O PAÍS VAI DE CARRINHO


Sempre que um qualquer membro do actual Governo faz uso das cordas vocais o som que ouço é monocórdico, repetitivo, sem melodia e o ritmo é apenas um: uma batida dura em crescendo. A letra da cantiga já a conheço de cor. São versos pobres e sem rima bramida num ensurdecedor coro. Cada vez menos seguros de si, cada vez mais desafinados, tentam convencer-nos do luxo imerecido em que temos vivido por culpa, claro está, dos brutais ordenados que auferimos mais as artimanhas matreiras para extorquir à pobre Banca todos os milhões em empréstimos sem préstimo para comprar telemóveis, elcêdês e comer fora! Passamos a vida de férias nos brasis e fazemos uma dezenas de pontes por ano para gozarmos as casas de férias no Allgarve. Isto já para não falar que, apesar dos investimentos na excelência dos transportes públicos -praticamente gratuitos, lembre-se- nós, oh ingratitude! insistimos em perder horas, dias, anos! alapados no couro sempre novo de reluzentes topos de gama germânicos, engarrafados em autoestradas à borla!

Por todo o lado, todas as sapiências convocadas para nos iluminar a existência e não nos deixar transviar do caminho da salvação, nos dizem “Tens vivido acima das tuas possibilidades” e pronto, ponto final! Não, Portugal não é o campeão da desigualdade na distribuição do rendimento. Nem um dos países com a mais elevada carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho. Portugal não tem a energia nem os combustíveis mais caros da zona euro. Não, não tem à volta dum milhão de pobres (ou devo dizer, tinha?) quase outro tanto de desempregados, precarização galopante no mercado de trabalho, salários em acentuada desvalorização, consumo interno estagnado e não é um exportador de produtos de baixíssimo valor acrescentado! Tudo isto fruto de políticas com-ple-ta-mente ao contrário das soluções da tróica, levadas a cabo por Governos que nada têm a ver com o que agora alterna!

Alguém se lembra de ainda há poucos meses, os lustrosos banqueiros lusos se gabarem da rentabilidade recorde dos seus negócios? E a fuga de capitais para offshores? Ah, isto é só inveja do pobre! Os ministros, os dos ministérios e os outros sem pasta, falam e falam e falam e o que dizem é apenas, simplesmente, mais do mesmo: só saímos daqui continuando na mesma estrada que até aqui nos trouxe. E toca de nos tratar como criminosos que mais não sabemos fazer que extorquir, pelos meandros de subsídios para tudo e por nada, as riquezas ao país. Riquezas acumuladas por anos e anos de afincado, árduo e solitário trabalho dos senhores do dinheiro. Empresários empreendedores que graças à sua capacidade de liderança e inovação têm conseguido não ir à falência nem deslocalizar as fábricas para países com mão de obra mais cara…

Verdadeiros patriotas que não vivem à sombra do Estado nem aceitam um subsídiozinho que seja, nada! Mas nós, que até julgávamos que na China é que não havia essas mariquices dos 13º mês, não passamos duma cambada de imbombáveis, não contentes por ter trabalho ainda queremos também -imagine-se- ter salário. O que estamos mesmo a precisar é dum salazar para pôr isto tudo na ordem. Ou um portas que também serve. Acabava-se logo a rebaldaria, as greves e manifestações e esses abusos todos. E o leitor, ainda aí está? A ler isto? Vá mas é trabalhar mais meia horinha de borla. Apre! E que raio me havia de dar? O que tem isto a ver com as bicicletas? Que conversa de chacha vem a ser esta para um site sobre mobilidade suave ou lá o que isto é? Uma pessoa vem aqui à espera de encontrar um paleiozito sobre a cena da bicicleta e das ciclovias e ver umas fotos com gajas chiques e apanha com uma seca destas?

Não deixo de me perguntar quem são as pessoas que lêem estas escrituras. Serão pessoas que curtem a moda das bicicletas ou são masoquistas? Não deveria eu escrever apenas sobre correntes de elos e selins de couro e afixar uma fotos relatando os meus progressos no cultivo de courgettes? Será que faz sentido um ciclista burguês e suburbano se preocupar por agora ter menos ligações de barco entre as margens do rio Tejo? Será que um commuter que use a bicicleta se deve incomodar com o definhar da linha de Cascais? Ou será indiferente para quem escolheu a bicicleta como meio de transporte que a Carris tenha acabado com várias carreiras e reduzido a frequência de outras? Não é a bicicleta também uma forma de alheamento? então porque diabo nos havemos de preocupar com o desinvestimento no transporte público? Que importância há nas decisões políticas que empurram mais pessoas para dentro dos carros? Ou nem sequer é assim e os Portugueses, ou outros Portugueses claro, são burros e nunca vão sair da cepa torta porque é isso que está escrito no grande livro do desígnio nacional?

Será relevante para quem anda de bicicleta o facto de já só poder ir jantar à Trafaria de carro porque o último barco passou a zarpar de regresso à capital às 10 da noite, duas horas mais cedo que no inicio do Verão? Importará realmente a quem escolheu a mobilidade sustentável que querendo ir hoje sábado, apanhar o barco e pedalar na baía do Seixal, tem de regressar antes das 23? Ou então terá de pedalar até ao Barreiro ou Cacilhas e lá conseguir chegar a tempo de apanhar o barco das 2 da manhã. Esta é a perspectivava que tem quem vive na margem direita da foz do Tejo e atravessa o rio de barco meia dúzia de vezes por ano e o recomenda a visitantes outras tantas. A atracção que a outra banda exerce nos apetites gastronómicos dos lisboetas é equivalente à vontade de vir jantar a Lisboa para quem vive na margem sul. O efeito que terá nas necessidades supérfluas -dirá o ministro das finanças- o esvaziamento dos bolsos de alguns -digo eu- portugueses não justificará mesmo o fim das ligações fluviais entre as margens o Tejo para lá duns quantos barcos de manhã e outros tantos à tardinha?

Dirão que a vida não está para passeios e ir comer fora é um luxo. Está mais para eliminar certas gorduras. Além de que existem as pontes e o comboio e as camionetes. As populações ficam mais dependentes do carro? E qual é o problema? Quem quer ir paga que eu não estou para dar dinheiro dos meus impostos para alimentar gulosos! Serão estas questões assunto de bicicletas? Será que o aumento do preço dos bilhetes e a anunciada fusão das empresas de transportes importa aos ciclistas de Telheiras, de Campo de Ourique, de Matosinhos, de Carcavelos, de Águeda, de Alcântara, de Braga, do Parque das Nações, do Montijo, de Lordelo? E o abandono de 600 (mais, menos?) quilómetros de linha férrea?

Se há coisa que se aprende depressa quando a pedalada passa a ser diária, é a incapacidade de passarmos pelos intervalos da chuva. Está bem de ver que a tormenta que se abate sobre as nossas cabeças não vai passar só porque sim. Por muito que gostássemos que isso acontecesse, tampouco está prevista a entrada em Portugal dum contingente de holandeses e dinamarqueses munidos de ciclovias, pasteleiras pesadas e pós de perlim-pim-pim para transformarem as nossas cidades em réplicas temperadas das suas urbes. Infelizmente não será apenas pela actualização do Código da Estrada que a bicicleta entrará a bem na nossa vida metropolitana. A bicicleta é um factor que pode elevar, como tão bem sabemos, a qualidade de vida de quem optar por ela como meio de transporte. Por todos os cinco continentes sabe-se que a bicicleta é parte da solução para os problemas da mobilidade. No entanto poderemos nós, ciclistas convictos, alhearmo-nos do caminho pelo qual está a ser conduzido Portugal? Se é certo que da chuva resta-nos enfrenta-la ou esperar que passe, será que podemos alguma coisa contra o resto ou estamos bem assim?

Franz Liszt nasceu no dia 22 de Outubro de 1811 onde hoje é a Hungria. Virtuoso pianista e maestro, Liszt é mais conhecido pela sua faceta de compositor graças a uma vasta obra inserida no que hoje conhecemos por período romântico. Professor de excelência, formou vários pianistas nos quais sempre procurou valorizar e desenvolver a capacidade interpretativa individual, desvalorizando o rigor técnico e nunca procurando replicar-se nos seus alunos. Não cobrava pelas aulas porque via no mercantilismo uma forma de corromper a arte.

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