AS MODAS DA BICICLETA


A bicicleta vai de moda em popa. Está in que é como quem diz é bem. É bem andar de bicicleta, é bem dizer que se anda, é bem falar da bicicleta. À medida que se vai implantando de novo no dia-a-dia duma certa urbanidade, torna-se mais apetecível e monta uma escala de valores e relações à sua volta e dos que a usam. É mais transversal que outras modas como o skate ou o surf, e mais barata que a das motos. Tem adeptos novos e não tão novos, ricos e remediados, elas e eles, à esquerda e à direita, de tweed e de lycra, em NY e em Xangai, Lisboa e Bogotá.

É chic! E chic no original quer dizer sexy, uma mistura de sensualidade com sexualidade. Quem põe a bicicleta no altar da moda, pinta-lhe os lábios, desce-lhe o decote e rasga-lhe rachas nas sais. Da mesma maneira que o faz quando costura peças de roupa da moda. Pode parecer estranho, mas Copenhaga não é uma cidade habitada quase exclusivamente por mulheres jovens, altas, bonitas e ciclistas. Essa é uma imagem da moda da bicicleta exportada tão bem mas, como todas as imagens da moda, é apenas uma metáfora. E que boa metáfora!

A Notícias Magazine número 1035 deu à estampa página e tal sob o título “A moda das Bicicletas”. Só não percebo a razão do plural já que só lá pode estar por engano, visto que apenas um par de rodas ilustra a reportagem: uma solitária linda e apetecível bicicleta da avozinha. E moda porquê? Por causa duma mão cheia de retratos em formato pequeno de gente-que-vai-a-todas? Actores, cantores & políticos, flagrados enquanto pedalavam? Poupem-me… E o texto com três parágrafos a assinalar 45 anos da história do velocípede no… século XIX? Estranha noção de actualidade. Para completar o quadro fashion lá estão quatro objectos relacionados com a bicicleta com o quanto & onde, a remeterem para o sempre tão desejado consumo a pedal. Não fora a oportuna referência ao jornal Pedal, agora que saiu o número dois, e a incongruência seria total.

Já nem digo que acho fantástico que a austeridade portuguesa, aplicada à bicicleta, dê em tamanha pobreza mas nem a Fátima Lopes, que como se sabe é rapariga poupadinha quando toca a desenhar roupa e ainda mais nos trapinhos que veste, tem uma visão tão limitadinha de a Moda. Por muito que vir e revir a revista, não encontro glamour nenhum numa multi-ferramenta de bolso nem no mini-Sarkozi, embora me surjam algumas ideias interessantes sobre o que fazer a um com o outro… Já sei que é sempre bom que se vá falando e que mais vale pouco que nada e a lenga-lenga do pobrezinho-e-mal-agradecido mas, ó gente, atão isto é que é a moda das bicicletas???

Reconhecendo-se que há uma moda das bicicletas então mostrem-se bicicletas da moda, mostrem-se objectos em voga, mostrem-se as tendências do ciclismo urbano e do desportivo se for esse o caso e se é que sabem as diferenças. Não me precisam de mostrar mais uma vez a mesma fotografia do Brad Bitt para falar da moda das bicicletas. Será que não vêem que é repetitivo, que estão fartos de mostrar famosos de ocasião a pedalarem ocasionalmente? Quanto tempo é que NM vai estar agora sem voltar ao tema das bicicletas? Por isso é que me custa o tempo que se perde e o papel que se gasta de forma tão inconsequente. Eu não sou mal agradecido, sou é um nadinha exigente sobretudo com gente que não sabe nada para além de fazer uns quantos telefonemas e arranjar umas fotografias para um “oh-tão-giro-compra-compra”.

E estava eu neste inquieto cogitar e a abanar a cabecinha um tom reprovador, quanto ao virar a página da revista aparece a Fátima Lopes. Agente a falar nela e ela aqui à coca, de bracitos cruzados e até muito vestidinha. A revista quis saber que três objectos ajudam a designer a ordenar o agitado quotidiano. A saber: um telemóvel que a mantém sempre ligada ao mundo; um imprescindível computador muito mais rápido a desenhar que o lápis; um automóvel, esse “objecto de primeira necessidade”, sinónimo de liberdade de movimentos e independência. E eu imagino logo a Fátima Lopes -que é moça inspiradora de imaginações descuidadas, num escaldante vestido escarlate, a acelerar pelo Bairro Alto o seu intrépido Mercedes-Benz, como naqueles anúncios a carros onde as ruas das cidades são sempre desertas, onde nunca há engarrafamentos. Onde somos sempre livres e felizes.

Está na moda dizer-se que a bicicleta está na moda, mesmo que não se saiba bem porquê, da mesma maneira que a Fatinha julga que o carrito dela lhe dá total liberdade. Como é que uma pessoa, ao mesmo tempo que admite total dependência do automóvel, afirma que esse mesmo objecto lhe dá liberdade? Liberdade teria a estilista se não dependesse do carro para se deslocar na cidade e pudesse fazer como faz a Vivienne Westwood que usa a bicicleta no agitado quotidiano londrino. E o que ganharia Lisboa com muitas alfacinhas a pedalar colina acima, colina a baixo embrulhadinhas pela FL! Conheço um rapaz que não se importava nada de registar isso para partilhar e mais tarde recordar. E não estou a falar de mim..

Ia a Fátima a Londres e levava com ela, nem que fosse numa viagem de estudo virtual, a malta da NM para verem como é que, em vez de andar atrás de modas, se faz moda. Aos senhores do DN e JN não lhes daria muito trabalho e poderia ser que tivessem umas ideias. Daqui dos altos desta tribuna lhes grito “dêem uma vista de olhos às páginas do liberal The Guardian e às do conservador The Times e aprendam como se pode tratar a bicicleta de forma jornalística, às vezes mais a sério, outras mais light, com mais ou menos decote mas sempre com critério e com respeito por quem os lê. Nem que seja apenas por moda“.

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2 Respostas to “AS MODAS DA BICICLETA”

  1. ciclingsailor Says:

    Em grande, Companheiro.
    Enquanto lia só me ria e lembrava-me daqueles parolos que usam óculos (sem graduação) para parecerem intelectuais.
    Quanto à liberdade, a forma como a descrevemos é um espelho do que somos.

    Abraço.

  2. Nem mais! Aplaudo este artigo.
    Oxalá algumas mentes “iluminadas” o lessem e fossem capazes de com ele crescer um pouco.
    Se isso não acontecer, pelo menos saiba o autor que o blog dá outros frutos… eu tornei-me leitor assíduo e estou-lhe grato pela qualidade dos artigos, e já agora das fotos e vídeos tb, com que nos presenteia. Obrigado
    cumprimentos
    Júlio

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