DE BONS PLANOS ESTÁ O INFERNO CHEIO


A Assembleia da Republica aprovou uma recomendação ao Governo dum Plano para a Promoção da Bicicleta e Outros Modos de Transporte Suaves. O Ministro a Presidência como lhe compete nestes casos, promoveu a criação dum grupo interministerial envolvendo os Ministérios (por isso é que é interministerial) da Economia, da Inovação e Desenvolvimento; das Obras Públicas, Transportes e Comunicações; do Ambiente e do Ordenamento do Território e o da Educação, que resolveram agregar ao grupo a Associação Nacional de Municípios; a de Freguesias e o Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e todos assim reunidos em grupo têm por objetivo a elaboração do referido plano.

Tudo muito compreensível, espetável diria mesmo, tendo em conta o conhecimento que temos de como adoram os nosso Ministérios criar grupos de discussão e de planeamento e veja-se o estado dos Ministérios e do que nos rodeia. Este grupo é coordenado pelo  Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres em representação do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações e como podem ser auscultadas outras entidades públicas ou privadas, o grupo procedeu à elaboração dum questionário ao qual todos somos convidados a responder.

Pelo Despacho n.º 11125/2010, publicado no Diário da República, 2.ª série — N.º 130, de 7 de Julho de 2010 ficamos a saber que o Grupo teria de apresentar o trabalho para o qual foi criado no prazo de seis meses a contar da publicação do Despacho. Há portanto, mais coisa menos coisa, três meses já deveria haver novidades do Plano. Também é normal que os prazos destas coisas não sejam cumpridos de forma doentia. Mais um mesito ou dois e a coisa acaba por se compor e vai ser um virote de bicicletas e ciclovias e skates e isso tudo por aí fora… Estou a ser mauzinho, eu sei, e tanto assim é que até fui ao sítio, descarreguei o formulário, preenchi e enviei. E sei que o receberam porque me responderam na volta do mail a dizer isso mesmo e mais ainda: que me darão notícias no futuro. Ena, ena…

Fico é a pensar que agora que o Governo vai mudar e calhando os senhores que se seguem não gostam destas esquisitices modernas das bicicletas e toca de mandar o grupo & plano às urtigas! Por isso, pessoal, mais uma razão para verem bem o que fazem no dia em que o senhor professor Aníbal nos mandar um sms com um número de eleitor válido! Entretanto e como eu não sou de fazer caixinha destas coisas, vou escarrapachar aqui o que disse aos senhores do tal Instituto. Ora tomem lá!

1. Porque é que acha que em Portugal ou na sua cidade, a bicicleta não é um modo de transporte mais utilizado?

Porque não há investimentos sérios e consequentes em termos de mobilidade sustentável nem sustentada. Porque se privilegia em exclusivo a mobilidade individual ou coletiva com base no veiculo automóvel. Porque o carro particular é bem vindo em todo o lado e a todo o lado se chega melhor dessa forma. Porque as nossas cidades não são pensadas à dimensão do individuo nem ao seu nível de olhar ou de acordo com as suas necessidades enquanto ser que antes de tudo é um ser caminhante, peão.

Se na maioria das nossas cidades não estão desenhadas para o peão como é que haveriam de ser convidativas às bicicletas?

Porque a bicicleta ainda é encarada ou como um brinquedo de crianças, ou como atividade desportiva ou associada a classes sociais de baixos recursos. Porque está rodeada de preconceito.

Porque a circulação viária nas nossas cidades não é segura.

Em suma, porque não se faz rigorosamente nada para que a bicicleta seja utilizada enquanto veículo de transporte.

2. No seu entendimento, porque é que  o peso das deslocações a pé é cada vez menor?

Creio que há de distinguir a que é que essa redução se deveu. Se deixaram de ir a pé e escolheram meios de transporte automóvel, coletivos ou particulares, ou passaram a usar a bicicleta.

Se as pessoas passaram a andar de metro ou de outros transporte públicos, isso pode dever-se à melhoria desses serviços e redes.

Se passaram a ir de bicicleta pode ser pela disponibilização de bicicletas de aluguer como em Londres, Paris ou Sevilha e à construção de infraestruturas próprias.

Se a opção é pelo carro, como julgo ser o nosso caso, isso deve-se à falta de alternativa e à facilidade em, por exemplo estacionar o carro no destino, ou pelo elevado preço dos transportes públicos quando se tem de apanhar vários serviços de transporte.

Pode ainda ter que ver com a deslocalização dos seus empregos para zonas distantes do local de residência.

3. Que constrangimentos seria necessário ultrapassar para que o uso da bicicleta na vida quotidiana das crianças que vão para a escola comece a ser uma realidade?

O maior constrangimento é a segurança dos jovens ciclistas.

Outro constrangimento é a inexistência de infraestruturas que promovam e facilitem a utilização da bicicleta.

A questão da segurança rodoviária tem que ver principalmente com a atitude dos automobilistas e com o espaço que é ocupado pelo veículo automóvel na via pública, quer enquanto circula, mas sobretudo quando está estacionado.

Alterar a mentalidade vigente ao nível do cidadão comum mas sobretudo do decisor político é um constrangimento a ultrapassar antes que seja possível alterar o paradigma da mobilidade em Portugal.

Deixar de associar a bicicleta a um brinquedo perigoso é uma tarefa que se bem sucedida inverterá grandemente a forma como passamos a olhar todo o seu potencial.

4. Que constrangimentos seria necessário ultrapassar para que o uso da bicicleta nas deslocações pendulares dos cidadãos que vão para os seus emprego, comece a ser uma realidade?

Não existe qualquer tipo de limitação à utilização do carro pelo que esse será o maior constrangimento à opção pela bicicleta.

Será necessário ultrapassar questões morais e preconceituosas.

Como as distâncias a percorrer nestes movimentos pendulares poderão ser razoáveis, as ciclovias ou corredores para bicicletas são infraestruturas que permitem transformar a atual realidade.

O Governo inglês optou por dar incentivos financeiros às empresas que “ponham” os seus trabalhadores a pedalar para o emprego ao mesmo tempo que cobra pelo espaço público ou privado usado para estacionar carro.

São aliás as limitações ao estacionamento que se verificam em todas as cidades modernas que contrastam com o panorama do nosso país onde ainda é possível e muito fácil encontrar lugar para estacionar o carro sem que isso tenha um preço.

Ser implacável com as transgressões ao estacionamento em cima do passeio ou em qualquer lugar proibido, reduz o número de automobilistas que acedem àquele local de carro e transformará alguns em ciclistas…

5. O que acha que é preciso fazer para resolver os obstáculos existentes nestes vários domínios e promover a adesão à utilização da bicicleta?

Partindo do pressuposto que um estudante vai para a escola de bicicleta percorrendo pequenas distâncias, dentro do seu bairro, podemos usar os casos conhecidos e concluir que todos os meios de acalmia da velocidade em meio urbano criam mais segurança ao peão e ao ciclista. Alargar as zonas de velocidade máxima de 30 km/h e introduzir as zonas de 7km/h é um passo importante na direção correta;

Proibir a paragem/estacionamento ou mesmo a circulação de automóveis numa distância segura das entradas das escolas (Holanda, Dinamarca);

Criar zonas de parqueamento para bicicletas;

Incluir a bicicleta na vida dos alunos pela sua divulgação como meio de transporte saudável e sustentado;

Promover comportamentos seguros junto das comunidades e populações.

6. O que , no seu entendimento, é que o Estado deve fazer para envolver os vários atores referidos?

O Estado deve começar por dar o exemplo por todas as forma ao seu alcance.

Deve apoiar as estruturas já existentes e chamar a participar os cidadãos nas suas decisões. Em poucas palavras deve ser mais democrático.

O regresso à bicicleta verifica-se um pouco por todo o mundo desenvolvido pelo que basta ao Estado português dar alguma atenção ao que está a ser feito para encontrar soluções que possam por cá se adotadas.

Discutir de forma aberta e devidamente publicitada estas matérias é meio caminho para chamar à participação os interessados.

7. Neste Plano, qual deve ser, na sua perspetiva, o contributo do Estado, para a promoção das bicicletas e do modo pedonal?

Deve aplicar as leis que ele próprio tem. O Código da Estrada deveria ser revisto e adaptado no sentido de acolher a bicicleta como veiculo de pleno direito caminhando na direção dos códigos de estrada dos países europeus mais avançados nesta matérias;

Deve aplicar a legislação que obriga e promove a construção do espaço urbano de qualidade, tendo no centro o cidadão enquanto peão e ser comunitário;

Deve valorizar o espaço público enquanto lugar de encontro dos cidadãos, e partilha de conhecimento e experiência, de dinâmicas criadores e valorizadores da riqueza que são as nossas cidades.

Deve incentivar campanhas de valorização destes modos de mobilidade sustentáveis junto dos cidadãos;

Deve baixar o preço dos transportes públicos e penalizar o recurso desnecessário ao carro privado;

Deve reduzir o espaço destinado a estacionamento automóvel;

Deve destinar os recursos utilizados na construção de estradas e alargamento das existentes que visem trazer mais carros para os centros das cidades para promover o transporte público, melhores condições para a circulação de peões e particularmente dos cidadãos com necessidades especiais de mobilidade e, claro está, infraestruturas para as bicicletas;

Deve proibir novas grandes superfícies comerciais e apoiar o pequeno comércio, as feiras e os mercados.

8. Neste Plano, qual deve ser, na sua perspetiva, o contributo das autarquias para a promoção das bicicletas e do modo pedonal?

Devem criar mais ruas e praças pedonais, com áreas de lazer e licenciar mais esplanadas;

Criação de mais zonas pedonais revitaliza o comércio local e convida ao uso de modos de deslocação suaves;

Gestão criteriosa do espaço disponível para estacionamento e ação implacável contra o estacionamento indevido;

Devem privilegiar a recuperação e reocupação dos centros abandonados e  promover a acesso pedonal às zonas de comércio tradicional;

Devem deixar de apostar nas grandes cadeias de supermercados que secam os centros da localidades;

Devem valorizar jardins e parques e promover atividades nesses espaços que atraiam pessoas e negócios.

Em resumo devem pensar nos cidadãos como seres que se deslocam primeiramente a pé!

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6 Respostas to “DE BONS PLANOS ESTÁ O INFERNO CHEIO”

    • Simply Commuting Says:

      Sim, a ligação que enviou é fixe e estão todos de parabéns pela iniciativa, embora seja um pouco mais… pedante que pedalante.
      Mas a verdade verdadinha é que uma andorinha não faz a Primavera.
      Cada um que pedale como queira, com fato de treino, calças de licra ou carregado com um sobretudo de caxemira mas sinceramente não vejo em que é que isso ajudará a cumprir um prazo que já expirou dum plano de Ministérios já auto-demitidos, num país que precisa bem mais de tools que de cools… Rapidamentex!

  1. A questão de se pensar “agora vou andar de bicicleta”. É um gesto (ainda?) demasiadamente pouco natural, pouco inserido nos gestos vulgares do dia a dia.

    • Simply Commuting Says:

      Será assim para uns será doutro modo para outros. Como em tudo a forma não deve sobrepor-se à função. de qualquer forma não será pela exclusão que a bicicleta florescerá nas ruas das nossas cidades. O resto são modas…

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