CADA JORNALISTA TEM O PAÍS QUE MERECE


O Bike Blog do diário inglês Guardian é uma excelente fonte de informação para quem não gosta de sentir os horizontes tolhidos pela pequenês da discussão portuguesa sobre as questões da bicicleta e, de forma mais lata, sobre mobilidade. No Bike Blog vários autores expõem a sua visão do mundo desde o ponto de vista de quem olha a vida por cima do guiador da bicicleta e os artigos quase diários frequentemente suscitam para cima da centena de comentários.

Talvez a principal razão para a diferença que existe entre o número de caracteres que as questões da sustentabilidade e do ambiente conseguem na imprensa lusa ou o tempo que é a estes temas dedicado pela rádio e televisão resida  na proporcionalidade que o envolvimento dos profissionais da comunicação social têm nestes assuntos sobretudo de forma pessoal. Naquilo a que às duas rodas a pedal diz respeito, quantos jornalistas viajam diariamente em transportes públicos e quantos pedalam no seu dia-a-dia?

Apesar de alguma maior atenção dispensada recentemente na comunicação social à bicicleta enquanto transporte urbano, a abordagem é, grosso modo, leviana e incipiente refletindo quase sempre preconceitos de senso comum. O jornalismo lusitano de forma geral é pouco dado a lançar discussões mobilizadoras, provavelmente por receio de poder ser acusado de ter algum interesse escondido, confundido falta de rigor com falta de independência. Claro que a isto não é estranho o facto dos jornais serem pouco lidos, a rádio ouvida sobretudo no carro e a televisão dominada por notícias sobre política, justiça e futebol.

Há já bastante tempo que guardava este texto nos rascunhos do Simply Commuting. É motivado por um comentário ao artigo que pode ser lido aqui. Matt Seaton escreve sobre o momento particular que se vive na cidade de Nove Iorque, Estados Unidos da América, em que forças políticas concorrentes em jogos de poder, usam uma pequena polémica a propósito duma ainda menor ciclovia dessa enorme cidade. O jornalista relaciona a forma como o sucesso do plano revolucionário de transporte da grande maçã, personalizado pelo Mayor Michael Bloomberg e pela sua Comissária para os Transportes Janette Sadik-Khan, pode afetar a nível global o triunfo da bicicleta nas cidades.

O autor do comentário, um Joseph de Maastricht, já usou este mesmo texto em vários artigos no Guardian mas nem por isso as suas palavras deixam de ter interesse. Se por um lado o artigo de Matt Seaton é de relativa importância para quem não vive nos states, é também uma demonstração da forma como estes assuntos são acompanhados por publicações que têm vários milhões de pageviews por dia no mundo inteiro. Por outro lado o comentário dará a quem ler este artigo aqui no SC -e caso seja jornalista melhor ainda! uma lista da quantidade de bandeiras que poderemos todos erguer no sentido de tornar o nosso Portugal definitivamente num seguidor de boas práticas ao nível da mobilidade.

Numa altura em que até a “ajuda” nos é vendida por um preço que não poderemos nunca pagar, o caminho para o desenvolvimento de Portugal passa cada vez mais por uma alternativa às políticas ruinosas que nos conduziram aqui. A lista abaixo lembra que o futuro do nosso país passa por investimento público de qualidade. Joseph inomera várias razões para Maastricht não ser apenas uma cidade de má memória…

Aqui fica o texto do comentário no original:

For the interested here is the list of Key policies and innovative measures used in Dutch cities to promote safe and convenient cycling

Extensive systems of separate cycling facilities
• Well-maintained, fully integrated paths, lanes and special bicycle streets in cities and surrounding
regions
• Fully coordinated system of colour-coded directional signs for bicyclists
• Off-street short-cuts, such as mid-block connections and passages through dead-ends for cars

Intersection modifications and priority traffic signals
• Advance green lights for cyclists at most intersections
• Advanced cyclist waiting positions (ahead of cars) fed by special bike lanes facilitate safer and
quicker crossings and turns
• Cyclist short-cuts to make right-hand turns before intersections and exemption from red traffic
signals at T-intersections, thus increasing cyclist speed and safety
• Bike paths turn into brightly coloured bike lanes when crossing intersections
• Traffic signals are synchronized at cyclist speeds assuring consecutive green lights for cyclists
(green wave)
• Bollards with flashing lights along bike routes signal cyclists the right speed to reach the next
intersection at a green light
Traffic calming
• Traffic calming of all residential neighbourhoods via speed limit (30 km/hr) and physical
infrastructure deterrents for cars
• Bicycle streets, narrow roads where bikes have absolute priority over cars
• ‘Home Zones’ with 7 km/hr speed limit, where cars must yield to pedestrians and cyclists using
the road
Bike parking
• Large supply of good bike parking throughout the city
• Improved lighting and security of bike parking facilities often featuring guards, video-surveillance
and priority parking for women
Coordination with public transport
• Extensive bike parking at all metro, suburban and regional train stations
• ‘Call a Bike’ programmes: bikes can be rented by cell phone at transit stops, paid for by the minute
and left at any busy intersection in the city
• Bike rentals at most train stations
• Deluxe bike parking garages at some train stations, with video-surveillance, special lighting,
music, repair services and bike rentals
Traffic education and training
• Comprehensive cycling training courses for virtually all school children with test by traffic
police
• Special cycling training test tracks for children
• Stringent training of motorists to respect pedestrians and cyclists and avoid hitting them
Traffic laws
• Special legal protection for children and elderly cyclists
• Motorists assumed by law to be responsible for almost all crashes with cyclists
• Strict enforcement of cyclist rights by police and courts

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2 Respostas to “CADA JORNALISTA TEM O PAÍS QUE MERECE”

  1. Não me esqueço de uma conferencia de imprensa em que o então ministro da saúde anunciava as medidas anti tabaco agora em vigor. Os jornalistas caíram-lhe em cima, com uma sanha pouco habitual. Minutos antes, 90% deles estava cá fora a fumar… Em Portugal, é assim.

    Felizmente há bons exemplos que podemos imitar, que não a grande Maçã. Se bem que gostava de ver um bom desfecho para a revolução ciclista naquela cidade, indecisa ainda sobre o papel da bicicleta.

    Um abraço,
    Bessa

    • Simply Commuting Says:

      E os assessores da Ministra a fazerem-lhes companhia!
      Nessas questões não somos assim tão originais. Em Espanha a coisa foi tratada mais ou menos da mesma maneira nos media.
      Acho que a bicicleta já ganhou em NY porque a bicicleta é apenas uma das faces da renovação que a cidade está a empreender.
      Mais zonas pedonais, passeios mais largos, esplanadas, tudo sobre o acompanhamento do olhar conhecedor Jan Gehl. Toda uma infraestrutura onde a bicicleta encaixa como peça fundamental da engrenagem da mobilidade. Não uma excentricidade de qualquer moda eleitoralista.

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