SAI UM EXPRESSO À BARBOSA


As assessorias de comunicação do Governo conseguiram vender ao Expresso e, pelo menos à RTP Porto também, a “notícia” da tão esperada, e prometida pelo Sec. Est. dos Transportes no Congresso da Murtosa, revisão do Código da Estrada. A promessa é que as alterações tenham finalmente em linha de conta e de acordo com o que é prática na UE, a bicicleta como veículo de transporte de pleno direito, a par dos demais veículos que circulam nas estradas.

O texto também informa, realçando o contraste entre circulação segura em automóvel versus circulação perigosa em bicicleta, que houve uma diminuição do número de acidentes envolvendo veículos motorizados. Ora se há uma efectiva redução do número de quatro rodas em circulação e o preço exorbitante que os combustíveis atingiram, faz finalmente com que muitos condutores levantem o pé do acelerador, circula-se as velocidades mais baixas, não tão excessivas (velocidade excessiva ≠ excesso de velocidade). De acordo com o que vem nos livros: menos velocidade + menos carros = menos acidentes…

No texto é referido, e bem, que não há estatísticas sobre a utilização da bicicleta. Eu acrescento, observando a crescente utilização da bicicleta em muitas cidades portuguesas, sobretudo desde há um par de anos, é bem provável que esse aumento seja muito superior a 21%. Embora a ocorrência de apenas um único acidente envolvendo um ciclista já seria de lamentar, podemos provavelmente considerar que o número de “acidentes” é até razoável, tendo em conta as condições de circulação em geral e as condições especificas para o uso da bicicleta em particular e, claro a conhecida (in)segurança rodoviária nacional.

E esta de que o Governo vai alterar o CE para aumentar a segurança dos utilizadores mais vulneráveis só pode ser sarcasmo! Há muitos anos que a FPCUB e outras entidades fazem pressão junto dos Governos e dos Partidos para as necessárias alterações ao CE. Foram já a votação na Assembleia da República vários Projecto Lei nesse sentido, tendo o PSD na oposição e mais recentemente já no poder, votado contra. Pelo que não nos venham agora com a conversa de que é por causa do aumento dos acidentes. Até porque estes senhores não sabem nada sobre a bicicleta nem sobre quem a usa!

Aliás, o governo não tem que anunciar alterações ao CE para proteger este ou aquele grupo de utilizadores das estradas. O CE TEM de ser um normativo de regras que visem a segurança de TODOS os utilizadores da estrada! Esta visão da bicicleta e de quem a usa alimenta a ideia de que os velocípedes necessitam dum tratamento de excepção. Que andar de bicicleta é perigoso. Realça o conflito latente entre automobilistas e ciclistas. Mais uma peça “jornalística” escrita com base numa acção de propaganda/promessa do Governo e da sua máquina de comunicação, sem ser questionada pelo jornalista de serviço a essência da informação.

Para que a “notícia” não ficasse completamente coxa, e porque é assim que estas coisas se fazem, foi preciso arranjar algum “facto” que justificasse o interesse numa promessa do executivo que, nas suas próprias palavras é apenas “uma alteração cirúrgica de diversas normas”. O “facto” normalmente vem no título: “Acidentes com bicicletas estão a aumentar”, et voilá! Tanto na RTP como no Expresso os jornalistas vestiram-se de patinhos e foram para o computador. Resultado: trabalhinhos muito fracos! A Joana Pereira Bastos, que assina a notícia do Expresso até pôs no topo, qual cereja podre, as obtusas e costumeiras barboseiras!

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2 Respostas to “SAI UM EXPRESSO À BARBOSA”

  1. Tem razão nos factos que apresenta, Humberto.
    Não sei se o complexo jornalista/governativo tem a malignidade que o meu caro aponta, diria que os erros da reportagem são mais tributários da ignorância do que de má fé, mas isso é matéria de opinião.
    O que é facto é não há estatísticas/estudos credíveis que possam apontar o alegado aumento de acidentes com bicicletas – aliás, se tivermos em consideração o extraordinário aumento do nº de ciclistas nos últimos 2 anos até pode acontecer a taxa de sinistralidade ter diminuído, tendo em consideração o nº de ciclistas diária e crescentemente presentes nas cidades.
    Colocar no título da notícia uma alegação não provada e provavelmente falsa é a todos os títulos lamentável.
    Concordo com a sua conclusão geral: com jornalistas tão pouco sabedores, não vamos lá.

    • Não se trata de malignidade. It’s just the way things work!
      Grande parte de informação que se lê nos jornais, ouve nas rádios e se vê na televisão é fruto do aturado e apurado trabalho de agências de comunicação. Esta notícia é apenas um bom exemplo disso.

      As redacções são cada vez mais constituídas por jovens e baratos jornalistas, que tentam segurar o trabalho fazendo o muito que lhes é dito no mais reduzido espaço de tempo. Enviar-lhes a “papinha toda feita” é meio caminho pedalado para a peça sair.

      Veja-se a reportagem da RTP. Não são sequer citadas as fontes nem é ouvido nenhum “especialista na matéria”. Meia dúzia de planos na marginal do Douro e na ciclovia ao longo das praias de Gaia, de ciclistas que em nada se parecem com ciclistas urbanos, ou commuters que estão verdadeiramente no cerne da questão tratada.

      Umas entrevistas feitas a fugir aos dois lados da história, uns no selim (de capacete, claro) outros no assento do popó, e está a coisa acabada e pronta a servir.

      Na imprensa é mais fácil porque bastam umas chamadas ao telefone de modo a dar um ar mais sério à coisa e… fogo à peça! Quantas vezes os press releases não trazem até sugestões de entrevistados… e mesmo que do outro lado da linha respondam que não sabem do que se trata, envia-se o “estudo” por e-mail e liga-se daí a meia-hora.

      Uma coisa os senhores dos ministérios e das agências sabem: os jornalistas em regra geral, não vêem um boi em matéria de bicicletas ou mobilidade sustentada. Como se prova, aliás!

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