ANDAR EM CÍRCULOS


É a andar em círculos, às voltas, numa passadeira rolante que eu leio muito do que diz o debate sobre a bicicleta. Os assuntos são recorrentes e os argumentos vão-se sucedendo numa alternância mais ou menos aleatória, mais ou menos previsível. Olho à volta e reconheço na paisagem de horizonte próximo, os territórios dominados por uma ou outra corrente, por uma ou outra vontade, por uns quantos interesses. O mundo da bicicleta é tantas vezes como uma roda: redondo.

Diz-se que a forma circular é a forma perfeita. É pela circulação de líquidos e gazes que por cá nos vamos aguentando. É circulando que nos encontramos, comunicamos, conhecemos. O círculo é nos seus diversos significados fundamental aos diferentes significantes da vida. Será que andar em círculos, será que correr numa passadeira estática, nos aproxima de algum lugar? Realmente? Até acredito que sim.

O capacete, as ciclovias, o automóvel, o transporte colectivo são temas apaixonantes pelos quais os ciclo-amantes são capazes de quase tudo. Nós (e não sendo o prezado leitor um convertido às maravilhas do admirável mundo novo da mobilidade a pedal, não tem de se sentir incluído neste “nós”) nós os que praticam a pública militância, somos capazes de autênticos duelos de vida ou de morte. Batalhas em que o poder da retórica é arma. Em que é à catanada que desbravamos o caminho que nos levará à praia onde aguarda a barca da salvação.

O tempo, esse grande escultor, ensina que os caminhos nunca são rectos e muitos fazem-se longos e árduos, particularmente se forem desbravados à força. Quando se apresentam difíceis todas as forças fazem falta e o desperdício só nos atrasa o objectivo. Sim, porque nele -no objectivo- repousa o motivo da viagem, do debate. Mesmo correndo com afinco numa passadeira de ginásio para além de se perder alguns quilos e fortalecer um par de músculos, a verdade é que não se sai do mesmo lugar. Não se vê o mundo, não se sente o chão, não se respira o ar, não se foge nem se chega.

Deslocarmos-nos a metade da velocidade de Usain Bolt, um pouco mais que a meio metro do chão, possibilita reter o que nos rodeia sem a distorção normalmente provocada pela incapacidade de ir longe a pé, sem a vertigem da velocidade quando motorizados e sem o isolamento no interior de bolhas de ferro e vidro, qualquer que seja a dimensão. Sentados num selim podemos dar a volta ao mundo, atravessar continentes de norte a sul, apenas movidos pelo esforço dos músculos e da mente. Bem sei que os maciços continentais estão separados por água e não será a pedalar que chegaremos ao Brasil mas se utilizarmos a força do vento para atravessar os oceanos, a bicicleta torna-se no verdadeiro veículo global à escala humana.

O ciclista é um peão que vai mais rápido e pode ir mais longe. O ciclista é fisicamente activo mas não necessariamente o mais activo de todos os cidadãos. É um cidadão mais consciente sobre os perigos de circular no espaço público mas nem sempre o mais responsável. É um cidadão mais interessado e até empenhado em determinados factores relevantes para a qualidade de vida na sua cidade mas esses factores não são obrigatoriamente os mais prioritários. Olhar à volta desde o selim duma bicicleta é diferente de olhar o mundo através da bicicleta.

De tanto andar em círculos facilmente se perde o objectivo. De tanto andar à roda num instante se esquece o destino. Parar e repensar o motivo da jornada, definir um propósito, é meio caminho pedalado para se chegar a algum lado. Quando começo a ficar tonto por andar à roda, como se puxasse uma nora, com as ideias tolhidas por invisíveis palas, penso “o que será verdadeiramente necessário para pôr mais gente a pedalar?” Alguém saberá?

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