HET IS AL OVER DE RIJWIEL *


rciclaCada um tem as suas paixões. Vamos coleccionando, acumulando, trocando de paixões e assim vamos vivendo: apaixonados. Umas paixões são tão gigantescas e arrebatadoras que nos cegam, podendo até fazer esquecer outras. Temos de certeza dentro do corpo um órgão, como o fígado ou o estômago, onde guardamos as paixões. Nesse apêndice que teima em esconder-se ali por detrás do coração, cabem as nossas paixões todas. Nuns será maior, noutros mais acanhado mas é aí que vamos arrumando as paixões. As paixões às vezes, de tão novas e indomadas, saem a transbordar do saco das paixões. Apertam o coração, sufocam os pulmões e é aquele aperto no peito, respiração ofegante, nó na garganta como só os apaixonados sentem. Tudo nas paixões é bom. Mesmo quando é mau, é um mau-bom. E isso é o bom das paixões!

Amadurecemos e as paixões amadurecem em nós ou vice-versa que sobre isto ainda não cheguei a uma conclusão. Há paixões que nos vão conquistando aos poucos, lentamente. Outras haverá que nos colhem com tal estrondo que num instante mudam(os) o rumo do Mundo. Há paixões que entram em nós sem querer e só nos abandonam montadas no último suspiro. Cada qual é um e as suas paixões. É os seus amores, e ninguém as tem de igual modo. No fim de contas somos pouco mais do que a maneira como vivemos as nossas paixões. Assim como o sangue que nos corre nas veias, as paixões são só nossas e sentimo-las cada qual à sua maneira. Por isso é que as bicicletas são adoradas de tantas maneiras e feitios, tantas como ciclistas houver.

As paixões alimentam-se por dentro e por fora e há sempre alguém disponível para servir um apaixonado. É ver a quantidade de lugares onde hoje se pode apreciar, avaliar, experimentar, comprar, alugar, amanhar bicicletas. À medida que foi crescendo a quantidade de apaixonados pelas bicicletas, os lugares dedicados a eles e a elas -apaixonados e bicicletas- foram deixando de ser montras frias e homogéneas, onde as bicicletas eram arrumadas como gado barato, para se transformarem em espaços amplos, limpos, bem iluminados, chiques. As bicicletas foram ganhando mais e mais estatuto de objecto único pela cor e as suas formas valorizadas, os detalhes realçados. Acessórios simples como uma campainha é encarada como um autêntico anel de brilhantes no dedo da amada -para quem gosta de anéis, claro. Cestos de vime são importados de terras longínquas porque são os melhores e a nossa bicicleta só merece o melhor!

A bicicleta é uma paixão e as paixões também são às vezes modas. Em Lisboa já podemos entrar num café com bicicletas penduradas nas paredes e outras dobradas em prateleiras. Já é possível sentarmo-nos numa mesa rodeada de acessórios de bicicleta com um quase apelo sexual e bebermos um café vulgar. Em Lisboa já se encontram à venda algumas das mais emblemáticas marcas nascidas com o boom da paixão pela bicicleta que vai arrebatando corações por este mundo adentro. Finalmente já não somos obrigados a viver com uma bicicleta todo-o-terreno a vida inteira! A identidade da bicicleta passou a não estar apenas ligada à sua juventude mas sobretudo ao estilo que transporta. Literalmente.

Ainda há meia dúzia de anos, mesmo nos encontros e passeios urbanos de ciclistas, a grande maioria de bicicletas presentes tinham sido compradas em lojas de desporto e os seus ciclistas eram pouco mais que amantes da tecnologia e quase todos obcecados com a magreza -pelo menos com a magreza das suas meninas. Foram os tempos do domínio dos valores da competição desportiva, caminho mais fácil encontrado pelos fabricantes (que vivem de fabricar e alimentar algumas paixões) para tirarem à bicicleta o seu aspecto mais infantil, efemininado quase. Não quero com isto dizer que a Cannondale SuperSix EVO ou a Trek Super Fly são desprovidas de carácter ou incapazes de provocar paixões. Acho é que a coisa será muito menos platónica. Deslizar por um trilho sentado em cima de uns bons milhares de euros tem muito de carnal. Tem que ter! Claro que o tacto ao carbono mais rígido, o som da corrente a rolar com precisão aeronáutica pelos carretos, a souplesse do par bailador estrada fora, podem ser vividos com verdadeira paixão. Mas também sabemos que daqui a alguns meses, seremos servidos com novas Super-qualquer-coisa muito mais tudo que a Evo ou a Fly.

O movimento Cycle Chic e o Passeio de Bicicletas Clássicas são autênticos chás dançantes dos tempos actuais. Lugares onde vamos passear a nossa paixão e onde o estilo passou a ser traje de etiqueta. Qualquer estilo, desde que permita que a bicicleta seja exibida como mais um acessório, ou mesmo como O acessório, condicionando o conjunto homem/máquina mas sem o transformar em algo de totalmente excêntrico, (a)berrante. Até porque há momentos para diferentes paixões. Por exemplo, não passará pela cabeça do mais saudoso amante das pistas nevadas que, só porque é inverno e está a cair neve no Alto da Torre, ir de esquis passear para a Baixa. A paixão por pedalar tem tudo a ver com a bicicleta. Digamos que o prazer de pedalar pelas ruas da cidade pode ser vivido não importa o que se tiver no meio das pernas, mas há sensações de prazer diferentes de acordo com a montada.

Claro que o alvo da paixão pela bicicleta é a própria bicicleta. Ninguém pedala virtualmente sem um determinado quadro onde estão montados uns componentes e não outros. A bicicleta é que importa. É por ela que pedalamos porque sem ela somos apenas peões. É a bicicleta que nos transforma e transporta. São as características da bicicleta que nos definem enquanto ciclistas. É a personalidade da bicicleta de cada um que o enquadra num tipo específico de utilizador de bicicleta, que o faz membro de uma tribo ou de outra ou de nenhuma. É a bicicleta que nos leva a escolher a loja ou até a forma de comprar. Fazemos uns amigos e não outros de acordo com a bicicleta que pedalarmos. Tudo tem que ver com a bicicleta.

Podemos viver a vida inteira apaixonados sem nunca perceber com funciona o objecto da nossa paixão. Alguém percebe os homens ou as mulheres? Percebem onde quero chegar? A maioria dos apaixonados pelas bicicletas não fazem ideia como se ajusta um desviador ou qual a diferença entre travões v-brake e cantilever mas isso não os impede de pedalar ou sequer gostam menos de bicicletas. Gostam é de forma diferente. E nunca vão poder gostar tanto como se… A bicicleta pode perfeitamente ser apenas mais uma coisa nas nossas vidas, até mesmo mais uma das paixões que levamos no tal saco das paixões mas nesse caso nunca chegará a moldar-nos a forma. Para estes de nós a bicicleta será sempre uma peça inteiriça, mais ou menos decorada, mais ou menos atraente, mais ou menos prática. Desde que seja capaz de nos fazer apenas rodar o olhar ou ao ponto de nos virar a cabeça e mudar-nos o pensamento -o dia-a-dia? já a bicicleta cumpriu grande parte da sua função. Porreiro!

No entanto a bicicleta é muito mais que isso. Houve quem a tenha classificado como a maior das invenções e deve ter tido muito boas razões para isso. A simplicidade da bicicleta contrasta com a quantidade de detalhes históricos em que nos podemos perder. Desde as primeiras tentativas de fazer andar um par de rodas postas em linha, até às mais radicais variações permitidas pela tecnologia actual, a bicicleta é um mundo. Basta entrarmos em qualquer loja para ver a parafernália de peças e acessórios que podemos comprar. Alguns embalados como se fossem bombons outros com preços que mais parecem jóias. Últimos modelos de tudo e mais alguma coisa, o derradeiro design e a melhor tecnologia são anunciados qual santo graal. Um mundo onde a paixão é tudo menos casta!

Todos os móveis à venda em antiquários já foram novos um dia e ganharam, pela forma como resistiram à passagem do tempo, todo o valor que custam. Todos os objectos começam a envelhecer no momento em que são feitos e as bicicletas não são excepção. Poucos são os móveis, assim como raras as bicicletas que chegarão a ter estatuto de antiguidade, mas há monos que podemos sem arriscar muito, dizer qual o fim que terão. Até há pouco tempo não se encontravam bicicletas antigas à venda em bom estado, o que é normal já que as lojas preferem alimentar a paixão duma maneira digamos, lucrativa. Normal e compreensível. Para a maior parte dos apaixonados pela bicicleta, as coisas estão bem assim e nem podiam ser doutra forma. Ou será que podem?

Felizmente que podem! E o Vítor está disposto a provar isso mesmo na nova -verdadeiramente nova- loja que abriu em Algés. Com contentores de experiência e paletes de bicicletas inteiras ou às peças que trouxe da sua outra loja de Amesterdão, o Vítor abriu a primeira loja de bicicletas para quem gosta da bicicleta no seu todo, na sua essência. Para quem tem uma paixão maior por bicicletas. Para quem gosta de falar bicicletas. Para quem quer construir uma bicicleta, como dizem os ingleses, desde o rascunho. Para quem quer ter uma roda única na sua fixie. Para quem quer uma cor única ou um quadro Reynolds por medida. Para quem sonha pedalar uma senhora holandesa, pesada e com apenas três mudanças ou quer somente ver de perto uma Batavus. Uma verdadeira loja de bicicletas, cheia de órgãos usados mas ainda com muita vida para darem à nossa alma! Os apaixonados pelas modernas BTT não precisam fazer toda a Marginal mas quem procurar uma rígida old school para os trilhos da Arrábida, uma estradista em aço Colombus que já conheceu mundo ou uma BMX verdadeira, é na Rcicla que se vai perder de amores.

Poucas vezes aqui me senti a pisar o risco da publicidade gratuita e nunca aceitarei a outra, um pouco até à revelia da normal e também legítima união que existe entre a defesa da bicicleta e lojas ou marcas que vivem de e para a paixão pelas bicicletas. A Rcicla não é mais uma loja de bicicletas a fazer um esforço de originalidade para conseguir melhor vender as coisas do costume. A Rcicla é um conceito maior que um espaço comercial, onde se vai trocar dinheiro por qualquer coisa. Na Rcicla podemos até ver o nosso problema resolvido sem nunca gastarmos um euro. Há duas sensações comuns e frequentes quando entramos numa loja de bicicletas: sermos olhados como um porta-moedas recheado ou com tal indiferença que pomos em causa quem faz um favor a quem. Na Rcicla é diferente. É mesmo diferente! Na Rcicla o nosso problema é só mais um desafio.

A Rcicla não é um hotel de cinco estrelas onde levamos a nossa paixão uma vez na vida. A Rcicla é toda uma forma de viver a paixão, todos os dias. A Rcicla é uma escola para conhecermos a nossa paixão e nos conhecermos a nós mesmos. À Rcicla não se vai mostrar, vai-se para ver, para partilhar. Vai-se para discutir BikePolo e a felicidade. Na Rcicla há bicicletas para todos porque qualquer um pode fazer a sua própria bicicleta, como se fosse um alfaiate de bicicletas. Ali não há café nem queques mas há alguns dos melhores lugares para umas bifanas, b’jecas & afins. Não há carros por perto e há espaço com fartura para os miúdos correrem. Há o comboio à porta e autocarros de várias cores. Há vendedores de castanhas e às vezes um mercado do livro. A Rcicla é toda bicicletas. Finalmente abriu a Rcicla!

* É tudo sobre a bicicleta.

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