CICLISTAS MARGINAIS


Existem junto das entradas do passeio marítimo de Oeiras, na Marginal, uns sinais colocados pela Câmara Municipal condicionando, proibindo, a circulação em bicicleta. Sinais que são das coisas mais estúpidas que uma Câmara já fez! A de Oeiras achou que tinha de limitar o acesso a quem pense em ir de bicicleta para a faixa ribeirinha, por alegadas razões de segurança. Para evitar acidentes entre quem por lá caminhe e bicicletas, a CMO proibiu o acesso a velocípedes. Repito: é uma decisão estúpida sem qualquer sentido de justiça e perfeitamente irresponsável! A bicicleta é um veículo de passeio mas também é um veículo de transporte. Um cidadão pode usar a bicicleta para dar um passeio na zona ribeirinha de Oeiras e pode usar a bicicleta para se deslocar passando por essa mesma zona. Um munícipe pode chegar lá com a bicicleta em cima do carro, descarregar a bicla e dar por ali umas pedaladas ou pode ir até lá a pedalar desde casa. Uma pessoa pode ir sozinho ou levar os filhos de qualquer idade, a mãe, a avó, o vizinho ou quem quiser e ir pedalar junto ao rio.

Nos trajectos que um cidadão percorre no concelho de Oeiras quantos perigos enfrenta? Quantos atropelamentos ocorrem em Oeiras provocados ou sequer envolvendo bicicletas, por dia? Quantos cruzamentos, quantas ruas há no concelho de Oeiras sem passadeira? Quantas ruas há sem passeios? Quantos automóveis estão neste momento -em qualquer momento- estacionados em Oeiras de forma ilegal, pondo em risco a segurança dos utilizadores da via pública? Quantos automóveis são multados diariamente em Oeiras por velocidade excessiva ou mau estacionamento? Quanto gasta a CMO em arranjos de passeios devido aos danos causados pelo estacionamento abusivo? Quantos acidentes na via pública têm lugar em Oeiras por falhas de segurança?

Se a circulação de pessoas, porque é disso verdadeiramente que se trata, tem de ser limitada no passeio da Marginal em Oeiras, evocando questionáveis razões de segurança,  porquê só a quem quer circular de bicicleta? Então e quem escolher calçar um par de patins? Ou for de trotineta? Ou levar cães e ainda por cima com aquelas trelas extensíveis? E quem empurrar uma cadeira de rodas? E não serão os calções curtos de jogging um atentado à segurança cardíaca? Independentemente da perigosidade efectiva que são os eventuais danos causados numa criança pelo impacto com uma bicicleta circulando ainda que a muito baixa velocidade, será proibir a circulação em bicicleta a solução? E o que dizer do horário? De Abril a Outubro pode-se pedalar entre as 8 da noite e as 9 da manhã. Porquê? Porque não entre as 5 e as 7 da manhã e entre as 17:45 e as 22:17? Porque apeteceu ao empregado do Isaltino escrever aqueles algarismos e não outros quaisquer? E qual a razão para a exclusão permitir crianças até aos oito anos? Quer dizer que os pais das crianças constituem um perigo e os petizes não? Será que uma criança de oito anos não consegue pedalar depressa nem nunca poderá provocar um acidente?

No meu commuting cruzo-me com todo o tipo de ciclistas, desde o bike ninja ao licrafanático, a menina na bicicleta com cestinho e a velhinha pasteleira, o ranger da bicicleta de supermercado e a ligeireza da dobrável very english. Pessoas de colete reflector e capacete e outros de blazer e cycle cap. Uma coisa arrisco concluir: a atitude na “estrada” de quem pedala tem tudo que ver com o aspecto gráfico do conjunto homem-máquina e sugiro até um ditado, para constar num futuro dicionário, do tipo “diz-me como te vestes, dir-te-ei como pedalas”. Em paralelo, o aumento significativo de ciclistas urbanos a pedalarem em circuitos até há pouco exclusivamente utilizados por bêtetistas pouco convictos, faz com que os ciclistas mais desportistas se comecem a sentir assim a modos que deslocados. Realmente enfiar o corpito dentro duma fatiota plastificada e no mínimo de gosto duvidoso para ir pedalar para a Baixa é, direi curioso… Em Monsanto, no Jamor ou à volta da albufeira do Alqueva, ainda vá, mas na ciclovia do Tejo!?

Quero com isto dizer que não é preciso proibir -fosse isso possível! um determinado tipo de roupa para prevenir determinado tipo de comportamento. Sim, é de comportamento que estamos sempre a falar nos blogs sobre bicicletas, ou não é? Não é por proibir o excesso de velocidade na auto-estrada que o pessoal vai passar a poupar no combustível, ou é? Com sinalética própria, algumas marcações no pavimento e uns cartazes com umas dinamarquesas giras (porque não?), seria perfeitamente possível adaptar o trajecto, agora vedado aos ciclistas, à sã convivência de todos, de forma normal e civilizada. Se esse tivesse sido o caminho, teria a CMO dado prova efectiva de preocupação com a segurança dos seus munícipes e de todos os que visitam o passeio marítimo de Oeiras, independentemente da forma como se fazem delocar. Demonstraria bom senso no pensamento, inteligência no estudo e vanguarda na acção.

Uso quase diariamente o passeio de Oeiras, na medida em que tenho por principio utilizar as vias que me permitem circular com maior segurança. Adapto a minha velocidade de acordo com a via e com o trânsito, seja ele pedonal ou motorizado. Poder pedalar ao longo da água é não só um prazer individual pela paisagem que me acompanha mas também porque me cruzo com pessoas que partilham sentimentos semelhantes para com aquele espaço. A bicicleta é um veículo que, ao contrário do automóvel, promove a interacção e da integração. A Marginal é um lugar privilegiado da foz do Tejo. Percorrer toda a extensão desde Algés até Cascais ao longo do rio já mar, seja de carro, bicicleta ao a pé, permite desfrutar de boas vistas em lugares muito bonitos e agradáveis. É um caminho que se pode fazer a qualquer hora do dia ou da noite, em ambas as direcções e com qualquer tipo de tempo, sempre com prazer.

A atitude da CMO promove a associação entre insegurança e bicicleta. Faz com que alguns cidadãos -uma minoria, é verdade, que se cruzam comigo  me olhem de lado, com cara feia, como que dizendo “oh palhaço, não sabes que não podes andar aqui”. Esta proibição estúpida e injusta é mais uma prova que muitos autarcas, apesar de acções pontuais de relativo impacto mediático,  continuam ancorados numa arquitectura de pensamento contrária aos interesses da bicicleta. Proibir as pessoas de pedalar não resolve nada. As pessoas devem não só ser autorizadas a pedalar como devem ser incentivadas a pedalar. Pedalar aproxima-as umas das outras e do espaço que partilham. Torna-as mais parte do espaço comum. Pedalar torna-nos mais responsáveis para com o ambiente. Pedalar torna-nos melhor cidadãos. Perceber isto é meio caminho para não proibir ninguém de pedalar.

Não são umas ciclovias abandonadas e ineficientes ou meia dúzia de horas de Marginal sem carros que resolvem problemas estruturais e contribuem para uma melhor mobilidade no concelho de Oeiras. Todas as semanas aumentam as razões para experimentar ir para o trabalho de bicicleta na razão proporcional do aumento dos combustíveis e multiplicadas pelo preço-dos-transportes. A bicicleta está aí para ficar e proibir é não estar a ver um boi à frente do nariz! Será o caro leitor um commuter em Oeiras ou na Linha de Cascais? Utiliza o prezado leitor o passeio marítimo apesar da proibição? O que acha que podemos fazer para corrigir a situação?

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8 Respostas to “CICLISTAS MARGINAIS”

  1. Humberto, não sou um frequentador dessa zona (Algés-Oeiras-até Cascais) exactamente por causa dessas placas proibindo as bicicletas.
    Mas sou frequentador de outras ciclovias, como a do Tejo, que passa pelas esplanadas de Santos/Alcântara, onde também existem sinais de proibição, relativamente pouco seguidos pelos ciclistas.
    Acho esses sinais uma ideia infeliz, por várias razões:
    Porque na maior parte do tempo as esplanadas estão quase sem ninguém e é pouco inteligente limitar os ciclistas por causa de uma esplanada vazia.
    Porque quando há gente nas esplanadas, basta os ciclistas andarem um pouco mais devagar para tudo se conjugar: uma bicicleta a 5 km/h é um peão com rodas e não faz sentido ser discriminada.
    Porque, finalmente, face à irracionalidade da proibição, 70 ou 80% dos ciclistas ignora-a e por isso acaba por não haver regra nenhuma e seja o que Deus quiser.
    No caso da ciclovia do Tejo existe a agravante de não haver alternativa – para se passar para a estrada teria de se atravessar a linha do comboio de mercadorias local, o que é proibidíssimo e muito perigoso – a pessoa que está a atravessar o local tem mesmo que ir pela zona das esplanadas.
    Um pouco mais à frente, na zona do Cais do Sodré, a situação repete-se, mas aqui já com a diferença de haver alternativa pela estrada, que é por onde eu normalmente vou.
    Eu creio que há aqui alguns ensinamentos a extrair que os responsáveis autárquicos têm de compreender:
    A circulação de pessoas em bicicleta está a subir exponencialmente em todo o País e à frente dos olhos de todos, e é fenómeno que merece uma atenção especial de quem é responsável por estradas, caminhos e mobilidade.
    Com ciclovias dedicadas ou não, com pavimentos pintados, com estradas dedicadas ou com qualquer outra modalidade, o que é natural é que as alternativas de mobilidade para quem se desloca de bicicleta se multipliquem, por todas as razões mas principalmente por razões ambientais e económicas.
    Essa disponibilização de ciclovias e equiparadas incumbe fundamentalmente às autarquias locais.
    O que se poderia fazer era uma exposição escrita às autarquias respectivas e ir fornecendo nos blogs a informação que for aparecendo.

    Abraço e boas pedaladas,
    Francisco

  2. Paulo Ribeiro Says:

    “para se passar para a estrada teria de se atravessar a linha do comboio de mercadorias local, o que é proibidíssimo e muito perigoso”

    O que é proibido e perigoso, atravessar a linha de comboio ou circular nessa estrada?

    Esse troço da “ciclovia” (ou não-ciclovia) é o que mais me chateia nesse percurso. Várias vezes resolvi circular pela estrada nessa parte, mas realmente as altas velocidades dos automóveis não são nada tranquilizadores. Quanto aos comboios, nunca vi nenhum! :)

    Nas últimas vezes tenho simplesmente passado pelo meio das esplanadas, a circular bastante devagar (como dizes, a 5 Km/h somos basicamente um peão com rodas) e com muita atenção aos empregados de mesa que atravessam o passeio para se dirigirem às esplanadas ou vice-versa.

  3. Proibido e perigoso é atravessar aquela linha de comboio numa zona em que não há passagem.
    O acesso à estrada é bastante afastado da zona de proibição.
    Mas a própria estrada é bastante perigosa.

  4. Denoto um certo preconceito em relação à roupa utilizada pelos ciclistas, realmente já senti um certo snobismo quando me cruzo com algumas pessoas.

    Quando me desloco, se tenho oportunidade, visto licra, capacete e colete ou casaco “refletor”, e depois? qual é o problema? o que é importante afinal? discriminar negativa ou positivamente os ciclistas de acordo com a roupa que vestem? ou fomentar a utilização da bicicleta?

    Há coisas que me irritam ligeiramente, este preconceito é uma delas, peço desculpa ao blogger, que não conheço pessoalmente, mas apesar de ser leitor assíduo do mesmo e lhe dar os Parabéns pelo excelente blog, não consegui não escrever este comentário.

    Continuação de bons textos e inspiração, vamos celebrar as bicicletas, quem se desloca nelas e não as fatiotas de cada um….

    Abraço e boas pedaladas

    P.S.: A sua opinião é inteiramente válida, cada um com a sua, entendo se decidir não publicar a minha, mas até penso ser um bom tópico para discusão numa entrada futura :-)

    • Camilo,
      O seu não será seguramente o primeiro comentário censurado neste espaço.
      A minha intensão ao não permitir a publicação automática de comentários prende-se mais com o respeito por quem se dá ao trabalho de acresentar algo ao que escrevo. Desta forma um comentário como o seu, é logo respondido e não fica por aqui a “falar sozinho”.
      Procurando no blog encontrará, estou certo, razões que contrariam a opinião de que tenho preconceitos em relação à indumentária que cada um escolhe para andar de bicicleta. Tenho alguns preconceitos mas não de forma tão generérica. Eu mesmo, no meu commuting equipo-me de forma muito desportiva, embora sem licra.
      Porque faço esforço no trajecto, porque transpiro muito e porque tenho de mudar de roupa depois de tomar banho, é-me muito mais confoitável pedalar com roupa própria. Ainda guardo bastantes peças justas dos tempos do BTT mas encontrei opções que a nível estético me são mais agradáveis.
      No meu texto, mais do que para a roupa, procurei chamar a atenção para um comportamento mais comum nas pessoas que se vestem como se fossem para a serra. A maior parte das asneiras que se vê no asfalto são praticadas por pessoal “radical”, mais betetista.
      Tenho a certeza que assim que uma marca fashion crie uma linha baseada na roupa dita de ciclismo (barra) licra, vou ver muito boa gente a virar o bico ao prego! Até porque os merinos que andam por aí à venda a preços proibitivos ou os cycling caps não são mais que a licra de outros tempos…
      Abraços.

      • Eu não costumo passar nessa ciclovia mas por vezes circulo na que liga a Torre de Belém ao Cais do Sodré onde também há zonas em que a circulação é proibida. Considero essas proibições um absurdo e por isso, conscientemente, não as respeito! Basta circular devagar e com atenção aos peões. Havendo esse bom senso e respeito não é necessário nada mais e portanto não me sinto mal com o estatuto de “transgressor”. Até hoje ainda não fui multado. :)

        ah… já agora, também fiz a mesma leitura do Camilo em relação ao pessoal das licras. A reposta do Humberto foi também clarificadora. O problema não está nas licras mas na atitude de respeito que é preciso ter com quem partilhamos o espaço.
        achei também interessante a associação entre os “cycling caps” e as licras. Uma boa dica para reflexão… ;)

  5. José Barata Says:

    Caros
    So li filosofia saloia e retórica imbecil nos comentários anteriores. O cerne da questão é que o português não gosta/não quer e está-se borrifando quando se trata de cumprir normas e regras. As normas e regras são sempre para os outros cumprirem. Porque, na verdade, quem não cumpre uma simples regra como esta de não poder circular de bicicleta no passeio marítimo em determinado horário, de certeza que na sua vida do dia-a-dia também não cumpre horários no seu emprego, foge aos impostos, utiliza o telemóvel quando conduz, estaciona em cima do passeio, deixa o cão cagar na via pública e não apanha a merda que alguém irá pisar, etc, etc…
    Na verdade trata-se de uma questão mais profunda; falta de educação na infância e não só. (moro ao pé de um colégio caro e vejo diariamente os pais a atravessarem a rua com crianças de tenra idade fora da passadeira com a passadeira a cerca de 10 a 15 metros. Aí está uma das origens do mau exemplo e da má educação/formação das gerações futuras, os futuros ciclistas que também irão ignorar as regras e a sinalética perpetuando o problema).
    Desde os comentários anteriores já houve atropelamentos de peões na passeio marítimo, inclusive de crianças, alguns com gravidade. Afinal parece que os ciclistas no passeio marítimo são um VERDADEIRO PERIGO. Até porque o nome do local diz tudo: Passeio Marítimo. Não diz lá ciclovia. Ou seja os ciclistas pelo código da estrada não poderão sequer circular a qualquer hora das 24 horas do dia ,em qualquer dia da semana…
    Ciclismo é na estrada e em ciclovias. Ponto final!
    Felizmente e finalmente começo a ver a PSP a abordar os ciclistas e a pedir a identificação. Espero que esteja também a aplicar a respectiva coima. Só assim o português vai lá, quando sente a questão no bolso…

    • É um comentário aos comentários muito válido mas, permita-me, um pouco redutor.
      Há muitos tipos de cidadãos, e já agora de cidadões também, não vá dar-se o caso dum “palhaço” qualquer ler este post.
      Há pessoas que põem os filhos em colégios caros para tentar compensar a barateza da outra educação e há os que não. Há ciclistas que provocam acidentes e ciclistas que não. Há até ciclistas vitimas de acidentes com peões descuidados, imagine-se!
      E há a moral dos “outros”.
      Há uma Marginal sem vigilância onde nenhum sinal proíbe nada e uma Marginal onde os ciclistas são marginais policiados por policia de bicicleta.
      Há o lado positivo e há o lado negativo.

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