JANTAR COM O INIMIGO


Não houve ainda vez nenhuma que fiz referência ao facto da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta ser associado da Fédéracion International de l’Automobile, globalmente conhecida pela sigla FIA, que o interlocutor não faça um ar de admiração ou até de dúvida. Então mas como é que a associação dos doidivanas das bicicletas faz parte da mesma respeitada organização que os formula um e os carros de rali? As razões para as coisas serem como são, são muitas vezes muito mais simples que parecem e se nos dermos ao trabalho de descobrir como foi que nasceu a FIA há já mais de 100 anos, talvez a presença da FPCUB deixe de ser assim tão estrambólico.

Muitas das mais de duzentas organizações membros da FIA são clubes de touring, caravanismo e campismo, não representando exatamente utilizadores do automóvel mas quem usa um qualquer meio, a motor ou não de transporte particular para as suas deslocações de lazer e turismo. É fácil de perceber que em vários países europeus a importância da bicicleta enquanto meio de transporte rivalizou durante muito tempo com o automóvel. A bicicleta é, direi mesmo cada vez mais, usada como veículo para ir de férias mesmo pelos caminhos de Portugal. Há até um excelente novo incentivo! Provavelmente também aqui a situação geográfica de Portugal limitou o alcance da pedalada mas todos conhecemos, mais não seja pelo eco nos média, compatriotas que fazem viagens a pedalar, algumas até paragens distantes.

Nalguns países os atuais clubes de automobilistas, porque são tão antigos que à data da sua fundação ainda não existiam automóveis, herdaram a tradição dos amantes do touring (não confundir com tuning) em bicicleta e, mais tarde em motorizada. Sair de casa com uma roulotte atrelada ou ao volante duma auto-caravana é muito comum no centro da Europa e é vê-los descerem até à nossa costa atlântica com aquele ar de reformados sortudos. Muitos países têm vários clubes na FIA, sendo que normalmente apenas um agrega a componente de desporto, ou se quiserem, de competição. A França tem como associados na FIA três clubes de automobilistas, um clube de campismo e outro de campismo e caravanismo, mais um de desporto motorizado. De Portugal estão representados, para além da FPCUB, o Automóvel Clube de Portugal e a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting. Mas para ver que as coisas não são mesmo como parecem, sabia por exemplo que o ACP promove o montanhismo? Nem eu! É caso para dizer que no ACP antes trepar que pedalar…

Vem este relambório a propósito de ter eu sido arrastado para um jantar que fechou a Conferência Internacional de Clubes da FIA, que decorreu no Estoril há meia dúzia de dias. Chegado ao repasto, já com um significativo atraso, sentado e devidamente apaparicado com um colorido prato e um desejado copo de vinho, como se exige de semelhantes convívios, deparo-me com a questão do dito cujo propriamente dito: o convívio. De que falar com comensais que passam a vida a ver o mundo pelo para-brisas dum mais que provável topo de gama luzidio e rocinante? Deu-se o caso do casal à minha direita ter vindo do norte da Alemanha, dum burgo perto de Bremen, cidade imortalizada pelos irmãos Grimm e os seus quatro amigos músicos. E por aí foi a conversa até que o fado interrompeu os diálogos com a sua exigência de silêncio -muito gostamos nós de dar a plateias que nada percebem da língua lusa, uma música onde a palavra é fundamental!

Quando a crua realidade do presente nos dá pouco espaço para a fantasia, esta fábula dos quatro amigos que fogem para Bremen em busca do futuro e da liberdade, fala-nos de como objetivos comuns podem ser a alavanca que une quem é tão diferente como um burro, um cão, um gato e um galo. Ao contrário do que se afigura no nosso horizonte enquanto país, em que não nos dizem sequer para onde nos querem  empurrar, embora apenas nos prometam pedras pelo caminho, os quatro músicos de ocasião sabiam que era em Bremen onde encontrariam a solução para os seus problemas. Ou seja, moviam-se com um objetivo, concordando com o destino.

Afinal o jantar, mesmo descontando a singela refeição e a bando sonora da praxe, acabou por me dar mais umas boas razões para continuar a ser criterioso e até um pouco sectário nas fábulas e histórias de fantasia que escolhemos cá em casa para ler ao V. Mesmo rodeado de apaixonados pelas máquinas que me oprimem enquanto defensor duma mobilidade integrada, onde todos caibamos de acordo com as nossas necessidades, é possível encontrar caminhos para percorrermos a par. Cada vez mais cansado das vozes que nos garantem que os políticos são todos iguais, sei que é nas diferenças -escondidas?- das propostas, mas sobretudo da ação, que é possível e necessário trilhar um caminho novo para o meu país. Para que depois do dia 5 de Junho não tenhamos todos de ir por aí a caminho de Bremen.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: