REQUIEM PARA 2010


E pronto lá se vai mais um ano, o derradeiro duma década inteira desde o virar do século, do milénio, são tantas as legendas para pôr na fotografia destes últimos dias de dois mil e dez. Um ano anunciado por trompas e megafones de crise e que agora nos deixa um legado de dificuldades acrescidas, de menos salário e menos direitos, de mais impostos e mais injusta distribuição das riquezas várias, das produzidas e das outras. Um ano que passa para o seguinte mais pobres, desempregados e sacrificados que nos dizem ser em nome duma batalha épica para fugirmos a certa “ajuda”. Como se nos dissessem para corrermos mar adentro, que lá atrás vem um monstro que de nos querer ajudar nos acabará por afogar.

Neste ano derradeiro ano da primeira década do terceiro milénio desde que contamos o tempo pelo dedos das mãos dum deus que parece ter abandonado até os dele devotos à sorte do diabo dos mercados, vimos o mar a encher-se de crude assassino e os bolsos dos assassinos do crude a encherem-se com a vida de todos nós. Enquanto o aumento no preço dos combustíveis conseguiu escapar às capas mediática, tentam convencer-nos nas mesmas capas que as latas de quatro rodas, agora carregadas de baterias poluentes são uma qualquer solução para o martirizado espaço público e urbano. Estenderam-se mais tapetes de alcatrão a cobrir e enterrar uma mobilidade sustentável e sustentada.

Se olharmos com suficiente distância assertiva para os transcorridos doze meses o que mudou para as pessoas que resolveram empenhar-se um nadinha mais nesta coisa de mostrar à mole que andar por aí a pedalar é fixe e recomenda-se? Muito direi eu. Estamos menos sozinhos porque somos mais a partilhar os computadores uns dos outros. Temos seguramente mais leitores e produzimos algumas das mais interessantes páginas de texto sobre as questões da urbanidade, da mobilidade e, claro publicamos as melhores fotos inspiradas pela bicicleta. Somos uma tribo de índios bons num país de maus cowboys do asfalto!

Agora vamos manter a mesma distância e tentar perscrutar no retrovisor os sinais na paisagem que nos dêem razões para sorrir, porque alguém, com poder para isso, ali deixou uma avenida com mais passeio, acolá fechou um par de ruas ao trânsito automóvel, acoli reabilitou chãos e pavimentos. Para ser sincero vislumbram-se uns tímidos sintomas medrosos dalguma intenção (agora vou inalar umas fortes passas de boa-vontade) de afrontar o todo poderoso carro. O jardim do Príncipe Real, a Praça do Comércio ou o Bairro de Telheiras podem (ainda estou sob o efeito das baforadas) ser consideradas obras ingratas ao automobilista comum, mas e o que dizer dos abusos constantes ao estacionamento nessas e em todas as zonas da cidade? Com a muito simples e directa pergunta Ao fim de 2010 é mais difícil andar de carro em Lisboa, temos a resposta desesperante dum Não rotundo!

O próximo ano nascerá perene de motivos de revolta e luta por um país mais solidário e menos caridoso, mais independente do que consumimos e exportador do que nos sobra, mais retributivo e menos penalizador de quem cria, com menos desemprego e especulação e mais trabalho e produção. Um país em que se aposte no transporte público e não se parem comboios nem fundeiem cacilheiros, onde se beneficie o colectivo em detrimento do privado. Um dia as lides ciclistas foram imagem para nos destacar na dianteira duma Europa rica e próspera da qual hoje percebemos não só nunca nos aproximámos mas afastámos constantemente, uma Europa rica que nos escorraça e nos ameaça com uma varridela implacável.

Que a bicicleta seja a nossa arma para 2011, que nos sirva de lança na luta dos espíritos e lanterna no caminho para uma sociedade mais justa. Bom ano novo de bicicleta!

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