simplycommuting.net

BICICLETAS PARA A ESTRADA JÁ!

Anúncios

Tenho passado nos últimos meses, muitas horas ali para os lados do Terreiro do Paço. Volta não volta e estou de plantão à porta do Ministério da Troika à espera que mais um rol de maus presságios escorra dos gabinetes, desça pelos microfones e se abata sobre o nosso futuro. Pela porta da rua entra a luz dum Tejo a correr para o mar mas sem força para lavar a cidade nem levar a mágoas. Lá fora passam bêbados curiosos, namorados resignados, desempregados arrumados e arrumadores empregados, polícias desesperados, prostitutas baratas, turistas assustados, bombeiros apressados, donas de casa atrasadas, carros a apitar, pedreiros a xingar. E muitas bicicletas.

Raras vão sendo as oportunidades de prender o olhar a Lisboa e para ouvir falar de liberdade escolhi descer ao rio e embalar-me pelo piar das gaivotas. Estava o céu vestido de azul e aquecia a fria manhã de domingo. Uma pequena praia deixava-se mostrar na maré baixa e o rapaz que faz do cais palco encantava tainhas e um par de alforrecas asfixiadas, enquanto todos os outros seres vivos tentavam imaginar como seria só ouvir o rio. A calmaria das águas contrastava com a corrente de ciclistas equipados a preceito para uma volta ao Alqueva, que ia e vinham pela estreita calçada. Mas porque raio não vai aquela gente toda na estrada?

Passam diariamente dezenas de bicicletas na cidade que se estende de Santa Apolónia ao Cais do Sodré. Muitas são levadas pela estrada, altivas e afirmativas, donas do seu lugar. Outras mais amedrontadas vão cuidadosas pelo passeio do lado do antigo Paço e deixam-se ficar a fazer preguiçosos oitos na Praça do Comércio. Muitas seguem ainda covardemente, fugazes por entre quem foge para apanhar o barco, pelo passeio em frente ao Cais das Colunas, esgueiram-se por entre distraídos fotógrafos de ocasião, driblam carrinhos de bebé, rabeando a sorte pelo meio do azar do peão.

O que faz um tipo sair de casa enfiado em lycra dos pés à cabeça, pôr-se em cima dumas boas centenas de euros e, em vez de ir pedalar para o monte, ir chatear quem vai a passear? Pelo passeio! Parecem putos, uma cambada de miúdos medricas mascarados de homens, todos equipados como nas fotografias dos catálogos da marca da bicicleta preferida, mas que não se atrevem a pôr um pedal na estrada. Às tantas, ia eu na direcção do poente, ali onde as eternas obras da Ribeira das Naus obrigam a caminhar por um corredor de grades, ouço um compincha a dizer ao outro “até Santos? mas assim tem que ser pela estrada…”. O mesmo pessoal que afugenta aos gritos e solta impropérios de cada vez que um peão pisa aquela espécie de ciclocoisa mais à frente a caminho de Belém, foge para a calçada como se o asfalto queimasse os pneus xpto-de-corrida! Até quando? Apre!!!

Anúncios

Anúncios