À BEIRA DO LANCIL


Sergei Gerasimovs, "Collective Farm Harvest", 1937

Tenho perguntado aos meus botões nos últimos dias e não poucas vezes, qual o efeito que terá na cabeça dos cidadãos este bombardeamento constante e sistemático com discursos de sentido único. A toda a hora e em todos os media podemos ouvir ou ler opiniões de eminentes figuras do poder instalado velho de trinta anos, que nos ameaçam e nos empurram para as mesmas opções políticas que tornaram Portugal um país não só totalmente dependente do exterior no que consumimos mas também agora de recursos financeiros. Qual será o efeito desta terapia de choque a que diariamente somos sujeitos? Ex-ministros, gestores, banqueiros, presidentes de institutos (os tais que dizem deviam acabar), professores, analistas políticos, comentadores (uma casta moderna que teima em dizer-nos o que pensar sobre tudo, não fôramos nós criar opinião própria), toda uma trupe de gente que nos acena com o caos, com o mal menor, que nos incute medo do futuro, nos espolia do direito de sonhar. Qual é o efeito desta conversa na cabeça dos cidadãos do meu país?

Pessoas que em boa verdade não servem de exemplo a ninguém, pois a sua prática política, as suas opções de desenvolvimento para o país, o respeito pelos direitos dos outros, não deixam margem para dúvidas sobre ao serviço de quem é que estiveram nos últimos trinta anos e ao de quem continuam agora, são as mesmas que nos vêm garantir que a solução está em continua a escavar o fundo do buraco que cavaram para nos enfiar dentro! Ouvir o líder dum partido popular falar de responsabilidade quando é graças às suas decisões que temos submarinos mas não temos hospitais é o derradeiro exemplo do descrédito a que se entregaram certos actores políticos. Além de ser um exercício de resistência pacífica à vontade justiceira do ouvinte.

O exemplo e a coerência dos nossos actos são observados sejamos ou não figuras públicas ou políticas. Os princípios pelos quais guiarmos a nossa acção é a imagem que queremos transmitir de nós aos demais. Não que mais importante que ser seja parecer, ditado popular bastante condescendente com práticas menos exemplares, mas somos muito de imagem feitos. E por dentro da imagem? Num fórum de activistas destas coisas das bicicletas e da mobilidade, activou-se recentemente uma recorrente discussão sobre a forma como os ciclistas devem comportar-se em matéria de respeito pelas normas do Código da Estrada. Um código que, lá está! por decisão política manteve regras negativamente discriminatórias para os utilizadores de bicicleta e, se algumas das suas regras forem levadas à risca, põem o ciclista em perigo sério em várias situações. Ou seja, o legislador produziu normas que não só não protegem os mais vulneráveis como os obriga a enfrentar situações que põem em risco a segurança do próprio e de terceiros.

Todos os ciclistas que andam nas ruas das nossas cidades sabem que não podem pedalar junto aos passeios porque as tampas de esgoto estão em mau estado ou não permitem ser transposta em segurança, conhecem o risco que representa a porta de um carro que se abre de repente, já experimenta ram o susto dum “gancho da direita”, estão atentos aos ângulos mortos dos retrovisores dos autocarros e mastodontes semelhantes, não percebem porque raio têm de ceder passagem num cruzamento a um automóvel que se apresenta pela esquerda, sabendo que este automóvel -porque se aproxima dum cruzamento- deve reduzir a velocidade e ceder passagem aos outros veículos. Enfim, o CE tem tantas incongruências que não se percebe como pôde sequer ser redigido. Mas se pensarmos que o senhor então ministro da tutela que o assinou, embuçado autarca se tornou num fervoroso defensor das… bicicletas, percebemos que muita desta gente em quem votamos não percebe patavina do que tem de fazer!

Até se conseguir alterar o CE é nele que estão as regras que todos os utilizadores da via pública devem observar, com a devida ressalva de não porem em risco a sua segurança ou a dos demais. Por exemplo, se um carro em viagem por autoestrada tiver uma avaria e for obrigado a parar, deve cruzar o traço contínuo e encostar o mais possível na berma, assinalar com o triângulo e procurar ajuda. No entanto é-lhe vedado a transposição do dito traço em normal circulação. Existem duas razões para quebrar o respeito pelas regras de trânsito, necessidade por razões de segurança ou interesse individual, egoísta. Circular no corredor destinado aos transportes coletivos é uma questão de segurança, mas será que passar um sinal vermelho na Almirante Reis às 6 da tarde não será apenas uma demonstração de desrespeito pelos outros? E onde é que fica o exemplo dado a quem nos observa? E se os nossos filhos nos observassem sentados na beira do lancil?

Creio que a responsabilidade dos ativistas das bicicletas ainda para mais envolvidos na formação de novos utilizadores da bicicleta obriga a que seja marcada muito bem a diferença entre as atitudes responsáveis e cívicas e as outras. O ganho que algumas das mais frequentes violações ao CE aportam à viagem não é de todo compensador da má imagem que passa para quem as observa, não resolvem o problema da lei nem são bons exemplos. Por muito que o CE necessite de ser revisto, são as mentalidades que precisam de se elevar. Somos todos nós que andamos na estrada a pedalar os verdadeiros embaixadores dum futuro certo. Somos nós que transportamos o sonho de cidades mais amigas dos cidadãos, mais respeitadoras das nossas vontades mas sobretudo das necessidades de cada um e de todos. Num tempo onde os valores são corrompidos e espezinhados, quando a selva lá fora fica mais densa e sombria, são os bons exemplos, é a pedagogia pela ação, os comportamentos socialmente positivos que farão com que o nosso país, nas mais diversas áreas, se liberte e possa de novo ser governado pelo Povo e para o Povo!

Agora vá lá fora e pedale com juízo! Há um mundo inteiro a olhar para si.

Alexander Deineka. "Collective Farm Worker on a Bicycle", 1935

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4 Respostas to “À BEIRA DO LANCIL”

  1. um ciclista qualquer Says:

    Viva,

    Então e diz-me. Esas as ciclovias, de Lisboa, nomeadamente sempre que elas existem? Ou optas pelas estrada em algumas situações.

    O código da estrada obriga a que sejam usadas no caso de existirem.

    E as ruas de sentido único, nunca atravessas nenhuma em contra-mão?

    ” Por muito que o CE necessite de ser revisto, são as mentalidades que precisam de se elevar”

    Se a tua mentalidade elevada faz com que cumpras tudo à risca e nunca “cagues fora do penico” então acho que também tens um problema…

    • Simply Commuting Says:

      Raramente utilizo ciclovias porque não existem nos meus trajetos habituais. Se existirem apenas opto por ela se me for mais cómodo.

      Não entro em contra-mão e faço diariamente duas passadeiras a pedalar.

      A minha mentalidade não será tão elevada que não necessite de ser mais mas pelo menos tenho disso a consciência.

      Não cumpro tudo à risca mas procuro não ser um exemplo pela negativa nem acabar “mijado”. Não vejo que isso possa ser um problema, embora acredite que tenha não um mas vários, ou não tivesse optado por andar de bicicleta no dia-a-dia.

      As razões evocadas por quem pedala na cidade para desrespeitar as regras de trânsito são exatamente as mesmas das usadas pelos automobilistas para não cumprirem os limites de velocidade ou não respeitarem as passadeiras ou passarem com o amarelo ou aceleraram numa rotunda. Prendem-se exclusivamente com razões egoístas.

      Ao fim e ao cabo a mentalidade está em quase todo o lado da mesma maneira, independentemente do veículo que se conduz e o comentário que motiva esta resposta é disso um evidente sinal!

      • um ciclista qualquer Says:

        “As razões evocadas por quem pedala na cidade para desrespeitar as regras de trânsito são exatamente as mesmas das usadas pelos automobilistas para não cumprirem os limites de velocidade ou não respeitarem as passadeiras ou passarem com o amarelo ou aceleraram numa rotunda. Prendem-se exclusivamente com razões egoístas.”

        A diferença é que em caso de acidente um ciclista terá tantos danos para si como para um elemento mais fraco (um peão por exemplo). Enquanto num automóvel pode infringir danos em terceiros sem sofrer um arranhão. Ou seja, o ciclista ao desrespeitar regras tem a consciência que ele será o principal lesado em caso de falha, portanto isto funciona porque as cautelas são redobradas…

      • Simply Commuting Says:

        Se voltar a ler o que escreveu vai ver que me dá total razão na minha argumentação.

        E permita que lhe pergunte em que é que baseia essa sua estatística segundo a qual um ciclista infringe pelo menos tantos danos nele próprio quanto a gravidade que provoque nos outros? É que isso não faz qualquer sentido.

        Se acompanhar uma discussão legislativa que tem neste momento lugar no Reino Unido sobre o agravamento das penalizações para ciclistas que provoquem acidentes com consequências fatais por condução perigosa, talvez consiga ver onde pretendo chegar. Além do mais ainda não percebi bem qual a sua posição…

        Deveremos exigira a outros o que não estamos aptos a cumprir?

        Claro que o carro é mais forte que a bicicleta mas o respeito ganha-se cumprindo e não tornando a rua numa selva onde o mais forte reina e o mais fraco não cumpre.

        E escusa de reescrever as minhas palavras nos seus comentários porque isso torna-se maçador.

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