ANDAR A PÉ É BOM


Não é à toa que o carro tem tamanho peso na vida de tantos cidadãos das nossas cidades, e fico-me pelas cidades porque no resto do território a situação está apenas diluída pelo cenário de montes, vales e planícies. Existe já bastante informação sintetizada e analisada sobre o automóvel nas nossas sociedades ocidentais, sobre as razões e as consequências disso e, embora esse trabalho de secretária tenha tido quase nunca casos lusitanos como objecto de estudo, salvaguardando a necessidade de ponderar as nossas tão propaladas idiossincrasiazinhas lindas, não se perderá muito com extrapolações.

Conduzir um carro topo de gama faz efectivamente parte do imaginário de muitas pessoas mesmo das que mais tarde encontram a luz ao fundo do túnel montada no quadro ferrugento duma pasteleira. Queime gasolina, óleo vegetal usado ou empurrado por electrões excitados, o automóvel é um sinal de estatuto social, de unicidade no meio da mole engarrafada num futuro adiado. Da mesma forma que um condutor ao volante dum Audi preto e reluzente se sente senhor duma manada de cavalos de potência capazes de galopar intrépidos qualquer obstáculo, também eu quando monto a minha Raleigh me sinto envolto no seu carisma e parte da sua história gloriosa. Afinal é tão fácil perceber os automobilistas.

Sair à rua sem cultura nem literatura, sem mundo nem saber não é crime. Navegar pela vida fora num mar de ignorância é o destino de milhões de seres humanos condenados à mais obtusa miséria: a do conhecimento. Se sairmos à rua na pele nua de Teresa Torga, o mais certo é sermos detidos e, se não nos provarem dementes, seremos condenados por ofender os outros. E o carro veste-nos tão bem, é a mais perfeita das capas, lá dentro podemos esconder a miséria do espírito e parecer tudo o que a publicidade se encarregou de pintar na carroçaria. Fomos manipulados e ensinados a vestir o automóvel. Fomos sendo guiados para dentro dele e lá seremos mantidos prisioneiros. E, como é quentinho, por lá ficaremos muitos e bons anos, a não ser que…

… nos tirem cá para fora. Que nos libertemos. É frequente encontrar no discurso anti-carro uma forte componente anti-condutor quando uma abordagem oposta seria mais producente. Vejamos, os condutores são peões sempre que saem dos carros. Uma vez com os pés assentes no chão tornam-se pessoas normais que enfrentam os mesmos problemas que nós. Por exemplo na Rua Garrett, em Lisboa, existem lojas donde pudemos sair com um saco que pese vários salários mínimos sem que isso nos afecte as costas e no entanto quantos lugares de estacionamento existem nessa rua, em frente a essas lojas? As lojas que ali se instalam não são, pelo menos à primeira vista, lojas dos chineses e no entanto escolheram uma zona da cidade onde é caro ir de carro. E porquê? Será porque é bom andar a pé na Rua Garrett?

As pessoas gostam de andar a pé. Basta ver os centros comerciais e as suas largas alamedas cheias de peões. E não existe um único centro comercial com estacionamento no corredor, sendo que a distância que se faz desde a cave escura, fria e cara até à porta da loja preferida no Colombo, equivale a umas boas subidas ao Chiado. As pessoas gostam de andar a pé em Lisboa ou em Paris, só que em Paris, antes da andarem a pintar os passeios de vermelho desmaiado, arrumaram o estacionamento e devolveram os passeios aos peões. Em Paris trabalhou-se primeiro para tirar os condutores de dentro das celas e depois atiraram-lhes umas bicicletas (bem feias por sinal) para a frente dos pés.

A melhor ajuda que podem dar ao uso da bicicleta em Lisboa ou em qualquer outra cidade, é libertar o peão que vive refém dentro dum automóvel. Claro que as pessoas não vão querer sair do bem-bom-quentinho. É assim aqui como foi em todo o mundo, mas uma vez cá fora rapidamente se aperceberão de como é bom andar na Rua de Santa Catarina, ver o movimento perpétuo desde um dos bancos corridos ou beber um café na esplanada centenária do Majestic ao som do acordeão desafinado e pedinte. Foram os carros que desertificaram os centros das cidades exilando os seus habitantes nos subúrbios sem lojas de rua nem árvores. São as ruas pedonais que lhes devolverão a vida, ressuscitado-os, aos centros e aos habitantes.

Numa escola aqui do bairro um casal de pais imigrados da Alemanha, fazia-se notar por, embora vir de carro trazer o filho, nunca parava junto à porta, estacionando sempre num lugar legal e caminhando até à escola a passo & par. Para lá da atitude de civismo exemplar, os minutos de partilha pedonal enriqueceram uma relação que se quer sempre melhor. Andar a pé é ser parte da corrente sanguínea da nossa cidade, é partilhar o mesmo espaço sem regras nem prioridades, é ouvir mais os outros, escolher mais caminhos e dividir, olhar com mais calma, ver. Devolver os peões às ruas das nossas cidades não é uma necessidade, é uma obrigação!

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