OS CARVALHOS NÃO GOSTAM DE BICICLETAS?


Tempos houve em que não existiu na minha vida um recetor de televisão e o mundo exterior entrava-me em casa apenas pela voz da rádio. A ausência de imagem na comunicação mantém a rádio mais perto da literatura com o seu mundo de imagens que cria à volta do ouvinte, pela forma única como a mestria de alguns profissionais conseguem descrever ambientes e situações apenas pelo som. Se a televisão nos aprisiona o pensamento, a rádio liberta-o. Quem ainda não experimentou aquela sensação de “como se lá estivéssemos”?

Apesar de viver com a televisão quase de forma literal, nunca abandonei a paixão antiga e dedico-lhe bastante tempo por dia, seja por via dos vários rádios que existem espalhados cá por casa -televisão há só uma- seja em diferido pela descarga dos programas para dentro do iPhone em formato podcast. O que aqui me traz hoje apanhei-o em direto mas foi tal o espanto com o que ouvi que fui certificar-me no sítio da Antena 1. Ouvi e dei-me ao trabalho de transcrever para vos mostrar um exemplo do equívoco à volta da bicicleta e do seu papel nas nossa vidas.

No plano mediático-ambiental a Quercus é um verdadeiro eucalipto e desenvolvendo a analogia, se essa controversa árvore deu pão a muita gente, também é verdade que só existem vantagens na diversidade florestal. Para alguém que não acompanha a produção intelectual da associação de forma assídua, é já a segunda vez que tropeço na inaptidão das suas gentes para pedalar a questão da mobilidade em duas rodas.

Certa manhã uma dirigente, Inês Pereira de sua graça, afirmou perante as câmaras de televisão que pedalar em Lisboa seria uma maçada por causa do suor e assim, mais as subidas e isso tudo. Desta forma leviana conseguiu a ilustre ambiental um protesto de muito boa gente incluindo deste escriba. Agora foi Francisco Ferreira que voltando a agarrar na bicicleta deu uma estatelou-se ao comprido.

Abaixo, para além do rádio onde pode ouvir o programa Um Minuto Pela Terra que passou na Antena 1 no dia 23 deste mês, está a transcrição ipsis verbis do texto lido pelo senhor da Quercus. Assim não perde pitada!

Cada vez temos menos desculpas para não utilizar a bicicleta nas nossas deslocações, mesmo que no dia-a-dia não consiga pedalar até ao trabalho, esta é uma ótima opção para momentos de lazer. Por um lado cresce todos os dias o número de municípios que disponibiliza(m) serviços públicos(?) de aluguer de bicicletas alguns deles gratuitos, por outro lado o próprio mercado já nos oferece opções inovadoras desde as bicicletas elétricas às opções desmontáveis (oh céus!).

O Minuto pela Terra de hoje dá-lhe mais um motivo para ser ciclista nas horas vagas. Se tiver acesso à internet o sítio www ponto ciclovia ponto come ponto pt permite-lhe rapidamente encontrar as faixas cicláveis mais perto de si ou numa qualquer região do país que pretenda visitar. Informações como a localização exata; o tipo de percurso ou (e) a extensão estão assim à distância dum clique (tinha de vir o lugar comum!) .

Ficou convencido? Então inclua a bicicleta nos seus planos de fim-de-semana. O ambiente agradece!

Já ouviu? Leu? E então, o que achou?

Pois bem, como mesmo que me responda eu não ouço e embora exista a caixa de comentários, vou eu escrever o que eu penso, já que foi para isso que aqui vim.

O pequeno texto nem começa mal na proposta que faz mas aborda a questão da utilização da bicicleta pela negativa na medida em que parte das desculpas que temos para não usar a bicicleta. Poderia perfeitamente começar por realçar o facto de haver cada vez mais razões para essa utilização. A abordagem escolhida denota -evidentemente- a perspetiva do autor do programa e condiciona -evidentemente- o ouvinte na apreciação que fará sobre o tema. Isto fica mais claro na recomendação feita ao ouvinte de, caso não tenha pernas para trocar o carro pela bicicleta, vá ao menos dar umas voltas ali à serra da Gardunha. O que o senhor da omnipresente associação não propõe -e poderia muito bem propor- é, caso não tenha AINDA pernas elas ganham-se a pedalar.

Os exageros de retórica são recursos estilísticos perfeitamente válidos, mas afirmar-se que “cresce todos os dias o número de municípios que disponibilizam serviços de aluguer de bicicletas” é, usando uma palavra branda, um tanto ridículo. Se se disser que há diariamente mais pessoas que conseguem pedalar no dia-a-dia para o trabalho, embora fosse um exagero seria compreensível, mas pergunto, saberá o senhor Francisco quantos municípios há em Portugal? O que parece não saber é que as bicicletas de que queria falar não se desmontam, dobram-se! E chamam-se dobráveis.

E quando eu já estava a abanar a cabeça ao ritmo de impropérios condescendentes, ouço que afinal o senhor Ferreira só está a pensar no meu lazer! Afinal o convite para usar a bicicleta nas deslocações entrou aqui só porque fica bem. Mas gostava de perceber uma coisa: como raio é que se eu comprar uma bicicleta elétrica, mesmo desmontada, e for pedalar ao fim de semana para a ciclovia do Guincho, obtenho o reconhecimento agradecido do ambiente? Claro que não fiquei convencido!

Francisco Ferreira poderia pensar que pedalar calmamente para o trabalho faz ganhar perna e perder barriga. Poderia escrever sobre a poluição e o preço dos combustíveis. Preferiu escreveu um texto fraco, prenhe de preconceito e evidente falta de informação. A impressão  que fica é que na Quercus não há ninguém que saiba o que dizer sobre bicicletas nem sobre mobilidade sustentável.

Ouso publicar um texto onde tomei a liberdade de desconstruir algumas das ideias do original . Descubra as diferenças.

Cada vez temos mais razões para utilizar a bicicleta nas nossas deslocações. Mesmo que não consiga pedalar no dia-a-dia todo o caminho até ao seu destino, a bicicleta pode ser uma ótima opção quando conjugada com outro transporte. Por um lado existem já muitos municípios que disponibilizam serviços de aluguer de bicicletas, alguns até gratuitos. Por outro existem no mercado opções inovadoras desde as bicicletas elétricas às opções dobráveis.

O Minuto pela Terra de hoje dá-lhe mais um motivo para ser ciclista. O sítio da internet www ponto ciclovia ponto com ponto pt permite-lhe encontrar as ciclovias, ecovias e ecopistas mais perto de si ou numa qualquer região do país que pretenda visitar. Informação sobre os percursos urbanos e os mais desportivos bem como a informação sobre os trajetos e sua extensão estão assim à distância dum clique.

Ficou convencido? Então inclua a bicicleta nos seus planos de mobilidade. Assim sim, o ambiente agradece!


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Uma resposta to “OS CARVALHOS NÃO GOSTAM DE BICICLETAS?”

  1. Fantástico, um texto bem mais preciso e que diz muito mais num minuto que o Sr. Francisco faz na televisão nas “horas vagas”!

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