e não parece que esteja com vontade de ir embora. Apesar te ser uma máquina relativamente simples e até algo arcaica, o automóvel tem sido o mais bem conseguido objecto de consumo da indústria da publicidade. Desde que nascemos que vivemos rodeados e carros. O carrinho de bebé e os carrinhos do bebé. O carro do supermercado e o carro de mão. Nos desenhos animados os animais da selva têm rodas e no cinema nunca vi um actor a fazer de carro mas já vi carros a fazer de actor… O carro é o rei! Não há artista da música ‘róh que viva longe dos carros e no futebol o jogador é o carro com que chega ao treino. Se a imagem dos deuses não andasse hoje em dia tão desvalorizada, diria que o carro é um deles. Verdadeiramente omnipresente.

Não são só os combustíveis e óleos que alimentam o carro mas praticamente tudo nele gira à volta do petróleo. O carro reflecte melhor que tudo, a dependência em que a sociedade de consumo vive da indústria do ouro negro. Esta dependência é por vezes voluntária e noutras nem tanto. Um cidadão pode querer depender do carro ou pode não ter escolha. E é aí que bate o ponto! É possível que muitos cidadãos encontrem alternativas ao automóvel, mas pensando numa emancipação social em relação à dependência do quatro rodas, ela só chegará quando isso for entendido pela sociedade em geral como uma necessidade. Quando a política de transportes, rodoviária, educativa, fiscal, quando as prioridades de  desenvolvimento (?) passarem por diminuir essa mesma dependência.

Cada um de nós que opte, por exemplo, pela bicicleta em detrimento do carro, está a contribuir de várias maneiras para reduzir a famigerada dependência do carro. Mas a bicicleta, porque não é opção para a maioria dos transeuntes, não é o santo graal da mobilidade. Pode ser que um dia venha a ser mas esse dia ainda está longe. O grande predador do automóvel é o transporte público e será por essa via que se reduzirá a dependência do carro. Outras formas de reduzir o impacto do automóvel nas nossas vidas têm que ver com a gestão do espaço alocado ao estacionamento, com a limitação ou eliminação total do acesso por carro a áreas sensíveis das cidades, com a maior e mais efectiva responsabilização do automobilista pelos impactos negativos que pode causar, quer de forma activa -velocidades excessivas, quer de forma passiva -estacionamento em passadeiras.

O homem move-se para trabalhar, conviver. Andamos dum lado para o outro por tudo e por nada. A mobilidade é vital. Uma vez que foi dado às pessoas “o direito” a acederem a todo o lado de carro, uma vez que se pretende, e bem, cortar esse “direito”, é forçoso que duas coisas aconteçam. Primeiro que sejam convencidas das vantagens desse “corte”; segundo que lhes sejam dadas alternativas. Valorizar o trânsito pedonal, melhorar as redes de transportes colectivos e (hélas!) incentivar a utilização da bicicleta, são necessidades imperiosas para requalificar as cidades, promover o desenvolvimento económico e social mas sobretudo para diminuir a dependência que Portugal padece do carro. Será que é nesse sentido que se tem caminhado? Como sempre há de tudo. A nível local tem havido algum progresso e podem citar-se felizmente bons exemplos que nos dão esperança que há uma nova mentalidade a tomar conta de algumas cadeiras com poder. E a nível do Governo? O Governo está a fazer o seu melhor para nos pôr a todos a andar a pé e de bicicleta ou não andar mesmo. Com os preços galopantes dos transportes e dos combustíveis estamos perante o mais forte impulso de sempre dado à bicicleta. Já para não falar que à velocidade que fecham empresas, em muitas estradas do país foi substancialmente reduzido o trânsito nas horas de ponta!

Por vezes confunde-se a fome com a vontade de comer. É fácil -e cada vez mais comum nos exemplos que nos chegam de cima- encontrar soluções populistas para problemas estruturais. Institui-se universalmente a teoria do utilizador-pagador e aquilo que é um problema de todos, merecedor duma solução global, passa a ser um problema de cada um, a ser resolvido de forma individual. Tenho a certeza que o aumento do custo de vida tem levado muitas pessoas a considerar alternativas na sua vida. Há seguramente quem tenha descoberto a bicicleta por causa do aumento do preço da gasolina. Daí até se concluir que aumentar o preço dos combustíveis é resolver os problemas da mobilidade, ou que por essa via se promove a bicicleta, vai um grande engano. Quando ouço vozes a pedir aumentos ainda maiores para a gasolina, pois dessa forma as pessoas deixariam de vez o popó parado, creio que o essas vozes esquecem é que o pão que lhes cala a boca, o leite dos petizes, a saladinha que levam na lunch box tão cool, não chegam montadas num burro!

Ver no automobilista um inimigo, alguém que vive nas trevas, que polui só porque quer, que odeia a vida, alguém que vive empenhado em destruir a Terra, ver em cada automobilista a personificação do mal, um Barbodemo! não nos leva muito além do ponto a que chegámos. Talvez ver em quem está sentado ao volante um possível-futuro ciclista, seja meio caminho para se conseguir transformar mentalidades. Não é por eu andar de bicicleta que tenho uma qualquer superioridade moral, nem foi por via dos pedais que adquiri o direito de julgar os outros apenas pelos meus interesses. Lá porque quando me desloco de bicicleta não gasto petróleo, não me nascem verdades absolutas na cabeça. A minha opção de vida, a minha escolha velocipedista é um exemplo de mobilidade mas tem de ser também um exemplo de cidadania, de respeito, nunca um motivo de conflito.

Ninguém contesta a imagem de ser o carro muito mais potente que a bicicleta. O mundo do carro quero eu dizer. Enfrentar um mundo tão vasto e poderoso como o do carro requer mais que um par de punhos. Requer perceber bem o que está em jogo do lado de lá. Que interesses se fazem transportar de carro, quem se alimenta desta dependência. Quem ganha com as PPP rodoviárias e quem lucra com o fecho da linha férrea. Quem enriquece com os lucros da GALP e quem constrói parques nos centros das cidades. Quem tem ganho com o atraso da rede de bicicletas partilhadas em Lisboa. Quem encolhe a barriga em cima da bicicletas de frente para os fotógrafos mas não mexe uma palha para punir quem estaciona no passeio? Sim, porque aqui como em quase tudo, há a quem apontar dedos. Ou não há? O que foi que tornou possível que em países com muito mais poder de compra, os cidadãos optem por limitar a dependência do automóvel? Pode ter acontecido que os cidadãos desse lugares tenham perdido a paciência e tenham punido quem lhes tolhia a qualidade de vida. Pode ser que se tenham tornado exigentes. Lutar contra o poder do carro requer que se escolha bem os aliados, que não se acabe a dar armas aos que nos garantem um futuro em quatro rodas. Mas implica também olhar do lado de fora do pára-brisas e perceber que quem vai lá dentro é sobretudo vítima.

Porém o mundo gira e as coisas mudam. No império do carro, nos Estados Unidos da América, um recente estudo deu conta que pela primeira vez o carro deixou de ocupar o primeiro lugar no sonho americano dos jovens gringos. Na última década e pela primeira vez a industria automóvel dos EUA vendeu marcas e a capital do carro Detroit, quase que desapareceu do mapa. O preço dos combustíveis e o fim dos apoios federais aos SUV levou ao primeiro lugar das vendas, marcas asiáticas e o diesel entrou no léxico dos automobilistas. Marcas alemãs publicitam os modelos de topo com base nos baixos consumos. Os motores já não se medem apenas em cavalos mas sobretudo em quilómetros por litro. Tornaram-se blue e green. Novos motores eléctricos podem-se recarregar como um vulgar telemóvel. O carro é cada vez mais um electrodoméstico. Acabar com a supremacia do carro nas nossas cidades passa seguramente por escolhas pessoais que vão muito para lá das questões da mobilidade.

E AGORA ALGO TOTALMENTE DIFERENTE

Posted in cycle of sighns with tags , on 22 de Março de 2012 by Humberto

A utilização do automóvel deve assumir características mais culturais, eruditas. Deixar de ser uma máquina vulgar, castradora e revelar todo o seu potencial como veículo de elevação criativa ao transportar-nos numa viagem pelos sentidos. O automóvel pode e deve ser um objecto libertador!

AS PALAVRAS AGARRADAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 17 de Outubro de 2011 by Humberto

As palavras valem o que valem ainda para mais as dos políticos e num tempo em que os governantes não têm nem palavra nem honra, se é que uma pode ser separada da outra sem afogar a dignidade na lama mais porca. Dizer-se uma coisa ontem e anunciar-se o seu contrário não seria pecado ou não fosse a desfaçatez da mentira, a ignomínia da traição, os propósitos mais torpes com que nos espezinham o futuro e as esperanças.

Tivéssemos a efémera memória dum peixe dourado e suportaríamos incólumes as paredes escuras da caverna em que aos poucos se transforma a Europa. A Europa cada vez mais a dois tempos, a dois mundos. Um mundo como que do lado de cá das paredes, transparentes é certo, dum pequeno aquário e outro do lado de lá. Nós e eles. Nós os pobres, os gastadores, os privilegiados. Eles os outros.

Na outra Europa as pessoas vivem em cidades modernas e desfrutam de qualidades de vidas com as quais só podemos -e por enquanto ainda podemos!- sonhar. Na Europa de cá tentamos construir, com a pouca areia e pedras de foram sendo deixadas no fundo do aquário, pontes que nos tirem do atraso que pior que estrutural, é estruturante.

Mas como não somos peixes e muito menos dourados, temos memória, ou pelo menos vamos salvando nos seus meandros pedaços do dia-a-dia dos dias adiados. Como querendo registar nas paredes da caverna imagens que segurem o tempo, as esperanças, a fé, aqui fica este vídeo dum senhor político e governante em pleno uso do dom da oratória.

António Costa fala de mobilidade, condena o automóvel, enaltece a bicicleta e pensa numa cidade diferente da que temos hoje. Melhor. A mim não me parece que caiba dentro do aquário de vidro da Boémia onde nos querem presos mas gosto de acreditar que o sonho comanda a vida e quando um homem sonha o Mundo pula e avança.

Poesia à parte, será que o senhor Costa vai conseguir levar juízo aos senhor Zé e senhor Nunes e conseguir mudar mesmo a cidade?

JANTAR COM O INIMIGO

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , on 24 de Maio de 2011 by Humberto

Não houve ainda vez nenhuma que fiz referência ao facto da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta ser associado da Fédéracion International de l’Automobile, globalmente conhecida pela sigla FIA, que o interlocutor não faça um ar de admiração ou até de dúvida. Então mas como é que a associação dos doidivanas das bicicletas faz parte da mesma respeitada organização que os formula um e os carros de rali? As razões para as coisas serem como são, são muitas vezes muito mais simples que parecem e se nos dermos ao trabalho de descobrir como foi que nasceu a FIA há já mais de 100 anos, talvez a presença da FPCUB deixe de ser assim tão estrambólico.

Muitas das mais de duzentas organizações membros da FIA são clubes de touring, caravanismo e campismo, não representando exatamente utilizadores do automóvel mas quem usa um qualquer meio, a motor ou não de transporte particular para as suas deslocações de lazer e turismo. É fácil de perceber que em vários países europeus a importância da bicicleta enquanto meio de transporte rivalizou durante muito tempo com o automóvel. A bicicleta é, direi mesmo cada vez mais, usada como veículo para ir de férias mesmo pelos caminhos de Portugal. Há até um excelente novo incentivo! Provavelmente também aqui a situação geográfica de Portugal limitou o alcance da pedalada mas todos conhecemos, mais não seja pelo eco nos média, compatriotas que fazem viagens a pedalar, algumas até paragens distantes.

Nalguns países os atuais clubes de automobilistas, porque são tão antigos que à data da sua fundação ainda não existiam automóveis, herdaram a tradição dos amantes do touring (não confundir com tuning) em bicicleta e, mais tarde em motorizada. Sair de casa com uma roulotte atrelada ou ao volante duma auto-caravana é muito comum no centro da Europa e é vê-los descerem até à nossa costa atlântica com aquele ar de reformados sortudos. Muitos países têm vários clubes na FIA, sendo que normalmente apenas um agrega a componente de desporto, ou se quiserem, de competição. A França tem como associados na FIA três clubes de automobilistas, um clube de campismo e outro de campismo e caravanismo, mais um de desporto motorizado. De Portugal estão representados, para além da FPCUB, o Automóvel Clube de Portugal e a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting. Mas para ver que as coisas não são mesmo como parecem, sabia por exemplo que o ACP promove o montanhismo? Nem eu! É caso para dizer que no ACP antes trepar que pedalar…

Vem este relambório a propósito de ter eu sido arrastado para um jantar que fechou a Conferência Internacional de Clubes da FIA, que decorreu no Estoril há meia dúzia de dias. Chegado ao repasto, já com um significativo atraso, sentado e devidamente apaparicado com um colorido prato e um desejado copo de vinho, como se exige de semelhantes convívios, deparo-me com a questão do dito cujo propriamente dito: o convívio. De que falar com comensais que passam a vida a ver o mundo pelo para-brisas dum mais que provável topo de gama luzidio e rocinante? Deu-se o caso do casal à minha direita ter vindo do norte da Alemanha, dum burgo perto de Bremen, cidade imortalizada pelos irmãos Grimm e os seus quatro amigos músicos. E por aí foi a conversa até que o fado interrompeu os diálogos com a sua exigência de silêncio -muito gostamos nós de dar a plateias que nada percebem da língua lusa, uma música onde a palavra é fundamental!

Quando a crua realidade do presente nos dá pouco espaço para a fantasia, esta fábula dos quatro amigos que fogem para Bremen em busca do futuro e da liberdade, fala-nos de como objetivos comuns podem ser a alavanca que une quem é tão diferente como um burro, um cão, um gato e um galo. Ao contrário do que se afigura no nosso horizonte enquanto país, em que não nos dizem sequer para onde nos querem  empurrar, embora apenas nos prometam pedras pelo caminho, os quatro músicos de ocasião sabiam que era em Bremen onde encontrariam a solução para os seus problemas. Ou seja, moviam-se com um objetivo, concordando com o destino.

Afinal o jantar, mesmo descontando a singela refeição e a bando sonora da praxe, acabou por me dar mais umas boas razões para continuar a ser criterioso e até um pouco sectário nas fábulas e histórias de fantasia que escolhemos cá em casa para ler ao V. Mesmo rodeado de apaixonados pelas máquinas que me oprimem enquanto defensor duma mobilidade integrada, onde todos caibamos de acordo com as nossas necessidades, é possível encontrar caminhos para percorrermos a par. Cada vez mais cansado das vozes que nos garantem que os políticos são todos iguais, sei que é nas diferenças -escondidas?- das propostas, mas sobretudo da ação, que é possível e necessário trilhar um caminho novo para o meu país. Para que depois do dia 5 de Junho não tenhamos todos de ir por aí a caminho de Bremen.

BICIAUTO, JUNTAR O IMPOSSÍVEL?

Posted in cycle to know with tags , , , , on 3 de Maio de 2011 by Humberto

A opinião que cada ciclista tem sobre a aventura de pedalar na cidade, é influenciada por alguns fatores comuns a todos eles. O estado das vias que usa e o comportamento dos automobilistas são o que maior impressão causa na nossa memória. Se os obstáculos no caminho podem ser relativizados pela versatilidade da montada, já o confronto com os mamutes de aço e seus domadores é de mais difícil gestão. Os automobilistas são os dominadores das estradas, ruas, praças, largos e de tudo em redor! Quem com eles tem de disputar o espaço sabe o quão ingrata é tantas vezes essa pretensão.

Veículos mais ou menos pesados, táxis, autocarros, motorizadas são tudo objetos tripulados que circulam quase sempre em excesso de velocidade e sempre, repito: sempre em velocidade excessiva. O diferencial de velocidade entre os veículos a motor e as bicicletas na mesma via nunca é inferior ao dobro e atinge facilmente o quadruplo ou mesmo o quíntuplo. Por aqui é fácil perceber os receios e as renitências de tantas pessoas em experimentar a alternativa que a bicicleta oferece. O sentimento de falsa segurança que se obtém ao volante é inversamente sentido por quem se põe por detrás dum guiador.

Sabemos que a segurança dos ciclistas aumenta proporcionalmente com o número de bicicletas em circulação e isto deve-se a várias razões, mas também sabemos que este tipo de conclusões são tiradas pela análise de dados recolhidos em realidades muito diferentes da nossa. Existe uma imensa impunidade nas estradas portuguesas a par duma verdadeira anarquia de comportamentos. Todos os condutores têm relativo receio de serem apanhados em infração mas é geral o sentimento de que as autoridades agem por “caça à multa” e não com carácter preventivo e a força da lei está longe de ser omnipresente.

Além do mais a infraestrutura é deficitária. São ridículos os radares fixos instalados em Lisboa e absurda a gestão de velocidade na Marginal da Linha de Cascais. Não existem câmaras em nenhum semáforo com sensor de velocidade e, embora esteja demonstrado que as “bandas sonoras” acarretam perigos penalizando também o condutor que circula de forma regular, continuam a ser a única barreira de acalmia de tráfego dispersa por este país fora. Há muito a fazer até chegarmos ao ponto de agradecer à bicicleta o contributo para tornar a estrada mais segura. No entanto somos nós, os que usamos a bicicleta e o carro, que estamos em melhores condições para fazer a ponte entre dois mundos tão díspares quanto próximos.

Foi recentemente criado o BICIAUTO, um clube destinado aos automobilistas que também são ciclistas. Os commuters que dividem os seus trajetos, as suas viagens, os seus dias, a sua mobilidade por, pelo menos, o automóvel e a bicicleta. É um clube que faz todo o sentido numa realidade como a nossa onde grande parte dos movimentos pendulares se fazem entre as periferias e o interior das cidades por trajetos impossíveis de pedalar, onde o transporte coletivo não é alternativa e mantém as pessoas agarradas ao carro, quando é cada vez mais difícil enfrentar o problema do estacionamento e os combustíveis qualquer dia são vendidos em lojas de luxo.

Os automobilistas são muitos dos potenciais futuros pedalantes urbanos. Um ciclista que é também condutor será de certeza mais sensível às bicicletas na estrada e contribuirá junto do seu circulo de relações para a desejada e necessária alteração de mentalidades. Quem já é um biciauto sabe como é estar do outro lado e é seguramente um melhor condutor mesmo quando os pedais onde pisa não giram, alguém que contribui para a estrada ser um lugar mais seguro. O objetivo primeiro de todos os que circulamos pelas vias de comunicação, independentemente da máquina que escolhemos, deverá sempre ser chegarmos em segurança ao destino. Reduzir a este objetivo a missão do novo clube é já justificar a sua existência.

ÍNDIOS E CÓBOIS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 9 de Março de 2011 by Humberto

As recentes imagens de um carro a colher bicicletas vieram juntar-se ao rol de pequenos filmes que registam estes momentos de demência que com demasiada regularidade ocorrem nas mais diferentes paragens. São o lado mais dramático dum conflito que opõe -como aliás ocorre com quase todos os conflitos- duas vítimas, com muito mais em comum do que parece à primeira vista: automobilistas e ciclistas.

Há décadas que as cidades portuguesas são moldadas, desenhadas e projectadas por técnicos que põem a utilização do transporte individual automóvel, o carro, no centro das prioridades. Na grande área metropolitana de Lisboa ainda hoje se constroem e alargam vias com três e mais faixas em cada sentido, cortam-se freguesias com variantes e vias rápidas, permite-se a ocupação de qualquer espaço livre por veículos estacionados. Grandes espaços comerciais onde os clientes apenas poderão chegar de carro são cartão de visita de todos os concelhos do distrito de Lisboa.

Esta mesma cidade onde a dimensão humana foi sendo ultrapassada pela voracidade do automóvel retribui moldando quem nela vive em pessoas embrutecidas pelo asfalto e pela velocidade. Mesmo em espaços donde o carro foi banido como na nova Praça do Comércio, o peão não ganhou nada mais que espaço livre e vazio. É indiscutivelmente essencial criar meios que permitam às pessoas chegar aos espaços públicos, aos jardins e praças, mas esse acesso só fará sentido se nos levar a destinos vivos, confortáveis e seguros. Um turista visitará o Terreiro do Paço uma vez, um lisboeta poderá lá ir todos os dias se a tal for convidado.

É pela valorização do cidadão e do espaço de encontro e interação que as cidades se tornam mais humanas. Da mesma forma que milhares de famílias se cruzam incógnitas dentro dos seus carros, também quando fora deles deambulam pelos corredores dos centros comerciais não estabelecem qualquer tipo de relação. Não debatem, não cruzam opiniões, não se conhecem. É ao tirar o condutor de dentro do carro que a cidade ficará mais humana e consequentemente geradora de menos conflitos. Tirar primazia ao automóvel é pois uma forma de moldar o condutor num melhor ser humano.

A reivindicação do direito a usar a estrada em pé de igualdade com os restantes veículos é mais que justa sobretudo olhando o caminho trilhado pelas regras do mercado liberal. O direito à escolha de meios de mobilidade não dependentes do automóvel faz parte do leque de opções de qualquer cidadão do mundo (dito) desenvolvido e ao qual (nos dizem) pertencemos. Ser assertivo no protesto e na argumentação requer mobilização mas especialmente objectivos. As imagens que nos chegaram do Brasil passaram nas televisões e foram assunto de imprensa mas não o suficiente para criar massa crítica e reflexão sobre o estado da arte, não justificaram tampouco um retrato sobre a bicicleta no país irmão ou sequer sobre os planos da Prefeitura de Porto Alegre para acomodar a circulação de velocípedes na malha viária.

Todas as pessoas que utilizam o carro vêem os custos da sua escolha -quando é de escolha realmente que se trata- a atingir o incomportável e têm que tomar decisões diárias que compensem os aumentos do IVA e do IRS, da água e do pão, da vida! Estas pessoas, nós, questionamos seguramente as próprias opções de mobilidade. O aumento na utilização dos transporte colectivos e a diminuição do trânsito automóvel na ponte 25 de Abril são dois exemplos actuais disto mesmo. Todos os actuais condutores são potenciais utilizadores da bicicleta. É assim que gosto de  ver quem se senta do outro lado dos vidros e não ouve o som do mar, o cantar dos pássaros nem dá os bons dias quando se cruza comigo.

ANDAR A PÉ É BOM

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 7 de Dezembro de 2010 by Humberto

Não é à toa que o carro tem tamanho peso na vida de tantos cidadãos das nossas cidades, e fico-me pelas cidades porque no resto do território a situação está apenas diluída pelo cenário de montes, vales e planícies. Existe já bastante informação sintetizada e analisada sobre o automóvel nas nossas sociedades ocidentais, sobre as razões e as consequências disso e, embora esse trabalho de secretária tenha tido quase nunca casos lusitanos como objecto de estudo, salvaguardando a necessidade de ponderar as nossas tão propaladas idiossincrasiazinhas lindas, não se perderá muito com extrapolações.

Conduzir um carro topo de gama faz efectivamente parte do imaginário de muitas pessoas mesmo das que mais tarde encontram a luz ao fundo do túnel montada no quadro ferrugento duma pasteleira. Queime gasolina, óleo vegetal usado ou empurrado por electrões excitados, o automóvel é um sinal de estatuto social, de unicidade no meio da mole engarrafada num futuro adiado. Da mesma forma que um condutor ao volante dum Audi preto e reluzente se sente senhor duma manada de cavalos de potência capazes de galopar intrépidos qualquer obstáculo, também eu quando monto a minha Raleigh me sinto envolto no seu carisma e parte da sua história gloriosa. Afinal é tão fácil perceber os automobilistas.

Sair à rua sem cultura nem literatura, sem mundo nem saber não é crime. Navegar pela vida fora num mar de ignorância é o destino de milhões de seres humanos condenados à mais obtusa miséria: a do conhecimento. Se sairmos à rua na pele nua de Teresa Torga, o mais certo é sermos detidos e, se não nos provarem dementes, seremos condenados por ofender os outros. E o carro veste-nos tão bem, é a mais perfeita das capas, lá dentro podemos esconder a miséria do espírito e parecer tudo o que a publicidade se encarregou de pintar na carroçaria. Fomos manipulados e ensinados a vestir o automóvel. Fomos sendo guiados para dentro dele e lá seremos mantidos prisioneiros. E, como é quentinho, por lá ficaremos muitos e bons anos, a não ser que…

… nos tirem cá para fora. Que nos libertemos. É frequente encontrar no discurso anti-carro uma forte componente anti-condutor quando uma abordagem oposta seria mais producente. Vejamos, os condutores são peões sempre que saem dos carros. Uma vez com os pés assentes no chão tornam-se pessoas normais que enfrentam os mesmos problemas que nós. Por exemplo na Rua Garrett, em Lisboa, existem lojas donde pudemos sair com um saco que pese vários salários mínimos sem que isso nos afecte as costas e no entanto quantos lugares de estacionamento existem nessa rua, em frente a essas lojas? As lojas que ali se instalam não são, pelo menos à primeira vista, lojas dos chineses e no entanto escolheram uma zona da cidade onde é caro ir de carro. E porquê? Será porque é bom andar a pé na Rua Garrett?

As pessoas gostam de andar a pé. Basta ver os centros comerciais e as suas largas alamedas cheias de peões. E não existe um único centro comercial com estacionamento no corredor, sendo que a distância que se faz desde a cave escura, fria e cara até à porta da loja preferida no Colombo, equivale a umas boas subidas ao Chiado. As pessoas gostam de andar a pé em Lisboa ou em Paris, só que em Paris, antes da andarem a pintar os passeios de vermelho desmaiado, arrumaram o estacionamento e devolveram os passeios aos peões. Em Paris trabalhou-se primeiro para tirar os condutores de dentro das celas e depois atiraram-lhes umas bicicletas (bem feias por sinal) para a frente dos pés.

A melhor ajuda que podem dar ao uso da bicicleta em Lisboa ou em qualquer outra cidade, é libertar o peão que vive refém dentro dum automóvel. Claro que as pessoas não vão querer sair do bem-bom-quentinho. É assim aqui como foi em todo o mundo, mas uma vez cá fora rapidamente se aperceberão de como é bom andar na Rua de Santa Catarina, ver o movimento perpétuo desde um dos bancos corridos ou beber um café na esplanada centenária do Majestic ao som do acordeão desafinado e pedinte. Foram os carros que desertificaram os centros das cidades exilando os seus habitantes nos subúrbios sem lojas de rua nem árvores. São as ruas pedonais que lhes devolverão a vida, ressuscitado-os, aos centros e aos habitantes.

Numa escola aqui do bairro um casal de pais imigrados da Alemanha, fazia-se notar por, embora vir de carro trazer o filho, nunca parava junto à porta, estacionando sempre num lugar legal e caminhando até à escola a passo & par. Para lá da atitude de civismo exemplar, os minutos de partilha pedonal enriqueceram uma relação que se quer sempre melhor. Andar a pé é ser parte da corrente sanguínea da nossa cidade, é partilhar o mesmo espaço sem regras nem prioridades, é ouvir mais os outros, escolher mais caminhos e dividir, olhar com mais calma, ver. Devolver os peões às ruas das nossas cidades não é uma necessidade, é uma obrigação!

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