Archive for the cycle of sighns Category

BICICLETAS PARA A ESTRADA JÁ!

Posted in cycle of sighns with tags , , on 18 de Novembro de 2013 by Humberto

cais das colunas

Tenho passado nos últimos meses, muitas horas ali para os lados do Terreiro do Paço. Volta não volta e estou de plantão à porta do Ministério da Troika à espera que mais um rol de maus presságios escorra dos gabinetes, desça pelos microfones e se abata sobre o nosso futuro. Pela porta da rua entra a luz dum Tejo a correr para o mar mas sem força para lavar a cidade nem levar a mágoas. Lá fora passam bêbados curiosos, namorados resignados, desempregados arrumados e arrumadores empregados, polícias desesperados, prostitutas baratas, turistas assustados, bombeiros apressados, donas de casa atrasadas, carros a apitar, pedreiros a xingar. E muitas bicicletas.

Raras vão sendo as oportunidades de prender o olhar a Lisboa e para ouvir falar de liberdade escolhi descer ao rio e embalar-me pelo piar das gaivotas. Estava o céu vestido de azul e aquecia a fria manhã de domingo. Uma pequena praia deixava-se mostrar na maré baixa e o rapaz que faz do cais palco encantava tainhas e um par de alforrecas asfixiadas, enquanto todos os outros seres vivos tentavam imaginar como seria só ouvir o rio. A calmaria das águas contrastava com a corrente de ciclistas equipados a preceito para uma volta ao Alqueva, que ia e vinham pela estreita calçada. Mas porque raio não vai aquela gente toda na estrada?

Passam diariamente dezenas de bicicletas na cidade que se estende de Santa Apolónia ao Cais do Sodré. Muitas são levadas pela estrada, altivas e afirmativas, donas do seu lugar. Outras mais amedrontadas vão cuidadosas pelo passeio do lado do antigo Paço e deixam-se ficar a fazer preguiçosos oitos na Praça do Comércio. Muitas seguem ainda covardemente, fugazes por entre quem foge para apanhar o barco, pelo passeio em frente ao Cais das Colunas, esgueiram-se por entre distraídos fotógrafos de ocasião, driblam carrinhos de bebé, rabeando a sorte pelo meio do azar do peão.

O que faz um tipo sair de casa enfiado em lycra dos pés à cabeça, pôr-se em cima dumas boas centenas de euros e, em vez de ir pedalar para o monte, ir chatear quem vai a passear? Pelo passeio! Parecem putos, uma cambada de miúdos medricas mascarados de homens, todos equipados como nas fotografias dos catálogos da marca da bicicleta preferida, mas que não se atrevem a pôr um pedal na estrada. Às tantas, ia eu na direcção do poente, ali onde as eternas obras da Ribeira das Naus obrigam a caminhar por um corredor de grades, ouço um compincha a dizer ao outro “até Santos? mas assim tem que ser pela estrada…”. O mesmo pessoal que afugenta aos gritos e solta impropérios de cada vez que um peão pisa aquela espécie de ciclocoisa mais à frente a caminho de Belém, foge para a calçada como se o asfalto queimasse os pneus xpto-de-corrida! Até quando? Apre!!!

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MENTALIDADE SEGURA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 5 de Novembro de 2013 by Humberto

esquemaA segurança dum ciclista na estrada é posta em causa não pela acção concreta dos automobilistas mas sobretudo pelas ideias de segurança que tem a grande maioria dos automobilistas. Eu explico.

É legítimo um automobilista, ou qualquer outra pessoa, achar que quem pedala na estrada põe em risco a própria segurança, e até a segurança dele, automobilista. É razoável que quem de dentro dum automóvel, olha aqueles que se transportam em cima duma estrutura frágil, sem nada que os proteja dos elementos para além da própria pele e enfrentam na mesma arena máquinas muito mais fortes e velozes, pareça estar a arriscar muito e dessa forma, a pôr em risco a própria segurança.

Por haver um efectivo risco quando se anda de bicicleta no meio do trânsito automóvel, é reconhecida a necessidade de adaptar e actualizar a legislação, especialmente o Código da Estrada (CE), de maneira a aumentar a segurança para todos os utilizadores das vias. Mas uma vez publicadas as regras ideais, ficaríamos todos mais seguros? Como se implementa uma lei que obriga os automobilistas a passarem a pelo menos metro e meio dum bicicleta?

Um rápido olhar pela janela e damo-nos conta de como, apesar de tantas regras e sinais, o estacionamento automóvel é livre. quase anárquico. Ou como as velocidades impostas como limite, são na verdade e quase sempre as velocidades mínimas.

Não é o CE que vai fazer os automobilistas deixarem de me passar tangentes na Marginal. Muito menos será a polícia a medir as ultrapassagens irregulares. Quando tenho de ser automobilista existe uma única razão pela qual me afasto dum ciclista para uma distância segura e só então o ultrapasso. E essa é a única razão que fará com que outro qualquer automobilista se afaste também: a consciência de que ao agir doutra maneira, poria sempre uma vida em risco.

Em cidades onde a bicicleta é um alien, ainda que um alien simpático, é impossível circular sem rolar pelo passeio, desmontar sempre que se cruza numa passadeira, respeitar todos os semáforos ou nunca passar um verde-tinto, descer uma rua em contra-mão. Quer dizer, não é que seja uma impraticabilidade pura, é mais uma coisa natural já que um ciclista sente-se sempre mais próximo do peão que dum veículo motorizado. Andamos, vemos e ouvimos como um peão e é normal que interajamos com o meio duma semelhante maneira.

Faz sentido tirar as bicicletas do passeio quando se continuam a desenhar ciclovias pelo meio da calçada? Estender uma carpete vermelha pelo meio dum velho e esburacado tapete não é um convite ao “passeio”? Claro que é! É mais ou menos como marcar um seminário sobre nutrição na Confeitaria do Marquês.

A alteração das regras só é motor para mudar as mentalidades se houver implementação efectiva ditas. Embelezar os calhamaços sem cuidar do lado prático pode até contribuir para a ideia de que a “lei” não serve para nada. Tirar as bicicletas do passeio porque assim obriga a segurança dos peões, vai fazer com que, à medida que em Lisboa e noutras cidades, forem crescendo as áreas pedonais, estas sejam proibidas aos ciclistas. E isso não faz sentido nenhum!

Neste interessante artigo é sugerido o que pode a cultura da bicicleta no Japão ensinar ao Reino-Unido. Podemos aprender todos uns com os outros desde que acertemos na ideia que o que é essencial mudar são as mentalidades.

autocarro

A TRIBO DO CALENDÁRIO

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 20 de Outubro de 2013 by Humberto

bicicleta-indioSair por aí pedalando é ainda uma excentricidade para a grande maioria das pessoas que têm neste rectângulo o, por enquanto, lugar de poiso. Não é à toa que se ouvem barboseiras verdadeiramente admiráveis ou que se continuam a espalhar ciclóvias por Lisboa como quem constrói um cardápio de como aprender fazendo.

Hoje não vou por aí. Hoje vou deixar de lado as analogias de começar-a-construir-a-casa-pelo-telhado ou e-se-pavimentassem-as-ruas-primeiro ou o desesperante e-se-ordenassem-o-estacionamento, etc, etc, etc. Hoje vou-me ficar por uma coisa mais prosaica e e refrescante, particularmente para quem começa uma semana sem o totoloto no bolso nem ao menos a notícia do pedido de asilo de Passos, Machete, Cavaco & Co lá pelas terras do Panamá.

São engraçadas as tribos da bicicleta. Todas. Ainda não me percebi bem a minha mas gosto bué do pessoal que leva a coisa a rigor. Como somos poucos, mesmo que cada vez mais mas ainda poucachinhos, gostamos de nos identificar com aqueles que comungam dum gosto semelhante ao nosso, por exemplo por um certo tipo de bicla. Somos até capazes de adoptar uma determinada e muito a preceito indumentária, como se dum traje se tratasse. Adoptamos comportamentos de clã, do tipo só cumprimentamos o pessoal que tenha uma bicicleta com campainha ou os que tenham suspensão traseira.

Acho divertido, a sério que acho, sem pedantismos. Somos até capazes de elaborar filosoficamente sobre as vantagens para a defesa causa inerentes à militância numa e não noutra tribo. É ou não é? Os chics sabem lá como é que se promove a utilização da bicicleta ou parar num semáforo praquê? Ando a pensar em tatuar uma pedaleira na… Ui!

Enfim, também não é bem por aí que quero ir hoje e como a segunda-feira está quase a dar volta ao relógio, fica aqui em baixo uma razão para pormos em causa o universal, embora nunca provado, antagonismo entre os adeptos da fibra que tornou o senhor Du Pond ainda mais rico e os que preferem ensopar de suor o melhor tweed escocês. E já que o 2013 se encaminha para os finalmentes, podem sempre começar a escolher o calendário.

FALAR É PRECISO

Posted in cycle of sighns with tags on 27 de Maio de 2013 by Humberto

dot-helmet-testingSinto-me bem sempre que dou comigo encaixado na categoria falam-falam-mas-não-os-vejo-a-fazer-nada. Sempre há um alguém qualquer, com mais ou menos propriedade, a pretexto duma coisa ou de outra, mais ou menos a propósito, do meio duma qualquer menor ou maior discordância, que me cola, ou pelo menos tenta, a etiqueta de sócio do clube dos que só falam. E eu gosto. A sério que não me incomoda e se o escrevo é só para chamar a atenção para duas coisas.

Todos somos muito mais falação que fazemento pelo que falar é já um excelente começo para a acção. Porque a impossibilidade de ver não significa objectivamente a ausência do objecto, podendo ser provocada por mera incapacidade de registar na retina a luz reflectida pelo dito, pode ser que o exercício motivado pela comoção das células cerebrais do observador ao ouvir-me, o façam ver. E essa é uma das esperanças, talvez vãs mas seguramente modestas, que acalento ao falarzer. Confuso? É normal.

Quando o Ricardo Araújo Pereira termina o delicioso monólogo com a frase conhecida, faz um retrato redondo do sentido crítico mais inócuo. Descontado a graduação do nível de frontalidade com que a opinião do outro é contrariada com o défice entre conversa e acção, normalmente é sinal de escassez de argumentação. Algum ponto nevrálgico foi tocado e dispara um mecanismo que diverge a atenção do essencial para algo mais pessoal, íntimo. E eu gosto disso. Touché!

Repito: falar é fazer. Falar é debater, discutir, melhorar, corrigir, aprender sempre, uma coisa obrigatoriamente biunívoca e aprende-se ganhando razão, a nossa ou a dos outros. E há ainda a outra metade de cada um, a metade que efectivamente faz. É que se quem fala não é dono da verdade, tampouco quem executa é imaculado na acção. Na primeira vida desde blog alguém me disse várias vezes que o exemplo dado diariamente ao chegar ao trabalho a pedalar, valia mais que todas as letras gastas a desenhar pedais na cabeça dos outros. E eu concordava e lá ia consumindo suor e lá continuava a derramar militância pela ponta dos dedos.

Falava e fazia. Falamos e fazemos. E é exactamente por aí que nos podemos medir quando a questão for posta no juízo final e a primeira das duas de que falei a cima. Sermos voto derrotado não nos abala a coerência. E se o fazer é sempre susceptível de provocar opinião também o dizer deve ser motivo de apreciação. E por aqui vamos ao segundo aspecto que me surge no tema de hoje. Temos disponíveis online muito do que é o pensamento da massa de crítica lusitana e ciclista. Mas temos muito pouco debate.

Não é por acaso que os assuntos da mobilidade e por consequência da bicicleta, raramente têm espaço nas páginas dos jornais ou tempo de antena na rádio e na televisão. Não é coincidência que os “modos suaves” de transporte sejam tratados sempre como fait-divers, uma moda chique, uma excentricidade. O certo é que havendo da nossa parte um discurso quase apenas virado para dentro, onde apesar de existirem posições muito dispares sobre diferentes assuntos, não conseguimos animar o debate. E falar é preciso, é muito preciso, para congregar, esclarecer, motivar, empenhar. É que sem debate não há polémica e sem polémica não há notícia!

EVIDENTEMENTE

Posted in cycle of sighns with tags on 20 de Maio de 2013 by Humberto

happy bike riderTudo tem uma razão para ser como é e encontrar as razões e os porquês das coisas serem como são é talvez o verdadeiro sentido da vida. O que descobrimos depende não só de onde procuramos mas sobretudo da capacidade, da abertura, para compreender o descoberto. A bagagem com que nos fazemos à viagem de busca, até o porto de partida determinará as razões e os porquês que encontraremos pela vida fora. Na vida toda ou na vida dum só dia. Leva não leva e lá anda alguém a perguntar se conheço quem tenha tomado a bicicleta numa troca de circunstância, pela crise ou pelo preço da gasolina. Se sei de quem tenha abandonado a dependência do carro pelo vício da bicicleta. Alguém que se tenha convertido num monge cicludista para salvar o planeta do aquecimento global ou pura e simplesmente combater o poder da indústria dos perfumes com ataques maciços de odores corporais.

Há mais gente a pedalar, por todo o lado isto é uma evidência mas mesmo as evidências quando nascem não são para todos. Um cidadão pode perfeitamente fazer a sua vidinha sem nunca aprender a pedalar nem sequer ver como por aí anda tanta gente de rabo no selim, e mesmo assim ser feliz. Os outros, os que reparam e que podem também ser felizes, os para quem não lhes bastavam as motos a ultrapassar pela direita, agora também andam os malucos das bicicletas, para os que apanham um susto de cada vez que se cruzam com um cavaleiro da calçada, para esses a tal evidência poderá provocar incómodo, curiosidade, irritação, sorrisos, vontade de experimentar, inveja, indiferença, ou outro qualquer cocktail de sensações e sentimentos. Quem olha a bicicleta que passa pode muito bem ou pode não, muito bem também, pensar sobre isso.

É muito mais cómodo quando as coisas são fáceis de perceber, ou melhor, quando as percebemos facilmente. A bicicleta, fruto sobretudo do markting que a utiliza como maneira que chegar mais até a quem a não usa, é um veículo ecológico. Logo, quem usa a bicicleta é uma pessoa com preocupações ambientais, logo usa-a porque acha que assim protege o ambiente. A bicicleta é aceite como um veículo barato -que horror, esta bicicleta custa 500€!?- porque não gasta combustível e, com o aumento em flecha dos preços da gasolina, quem opta pela bicicleta quer poupar, logo optou pela bicicleta por razões económicas. Pedalar é uma saudável actividade, de tal maneira que há quem o faça sem sair duma sala cheia de vapores hormonais, música de discoteca e espírito de recruta. Logo, quem anda de bicicleta, fá-lo por desporto.

Vistas bem as coisas tudo isto é assim, só que não desta exacta maneira, objectiva, simplista. A bicicleta e quem a utiliza são tantas vezes eles próprios veículos para abordar de mais uma maneira, os temas ambiente e economia. Mesmo na cabeça do tal cidadão que até já reparou que andam mais bicicletas a passar lá na rua, existe a tentação de compreender esta evidência à luz duma simples equação de causa-efeito. Quem tem de se aproximar um bocadinho mais das bicicletas, jornalistas por exemplo, muito raramente o faz sentado no selim e é certo que terá o estigma ambiente-poupança-desporto por cartilha. Ver a bicicleta como um veículo que serve para transportar uma pessoa do lugar A ao lugar B, porta a porta, sem nenhum dos problemas do carro ou do transporte público, é quase uma impossibilidade material. Como pode alguém não preferir o conforto do estofo e do choffer? E o cheiro a suor que esta gente tem?

O filme no fim do texto diz o me faltou pôr por palavras mas antes que o veja, responda-me a uma perguntinha só assim em jeito de inquérito aos leitores, e pode usar a caixa de comentários que é grátis: se pedala, porque é que pedala? A bicicleta é um assunto de mobilidade, logo de ambiente, logo de saúde pública, logo de economia. Dito isto é muito fácil imaginar a quantidade de caminhos que se podem percorrer se nos deixarmos envolver pelo seu corpo e embrenharmo-nos na sua alma. A quem se propuser fazer essas viagens e ir compreendendo um bocadinho as razões da tal evidência, terá que primeiro entender a mais simples das coisas: a primeiríssima razão porque se vê por aí gente em cima de delas é porque andar de bicicleta é divertido!

The Holstee Manifesto Lifecycle Video from Holstee on Vimeo.

AS FORMIGAS E OS CARREIROS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , on 14 de Maio de 2013 by Humberto

Os transportes públicos ou colectivos, o carro particular, as ciclovias e os capacetes são os lados que marcam o perímetro dentro do qual a bicicleta tenta encontrar o seu espaço. Sobre os TC escrevi um texto, seguido de outro sobre o automóvel e o que se segue é sobre ciclovias. Fica a faltar o lado dos capacetes.

Os transportes colectivos e o automóvel são o que todos temos de mais certo quando pensamos em sair de casa. Tanto Lisboa e Porto como outras cidades de dimensão têm bons ou razoáveis serviços de transporte urbano. Não sendo a solução para todas as necessidades de deslocação e cada vez mais com preços pouco competitivos com o carro, os TC são um factor determinante de desenvolvimento urbano e medidor da qualidade de vida dos cidadãos. O carro particular é o rei & senhor das nossas cidades e só muito aos poucos e em casos sempre pontuais que se lhe tolhe os movimentos. É efectivamente possível aceder a toda a cidades de carro. Eventualmente não de todos os carros, mas há sempre um carro que lá consegue entrar. Tomemos aqui em Lisboa o Terreiro do Paço. Dizer-se que a Praça do Comércio está fechada ao trânsito é um pouco exagerado olhando o exclusivo parque de estacionamento em que na realidade se transformou.

A bicicleta, esforçada e sempre prestável, consegue adaptar-se para ser complemento tanto dos TC como do carro. É já comum verem-se transeuntes com uma bicicleta numa mão e um bilhete na outra. Para quem vive numa zona menos central e menos servida de TC, tem por exemplo de levar os miúdos à escola, pode mesmo assim contar com a bicicleta como solução complementar, se não de todos os dias pelo menos quando não chove. O capaceteduque davial antiga -ao qual voltarei um destes dias mas sobre o qual pode ir lendo alguma coisa– representa um pouco como cada cabeça encara a bicicleta e de dentro do qual se podem tirar todas as discussões, as ciclovias são o lado mais prático, ainda que apenas virtualmente, e seguramente mais mediático da bicicleta urbana. As ciclovias ou faixas cicláveis ou como quiserem chamar aos carreiros específicos para bicicletas, são sempre o lado mais visível e transformador do (re)aparecimento da bicicleta na cidade. As ciclovias introduzem um elemento novo na paisagem, infelizmente quase sempre, no passeio.

Sendo certo que as estradas não foram construídas para os carros, hoje existem exclusivamente para eles e tantas vezes contra tudo o resto. É compreensível que os maus da fita não abram facilmente mão de tamanho privilégio. Direi que estamos no ponto em que ganha consciência a necessidade de tirar o domínio ao carro. Depois virá o dia da manifesta “vontade política” de fazer, o que já se sente por aí… Mais tarde virá a “decisão” a que se seguirá o “pôr em prática” realmente.  Nas economias ditas emergentes o aumento do poder de compra de maiorias até há pouco tempo afastadas do grande consumo, leva à concretização do sonho legítimo de ser proprietário dum automóvel. Lá como cá o carro é o mais apetecível sinal social de sucesso. Lá como cá abre-se o livro das contradições comuns tão conhecidas no velho mundo ocidental. Globais são também os erros e as soluções. Tal como cá, constroem-se milhares de quilómetros de asfalto ao mesmo tempo que se renovam os transportes colectivos. Agora que esses países se deparam com a queda do número de ciclistas e de peões, aplicam-se os mais avançados conhecimentos de planeamento urbano. O mundo inteiro está a mudar, é só olhar à volta.

As ciclovias são uma das formas de tirar ao carro algum do totalitarismo de que tem beneficiado nas últimas décadas. O automobilista que circula nas cidades onde as ciclovias estão por todo o lado, sente-se mais como um “par” no espaço público e não como “dono”. Quando é construída uma via que segrega positivamente qualquer meio de transporte, há uma imposição da partilha, não só em termos do espaço concreto mas sobretudo em termos de direito ao espaço. A questão que persiste por ser esclarecida é, numa cidade como Lisboa, qual o papel reservado à bicicleta no contexto dos problemas mais abrangentes da mobilidade. Vamos por momentos situar-nos na zona de Campo de Ourique. Bairro residencial, com muito comércio e alguns serviços, bem servido por transportes públicos e simpáticos locais de paragem e convívio.

Quais os problemas de mobilidade que existem em Campo de Ourique? Arrisco a dizer que todos estão relacionados com o excesso de automóveis. Não apenas dos que circulam mas sobretudo dos que páram. Ou seja, o carro é literalmente dono de Campo de Ourique, o rei, e como é tratado o rei para além de ser tratado com toda a impunidade? Vamos agora olhar para o estado da Rua Ferreira Borges. Poderia ser outra das tantas que Lisboa tem nas mesmas condições. Conheço muitas estradas de terra-batida em melhores condições que a Ferreira Borges! Se os carros, os donos da estrada, os senhores de Campo de Ourique são servidos desta maneira, acredita alguém que as ciclovias sejam solução para a circulação de bicicletas em Lisboa? Porque é que se vê tantos ciclistas nos passeios da Avenida de Roma? Porque não há ciclovia ou porque não há segurança no asfalto?

Lisboa é pequena mesmo para quem a faz a pedalar, como deixou claro o Paulo Guerra dos Santos. Quando ouço que Lisboa tem um problema de trânsito costumo responder que sim, que tem, mas é um pequeno problema. Paris, Londres, Madrid, Berlim têm problemas de trânsito! O que Lisboa não tem, o que Portugal não tem, é a vontade política de pegar pelos cornos a besta. Timidamente introduz-se as zonas de 30km/h mas continua a ser permitido a total anarquia no estacionamento. No tempo da realidade aumentada vivemos uma verdadeira mobilidade reduzida tal o número de barreiras arquitectónicas, autênticas ratoeiras como as esferas de mármore nos passeios. Basta ver o que foi feito na Duque d’Ávila. No papel a coisa prometia mas quando olhamos ao nível o peão, o que encontramos? Uma floresta de pilaretes, canteiros, carros estacionados e uma ciclovia que é por onde toda a gente anda, com ou sem rodas, porque é o único caminho a direito.

Neste vídeo está tanto de Lisboa que quase dói!

Tirado daqui à Bicicleta Voadora

Ficou melhor? Sem dúvida, mas a questão não é apenas essa. Resta saber que tipo de melhor é que se anda a construir. As ciclovias não fazem falta nenhuma na Lisboa de hoje. Se amenizar a paulada que já está a pensar em dar-me, acrescento: salvo poucas excepções -nenhuma contemplada até agora. Quem tem beneficiado com as ciclovias são os peões que assim podem evitar as escorregadelas e tropeções da velhinha calçada. O que fará muito melhor que as ciclovias, a peões e a ciclistas, serão medidas muito mais urgentes como a acalmia de velocidade, a regulação efectiva do estacionamento e a proibição absoluta de estacionamento selvagem, nivelamento de passeios e elevação de todas as zonas de atravessamento, restauro dos passeios de forma a que seja possível andar a pé, com um carrinho de bebé ou cadeira de rodas.

As minhas excepções são uma ciclovia no eixo Liberdade/Fontes Pereira de Melo/Republica; Alcântara/Algés; Martin Moniz/Relógio; Baixa/Parque das Nações; na Marginal da Linha. Que dizer das ciclovias de Telheiras e de Benfica? Voltamos à mesma conversa do excesso de liberdade dada ao carro. Ambas são em bairros e os bairros não precisam de ciclovias para nada! A não ser que Telheiras e Benfica sejam bons mercados eleitorais… Tenho muita curiosidade em ver como vai resultar a requalificação do Bairro do Charquinho, em Benfica, já que finalmente alguma coisa de verdadeiramente relevante pode ser iniciada. É um projecto que mistura coragem política com envolvimento das populações mas sobretudo uma verdadeira transformação da estrutura. Vai sair caro em tempo perdido, o dinheirão que se tem gasto em meter ciclovias onde mal cabe um passeio, a fazer percursos que mais se assemelham às gincanas políticas dalguns autarcas. Apesar do fervor tantas vezes visto nas discussões que as ciclovias geram entre facções do activismo a pedal, as ciclovias têm sido pouco mais que uma artimanha para pescar votos e conseguir a simpatia dalguns militantes da causa ciclista.

BROCHURA INSEGURA

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 12 de Maio de 2013 by Humberto

Se há frases completamente esbatidas, a “que uma imagem vale mais que mil palavras” é uma. Mas é também uma frase com um certo grau de, digamos, imprecisão. Uma imagem pode necessitar de mais de mil palavras para ser descrita ou ser até impossível de traduzir por adjectivos e subjectivos e preposições. Uma imagem é sempre uma mensagem e a mensagem é palavras. Comunicamos por imagens e palavras, associando sempre umas às outras. Reflectimos enclausurando imagens em palavras e socializamos a escolher as palavras que melhor transmitem as imagens pretendidas.

A escolha das imagens que usamos como mensagem é um acto voluntário e consciente e essa escolha é a construção da imagem que queremos de nós. Nós somos a mensagem porque somos comunicação. Uma imagem serve de ilustração ao texto da mesma forma que pode o texto ser completado pela imagem. A coerência de cada um é uma linha viável que une o discurso -pensamento, valores, ideais- e a acção -a parte visível de cada um aos demais.

O Ministério da Administração Interna através da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana, a FPCUB e a SportZone, protocolizaram (grande palavrão) a campanha de segurança rodoviária que deu um cartaz, uns autocolantes e até um filme simpático. Chama-se tudo “Duas ou Quatro Rodas, Há Espaço Para Todas”. É uma iniciativa importante já que marca o reconhecimento tácito pelo Governo da relevância que a bicicleta ganhou enquanto veículo de transporte. Esta campanha é um muito bom exemplo duma série de mensagens que remetem constantemente para imagens.

cartaz_campanha_2_4_rodasAs campanhas do tipo “partilhe a estrada” são sempre úteis para quem tenta dia-a-dia ganhar algum espaço, num meio tão desfavorável como são as estradas vistas e sentidas do selim. Recordar que a estrada é de todos e que um ciclista é tantas vezes um automóvel a menos no engarrafamento e a roubar o precioso estacionamento, lembrar que a bicicleta é um veículo perfeitamente viável em grande parte das deslocações urbanas, além de ser uma excelente forma de fazer exercício, são ideias muito positivas e especialmente bem vindas olhando às necessidades particulares e colectivas dos tempos actuais.

Embora ressaltem algumas imprecisões objectivas na brochura, como por exemplo afirmar que os automobilista e os ciclistas partilham os “mesmos direitos e deveres” ou argumentar que numa rotunda o ciclista se deve comportar “como qualquer outro veículo”, a campanha tem mérito também pela oportunidade de re-centrar a discussão na necessidade de adoptarmos todos, independentemente da quantidade de pares de rodas que usamos, comportamentos mais tolerantes e seguros. Claro que conseguir a disponibilidade do MAI e das Polícias, todos fundamentais na definição das políticas, da novas e desejadas políticas, que regulem, em lugar de desregular a estrada, é um feito relevante e que deve orgulhar a federação ciclo-turística. Ainda que seja tudo pago em publicidade.

Não seria particularmente motivo de admiração se os governamentais subscritores do referido protocolo, defendessem a obrigatoriedade do uso de capacete para quem se faz à estrada de bicicleta. Já estar a FPCUB associada a uma campanha em que o capacete aparece obrigatoriamente em todas as imagens, poderá aos mais incautos -escriba presente à cabeça- oferecer um travo de surpresa. Pois não é que todos os “bonequinhos” da brochura têm ou a cabeça bicuda ou uma semi-circunferência no alto do cocuruto? Pois é, a bonecada saiu toda pelo bico da caneta de capacete na carola! Vai-se a ver e as duas fotografias pespegadas no dito flyı -e aqui acrescento: uma menina numa e um menino na outra, tal qual manda o figurino, com ar de estranjas na certa! são de felizes ciclistas com a moleirinha bem aconchegada. Está tudo de capacete!

Leio com novidade que para os subscritores da dita brochura, FPCUB incluída, o uso do capacete é “altamente recomendável”. A ver se me faço entender: eu aceito a posição expressa na campanha com toda a naturalidade. A recomendação do uso do capacete é legitima desde que não envolva a defesa da submissão dos que assim não pensam a essa opinião. Ou seja, todos somos livres de opinar, mas cada um é livre de decidir. Mas quando se põe, numa brochura sobre a segurança dos ciclistas na estrada, todos de capacete, faz-se objectivamente uma declaração política. Ou não? E agora vamos tentar encaixar nesta posição a que diz “eu não uso capacete, pergunte-me porquê”.

Desconheço em que é que se baseia essa alta recomendação. O capacete será tão recomendável como um par de joelheiras e outro de cotoveleiras e já agora uma protecção de coluna e uns calções almofadados. E o capacete é fechado ou aberto e com protecção de queixo. A imagem que está escarrapachada na brochura é que um ciclismo seguro passa “obrigatoriamente” pelo uso do capacete. E disso há tantas provas que sim como há que não. O que há é a colagem da “obrigatoriedade” do uso do capacete à imagem da FPCUB. Será isso um investimento na segurança dos ciclistas?

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