O CALDEIRÃO DAS MASSAS


Nunca participei no desfile da Massa Crítica. Por duas razões fundamentais, primeiro porque vivo e trabalho fora de Lisboa, segundo porque ainda não me senti motivado o suficiente para ir ao Marquês de Pombal numa sexta-feira à tarde. Tampouco participei em outra qualquer Massa Crítica dentro ou fora do país, no entanto acompanho com interesse este movimento mundial nas suas várias versões incluído as portuguesas. As mais de trezentas cidades onde a cada última sexta-feira do mês, deslizam largos milhares de ciclistas são cenário dum dos maiores movimentos à escala global. São cenário e testemunha do papel que este movimento iniciado em São Francisco nos Estados Unidos, em 1992 tem tido numa certa forma de divulgar a bicicleta enquanto alternativa para a mobilidade urbana.

Cada cidade recria à sua maneira o desfile tendo por base o guião original. Ciclistas urbanos, mas não só, reúnem-se todas as derradeiras sextas-feira de cada mês num lugar fixo e decidem in loco o percurso e o destino. Circulando em massa compacta reivindicam para a bicicleta o espaço que de forma individual lhes está proibido pelo omnipresente automóvel em todos os outros dias do mês. À medida que percorrem as ruas e se cruzam com automobilistas e peões aproveitam para chamar a atenção para as questões da mobilidade, da bicicleta e doutros problemas presentes nas distintas realidades locais. A reacção aos desfiles Massa Crítica por parte dos cidadãos e das autoridades é na maioria das cidades boa mas não se pode dizer que é unanimemente aceite, até por parte dos ciclistas. Existem alguns casos de conflito sistemático entre ciclistas e polícia, sendo eventualmente o caso mais conhecido o de Nova Iorque e tem-se registado atitudes agressivas com brutais consequências por parte de automobilistas apanhados no meio da MC.

As Massa Críticas não são organizadas por ninguém em particular, são algo que existe, que se sabe onde e quando acontece porque se ouviu a algum amigo, se leu nalgum cartaz, num blog. Não são uma manifestação no sentido legal, porque fazem valer o direito que todos os cidadão têm de se deslocarem de bicicleta por onde bem entenderem desde que respeitando as regras aplicáveis, bem entendido. Prescindem deste modo de autorizações ou sequer comunicação às autoridades e do respectivo acompanhamento policial. Por esta razão não anunciam um destino ou um percurso, embora em algumas cidades exista um trajecto habitual e noutras terminem sempre no mesmo sítio. Mais frequentemente, e uma vez sufragado pelos participantes o destino, os massholes conduzem os demais ciclistas pelas ruas da cidade, seguindo uns quantos preceitos de forma a que o impacto no normal fluir do trânsito seja o menor possível.

As bicicletatas, como também são conhecidos as MC de Lisboa, têm tido nos últimos meses uma significativa adesão. Eventualmente fruto dum extraordinário Verão de São Martinho e indiscutivelmente graças ao aumento de commuters de bicicleta e ciclistas urbanos, Setembro terá reunido cerca de quatro centenas de pares de rodas em cortejo alfacinha. Por razões evidentes não foi possível confirmar este número junto da polícia, mas queremos todos acreditar que sim, 400 bicicletas juntas por Lisboa! Descontando um ou outro atrelado, mais umas quantas bicicletas com cadeirinha e algum tandem, podemos dizer que cada bicicleta seu ciclista, cada ciclista sua cabeça e cada cabeça sua sentença. Em tão diversa mole humana em movimento encontrar-se-ão seguramente espécimes de variadíssimas estripes. Por relatos variados na esfera bloguista, e noutras esferas mais quadradas, direi que por lá se encontrarão os habitués, os novatos, os estreantes, os bike-ninjas, os rufias, os betinhos, os chungas e muitos outros tipos que me podem fazer chegar pela caixa de comentários.

O confronto está presente no dia-a-dia de peões, de automobilistas, de ciclistas, em suma de todos quantos nos cruzamos nos dias-e-dias. Ele é a passadeira que não é respeitada, o lugar no comboio que não se dá à velhinha, a buzinadela desnecessária que sobressalta o transeunte, enfim um fartar de conflitos, uns mais físicos outros mais morais, para os quais contribuímos todos por acção e tantas vezes por omissão. Quando um bando de ciclistas resolve passear em plena hora de ponta pelo meio de concorridas artérias do centro lisboeta, se há coisa que provoca é, esta-se mesmo a ver, conflito. E a troco de quê? Da consciencialização dos demais cidadãos para a necessidade duma cidade mais amiga da bicicleta? Para afirmar o velocípede como alternativa à mobilidade urbana? Para reclamar o espaço alocado quase em exclusivo ao poluidor e gastador automóvel? Se respondeu sim a estas perguntas, responda lá a esta: e porque é que provoca conflito? Vou dar a minha resposta a ver se concorda.

Provoca conflito porque colide com desprevenidos cidadãos que vêem nas invasoras bicicletas um excelente alvo para a ira acumulada por uma vida cada vez mais difícil. Cidadãos que são donos da estrada todos os dias do mês, que têm no carro uma extensão do seu ego moldado numa sociedade egoísta. Colide porque contribui para complicar ainda mais a vida de pessoas a quem os participantes na MC só queriam dizer “andem daí pedalar connosco”, mas que também têm todo o direito de não querem que lhes digamos nada. Partilho da ideia que as bicicletadas deixam, por força do comportamento cívico da maioria dos participantes, uma imagem positiva em quem os vê passar. Da mesma forma sei serem “notícia” apenas os maus exemplos, o tal homem que mordeu o cão. Notícia é o taxista que se encosta à roda traseira duma bicicleta, é o ciclista que respondeu na mesma moeda ao exaltado condutor, é o peão que vocifera contra os “empatas”.

Houve recentemente uma viva e longa discussão no seio duma determinada comunidade ciclista exactamente sobre a questão comportamental dos participantes na MC alfacinha e foi esse debate, a que assisti com bastante atenção, que motivou inclusive este texto. São cada vez mais frequentes os relatos de participantes na MC que referem episódios que, segundo os relatores, em nada favorecem a causa ciclista. Se é verdade que não devemos tomar o todo pela parte, a verdade é que quando a parte, que embora não tenha a paternidade da Massa, advoga algum paternalismo, como que tendo pelo menos a custódia da coisa, decide andar às voltas numa rotunda e encazinar completamente o trânsito, ou quando opta sistematicamente pela rolha quando poderia simplesmente abrandar e esperar no semáforo seguinte pela reunião do grupo, ou quando decide uma passagem pelo aeroporto de Lisboa com as consequências que daí podem ocorrer, está à procura dum desfile que se faça notar também pelo engulho criado. Ou seja, o desfile que deveria ser uma festa para quem participa mas sobretudo para quem assiste, transforma-se numa manifestação de força e num embaraço desnecessário num já habitual caos. Assim como se um anúncio à aspirina fosse um sound-check do baterista dos Metallica.

Um evento que tem no próprio nome a palavra crítica tem forçosamente de saber lidar com a dita cuja e ser um fervoroso praticante da autocrítica. A desculpabilização dos comportamentos desviantes e a desresponsabilização do todo perante as consequências possíveis de atitudes menos ponderadas das partes não é um bom caminho. A bicicleta está na moda e nunca se conjugaram tantos factores favoráveis à afirmação dos pedais como alternativa. Neste momento arrisco a achar que é mais a bicicleta a promover os desfiles da MC que o contrário. Dizer que a MC é um movimento de cidadãos livres que podem fazer individualmente o que muito bem entenderem durante os desfiles é negar ao próprio movimento a razão de ser. É claro que os desfiles só são positivos de servirem para divulgar um modo diferente mas melhor de nos transportarmos. É claro que só valem a pena se contribuírem para formar melhores cidadãos com ou sem bicicletas debaixo dos rabos. O resto são massagens ao ego e vãs demonstrações de autoritarismos, snobismos, autismos, discriminação e preconceito.

PS: Em ralação ao facto de ter vertido tanto paleio e nunca ter ido a uma Massa Crítica, digo apenas que não preciso ser galinha para saber se o ovo está podre…

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41 Respostas to “O CALDEIRÃO DAS MASSAS”

  1. José Santa Clara Says:

    Os meus parabéns pela clareza desta muito oportuna e necessária reflexão. Só posso subscrever, na qualidade de utente regular de bicicleta e (ainda) não participante na MC de Lisboa.

  2. Boas, no geral concordo consigo. A MC de Lisboa (que é a que melhor conheço), pelas dimensões que começa a tomar, já provoca muitos “engulhos”. Dificilmente deixará de o fazer se mantiver as actuais dimensões, por mais que os participantes tomem uma postura conciliadora para com os restantes utentes da via pública (peões, automobilistas, transportes públicos).

    Como aliás tem sido a norma, pelo menos nas muitas em que já participei em 8 anos que levo disto – desde que éramos uns 5 gatos pingados e commuters de bicicleta eram uma raridade nas nossas cidades. Não digo isto como “vã demonstração de autoritarismo”, ou snobismo, mas para mostrar que sei do que falo no que à Massa diz respeito.

    Não me leve a mal, mas antes de mandar postas de pescada sobre a MC e falar de alto das rolhas e afins (que não das voltinhas ao Marquês, que concordo serem desnecessárias, se em excesso) venha a uma MC e contribua activamente para manter o grupo unido: vai perceber muito rapidamente que são um mal necessário e que a coisa corre infinitamente pior se não se fizerem.

    Outra coisa: a causa das bicicletas podia bem passar sem a MC? Podia, mas não era bem a mesma coisa!

    • Volto a tentar explicar: não preciso ser pára-quedista para perceber que se a coisa não abrir um tipo estatela-se cá em baixo.

      Será então a MC não mais que uma tradição não verdadeiramente necessária, que provoca demasiados engulhos aos “restantes utilizadores da via pública” e que nem sequer consegue manter o grupo unido?

      São variadas as formas de minimizar o impacto negativo do desfile, variando, claro está, com o número de presenças. Desde a ocupação apenas duma faixa de rodagem, constantes curvas nos cruzamentos para deixar seguir o resto do tráfego ou escolher artérias menos concorridas pelos automóveis, por exemplo.

      Mas quando são os próprios massholles que adoptam uma atitude deliberadamente concorrencial com o normal andamento do tráfego ou “escolhem” lugares onde a presença da MC é uma evidente perda de recursos, o sinal que se transmite aos demais ciclistas ou observadores à força, não deixa muita margem para dúvidas…

      • Pois não precisa de ser pára-quedista, mas precisaria no mínimo de se ter colocado nas situações que se vivem numa MC, rodeado de carros, para perceber que as “variadas […] formas de minimizar o impacto negativo do desfile” acabam por desaguar invariavelmente em rolhas e atitudes defensivas. E olhe, não sou eu que o digo, é o que se faz nas MC de todo o mundo, chama-se a isso instinto de preservação.

        Venha a uma massa e vai perceber que o pessoal acaba por ocupar mais que uma faixa, por exemplo, para se proteger das razias a 60 km/h. Por mais que haja malta que avise “não ocupem o BUS, ocupem só uma faixa”. É assim, dinâmica de grupo.

        E depois, eu tenho a opinião de que a MC não tem que fazer especiais favores ao restante tráfego, para não “incomodar”, só para manter uma visão idílica da bicicleta, passarinhos a voar em roda. É uma tomada de posição. Somos tráfego, ponto final parágrafo. Quando metade da cidade entope porque há jogo da bola, você também não vê os automobilistas a preocuparem-se com os peões e deixarem os passeios livres, para dar boa imagem aos automóveis, vê?

        A MC pode ser muito imperfeita e controversa, mas fez e faz mais pela adopção da bicicleta como meio de transporte do que as centenas de passeios de fim de semana em que se respeita escrupulosamente o espaço dos carros. É que na MC o pessoal vê que sim é possível circular na cidade, tem ocasião para o fazer na prática, com alguma segurança. E não fica ad aeternum à espera de promessas que lhe são feitas em prol do “meio ambiente”.

        Apareça numa MC. Faz sempre falta que haja quem pense nestas coisas e tenha uma atitude positiva, fale com os condutores, ajude a explicar que não é com confronto que se chega a algum lado.

      • Por fazer frequentemente a Marginal de bicicleta não posso concordar com o que escreve no primeiro parágrafo do comentário. Nem sei se é isso que se faz no mundo inteiro, e em sendo, se é que se faz exactamente assim.

        Conheço muito automobilista que se preocupa com os peões seja ou não dia de futebol. Eu sou automobilista e preocupo-me. Se não toma todos os MCs por junto porque o faz em relação aos condutores dos outros veículos?

        Teríamos que ser um nadinha mais exactos para aferir do que mais faz pela bicicleta, mas infelizmente não tenho dados para confirmar ou refutar a sua crença, porque é disso que se trata, certo, duma crença?

        E falo com dezenas de condutores mesmo sem ser à sexta-feria. Falo com eles por aqui. Passo a vida a falar com eles, eles estão por todo o lado, só acho que seja necessário meter-me a barrar-lhes o caminho para me ouvirem. Até já consegui que alguns experimentassem usar a bicicleta sem ser ao fim-de-semana e olhe que alguns gostaram e até se converteram. Nem eu acreditei em alguns casos!

        O confronto por vezes é necessário. O das ideias é agora muito preciso a ver se nos safamos deste buraco europeu. O que é de todo evitável é o conflito, particularmente o que ocorre amiúde nas MC alfacinhas

  3. A pedagogia nas ruas não se faz à força mas com bons exemplos.

    Tenho vindo a participar na Massa Crítica do Porto, a qual testemunhei sempre ter sido pautada pelo civismo e pelo respeito por todos. Ainda não passamos das quatro dezenas mas o movimento a pedais tem vindo a aumentar o número de participantes, o que é bom. Se uma vez por mês um grupo de ciclistas incomoda muita gente, engarrafamentos diários de automóveis incomodam muito mais.

    Também fui leitor atento mas não interveniente da discussão. Concordei e discordei com o muito que se disse mas e este texto vem em grande medida transmitir aquilo que penso. Muito bom

  4. Estamos aqui a esgrimir argumentos, mas eu até lhe disse que concordo genericamente com aquilo que diz, sobretudo com a sua última frase. O conflito é de evitar sempre, o confronto por vezes não, porque há que marcar uma posição firme se achamos justificável.

    A ideia de que a MC tem feito muito para colocar muita gente a andar de bicicleta na cidade é realmente uma crença. Baseada em vários casos concretos de pessoas que se iniciaram na MC alfacinha, que pude acompanhar de perto e que hoje estão aí a circular no dia a dia. Só fiz o contraponto com os passeios de fim de semana (cicloturismo), porque não me parece que sirvam de iniciação ao “commuting”, quando a esmagadora maioria dos participantes se desloca ao local de carro, para então pegar na bicicleta.

    Claro está que há muitas outras formas de incentivar a iniciação no ciclismo urbano, uma delas é a divulgação através de excelentes blogs como este, mas eu acarinho a MC porque lá a iniciação faz-se no terreno, demistifica-se muito preconceito na hora, percebe o que quero dizer?

    Só gostava que percebesse que aquilo que você avalia como sendo conflito e confrontação gratuitas não o são necessariamente. Não me move nenhuma cruzada pessoal contra o automóvel, seria extremamente estúpido porque também sou automobilista. E muito melhor automobilista desde que adoptei os modos activos para me deslocar, porque ganhei outra percepção da cidade.

    Por fim, é verdade que o importante é comunicar as vantagens dos modos activos no dia-a-dia, pelo exemplo, com boa disposição. E não só uma vez por mês. Nisso não podíamos estar mais de acordo. Olhe, um dos lemas que volta e meia se usa na MC é “pedala todos os dias, celebra uma vez por mês!”. É isso que a MC é, uma celebração. Que ainda faz sentido e não será de abandonar por razões “tácticas”, porque ainda não se alcançou quase nada de concreto a nível legislativo, de infra-estruturas e comportamental.

    • Aprovado!
      Aprovado mesmo!
      Então força com a celebração sem tornar a vida ainda mais infernal para os visinhos!
      Sou por isso e pela não desculpabilização dos comportamentos conflituosos ou discursos moralmente desresponsabilizadores.

      • Sempre pela celebração, mas sem deixar que nos pisem os calos, é o meu lema.

        Arranje lá uma aberta para ir a uma MC, vai ver que se diverte e conhece muita gente que partilha as suas ideias!

  5. Só para exprimir o meu apoio às suas considerações tão certeiras como equilibradas; é com esse espírito que será possível atrair a simpatia generalizada para os ciclistas; enquanto ciclista não passo procuração a ninguém para fazer guerra nenhuma.

  6. Paulo guerra dos Santos Says:

    Não pude deixar de aqui vir dizer, caro Humberto, que o meu primeiro pensamento ao ler o seu texto foi precisamente o mesmo que o JP. Não retirando mérito à sua escrita (coisa em que vejo o meu caro ser exímio) falar daquilo que não se sabe, daquilo que se ignora ou do qual não se tem prática/experiência rotula imediatamente o seu orador, por muito belas as palavras e o conteúdo literário que se possam utilizar.

    Salientando que me identifico com o assunto em questão (sendo peão, automobilista, ciclista e especialista formado nestas matérias) e que concordo com algumas das posições assumidas por si, resta-me dizer (utilizando prosa “humbertiana”) que não é necessário ser-se cozinheiro para saber que não é possível fazer omoletes sem ovos. Mas se formos um bom chef, como muita formação e experiência, se calhar, até ancontramos um forma de o fazer e bem. Não o sendo ….. só podemos falar, e isso, qualquer um faz.

    Desafio-o a ir a uma MC e “sofrer” na pele com a experiência. Desta forma, a sua opinião estará fundamentada pelo conhecimento e experiência própria e como tal reconhecida como válida.

    Atentamente
    *Paulo Guerra dos Santos

    *Mestre em Vias de Comunicação e Transportes, disponível para qualquer esclarecimento técnico/prático em Mobilidade Ciclável.

    • Fiquei sem perceber qual o rótulo que me é imediatamente aplicado por falar sobre o que “não sai, ignoro, ou não tenho prática”. Por incapacidade literária não consegui fazer perceber que não escrevo sobre a experiência que é participar na MC. Falo sobre o impacto que determinados comportamentos provocam em quem participa de forma activa ou passiva.

      A autoridade ou a capacidade de se teorizar sobre o que não se experimenta levar-nos-ia pedalando pela história da Filosofia.

      De forma mais prosaica argumento que um critico literária, um astrofísico, um treinador de futebol, baseiam as suas ciências na observação. Não têm precisão uns de publicar best sellers nem os outros têm de ser capazes de cruzar o universo montados num electrão ou sequer ser exímios rematadores de livres para tentarem compreender o mundo.

  7. Sugiro que quem nunca foi, que vá. Sugiro que quem nunca levou alguém novato, que leve.

    As MC’s são importantíssimas, não por causa do confronto e não só por causa do que mostram para fora, mas muito pela dinâmica que se cria lá dentro. Cria comunidade, gera ideias, mobilizações, negócios, activismo, tudo necessário para uma batalha (esta sim) que é preciso travar na nossa sociedade, a da desmotorização excessiva!

    Sem ter ido a mais do que uma dezena, dezena e meia, já levei várias pessoas e muitas delas deram um passo na sua mobilidade que nunca tinham pensado em dar, pois foram à 1ª MC numa de turista em passeio.

    Há que dar o salto para o lado da solução e sair do lado do problema. Se esta solução não agrada, colaborar com uma melhor é possível, basta querer.

    • Obrigado pelo incentivo. Também concordo que a crítica é uma excelente forma de melhorarmos e encontrar soluções.

      • Criticar é o mais fácil e não é necessariamente uma foram de melhorar. Já muitos fizeram o diagnóstico. Muitas das questões/problemas aqui identificados são do conhecimento comum nos participantes da MC, mas só passando à acção é que se resolverão.

      • Mais uma vez concordo em absoluto. Embora talvez conviesse reflectir no porquê de, estando os problemas aqui serodiamente levantados já identificados, persistirem ainda enquinando, na modesta opinião deste escriva bem como na de outros, e esses sim, participantes, o impacto do movimento na “sociedade civil”.

        Por uma razão filosófica não posso acreditar estar a MC alfacinha à espera dum Messias…

  8. Pessoalmente sou da opinião que está na hora de deitar as bicicletas no meio da rotunda do marquês de pombal.
    Revoluções com cravos não levaram a lado nenhum…

  9. Mas ó Humberto, qual Messias, qual carapuça! A menor conflituosidade das Massas Críticas consegue-se com a participação de mais e mais pessoas que partilham das suas ideias, de que não se vai a lado nenhum com pauladas na cabeça. O calcanhar de Aquiles da MC, que é também a sua maior virtude, é que não está presa a líderes que ditam as regras.

    Você está a cair no erro de assumir que os participantes na Massa estão lá pelo confronto e que faziam melhor em dedicar-se à promoção da causa em passeios Cycle Chic ou similares. Ora eu, longe de desprezar essas outras formas de intervenção e sensibilização do público, continuo a achar que na Massa se ganham muitos adeptos para a causa, porque vejo-o na prática todos os meses.

    Volto a repetir, apareça numa massa e participe, deixe de ser treinador de bancada. Depois venha para aqui escrever sobre a estratégia ou falta dela, as vantagens ou desvantagens de fazer uma MC. Até lá, nada que possa dizer sobre a mesma pode ser tomado a sério, porque você está a partir de pressupostos que não correspondem à realidade.

    • Eu posso cair em muitos erros mas não estou a cair no que refere porque não há nada no que escrevi que fale de “CycleChic ou similares” nem em momento algum advogo outras actividades para os participantes na MC. Nem vejo sequer onde estão os pressupostos que não correspondam à realidade.

      Há é leituras diferentes duma realidade que eu não conheço por experiência, mas sobre a qual verti prosa a partir de relatos de outros, com base numa extensa troca de e-mails onde aliás, participaram bastantes defensores “da actual MC” que apenas desvalorizaram as críticas às vezes com demasiado paternalismo, alguma falta de chá noutras e com bastante sobranceria demasiadas.

      Não creio que a Massa Crítica tenha deixado de fazer sentido, embora julgue que há coisas que não correm de feição e penso até, haver atitudes que em nada valorizam a causa e podem mesmo ser desprestigiantes para os ciclistas.

      Mais, porque raio se eu fosse a uma MC mudaria a opinião quando há tanta gente que é exactamente depois de lá ter ido que constrói opinião semelhante há minha?

      E se eu tivesse dito que já tinha estado em vinte MC?

      Os factos que relato são mentira?

      Existe um desfasamento entre o que foi escrito e o que se passa no terreno?

      Se o que escrevo pode ou não ser tomado a sério é seguramente uma avaliação de cada um que lê e, permita-me, não tem atestado para generalizar uma opinião que é legitima mas apenas, neste caso, sua.

      • Não estou a entrar em polémica só porque sim, mas fica o meu comentário final:

        “Mais, porque raio se eu fosse a uma MC mudaria a opinião quando há tanta gente que é exactamente depois de lá ter ido que constrói opinião semelhante há minha?”

        Se fosse a uma MC veria que os “confrontos” e “incómodos à circulação” que relata – melhor, que lhe relataram – têm razões que não se resumem a um simplista “querem estorvar, só porque sim”. Isso também é paternalismo, sombranceria, falta de chá, em suma, ignorância.

        É muito fácil alguém participar numa MC, deixar-se ir com a corrente, fazer zero para evitar os exageros que descreve e assegurar a segurança de jovens, adultos e crianças que participam, e depois vir botar discurso a apontar o dedo aos “estorvos”.

        Por isso lhe digo, na _minha_ opinião, até que tenha feito esse esforço, não dou grande crédito à sua opinião. Estou no meu direito, como você está no seu de continuar a falar do que não sabe nem aparentemente quer saber.

      • Sobre os factos nada mas lá saltam fáceis as palavras que desvalorizam o “outro”…
        Caro, não só não sou ignorante como até consegui, na opinião de várias pessoas que foram a MC, ser bastante assertivo.
        Não ponha no meu texto ideias ou palavras que lá não estão.

      • Há pelo menos uma consideração sua que está errada: as rolhas são um mal necessário mas são a melhor alternativa.

        A solução que propõe, de o pelotão da frente esperar pelo de trás, é absurda. Imagine o que seria, na Av. República, 3 ou 4 grupos de 50 ou 60 bicicletas, paradas ou quase, à espera dos pelotões mais atrasados, para que se consolide novamente num único grupo.

        Só circulando como uma massa, se consegue o objectivo de reclamar o espaço que é devido aos ciclistas, e minimizar os efeitos nocivos que essa massa tem sobre os restantes utentes desse espaço.

        Eu não gosto das rolhas porque reconheço que hostilizem alguns automobilistas, mas também já fiz e aproveito-me delas para passar, porque são, mesmo, a solução menos má (ou então mostre-me que assim não é).

        RF

      • Imagino uma gralha no primeiro parágrafo ou então não percebi.

        Eu não proponho solução em concreto mas o absurdo que fala é prática em algumas cidades. Isso e ocupar estritamente uma faixa de rodagem bem como virar frequentemente nos cruzamentos para evitar congestionar durante muito tempo a mesma rua ou avenida.

        O bloqueio de cruzamentos fará sentido algumas vezes outras nem tanto. O que eu oiço é que não se pode dizer mal das rolhas porque é um ai jesus que já querem acabar com a MC.

        Pasta ler a carta de conduta de algumas MC por esse mundo fora e consegue-se ficar com a ideia que este debate é recorrente. O que difere grandemente é na forma como se aceita a crítica. A comunidade de massholles é muito ciosa do seu saber e não aceita bitaides a não ser de encartados e experientes ciclistas…

      • Humberto, acredite que não estou a fazer finca pé só porque sim. Mas a que factos se refere? Dei-lhe um exemplo concreto, o da ocupação de mais que uma faixa.

        Quer outro? As rolhas, fazem-se para evitar que o grupo se parta. Para evitar que carros se intrometam no cortejo e haja ciclistas que fiquem isolados – e volto a repetir, há gente dos 8 aos 80 na MC. Acredite que já se tentou, como alude no seu post, deixar partir o grupo e reagrupar à frente. Ultimamente, dadas as dimensões da MC, inadvertidamente acontece com mais frequência, também porque há muita gente nova.

        E sabe que mais? Sempre que acontece, é pior do que quando se consegue evitar quebras no grupo através das rolhas. A confusão, e a “má imagem” para os ciclistas é infinitamente maior, porque ficam carros no meio de ciclistas, ciclistas no meio de carros, uma confusão pegada!

        Quer mais exemplos? Pergunte, homem! Apareça na MC, questione como toda a gente deveria fazer, faça propostas!

        Agora não espere que eu o leve a sério se vem falar de generalidades e falar de “variadas […] formas de minimizar o impacto negativo do desfile”” e ainda venha pedir-me meças quanto a factos, sobre algo que desconhece!

      • …e o que é isto dos “massholes”? Você já tem uma ideia formada sobre a comunidade que participa na MC, sobre as suas opiniões, sobre as suas formas de estar. Que é sobranceira, e irresponsável, e arrogante, e patati patata…

        …quando a maior evidência, que entra pelos olhos adentro de qualquer pessoa que lá ponha os pés por 5 minutos que seja, é que na massa encontra gente de todas as formas e feitios!

        Se por massholes quer indicar os “habitués” a que faz referência no post, pois eu como participante habitual assumo que sim, que sou cioso de que a massa não perca os princípios que sempre a nortearam, que me foram transmitidos por gente mais experiente e que eu tento transmitir a quem chega de fresco. Para que perceba porque se faz o que se faz, porque é que a massa não é o mesmo que um passeio de domingo. Isto vai lá assim, com partilha e conversa.

        É claro que não encaro de cara alegre que haja quem, nunca tendo participado numa MC, se ache com autoridade para botar discurso e ditar como o pessoal se deveria ou não comportar.

      • Não tenho nada!

        Tenho uma ideia formada sobre muita coisa mas não a posso ter sobre uma comunidade tão vasta quanto esta, da qual conheço também um pouco, como deve imaginar. Não disse nunca que os MC são isso que diz. Digo que no debate por mailing list ficou patente algo disso, o que é diferente.

        Acho que levou demasiado a peito algumas da considerações feita no meu texto.
        Massholes é um dos termos usados para designar os que pela experiência, disponibilidade e envolvimento desempenham um papel mais relevante nas MC.

        Talvez seja altura para aceitar que a minha opinião é tão legitima como qualquer uma e que lhe compete a si fazer bom uso dela, considerando-a ou não.

        Eu garanto-lhe que incorporo a sua opinião de bom grado no meu conhecimento. Prezo-a porque vem de alguém com experiência, ainda que ache, se me permite, que o coração lhe tolhe eventualmente alguma razão.

        Não creio que o João aja movido por nenhum interesse sórdido em tornar o mundo pior. Agradecia que tampouco me visse como um inimigo da MC.

        Questiono, isso sim, até que ponto tem a MC de Lisboa sabido lidar com a mudança dos tempos, com o aumento do número de participantes e outras questões expressas no texto que por essa razão as não vou repetir aqui.

        Acha, por exemplo, que o aeroporto é um bom lugar para levar a MC a passear? É sobre o que está subjacente a este tipo de decisões que aludo na prosa.

      • “massholes” = “mass” + “assholes”. Como há-de convir, não é lá muito lisonjeiro. Mas adiante…

        Não confunda firmeza com intransigência ou sombranceria. A sua opinião é tão legítima como qualquer uma, certo. Mas a sua opinião também vale tanto quanto os factos que a sustentam, e é para isso que eu tenho procurado alertá-lo.

        Das coisas que eu mais gosto na MC é do contacto com gente nova, que vem com ideias novas, novas perspectivas, novas motivações. Gosto muito da massa porque é um espaço de liberdade e pluralidade. Percebo que quem chega de fresco pense “ah e tal, fazia-se antes assim”, óptimo! Experimente-se, teste-se, mas faço finca-pé em que não se ponha em causa a segurança do grupo, isto não é “rocket science” e o modelo actual tem funcionado q.b. Até ver, como lhe digo, não se encontraram soluções alternativas às rolhas, ocupação de faixas, etc, que garantam a segurança de todos e minimizem os conflitos com os restantes utentes da via pública.

        Renovo o convite: venha a uma MC. Ofereço-me para o acompanhar de perto, porque me agrada trocar ideias com pessoas como você, que têm paixão por uma ideia de cidade diferente. Creio que temos todos muito a aprender uns com os outros.

        Finalmente, o aeroporto é um bom lugar para levar a MC a passear? Acho que sim, afinal creio que a ideia que nos move é que somos tráfego, que temos direito a circular como os outros, e que eu saiba os acessos ao aeroporto não são privados ou restritos a velocípedes. Você não gostaria de poder partir em viagem deslocando-se de bicicleta ao terminal de partidas? Então, porque não seria um bom local para passagem da MC?

        Agora, percebo a sua preocupação: lá por ir ao aeroporto, não quer dizer que se entupam os acessos, só porque podemos. Mas olhe, estive nessa MC em que se foi ao aeroporto (e ganhei uma nódoa negra num braço, cortesia de um polícia mais afoito) e posso dizer-lhe que, a haver confusão no terminal, foi provocada muito mais pelos carros estacionados em 2a fila, do que pelas bicicletas que seguiram o seu caminho…É mesmo estar lá para ver quem empata a vida a quem.

  10. Paulo guerra dos Santos Says:

    Se a generalidade dos seres humanos não tivesse a memória curta (ou não gostasse de tanto falar daquilo que não sabe) perceberiam que a história apenas se está a repetir. Quando os automóveis apareceram com relativa força no início do século passado, e como à altura não existiam vias próprias para circularem, misturavam-se na via pública com veículos de tracção animal e peões. Muitos conflitos depois lá apareceram as vias exclusivas ou prioritárias a automóveis, as estradas. Com as bicicletas não era espectável que acontecesse de forma diferente. Primeiro o aumento do número de utilizadores, depois os naturais (e históricos) conflitos, depois a resolução do problema, criando corredores BICI nas vias da cidade. SIMPLES! (para quem sabe do que está a falar, claro)

    • Caro Paulo, corrija-me se me engano, que não sou Mestre em Transportes, mas as vias de comunicação tal como as conhecemos actualmente – estradas pavimentadas em alcatrão – surgiram no final do século XIX precisamente por pressão dos ciclistas. ex: http://en.wikipedia.org/wiki/Good_Roads_Movement

      Pessoalmente não me agrada a ideia de empurrar as bicicletas para corredores bici, para além de ser mais caro é relegar uma parte potencialmente grande (para isso andamos nisto, não?) dos utilizadores da via pública para um papel secundário.

    • Mas onde é que o que está escrito no texto tem que ver com este comentário?
      Estou a falar do aumento do número de ciclistas?
      Estou por acaso a falar dos conflitos normais que ocorrem no dia-a-dia?
      Portanto o Paulo sabe do que fala e eu não, é isso?

      • Paulo guerra dos Santos Says:

        JP, em Portugal o asfalto surgiu em grande pelo aumento do número de veículos motorizados e da sua velocudade de circulação e escoamento, e não devido à bicicleta. Por corredor BICI entanda-se algo semelhante ao um corredor BUS, mas com 1.5m de largura. Nada de passeios ou segregação das vias automóveis (apesar de pontualmente essa poder ser a melhor opção), nada de grandes obras de construção já que se aproveita o asfalto existente, por onde de resto a generalidade de nós, ciclistas urbanos em Lisboa, já circula.

  11. Embora concorde com muito do que diz o autor do blog, tenho de discordar da posição dele como observador externo. Não há nada como experimentar.

    Remeto-o para um post (http://bikebuddy.mubi.pt/blog/2011/11/1069/) no blog da MUBi, que mostra um exemplo (entre muitos) do que a MC faz pela bicicleta em Lisboa e, imagino eu, um pouco por todo o país e o mundo (só conheço a de Lisboa).

    Os conflitos que surgem não são diferentes daqueles que acontecem, naturalmente, entre muitos dos indivíduos que partilham um mesmo espaço, com objectivos convergentes. Acontecem todos os dias entre alguns automobilistas, e acontecem uma vez por mês entre alguns automobilistas e alguns ciclistas.

    À sua metáfora do paraquedismo, falta a seguinte consideração: eu acredito que saltar de paraquedas seja uma experiência fantástica, com os riscos que acarreta, mas longe de mim atrever-me a escrever conjecturas sobre as vantagens ou desvantagens do fenómeno. Afinal, nunca saltei de paraquedas.

    RF

  12. Humberto, da minha, só quero deixar aqui claro que a MC é muito mais do que o confronto e que, a meu entender, há muito coisa que compensa esse lado, para alguns negativo, para outros um mal necessário, etc, etc.

    E é este lado que lhe escapa completamente. Ter opiniões a partir de opiniões de outros não lhe confere grande crédito.

    Normalmente só os menos informados sobre as questões da mobilidade (ainda muito carro-formatados) é que são mais sensíveis às rolhas, transtornos e afins.

    Tenho dito.

    • Se o César levasse a peito o que escreve sobre a forma como formo a minha opinião, imagino que seria uma pessoa muito menos envolvida.

      Os créditos das nossa opiniões são-nos dados pela sustentabilidade dos argumentos. Neste caso válidos porque verdadeiros.

      O meu texto não é um tratado sobra a MC.

      As impressões que o César tem dos efeitos da MC são legítimos como é legitimo o contrário. Eu não vejo aqui é argumentos que me digam que é positivo andar às voltas a uma rotunda e não me contento com a desculpabilização que em nome da bicicleta vale tudo, porque isso é o que ouço ao carro o tempo todo!

  13. Jose Santa Clara Says:

    Acho sintomático que muitos dos comentários se prendam à questão de se poder opinar sobre o evento em função da participação ou não…
    A questão de fundo não é essa, é o resto… e sobre isso vejo poucos comentários…

  14. Tem razão. Acabamos por nos desviar do essencial, mas a verdade é que os conflitos que a massa vai provocando se devem em grande parte à necessidade de manter a segurança do grupo. Isto não é aparente a quem chega de fresco e, se vamos alterar a massa tendo como preocupação primordial não criar “engulhos”, então esta deixa de ser massa!

    A dificuldade está em como tornar a MC agradável a todos, incluindo a quem nos vê passar, estando tanta gente tão diversa a participar, quando não há uma organização central. Se já é difícil que um grupo grande e organizado de pessoas (uma parada militar, por absurdo) pense e aja da mesma forma, em uníssono, então que dizer dum grupo de 200-300 pessoas de todas as raças, cores e feitios?

    Eu advogo que face à “coincidência desorganizada” que a MC é, o melhor é comunicar alto e bom som que cada qual é responsável unicamente pela sua cabeça e pelos seus actos, e não mais que isso. Porque é a verdade. E apelar a que cada qual, individualmente, participe na comunicação com os condutores, peões, ciclistas do lado, explicar porque se faz o que se faz (rolhas, etc) por forma a que, como um todo, a MC seja um desfile divertido e amistoso para todos.

    Isto não é, de todo, desculpabilizar “comportamentos desviantes e [desresponsabilizar o] todo perante as consequências possíveis de atitudes menos ponderadas”. É a única forma de transmitir a quem participa que convirá que se comporte como gostaria que se comportem para com ele, porque não há ali ninguém que tenha mais ou menos autoridade.

    Se quiser, concedo ao Humberto que sim, que isto é “negar ao movimento a sua razão de ser”. Na prática, não me interessa, nem acho que à maioria do pessoal interesse, que a MC seja um “movimento”. Basta que seja uma ocasião em que regularmente os cidadãos de Lisboa se podem encontrar e circular de bicicleta em segurança, trocar ideias e celebrar uma cidade um pouco diferente.

  15. A primeira massa critica teve uma motivação ambiental, 20 pessoas (eu incluido) ligaram a artilharia um á Praça do Comercio, o protesto teve a ver com o inicio das obras do buraco das Amoreiras e quando começaram a assassinar um numero elevado de árvores centenárias da envolvente.
    Já participei numas 30 MC do inicio até hoje em Lisboa, noto que a maior parte das pessoas do movimento ambientalista que esteve no embrião e implementação da MC de Lisboa aos poucos deixaram de aparecer. Caro Humberto eles sempre pugnaram para que este ajuntamento fosse inorgânico. Será que já não é?

    • Como digo e foi por demais referido, nunca participei em nenhuma Massa Crítica, sendo o meu conhecimento pelo que vou lendo e aprendendo com quem conhece melhor. Como o Zé que além de fundador é frequentador e pelos vistos não faz parte dos que já não alinha.

      Ao fim de tantos anos desde a primeira MC muita coisa deve ter acontecido na vida desse grupo pioneiro e imagino que devem ser várias as razões para, segundo diz o Zé, não marcarem presença.

      A liberdade associativa na sua forma inorgânica tem várias vantagens e alguns problemas. Orwell deixou muitas palavras escritas e publicadas sobre isso. É ler e ajuizar.

      Há, como seria de esperar, quem se outorgue mais “responsabilidade” na MC, há quem a defenda tal qual, há quem até a utilize para promover um certo “estar”. Há quem faça eventos na sua sombra e quem preveja determinado après sempre no espírito “quer-quer-vai-quem-não-quer-não-vai”, muito próprio das coisa inorgânicas, claro está!

      Então Zé, será que ainda é?

  16. Muito bom o texto, Humberto. E, pelo que me é dado ler, acertaste na mosca: este artigo deve ter mais comentários que a soma de todos os outros…
    Não me recordo se foi aqui ou no Lisboa Bike que me referi ao Esparguete Crítico, mas as tuas considerações não estão muito longe das minhas. Acresce o facto de que os maduros iniciais dos primeiros Esparguete Crítico eram “activistas ecológicos”, que decidiram, vá lá saber-se porquê, escolher o velocípede como arma de arremesso contra o aquecimento global, a poluição e como bandeira de um mundo sem CO2. Pateta. Eu não me desloco de velocípede por causa do ambiente, aliás, desconfio que o ambiente está a cagar-se literalmente para mim, quer eu ande a pé, de velocípede, de carro ou de barco. O velocípede, que é um veículo reconhecido pelo nosso Código da Estrada, foi abusivamente apropriado por este tipo de gente. O velocípede nada tem a ver com ecologismos parolos. E esta apropriação causa mais dificuldades aos ciclistas, que procuram somente que o seu velocípede seja devidamente respeitado nas nossas estradas como veículo de pleno direito. Não é com Esparguete Crítico uma vez por mês, onde surge a mais variada e suspeita gente, com outros interesses alheios à “causa ciclista”, seja lá o que isso fôr, que se promove o uso do velocípede. É no dia-a-dia, para o trabalho, para a escola, para passear, para fazer compras e, porque não, também para treinar.
    É claro que o Esparguete Crítico evoluiu ao longo dos anos; estranho seria se não fosse assim. Resta saber se evoluiu no bom sentido. Eu pergunto-me se, no dia-a-dia, esses ciclistas mensais também dão voltas e voltas à Rotunda. Aliás, pergunto-me se, de todo, passam na Rotunda nos seus trajectos diários (?). Pergunto-me se, nas suas deslocações diárias (?), também levantam as suas viaturas acima da cabeça em sinal de desafio. Pergunto-me se sabem colocar-se correctamente na via, pois o que mais vejo, naqueles que não utilizam o passeio, são ciclistas encostados ao passeio, mesmo à espera de serem derrubados por algum carro com um espelho mais vesgo. Mas em manada tudo é mais fácil, não é verdade? Mesmo que o objectivo não seja outro que o de circular em manada.
    Mais duas considerações: é curioso como surgem defensores deste movimento que se sentem ofendidos pelo teu artigo, embora afirmem que tal coisa não tem “dono”. Se não tem dono, como é que se podem sentir ofendidos?
    A outra consideração é ter aprendido que afinal sempre é possível fazer omeletes sem ovos. Brilhante! Fez-me lembrar a história do tipo que fazia pastéis de bacalhau sem bacalhau, especialista formado nessas matérias. Havia quem afiançasse que eram mesmo bons, os melhores pastéis de bacalhau do mundo. No entanto, quando alguém contestava tal coisa, afirmando que os pastéis não tinham bacalhau, lá surgia a sentença definitiva: “Tu não os provaste, portanto não podes falar do que não sabes, daquilo que ignoras e daquilo de que não tens prática.”

  17. O texto do Humberto está excelente, mas este último comentário do Conan está igualmente muito bom, resumindo em poucas palavras o que penso disto.
    Já tinha detectado a contradição evidente de uns tipos com ar autoritário e antipático proclamarem que as massas críticas não têm dono – e dizem isso de forma tão proprietária que se vê imediatamente quem é que eles pensam que são os donos das massas críticas.
    Podem estar descansados, que lhes faça bom proveito.
    Eu não tenciono lá voltar a pôr os butes – destesto ir a sítios cujos donos são antipáticos…
    Francisco

    • Por uma evidente e justificadíssima razão fiz questão de começar o artigo com a declaração de não ter nunca participado numa Massa Crítica, ou Esparguete, Tagliatelle, Penne, whatever

      Mesmo que tivesse ido a desfiles de sexta-feira, não creio que as questões que levanto no texto tivessem outro entendimento, até acho que neste caso e sobre esta perspectiva, um olhar desde o passeio tem francas vantagens. Porque, e no caso de já ter eu ido à MC, ao fim de quantod desfiles teria legitimidade para botar postas?

      No entanto como não conheço in loco não posso falar sobre os “donos das massas críticas” nem sobre os “ofendidos” pelas minhas palavras. Lá está, não é essa a abordagem do meu artigo.

      Acho que acabarei por marcar presença num desfile, numa sexta-feira em que esteja por Lisboa e a disposição para aí voltada. Mas o que me move neste espaço, aquilo que motiva o meu, agora sim, modesto contributo para a “causa”, tem exactamente a ver com a reflexão sobre as melhores formas de incluir a bicicleta no dia-a-dia de todos. Na minha maneira de ver, evidentemente.

      Nada me move contra a MC e seus participantes qualquer que seja o seu grau de envolvimento, mas não acho de todo que estes dêem um mais válido contributo, ou sequer sejam mais empenhados, na “causa” que outro qualquer cidadão que não participe em desfiles críticos, ou chic ou cicloturisticos. Ou apenas participe nestes.

      A bicicleta não é propriedade de ninguém e a melhor maneira de a promover é usá-la todos os dias.

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