NA BARRIGA CABE UM PAÍS


Não sei se é por finalmente conseguir ver no espelho o que tenho ouvido incrédulo sobre a minha, que num destes entardeceres tediosos, dei por mim a sentir uma repugnância exagerada por uma barriga assiduamente televisiva. Não que ambas se comparem em proeminente importância por manifesta desvantagem perimetral e mediática da minha barriga, ainda por cima estando a ser consumida diariamente em suaves pedaladas.

Apesar dos violentos e persistentes esforços da publicidade para nos convencer da beleza de lustrosos ventres femininos e musculados abdominais másculos. Para lá de todas as manchetes na imprensa e de sencionalistas reportagens televisivas sobre a obesidade infantil, do mito da dieta mediterrânica ou dos malefícios do sal, apesar de toda a informação que circula pelas nossas veias sobre o excesso de barrigas gordas que cresce à nossa volta, as mentes que delas se alimentam estão sempre presentes no talhar do nosso destino.

O automóvel continua a ser o prémio último ao qual se aspira na estrada do sucesso. Já a bota botilde presenteava os vencedores com um da mesma forma que o gordo do preço certo continua a fazer. Não vou maçar os meus gentis leitores com a exposição da carga simbólica que cabe na bagageira dum dois volumes de sonho, mas ver cidadãos verterem lágrimas e baba por um automóvel, dispostos a ser chacota e circo da plebe pelo cheiro a estofos novos não me deixa propriamente orgulhoso por pertencer à mesma espécie animal.

O canal de televisão com mais responsabilidade na elevação moral de todos nós, aquele que deveria ser a bitola por onde avaliaríamos não só a qualidade técnica e estética do meio televisivo, mas sobretudo que tem a responsabilidade de quem vive pago por todos nós, intoxica os seus espectadores diariamente com uma dose maciça de brejeirice, consumismo e machismo. Um conceituado actor de revista passeia os seus maus hábitos alimentares, acompanhado por duas excitantes donzelas para gáudio dum público provinciano. Tudo isto acontece no meio de urros e gritos na tentativa desesperada de acertar no preço do colchão como se isso não abrisse apenas a porta para o sonho repousado mas também deixasse entrar a sexual assistente

Não se trata de pretender privar um excelente profissional do sustento para o seu talentoso espírito nem ávido corpo. Sou dos que concorda até que um pouco de jogo anima a vida e pode contentar o bolso mas para chegar ao prémio seria dignificante estimular o intelecto um pouco mais que acertar num preço. Admito que a elegância feminina me faz virar a cabeça -ainda mais se juntar uma loura e uma morena, mas não precisam de ser mudas nem fazer jogo baixo. E não acredito poder substituir o carro pela bicicleta no ideário colectivo, pelo menos não na minha geração.

Trata-se apenas de acreditar que as pequenas coisas fazem a diferença, particularmente quando são repetidas e repetidas e repetidas… Hoje o V mostrou-me que sabe fazer sombras com os dedos das mãos e que aprendeu isso na televisão. Seria ingenuidade acreditar que o V só aprende a fazer sombras com as mãos e que não deixa que lhe entrem algumas outras na sua cabecinha de quatro anos quando vê televisão feita por gordos?

De forma mais ou menos explicita, o concurso Preço Certo promove tudo o que deveria o canal público de televisão combater. Apesar de não parecer, apenas pretendo dar este subproduto de lixo televisivo como exemplo, como que uma demonstração por absurdo do quão estamos longe da necessária mudança de mentalidades. Porque a mentalidade que o concebe e produz é gorda e engorda-nos, entope-nos o cérebro com imagens dum mundo falido, que nos hipoteca o futuro por um preço errado. Que longo caminho temos de pedalar para perder a barriga!

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Uma resposta to “NA BARRIGA CABE UM PAÍS”

  1. Que texto inspirado. Não podia concordar mais, infelizmente este programa dos preços é um sinal do nosso atraso e de uma cultura que tarda em evoluir.

    Um abraço!

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