CHOVER NA PRAIA


Na quinta, sete, tinha marcado jantar com uns colegas -na verdade alguns já não são mas é como se fossem – na pizzaria simpática da praia de Carcavelos. Havia tempo que não nos juntávamos mas desta vez tinha sido tão simples marcar o encontro e havia todas as confirmações esperadas, que me deu um certo ar de satisfação quando liguei ao restaurante. Os caros leitores não acham também que vai sendo demasiado difícil conseguir juntar pessoas à volta duma mesa?

De manhã cedo tinha tirado a bicicleta da arrecadação e saído, como todas as quintas, à feira de Carcavelos e feito o avio do costume, tomado o café com o duchese do costume -na verdade o duchese foi embrulhado e viajou de alforge para ser compartido no lar, porque os natas estavam deliciosamente queimados. De volta ao ninho, prendi a Trek com o cadeado U ao sinal de rua-sem-saída em frente ao prédio e deixei-a a apanhar ar até que chegou a hora do encontro.

Ainda não pedalava havia um minuto e já a chuva me molhava a campainha, o guiador, o guarda-lamas, o boné, as calças, os sapatos. Tinha vestido um leve impermeável por causa das coisas mas a verdade é que as pedaladas entre o viaduto da estação de Carcavelos e a passagem subterrânea da Marginal fiquei que encharcado. Apanhei a primeira molha da época.

A cabeça estava seca porque a lã de chaxemira escocesa do boné cumpriu com os pergaminhos mas as coxas estavas ensopadas, os ténis encharcados e o casaco escorria água até aos bolsos. Aproveitei a forte corrente de ar que soprava pelos túneis, baixei o descanso a meio da passagem para salvaguardar a montada e abri os braços. Ajudou. Lá fora o mar enrolava a areia e gotas fortes eram empurradas para a sombra. Sozinho na penumbra senti-me bem. Eu e a bicicleta sem testemunhas, de braços abertos sequei o casaco.

Amainou a chuva e voltei a pedalar. As mesas por onde passaram os atletas amadores e destemidos que se cruzaram comigo, estavam vazias. Terá sido a chuva que os lavou de gente? A falta de  clientela tão habitual nestes privilegiados spots, apesar dos asfaltados parques de estacionamento, simboliza bem o desperdício de recursos e revelam à luz da lua o tanto que falta fazer para dinamizar este espaço. Às vezes o melhor é pedalar para esquecer…

Uma bicicleta amarrada à entrada da pizzaria ia anunciando aos comensais que eu já esperava lá dentro. A surpresa deles surpreendia-me: Como diabo havia eu de ter ido ao jantar? Por muito tempo comemos e conversámos pinceladas dos quadros das nossas vidas. Não se falou de bicicletas nem de carros nem de passeios nem de estradas até que a chuva ofuscou a vista escura da praia e ameaçava-me com um dilúvio no regresso a casa. Ai os olhares convergiram no meu ar de indiferença. À pergunta muda do “e agora?” respondi “parece que vou ter de tomar um bom duche quente à chegada”.

Algumas das viagens que fazemos oferecem-nos inesperados contratempos, sem olhar à maneira que escolhemos para ir ao destino. O autocarro que se atrasou, o furo no pneu do carro, o Bobi que resolveu desaparecer à última da hora, o puto que nos pede para parar porque bebeu muita água, a fila na ponte, o acidente na segunda circular. Cada um que acrescente de memória. Eu atrasei-me pela chuva. Na pior das hipóteses teria voltado para trás a pedalar até ao tal duche e feito a desfeita de faltar ao encontro. Mas isso não aconteceu, pois não? Então tudo está bem.

Lá pela uma da manhã, quando a única mesa que nos fazia companhia se levantou, os quatro resistentes seguimos-lhes os passos para alivio do staff. Já na rua contaram-se mais uns dedos de conversa. Não caía água do céu e as estrelas espreitavam por entre nuvens promissoras. Sacudi os salpicos do velho Brooks e acenei um “até à próxima” por entre os estalitos da corrente. A luz da frente ressentia-se da bênção outonal mas a viagem foi seca de água e rápida de grappa. Afinal nem foi preciso tomar um duche quente.

 

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Uma resposta to “CHOVER NA PRAIA”

  1. Esse é o espírito. Eu entretanto arranjei um impermeável apropriado, a época das chuvas parece ter chegado.

    Também tenho problemas em marcar jantares com um número de pessoas superior a 3 ou 4. Acho que é uma característica do nosso tempo.

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