BICICLETAS, FOLHETINS & PARTILHAS


O folhetim das bicicletas partilhadas de Lisboa ganha interesse de dia para dia e promete entreter-nos durante muito tempo. Aquando da estreia, com o anúncio da implementação de um sistema de aluguer de bicicletas para daí a pouco meses, logo se viu que a coisas estava pensada para durar. No início do Verão 2008, há três anos portanto, foram as desejadas bicicletas prometidas pelo voluntarismo eleitoralista do recém eleito edil. Mesmo que passado todo este tempo essa informação tenha sido apagada do Portal do Cidadão, o texto tinha um sonoro título “Lisboa Vai Ter Rede de Bicicletas Partilhadas no Próximo Verão”.

Já em 2007 a agência Lusa noticiava contactos entre então vereador Marcos Perestrello e a J. C. Decaux com vista à introdução dum serviço de bicicleta partilhada na capital. O gabinete do vereador negou os contactos mas a empresa francesa assumiu o estudo por auto-iniciativa. Sintomático! Estas suspeitas serviram para aguçar o apetite dos espectadores para as peripécias que haviam de seguir-se. Desde então e por entre desavenças no seio dos correlegionários do presidente, dúvidas da oposição tanto à esquerda como à direita e a prepotência do eu-é-que-sei Sá Fernandes, foram sendo pintadas e marcadas coisas parecidas com ciclovias e lá foi lançado um concurso para a mediática Vélib à lisboeta. Já corria bem adiantado o ano da graça de 2009 quando finalmente foi aprovado em reunião de Câmara o relatório do júri mas  foi preciso esperar por Fevereiro do ano seguinte para ver proposto pela presidência o convite à apresentação de propostas e respectivo Caderno de Encargos.

Entretanto caiu o Governo da Nação arrastando-nos a quase todos para um buraco onde os de agora, que nos (des)governam, ameaçam enterrar-nos. Os tempo são duros, mais duros ainda, e não sobra dinheiro para “excentricidades”. Se por enquanto ainda ninguém nos veio dizer para esquecermos isto das partilhadas, a verdade é que estas coisas só se fazem com dinheiro, que não há. Dizem. De atraso em atraso lá vieram as pressões do vencedor do concurso, a tal empresa que faz estudos por livre iniciativa, de que a imprensa deu eco. “Se não há dinheiro para avançar com o total do projecto, que se avance com uma parte para segurar os nossos interesses” -parece ser o que dizem os senhores Decaux. Poderia ser uma solução, digo eu, mas será que existe viabilidade para Lisboa num projecto de bicicletas que custará bem mais de 3 milhões de euros por ano à autarquia?

Surge agora a notícia duma proposta(?) do vereador da mobilidade, Fernando Nunes da Silva. Segundo se lê trata-se dum sistema de bicicletas eléctricas a correr ao longo do rio que difere do defendido pelo seu camarada independente Sá Fernandes. E ficamos todos novamente colados ao ecrã a ver onde é que isto vai dar… A ajudar à festança, e como seria de esperar, estes assuntos são tratados com os pés (ainda por cima fora dos pedais) pelo jornalista de serviço, neste caso a senhora dona Ana Henriques no Público. O texto é mau sobre vários aspectos. Primeiro na escolha do título, porque se há coisa que não é novidade é a areia na engrenagem e a confusão na rede de partilha de velocípedes em Lisboa. Segundo porque na verdade não há incompatibilidade nos sistemas visto o agora apresentado(?) não ser substituto do primeiro, já que -e como diz no texto- se destinar sobretudo aos turistas. Ainda para mais sendo este assegurado pela empresa Ciclocidade que, garante a jornalista, será a custo zero para a autarquia. Terceiro, a jornalista não verifica a informação, por exemplo não confirma a questão -ridícula- da malha da rede dos cestos. Quarto, não ouve a presidência da autarquia. Quinto, nunca efectua um verdadeiro contraditório entre os visados na notícia.

E este tem sido um folhetim à antiga, onde os seus autores não vão atrás de modas e não auscultam a vontade dos espectadores, vão desenvolvendo o enredo a seu belo prazer e, verdade seja dita, sucesso não lhe tem faltado. Sabemos nós e sabem eles que há na blogoesfera páginas e mais páginas de, digo eu, bons contributos para o debate. Sabem eles como sabemos nós da existência duma velhinha e muito actual federação activamente empenhada na bicicleta urbana como meio de transporte. Conhecem eles e conhecemos nós uma embrionária e muito viva associação para a mobilidade em bicicleta. Mas recusam militantemente qualquer aproximação ao dialogo, à procura de contributos, parece que com medo que os cidadãos se envolvam e questionem as suas verdades sofismáveis! Perante isto, mais do que comunicados e disponibilidade para colaborações com o poder, o que os ciclistas de Lisboa precisam é de se demarcar desta forma de fazer cidade. É mostrar que estão fartos destes maus actores e ainda piores autores e folhetins reles. Ou será que também temos por aí uns interesses escondidos com pedais de fora e vale tudo para ascender ao estrelato?…

Quando vejo um político a fazer o pino numa campanha eleitoral, fico sempre com a sensação de estar a assistir a um número de circo. Chamem-lhe defeito profissional mas a verdade é que raramente me surpreendo pela positiva. O actual presidente Costa sentou efectivamente o rabo num selim e deixou-se fotografar a sorrir de capacete e tudo mas, como se vê, as fotografias apenas servem para continuar a promover este inglório folhetim. As imagens então captadas são usadas mais para denegrir a imagem das bicicletas do que o objectivo que estava na mente de quem escreveu aquele episódio. Só nos faltava mesmo é que os promotores de ideias nossas amigas andassem aos tiros aos pés uns dos outros! Porque na guerra pela cadeira do poder na capital, a imprensa vai jogar um papel decisivo e o Público vai marcando aos poucos o seu campo neste jogo. Basta ver o artigo que acompanha o que aqui nos trouxe.

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2 Respostas to “BICICLETAS, FOLHETINS & PARTILHAS”

  1. Muito bom. Resume no essencial o que penso deste assunto: chega de andarem a brincar com as bicicletas porque fica bem na fotografia. E nós ciclistas só temos que ter a esperteza suficiente de não nos deixarmos embalar em mais cantigas…compreensão é para quem faz por a merecer, e a CML com estes folhetins, não merece!

  2. […] pode ser que este seja apenas mais um exemplo, mas é um exemplo que funciona, ao contrário do folhetim alfacinha que se encontra empenado. E quanto a algum folhetim tripeiro… estamos conversados. Partilhar […]

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