BICIAUTO, JUNTAR O IMPOSSÍVEL?


A opinião que cada ciclista tem sobre a aventura de pedalar na cidade, é influenciada por alguns fatores comuns a todos eles. O estado das vias que usa e o comportamento dos automobilistas são o que maior impressão causa na nossa memória. Se os obstáculos no caminho podem ser relativizados pela versatilidade da montada, já o confronto com os mamutes de aço e seus domadores é de mais difícil gestão. Os automobilistas são os dominadores das estradas, ruas, praças, largos e de tudo em redor! Quem com eles tem de disputar o espaço sabe o quão ingrata é tantas vezes essa pretensão.

Veículos mais ou menos pesados, táxis, autocarros, motorizadas são tudo objetos tripulados que circulam quase sempre em excesso de velocidade e sempre, repito: sempre em velocidade excessiva. O diferencial de velocidade entre os veículos a motor e as bicicletas na mesma via nunca é inferior ao dobro e atinge facilmente o quadruplo ou mesmo o quíntuplo. Por aqui é fácil perceber os receios e as renitências de tantas pessoas em experimentar a alternativa que a bicicleta oferece. O sentimento de falsa segurança que se obtém ao volante é inversamente sentido por quem se põe por detrás dum guiador.

Sabemos que a segurança dos ciclistas aumenta proporcionalmente com o número de bicicletas em circulação e isto deve-se a várias razões, mas também sabemos que este tipo de conclusões são tiradas pela análise de dados recolhidos em realidades muito diferentes da nossa. Existe uma imensa impunidade nas estradas portuguesas a par duma verdadeira anarquia de comportamentos. Todos os condutores têm relativo receio de serem apanhados em infração mas é geral o sentimento de que as autoridades agem por “caça à multa” e não com carácter preventivo e a força da lei está longe de ser omnipresente.

Além do mais a infraestrutura é deficitária. São ridículos os radares fixos instalados em Lisboa e absurda a gestão de velocidade na Marginal da Linha de Cascais. Não existem câmaras em nenhum semáforo com sensor de velocidade e, embora esteja demonstrado que as “bandas sonoras” acarretam perigos penalizando também o condutor que circula de forma regular, continuam a ser a única barreira de acalmia de tráfego dispersa por este país fora. Há muito a fazer até chegarmos ao ponto de agradecer à bicicleta o contributo para tornar a estrada mais segura. No entanto somos nós, os que usamos a bicicleta e o carro, que estamos em melhores condições para fazer a ponte entre dois mundos tão díspares quanto próximos.

Foi recentemente criado o BICIAUTO, um clube destinado aos automobilistas que também são ciclistas. Os commuters que dividem os seus trajetos, as suas viagens, os seus dias, a sua mobilidade por, pelo menos, o automóvel e a bicicleta. É um clube que faz todo o sentido numa realidade como a nossa onde grande parte dos movimentos pendulares se fazem entre as periferias e o interior das cidades por trajetos impossíveis de pedalar, onde o transporte coletivo não é alternativa e mantém as pessoas agarradas ao carro, quando é cada vez mais difícil enfrentar o problema do estacionamento e os combustíveis qualquer dia são vendidos em lojas de luxo.

Os automobilistas são muitos dos potenciais futuros pedalantes urbanos. Um ciclista que é também condutor será de certeza mais sensível às bicicletas na estrada e contribuirá junto do seu circulo de relações para a desejada e necessária alteração de mentalidades. Quem já é um biciauto sabe como é estar do outro lado e é seguramente um melhor condutor mesmo quando os pedais onde pisa não giram, alguém que contribui para a estrada ser um lugar mais seguro. O objetivo primeiro de todos os que circulamos pelas vias de comunicação, independentemente da máquina que escolhemos, deverá sempre ser chegarmos em segurança ao destino. Reduzir a este objetivo a missão do novo clube é já justificar a sua existência.

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