RELATOS DA VIDA A DUAS RODAS


Graças à chegada da P, a minha vida tem tido pouco de profissional e tudo de familiar. Além da licença paternal, resolvi juntar um mês de férias em atraso e ficar em casa a ver a flor a ganhar cor. A qualidade de vida é algo de muito tangível. Noites pouco dormidas, inexistência de dados adquiridos, ausência de certezas, atenção constante aos detalhes, falta de tempo para o habitual e uma habitual falta de tempo, são as únicas constantes destes tempos magníficos. A bicicleta tornou-se noutra ainda maior constante. Tudo é feito a pedalar. O mercado, as visitas, as aulas -que essas são compatíveis com o resto- a tudo chego montado no velho Brooks.

Ontem, sexta-feira e dia de aulas, atrasei-me ao almoço. Culpas atribuídas ao molho dos bifes, à companhia do almoço e ao Ermelinda. Acabei a pedalar para a estação, meti-me no comboio a correr e pedalei mais um tanto até à escola. Ainda tive tempo para parar na tasca do costume e beber prometido café para compensar a pimenta do molho. “-Então hoje veio de bicicleta. -Atrasei-me, foi o que foi. Que nestes dias não preciso vir nela. Entre a casa, o comboio e a escola, até aproveito para andar a pé.”

Ao regressar, enquanto a luz reflectida no Tejo franzia os olhos aos passageiros do costume, lembrei-me da sorte que é não depender de ninguém para ir de um lugar a outro. Ali estava, de pé meio apoiado no pedal esquerdo e a ler, mas podia sair a qualquer momento e continuar a pedalar. Podia a linha ficar interrompida por um acaso. Podia a electricidade faltar e as locomotivas ficarem quedas. Podem as políticas neo-liberais desencadear greves e boicotes. Pode a gasolina ser vendida nas ourivesarias! Ou pode simplesmente dar-me para sair na próxima e dar uso aos pedais! Estava eu entretido com estas ideias, motivadas quiça pelo canto do olho preso a uma notícia dum gratuito, quando acordei para o chamamento da Marginal, do pôr do sol prateado visto pelo fundo dum copo de imperial. Tudo mesmo a calhar antes do jantar. Um privilégio!

Quando vou a Lisboa e o destino não me obriga a levar a bicicleta, mesmo que o trajecto seja feito maioritariamente de comboio, ter a bicicleta comigo, dá-me uma enorme sensação de segurança e independência. A bicicleta é um veículo libertário. Andar de bicicleta significa escolher um caminho mais calmo, ir mais devagar, desfrutar incomparavelmente da viagem, não poluir, não consumir, fazer exercício físico, manter a cabeça ocupada, mas sobretudo exercer um direito de forma absoluta: a liberdade individual à mobilidade.

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Uma resposta to “RELATOS DA VIDA A DUAS RODAS”

  1. Muito bonito.
    Assim como um dia se disse que o ski é a melhor maneira de chegar a paisagens de outra forma desconhecidas, conseguiste pôr agora em palavras uma forma diferente de ver a bicicleta, para além das descidas e do frio. É como se fosse um “canivete suiço” da mobilidade, um telemóvel com internet, de repente, passamos a estar acompanhados por um novo poder. Por todas as razões que eu já conhecia e lia neste blog para aderir a este meio de transporte, adiando as lições de segurança na estrada para um futuro próximo, a forma como descreves esta liberdade faz-me desejá-la com uma intensidade maior. Sermos senhores do nosso próprio destino é um luxo não negociável. Obrigada por mais uma vez nos presenteares com o outro ângulo de visão, o ângulo do “saco do Sport Billy”.

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