AREIA NA CICLOVIA


Na passada terça-feira experimentei finalmente percorrer duma ponta à outra a recém inaugurada ciclovia ribeirinha de Lisboa. Este blog teve um enviado à passeata que marcou a conclusão dos trabalhos e já nessa altura aqui se deixaram escritas algumas imperfeições da emblemática obra.

O que ali se mandou fazer deixou muito a desejar. Se antes não havia uma ciclovia, agora tão pouco há. Entre o Cais do Sodré e a Torre de Belém foi feita a marcação no pavimento, especialmente no passeio, de um traçado dedicado em exclusivo ao trânsito bidireccional de bicicletas. Mas isto não é uma ciclovia. É apenas um trajecto. Como aqueles trajectos que são marcados em espaço não urbanos, para que os praticantes da bicicleta todo o terreno se possam orientar.

Como na Serra da Arrábida, na Serra de Grândola ou na costa Algarvia. Tal como em alguns desses trajectos foram feitas pequenas passagem sobre ribeiras, ou alargado um caminho para contornar um cerro, em Lisboa foram feitos desvios para ladear parques de estacionamento e edifícios, foram feitas protecções para os carros não invadirem o espaço ciclável ou marcações de aviso aos peões mais distraídos.

Quando se marca no chão um trajecto, como se fez entre o rio e o Museu da Electricidade, em cima de paralelo de granito, e se chama a isso uma ciclovia, algo está errado! Alguém imagina a CML a abrir uma estrada, daquelas só para automóveis, e a deixar troços em areia, outros em cimento, outros em cascalho e mais não sei quantos pavimentos e depois a chamar àquilo estrada?

A discussão que se gera, dispersa por vários blogues, sobre o utilidade das ciclovias é, regra geral, entre quem é contra e quem é a favor. Mas será que esse tipo de posturas contribui para algum avanço positivo na defesa da bicicleta? O oito-ou-oitenta leva-nos a algum lugar, ou mantém-nos neste marca-passo tão reaccionário quanto injusto?

Imaginemos uma verdadeira ciclovia, mesmo que fosse bidireccional, que unisse Belém ao Parque das Nações. Uma estrutura desenhada para servir quem se quer deslocar em bicicleta entre estes dois extremos da nossa capital. Uma pista pavimentada como devem ser pavimentadas as ciclovias,  e separada quer dos carros, quer dos peões, quando se justificasse. Uma via pensada para ser usada por quem quer ir do ponto A ao Ponto B, sem ter de andar a passear pelo meio de restaurantes e pontões. Imaginemos ainda que em paralelo se combatia o estacionamento anárquico, as velocidades excessivas, a falta de passadeiras, os passeios tão estreitos que se tornam claustrofóbicos. Imaginamos isto tudo e lembramo-nos de quê? De várias cidades europeias onde as ciclovias fazem parte da rede viária. Ou não?

Não desci propositadamente ao rio para pedalar na ciclovia, o meu destino era uma ida e volta à Portela, com passagem pela zona do Parque das Nações. Nem vale a pena dizer, mas claro que o regresso não foi pela ciclovia! E o regresso foi mais rápido e, arrisco-me a dizer, mais seguro. Não porque não tenha usado a ciclovia, mas porque não usei um trajecto mau e feito à pressa.  Um trajecto que não serve os interesses de quem precisa de se deslocar ao longo do rio em bicicleta, nem sequer os interesses de quem para ali vai dar uma volta com os filhos.

Deixemo-nos de lérias: mesmo quando Lisboa for uma cidade gerida por gente de fibra, com capacidade política para fazer as revoluções necessárias. Mesmo quando o blog Passeio Livre não passar dum arquivo morto de zeros e uns e a Avenida de Liberdade for um espaço livre de poluição, mesmo na Lisboa ideal, haverá lugar e razões para traçar ciclovias bidireccionais e unidireccionais, exclusivas e partilhadas, enterradas e aéreas. Simplesmente da mesma maneira que haverá sempre passeios, estradas, rotundas, cruzamentos.

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2 Respostas to “AREIA NA CICLOVIA”

  1. Concordo com o comentário relativamente à ciclovia ribeirinha… Quem idealizou esta ‘ciclovia’, pensava que apenas colocava um tracejado no pavimento e uma bicicleta pintada e já está! A mudança de pavimentos (alcatrão, passeio, carris, pedra da calçada, etc, etc) é desconfortável e perigosa para andar de bicicleta. Eu desloco-me diariamente para o trabalho de bicicleta e passei algumas vezes por parte da nova ciclovia, no entanto desisti porque no outro dia rebentei uma câmara de ar com um buraco que havia no meio do pavimento desalinhado de pedras da calçada.
    Enfim, o António Costa tinha que fazer uma ‘rotunda’ antes das eleições, esta foi a dele!

  2. Concordo com os comentários sobre a “ciclovia ribeirinha”, comentários esses que, salvo a ciclovia que está a ser construída no Algarve, regra geral são extensíveis a TODAS as ciclovias deste País. E porquê? Porque as ciclovias deste País (Portugal) vão de lado nenhum para nenhum lado. Não existe uma estratégia de percurso alternativo, percurso com fins turisticos….NADA
    As ciclovias em Portugal são a maneira mais fácil de mostrar obra, para fins eleitorais, às populações e simultâneamente dar a ganhar algum dinheiro aos amigalhaços.
    Quando os decrépitos e ignorantes políticos que gerem este País, Governo Central, e Autárquico, quizerem REALMENTE saber o que é uma ciclovia e o impacto que pode ter nas populações, na economia local, regional e nacional e no Turismo…..quando quizerem ver uma verdadeira Ciclovia, deixam de ir a banhos na Praia dos Tomates no Algarve e vão até Viena (Áustria) alugam uma bicicleta e fazem o percurso austriaco da DONAURADWEG (Ciclovia do Danubio) e ciclovia mais famosa e mais frequentada de TODO O MUNDO. Aí vão ver a dinâmica económica que uma ciclovia pode desempenhar, a par da dinâmica ecológica.
    Eu já passei por lá, e fiz o percurso desde a Alemanha até à Bulgária, e pude constactar que naqueles países (Alemanha, Austria, Eslovaquia, Hungria, Sérvia e Bulgária) os governantes sabem os proventos que podem ter com boas ciclovias.

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