ÍNDIOS E CÓBOIS


As recentes imagens de um carro a colher bicicletas vieram juntar-se ao rol de pequenos filmes que registam estes momentos de demência que com demasiada regularidade ocorrem nas mais diferentes paragens. São o lado mais dramático dum conflito que opõe -como aliás ocorre com quase todos os conflitos- duas vítimas, com muito mais em comum do que parece à primeira vista: automobilistas e ciclistas.

Há décadas que as cidades portuguesas são moldadas, desenhadas e projectadas por técnicos que põem a utilização do transporte individual automóvel, o carro, no centro das prioridades. Na grande área metropolitana de Lisboa ainda hoje se constroem e alargam vias com três e mais faixas em cada sentido, cortam-se freguesias com variantes e vias rápidas, permite-se a ocupação de qualquer espaço livre por veículos estacionados. Grandes espaços comerciais onde os clientes apenas poderão chegar de carro são cartão de visita de todos os concelhos do distrito de Lisboa.

Esta mesma cidade onde a dimensão humana foi sendo ultrapassada pela voracidade do automóvel retribui moldando quem nela vive em pessoas embrutecidas pelo asfalto e pela velocidade. Mesmo em espaços donde o carro foi banido como na nova Praça do Comércio, o peão não ganhou nada mais que espaço livre e vazio. É indiscutivelmente essencial criar meios que permitam às pessoas chegar aos espaços públicos, aos jardins e praças, mas esse acesso só fará sentido se nos levar a destinos vivos, confortáveis e seguros. Um turista visitará o Terreiro do Paço uma vez, um lisboeta poderá lá ir todos os dias se a tal for convidado.

É pela valorização do cidadão e do espaço de encontro e interação que as cidades se tornam mais humanas. Da mesma forma que milhares de famílias se cruzam incógnitas dentro dos seus carros, também quando fora deles deambulam pelos corredores dos centros comerciais não estabelecem qualquer tipo de relação. Não debatem, não cruzam opiniões, não se conhecem. É ao tirar o condutor de dentro do carro que a cidade ficará mais humana e consequentemente geradora de menos conflitos. Tirar primazia ao automóvel é pois uma forma de moldar o condutor num melhor ser humano.

A reivindicação do direito a usar a estrada em pé de igualdade com os restantes veículos é mais que justa sobretudo olhando o caminho trilhado pelas regras do mercado liberal. O direito à escolha de meios de mobilidade não dependentes do automóvel faz parte do leque de opções de qualquer cidadão do mundo (dito) desenvolvido e ao qual (nos dizem) pertencemos. Ser assertivo no protesto e na argumentação requer mobilização mas especialmente objectivos. As imagens que nos chegaram do Brasil passaram nas televisões e foram assunto de imprensa mas não o suficiente para criar massa crítica e reflexão sobre o estado da arte, não justificaram tampouco um retrato sobre a bicicleta no país irmão ou sequer sobre os planos da Prefeitura de Porto Alegre para acomodar a circulação de velocípedes na malha viária.

Todas as pessoas que utilizam o carro vêem os custos da sua escolha -quando é de escolha realmente que se trata- a atingir o incomportável e têm que tomar decisões diárias que compensem os aumentos do IVA e do IRS, da água e do pão, da vida! Estas pessoas, nós, questionamos seguramente as próprias opções de mobilidade. O aumento na utilização dos transporte colectivos e a diminuição do trânsito automóvel na ponte 25 de Abril são dois exemplos actuais disto mesmo. Todos os actuais condutores são potenciais utilizadores da bicicleta. É assim que gosto de  ver quem se senta do outro lado dos vidros e não ouve o som do mar, o cantar dos pássaros nem dá os bons dias quando se cruza comigo.

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