O SOL FOI ANDAR DE BICICLETA


O Jornal Sol de 30 de Março deu à bicicleta chamada na primeira página para uma reportagem do jornalista Frederico Pinheiro, sob o título “Bicicletas pedalam a alta velocidade”. O texto aborda a situação da indústria nacional do ramo. Tem também uma caixa sobre a Cicloficina, outra sobre transportes públicos e a bicicleta e dez respostas do José Manuel Caetano a outras tantas perguntas.

Não se pode dizer que faltou vontade ao jornalista para ir um pouco mais além naquilo que é habitual quando se fala de bicicleta na imprensa portuguesa, mas também não se pode dizer que tenha conseguido enfiar o Rossio na Rua da Betesga. Ainda a sim é de louvar a capacidade de publicar sobre este tema num jornal com a importância do Sol. Infelizmente não coube no texto duas simples frases que caracterizam a importância que o nosso país tem na produção de bicicletas no mundo. A saber: a Rodi é o maior fabricante europeu de aros de bicicleta e Portugal é o maior fabricante europeu de quadros de bicicleta. Ou será que a camisola amarela é coisa de somenos?

Graças a Portugal, a Europa mantém parte substancial das suas necessidades de bicicletas suprimidas internamente. Num tempo em que a procura não tende a abrandar, ignorar este facto é atirar um nadinha ao lado. Como é ao lado dizer-se que as bicicletas de ginásio são uma “nova tendência”. Nova tendência é deixar de pedalar fechado numa sala a cheirar a cavalo e vir pedalar para a rua! Além de que se há negócio que está neste momento a ser repensado é o dos ginásios. Basta ver as promoções que por aí andam e o número de pessoas que se passou a exercitar-se ao ar livre.

Úteis as informações publicadas sobre o transporte de bicicletas nos comboios, barcos, Metro e autocarros e sobre o funcionamento da Cicloficina. Cada um merece uma reportagem de per si e vamos fazer figas para que o Frederico se continue a interessar pelo tema. Apesar das críticas aqui feitas, o artigo escrito no Sol não fala de colinas nem dos outros lugares comuns para quem olha as bicicletas desde o acento engarrafado numa icê suburbana.

Conhecendo o presidente da Federação dos Utilizadores de Bicicleta e lendo as 10 perguntas que lhe fez o Sol, facilmente se imagina as 10 páginas de jornal que seriam precisas para transcrever as respostas. As prestações mediáticas do homem forte da FPCUB são infelizmente sempre limitadas a caixas em notícias ou curtas respostas em inquéritos sobre o sentido da vida em duas rodas a pedal. Já é tempo do Zé Caetano ter direito a ser o centro da peça, ficávamos todos a ganhar. Ficamos sempre a ganhar quando temos o prazer de conhecer melhor pessoas com coisas para contar. Mesmo se não concordamos sempre, mesmo se não jogamos na mesma equipa.

Nas parcas linhas das suas respostas Caetano fala da economia paralela no negócio da bicicletas, do novo-riquísmo duma certa burguesia ciclo-mobilizada, da aberração da maioria das ciclovias que vão sendo construídas, da falta de visão dos empresários portugueses e de como o barato sai caro também no que mete bicicletas. Li e foi assim que entendi. Deixei a questão relacionada com o código da estrada para o fim de propósito. Quem por aqui vai pedalando mais amiúde, sabe que considerei um atraso, uma perca de tempo, uma mera jogada política, a Proposta de Resolução n.º 14/2012 aprovada recentemente na Assembleia, ao mesmo tempo que foi derrotado o Projecto de Lei 82/XII apresentado pelo Bloco de Esquerda que avançaria efectivamente na alteração ao CE nos aspectos penalizadores para quem anda de bicicleta na estrada.

Mesmo com o discurso editado ficamos a saber pelas palavras do presidente, que a Federação vai “agora propor ao Governo” que altere o CE para permitir que pedalemos nas faixas BUS. Então mas não foi para isso que foi aprovada a PR? Então mas o assunto não estava já arrumado em relação às recomendações? Pois não, não está! Se o PL do BE tivesse passado, teria baixado à comissão da especialidade, teria sido apreciado pelos membros da Comissão Parlamentar e a versão que subiria ao plenário para votação final, incluiria todos os contributos. Nestes casos as comissões podem ouvir e considerar as opiniões de entidades que representem os interesses visados. Não se falaria mais de recomendação mas sim de decisões!

O que o Frederico Pinheiro talvez não tenha percebido é como isto anda tudo tão ligado. No artigo do Sol está lá esse tudo mas lê-se muito pouco. É que da mesma forma que a maioria dos empresários da industria da bicicleta não souberam adaptar-se e deixaram escapar muitas oportunidades de negócio que lhes teriam permitido sobreviver num mundo em mudança, também alguns políticos não percebem hoje que os interesses da bicicleta passam pela coragem em assumir responsabilidades em vez de deixarem que o jogo partidário atrase uma solução mais que encontrada, mais que necessária. Permito-me lembrar que quem agora cancelou uma outra alta velocidade, foram os mesmos que a anunciaram. Espero que o título do Sol não seja um presságio.

Após ter publicado este texto, dei-me de caras com duas publicações replicadas aqui que merecem louvor. Com conteúdo muito mais abrangente que o artigo do Sol, ambos os trabalhos, o do Jornal de Notícias por Sérgio Almeida e o da Time Out por Mariana Duarte, dão um retrato detalhado da bicicleta urbana no Porto e arredores, devendo ser guardados para referência futura. Muito factuais quase se completando, deixam vontade para fazer um circuito por todas as novas catedrais da bicicleta a norte do Douro, sem esquecer a pérola escondida que é o Velódromo no Museu Soares dos Reis.

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