GENTE COM PRIVILÉGIOS


Há gente com sorte. Há gente que consegue levar uma vida de acordo com os seus valores, ou pelo menos tem mais facilidade em fazer por se sentir coerente neles. No meio da tempestade dos dias que correm, olhar à volta e não ver que o caminho pelo qual nos empurram nos leva a nenhum bom porto, é saber de experiência certo e os princípios, tecidos pela malha da coerência, serão o fio de Ariadne que nos ajudará a encontrar uma saída.

Entre a porta da casa e a pátio da escola onde o V reencontra cada manhã tanto do seu mundo, percorremos ambos, quando não temos a sorte da companhia da P e da mãe, uma centena de metros mal medidos. E não importa o rigor da distância porque se num dia é curta logo noutro pode ser mais demorada, e mais que aspirar ao fim da caminhada, vou-vos reter no andar até lá. Fechem os olhos.

Podemos começar pela música das sandálias de sola batendo na pedra das escadas e como esse som me faz trocar de calçado com o V e ouvir-me a descer outras escadas de outro prédio noutro tempo. Lá em baixo, lá fora, a rua chega-nos com um sol nascente e irradiante, quente como é a mão do V que me ajuda a atravessar a rua, contornar os carros -sempre os mesmos carros invariavelmente estacionados nos passeios, passar pela “floresta assustadora”, sentir o cheiro da salva, do alecrim e chegar à ribeira encanada pela mania de tudo comprimir.

Pelo meio da sebe, já se ouve a voz da Paulinha com os novos V, já tão parte do passado do meu V. Passamos pelo par de Testemunhas, testemunhas de como andam perdidos tantos homens e mesma assim tentam convencer outros que a solução não está na sua vontade. Sempre me pergunto porque não têm estes crentes os cem anos de solidão debaixo do braço e se oferecem para ler pedaços da obra a quem passa? Ou porque não entregam a quem lhes cruza o caminho, páginas rasgadas de velhas tele-culinárias?

Mas a resposta para todas as perguntas chega: pai, quero cavalitas. E lá seriam meia centena de vértebras cansadas que me tirariam o prazer daquele peso lindo a flutuar lá em cima? Até ao portão rimos por baixo dos ramos das buganvílias, tocamos a campainha com a ponta da sandália e acenamos bom dia à dona Eugénia. Penduro o saco feito pela mãe com a muda de roupa, o carrinho, as varinhas mágicas, a folha para a girafa e as pedrinhas, visto-lhe o bibe e, sim V, o pai vem buscar-te de bicicleta. Chegámos. À nossa volta giram apressados progenitores e rodopiam dormentes crianças, ainda envoltos nos doces odores a estofo automobilizado. Um privilégio!

fotografias tiradas pelo V

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