PONTO DE ORDEM PARTILHADO


"Pensador" - Escultura Kioka, Angola

As polémicas são úteis à sociedade na medida em que podem ajudar a derrubar preconceitos, a encontrar soluções e alternativas, a desfazer equívocos e destapar problemas. São úteis porque fazem as ideias avançar e promovem a transformação. As polémicas alimentam-se da discussão, da argumentação de opiniões contrárias ou pelo menos não coincidentes, numa dialéctica que se quer objectiva e pragmática.

A recente polémica em torno das divergências mais ou menos claras entre a vereação da Câmara Municipal de Lisboa respeitante ao sistema de bicicletas de aluguer da cidade teve pouco eco na imprensa e quase nenhum na restante comunicação social, originou um aglomerado de ideias e uma ânsia de protagonismo nalguns ciclos mais militantes e alguns textos na esfera bloguista.

Talvez o melhor contributo para a clarificação do que está em jogo e um excelente ponto de ordem é o texto abaixo se transcreve. Só a experiência e a seriedade com que a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Amantes da Bicicleta acompanha o folhetim da partilhada de Lisboa possibilita este tipo de análises. Mais uma razão para se fazer sócio. O resto são boas intenções e conversa fiada!

COMUNICADO

Promoção da bicicleta urbana com a própria energia a pedalar

Na sequência das notícias que colocam em causa o projecto das bicicletas partilhadas em Lisboa, vem a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), defender que a promoção do uso da bicicleta a pedal deve ser uma constante das políticas de saúde, de mobilidade, de energia e da sustentabilidade. Desta forma promove-se o movimento físico e a deslocação diária utilizando a sua própria energia, desincentivando o consumo de combustíveis fósseis importados e poluentes.

Os lisboetas têm grande expectativa na existência de uma rede de bicicletas partilhadas na cidade de Lisboa como já existe em Paris, Londres, Bruxelas, Toulouse, Lion, Barcelona e Sevilha, por exemplo.

Quando a implementação da prometida rede já peca por tardia, somos confrontados com declarações do Vereador da Mobilidade da CML que refere uma nova ideia da CML de disponibilização de bicicletas eléctricas para turistas na zona ribeirinha, limitando a partilha a um único local da cidade e para uma utilização turística.

Confunde-se assim o essencial para ajudar a solucionar os problemas da mobilidade em Lisboa e dar resposta a todos aqueles que pretendem usar bicicletas de uso público e partilhado. A rede não foi pensada para lazer e não deve ser exclusivamente para esse fim, à semelhança do que foi feito nas cidades referidas.

Não nos podemos esquecer que a electricidade é poluente. Além disso propor uma rede de bicicletas eléctricas para circular numa zona plana é promover a preguiça, contribuindo para a obesidade que alastra em Portugal.

Mais de metade da electricidade é produzida recorrendo a combustíveis fósseis ou nucleares (importada de Espanha e França). Incentivar o uso de electricidade é ̶ quer queiramos, quer não ̶ uma forma de promover o consumo de energias fósseis. É fazer aumentar a nossa factura energética, é aumentar a nossa dependência face ao exterior. É contribuir para aumentar o nosso crónico deficit da balança de transacções correntes, é endividar ainda mais o País. É ajudar a que Portugal tenha ainda mais dificuldades para cumprir os compromissos internacionais em termos de emissões de gases poluentes.

A exploração de uma rede de bicicletas partilhada deve-se sustentar a ela própria, com receitas provenientes quer dos utilizadores, quer da publicidade. A autarquia terá de dar resposta, primeiro aos seus munícipes e ainda potenciar a utilização turística, compatibilizando o bom uso do espaço público. Velocípedes com motor devem circular em estrada.

Velocípedes com motor e bicicletas são assuntos distintos. Tratar de forma diferente o que é diferente. A promoção da bicicleta deve estar restrita apenas às que funcionam com a energia da pessoa e nunca para promover mobilidades pseudo-sustentáveis.

Recordemos o protocolo entre a FPCUB e a CML, onde se afirma: considera “que devem ser facilitadas as condições de mobilidade dos utilizadores de bicicleta bem como dos seus potenciais utilizadores, por forma a garantir o acesso a escolas, locais de trabalho, serviços públicos, zonas de lazer, etc.”. Ambas as entidades estimam ainda que “a bicicleta é um modo de transporte a privilegiar e deve fazer parte de uma política de diminuição da poluição atmosférica”.

Lisboa, 30 de Setembro de 2011

FPCUB

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10 Respostas to “PONTO DE ORDEM PARTILHADO”

  1. José Santa Clara Says:

    Pois eu, novo adepto das e-bikes por culpa do amigo Humberto, não posso estar mais em desacordo com a Federação. Não me fiz sócio até agora por desleixo. Não me farei sócio enquanto não esquecer o comunicado acima.
    E explico. A utilização da bicicleta tem várias vantagens (e alguns reconhecidíssimos inconvenientes). Limitar a óptica de promoção da bicicleta às questões de exercício físico e de redução da factura energética nacional é redutor e portanto pouco inteligente.
    Considerar as e-bikes uma classe de velocípedes “com motor” é desastradamente ostracizar os seus fãs, que são mais ciclistas do que motociclistas. Meter no mesmo saco uma pedelec e uma Solex (e eu já fiz muitos quilómetros em ambas) é, no mínimo, desonesto…
    Manifestar contra o consumo de energia de uma e-bike é fundamentalismo do mais bacoco.
    Como amante da bicicleta, nas suas mais variadas expressões, sem restrições nem tabus, não posso concordar com comunicados destes.
    Deixem lá uma empresa qualquer explorar e-bikes para turistas na zona ribeirinha… Quantos mais andarem de bicicleta em Lisboa, melhor.

    • José,
      O Comunicado da FPCUB é uma resposta à situação concreta do “diferendo” entre as duas vereações que decidem da bicicleta em Lisboa. Não o vejo como um ataque às eléctricas e muito menos aos seus utilizadores. Em minha opinião é antes uma chamada de atenção para a necessidade de recolocar a questão na necessária introdução dum sistema de bicicletas-a-pedais partilhadas na cidade e que a disponibilização de bicicletas assistidas electricamente pensadas principalmente para os turistas que visitam Lisboa, não é uma alternativa ao projecto de maior amplitude, e até agora, único e já em adiantada fase de concretização.
      Apresentar uma solução para bicicleta partilhada eléctrica e turística como única para Lisboa é que me parece uma solução bacoca que mantém a mobilidade dependente da produção de energia exógena ao utilizador, energia essa, como sabemos, oriunda de fontes muito pouco sustentáveis e ecológicas.
      É evidente que o José dá um excelente exemplo porque encontrou uma maneira de substituir o automóvel pela bicicleta ainda que eléctrica, mas julgo que a sua solução será sempre um caminho ele próprio alternativo à bicicleta movida a pedais.
      É ao essencial, à questão de principio que a posição da FPCUB vem dar resposta.
      Como eu digo no texto BICICLETAS, FOLHETINS & PARTILHAS ambos os sistemas são compatíveis, ambos necessários e ambos muito bem vindos. E já chegarão tarde!

  2. José Santa Clara Says:

    Muito estimado autor deste magnífico blogue,
    O que leio no comunicado da FPCUB está muito claro. Dizer mal das eléctricas desta forma sectária é tomar uma posição. Triste que uma alegada federação se expresse desta forma.
    Ser esquisitos no acolhimento aos utilizadores de bicicleta, está no direito de quem escreve comunicados destes. Mas reitero tudo o que escrevi e mantenho a minha indignação. Não é assim que ganham sócios.
    A questão de princípio são duas: (i) o concurso das partilhadas foi conduzido com suspeitas habilidades e (ii) com a Crise já não há patrocinadores; se há quem queira fazer um negóciozito à beira rio, é outra coisa diferente. Só isso.

    E aproveito para referir que, com wallpapers destes, é muito difícil está concentrado a escrever. Isto não é uma crítica negativa, antes pelo contrário… :-)

    • Não é da minha lavra a redacção do Comunicado em questão nem tenho procuração passada e reconhecida em cartório para advogar a defesa das opiniões da Direcção da Federação.
      Mas lido e relido o texto mantenho que é uma clara tentativa de recolocar a questão da Bicicleta Partilhada alfacinha no lugar correcto. A bicicleta eléctrica não é uma alternativa à bicicleta a pedal e a CML não deve agir dessa forma.
      Mais, numa cidade onde a bicicleta ainda luta por um lugar ao sol, defender como principal solução a bicicleta eléctrica parece-me ser descabido.
      Há sócios da Federação que optaram pela bicicleta assistida, há até quem ache que o seguro oferecido ao sócios deveria incluir assistência em viagem, mas a Federação não é um movimento urbano, é uma associação nacional também de gente que usa à décadas a bicicleta como meio de transporte. Uma associação que tem tido papel fundamental na defesa e promoção da bicicleta nas suas mais variadas formas e utilizações. Bate-se por exemplo pela alteração do Código da Estrada.
      Defende uma solução para Lisboa que não se centre na Bicicleta Partilhada Eléctrica mas na Bicicleta a Pedais, mas não acredito que se possa inferir do Comunicado que está contra a iniciativa privada de alugar bicicletas eléctricas junto ao Tejo.

  3. José Santa Clara Says:

    Não temos a mesma leitura do Comunicado. Não faz mal… Mas o resultado da minha leitura é o oposto ao sugerido: já deitei fora o impresso de Proposta de Sócio para a FPCUB.

  4. Miguel Barroso Says:

    Tal como o Humberto disse, o comunicado da FPCUB foi direcionado em relação às bicicletas de uso partilhado. Aliás, a própria Federação já esclareceu na sua página de facebook, que em materia de Pedelecs, alinha a sua postura com a da ECF, aceitando-as como bicicletas (http://www.ecf.com/3822_1). Agora há que distinguir que nem todas as bicicletas elétricas são Pedelecs, e quando não o são, nem o próprio Codigo da Estrada Português as reconhece como velocípedes – assim, qualquer veículo que ultrapasse os 250W de potência, dê assistência mesmo sem pedalar ou não cesse a assitência acima dos 25Km/h, é considerado um ciclomotor. Alerta ainda para que mesmo nas Pedelecs, segundo o nosso código da Estrada, é obrigatório o uso de capacete – no caso dos ciclomotores, então deverá ser o chamado “capacete de mota”.

  5. O José tem várias razões para se tornar sócio da FPCUB porque usa a bicicleta. O José não tem razões para não ser sócio da FPCUB porque a Federação não é contra a bicicleta eléctrica.
    O José não entendeu correctamente a posição da Federação em relação à polémica entre diferentes visões para o sistema de bicicleta partilhada de dois vereadores da CML.
    Por este equívoco o José deitou fora a proposta para sócio da Federação. Temos de combinar um par de finos e um pires de tremoços para eu lhe entregar outra proposta de sócio.
    Ao fim e ao cabo José, todos queremos mais bicicletas em Lisboa, no Mundo. E é isso que nos move. E é nisso que somos diferentes.

  6. “Considerar as e-bikes uma classe de velocípedes “com motor” é desastradamente ostracizar os seus fãs, que são mais ciclistas do que motociclistas.”

    Não é só a FPCUB que faz essa distinção, é o próprio código da estrada português. Eu sei que o CE precisa urgentemente de ser revisto mas não considero este um ponto que necessite de mudar, não é, quanto a mim, fundamental. Não me aquece nem me arrefece que sejam consideradas como categorias distintas de veículos, cada um com as suas regras específicas, isso não me protege, não me trás mais segurança, não trás mais gente para as bicicletas pedalecs ou normais, na realidade não alteraria nada.

    Quanto ao VE, basta consultar um ou outro forum da especialidade e ver a quantidade de problemas que dão. Acho que não há um único componente destes veículos (da parte eléctrica) que não tenha dado problemas. É fácil de ver que estes problemas geram desperdício e poluição, especialmente as baterias.

    Problemas comuns nos VE.
    – Células de baterias inutilizadas
    – controladores, carregadores e fusíveis queimados
    – sistemas de gestão das baterias (BMS) que só o são de nome e que na realidade não protegem a bateria permitindo cargas/descargas que danificam as células

    Enfim, uma data de problemas que nunca mais acabam, só falta mesmo aparecer uma grávida..

    • jose caetano Says:

      O T Diz meio a sério meio a brincar veio esclarecer poque é que o homem da teoria da relatividade(utilizador de bicicleta) afirmou que a sua bicla a pedais tinha sido a maior descoberta do homem.E não esquecer que a seguir a uma subida vem sempre uma descida.

  7. José Santa Clara Says:

    Com finos e tremoços talvez chegue lá… ;-)

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