Arquivo de arquitectura

DE GERHY A GEHL

Posted in cycle to know with tags , , , , on 17 de Dezembro de 2011 by Humberto

Há uns quantos anos a cidade de Lisboa teve por presidente alguém cuja obra que marcou o seu condado foi um buraco em forma de túnel com o mérito prometido e alcançado de meter mais depressa, mais carros dentro da cidade.

Esse senhor, dando seguimento ao imbróglio que ligou a CML e a empresa Bragaparques, os terrenos da Feira Popular e o Parque Mayer, resolveu contratar um gabinete de arquitectura conhecido por obras que não ficam exactamente escondidos em becos… conhecidos autores de alguns museus Guggenheim e do hotel Marqués de Riscal, Espanha.

Pelos serviços contratados à Gehry Partners foi paga uma quantia, digo eu… alta. E acrescento: foi paga muito justamente, já que o trabalho tem de ser remunerado, e afirmo-o porque andam por aí uns senhores amigos do ex-presidente a tentar impor o contrário, mas isso é outra história. Ou talvez não…

Bom, mas dizia eu que o contrato foi cumprido na medida do executado. Uns desenhos e umas reuniões e passa para cá os euros. Não escrevo considerações sobre a obra do mestre canadiano. A tanto não me alcança a pretensão! Sendo um arquitecto com obra espalhada por todo o mundo, considero um privilégio para a capital ter um edifício projectado pela dimensão de Gehry.

Não seria apenas o ego do edil presidente que engordaria com a assinatura de Frank Gehry pespegada numa parede de Lisboa. Eu, que associo à linha intelectual santanista os violinos de Chopin ou o CCBamarracho, reconheço modestamente que gostaria de também viver numa cidade Gehry, Lloyd Wright, Soutinho, Siza, Ando, Calatrava.

Duas ordens de razão assistem porém às minha dúvidas sobre a empresa do então autarca: primeiro, o lugar escolhido para acolher a mestria do arquitecto, a imponência do seu talento confinado num beco sombrio e segundo, relevância do projecto nas necessidades da cidade. Tanto por tão pouco.

De tudo quanto se gastou -ainda por cima em vão! o mais caro foi o tempo. Durante meses foi andando um comboio que chegou a lugar nenhum. O dinheiro foi-se e nada apareceu no seu lugar. O tempo passou e não se pode voltar atrás.

Quanto tempo e quanto dinheiro custaria ter pago por algo que em minha opinião, tarda por chegar: um projecto verdadeiro para reformar a rede viária? Um estudo sobre mobilidade e consequente acção transformadora? Quanto custaria, em tempo e em dinheiro, chamar Jan Gehl e Helle Søholt para virem conhecer o Cais do Sodré e a Mouraria, as Avenidas Novas e a Gulbenkian, o Fado e a luz -uma e outra, o maduro e o verde, a Senhora do Monte e as tasquinhas de Marvila, o Mercado da Ribeira e as bifanas, as chamussas do Martim Moniz?

Mas sobretudo, o quando se ganharia em dinheiro e em tempo!

O pequeno filme que se segue é uma viagem por Nova Iorque feita em jeito de estudo in loco por gente que passa a vida a tornar as cidades dos outros um nadinha melhores. Enquanto grande fã dos dotes musicais e escrevinhadores do anfitrião Byrne, ciclista aficionado e praticante, desde já me proponho para ser o Byrne alfacinha. Ofereço o meu tempo e, se for por ajuste directo, levo baratinho.

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