UM PEQUENO PASSO PARA O HOMEM…


… um grande passo para a bicicleta. Desta forma se poderia resumir o dia de sexta-feira, sete de Setembro de 2011. Por volta da hora do almoço a SIC, embora com o atraso de um dia, transmitiu uma reportagem sobre a bicicleta em Lisboa. A pretexto da entrega duma bicicleta oferecida pela Federação a um bombeiro ciclista e criativo, a peça jornalística abordou -com a profundidade que permite uma peça de televisão mas sem a música dos Queen, o que já é um passo importante- dizia eu que a peça da SIC abordou a questão da bicicleta partilhada em Lisboa que nunca mais sai do papel. Pouco de novo foi adiantado, mesmo assim ficámos a saber que o vereador encarregue deste assunto, o senhor dos parques, jardins & ciclovias, também conhecido pelo Zé, espera ter a solução, que é como quem diz, espera limpar a areia da engrenagem até ao final do ano.

Foi um melhor almoço porque vi a bicicleta regressar à televisão numa abordagem que sobra do trivial da excentricidade costumeira. Miguel Barroso foi um excelente anfitrião e provou que tem pernas, porque dar boleia ao repórter de imagem de serviço na sua xtracycle requer muita entrega à causa, ainda para mais sem ajuda eléctrica. Só foi pena não ter sobrado fôlego para soprar de forma mais veemente o que lhe vai na alma sobre o imbróglio alfacinha! Já vinha o café a caminho para rematar o repasto quando o telefone acordou dum luto triste, para me dar boas notícias: manhã cedo tinha entrado a bicicleta pela porta grande na casa da democracia. A Federação Portuguesa de Cicloturismo e Amantes da Bicicleta assistiu na bancada dos convidados à apresentação de duas propostas de resolução, PPD/PSD e CDS/PP, e de dois projectos Lei, um do BE e outro do PEV, que recuperam no essencial as propostas já feitas na anterior legislatura. Por sugestão do PEV as propostas baixaram à comissão sem votadação com o compromisso numa solução consensual a todos os grupos parlamentares.

É exactamente este consenso que faria notícia, fosse este assunto parangonas na imprensa. Independentemente das diferenças ideológicas entre as seis forças políticas representadas na AR, existem hoje condições verdadeiras para que algo mude sem que fique tudo na mesma. Tanto o Bloco como Os Verdes mantém o compromisso para com a comunidade ciclista assumido em anteriores propostas. Os centristas assumem no Parlamento o que tinham prometido na campanha, nomeadamente num documento que enviaram após solicitação da Federação. O PSD, pela mão e voz dum deputado ciclista convicto, sócio da FPCUB e membro do Conselho Consultivo para a Mobilidade e do Biciauto, Pedro Roque de Oliveira, leu um texto consentâneo com as suas responsabilidades uma vez ser o seu, o Partido que sustenta o Governo. O PS, embora não tenha feito qualquer proposta nem guarde um passado feliz enquanto Governo, mostrou-se disponível para o tal consenso na discussão em Comissão da Especialidade.

Foi realmente um dia feliz para a bicicleta em Portugal, um dia que reacende a esperança de que algo vai finalmente ser feito. Uma manhã que nos faz acreditar que valeu a pena os esforços da Direcção da Federação no seu trabalho incansável de procurar apoios, abrir horizontes, promover este consenso que parece agora estar ali reunido à mesa da tal comissão. Mas é também um dia que exige de nós um brinde ao muito que há por fazer! A alteração do Código da Estrada não é a panaceia que corrigirá a anarquia rodoviária. A estipulação de todas as regras sobre a construção de ciclóvias e demais estruturas para peões e bicicletas não vai resolver a incapacidade inata da maioria dos autarcas automobilizados. Os senhores Barbosas estão por todo o lado e pensar que não entram no Parlamento é menosprezar o inimigo, primeiro passo para a derrota certa!

Mais importante que a bicicleta é quem pedala nela. E nela pedalam pessoas que perdem diariamente qualidade de vida. Diariamente nos apresentam um futuro onde não cabemos como seres humanos inteiros, um futuro sem direitos nem dinheiro, onde a sobrevivência será um luxo. O neoliberalismo galopante empurra os povos para a miséria a vemo-nos gregos ao espelho das notícias. Infelizmente não será a bicicleta que fará a revolução necessária, mas como prova a intenção de consenso na AR, é a vontade dos homens e a sua acção transformadora que pode mudar o rumo das coisas. Sem dúvida que seguirei o caminho mais feliz, farei girar os pedais mais confiante, olharei para o simplycommuting com, permitam-me a falta de modéstia, mais vontade, em consequências dum almoço bem acompanhado. Mas convém lembrar sempre que a única maneira de não cair é manter o equilíbrio, continuando a pedalar. Uma revolução de cada vez, uma volta dos pedais a cada passo.

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6 Respostas to “UM PEQUENO PASSO PARA O HOMEM…”

  1. Há dias assim. Com boas notícias ao virar da esquina e que mexem com a esperança de cada um de nós.
    Virão mais concerteza.

  2. “É exactamente este consenso que faria notícia, fosse este assunto parangonas na imprensa. Independentemente das diferenças ideológicas entre as seis forças políticas representadas na AR, existem hoje condições verdadeiras para que algo mude sem que fique tudo na mesma.”

    Onde é que eu já terei lido isto do consenso!? Ah, pois foi aqui há quase 3 anos atrás:

    “A Assembleia da República debateu hoje vários diplomas, do BE e do PEV, quanto aos meios de “transporte suave”, como a bicicletas, em que se gerou um quase consenso, do CDS-PP ao Bloco.”

    in http://www.publico.pt/Sociedade/ps-aprova-projectos-para-promover-bicicleta-mas-chumba-plano-nacional-de-ciclovias-1357172

    • Consenso esse que foi negado pelo maior partido de então e suporte da maioria governativa, o PS. Agora o PSD que governa (de novo e em alternância mais que em alternativa) é um dos proponentes, o que faz diferença.
      Desta vez estão reunidas mais condições para termos esperança mas, como também digo, nada está ganho e, se olharmos ao que tem sido a prática de Governo, os ataques ao Transporte Público e a recente confusão com o Plano Nacional de Transportes, até temos muito mais razões para preocupações e cepticismos.
      A ver vamos: um pedal de cada vez…

  3. Para quem não sabe, ou já não se recorda, aqui fica o que aconteceu depois deste consenso:

    Projecto de Lei 580/X – Prevê o plano que define a rede nacional de ciclovias http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=34080

    Projecto de Lei 581/X – Altera as normas para velocípedes sem motor do Código da Estrada http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=34081

    Projecto de Lei 638/X – Afirma os direitos dos ciclistas e peões no Código da Estrada http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=34243

    Projecto de Lei 792/X – Cria um regime fiscal de incentivo à aquisição de bicicletas.
    http://www.parlamento.pt/actividadeparlamentar/paginas/detalheiniciativa.aspx?bid=34584

  4. A história repete-se. Os projectos de lei do BE e do PEV foram ambos chumbados. Nada que me espante mas confesso que achei particularmente curioso o facto do CDS agora ter votado contra o projecto de lei 79/XII quando em 2009 tinha votado favoravelmente o mesmo texto.

    Projeto de Lei 82/XII – Afirma os direitos dos ciclistas e peões no Código da Estrada
    http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=36510

    Projeto de Lei 79/XII – Prevê o plano que define a rede nacional de ciclovias
    http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=36490

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