SER OU NÃO SER CHIC, EIS A QUESTÃO?


A roupa com que saímos de casa cada dia dirá de nós um tanto, como dizem todas as coisas que escolhemos para nossas lhe chamarmos. O gosto que pomos na escolha da cor da camisa e as calças com que saímos de casa pela manhã não são aleatório fruto do acaso, mesmo que para isso não tenhamos pensado um segundo de manhã, mas contribui muito para a imagem que fazemos uns dos outros.

Se é a praia o destino matinal, pela certa a tal camisa dá lugar a uma t-shirt e em vez de calças, mais bem nos assentam uns calções. Tudo muito de acordo com o nosso bom-gosto, claro.  Já para o casamento do primo de cujo nome não nos lembrávamos, a camisa pode até ser a tal, mas de conjunto com o fato meio justo que guardamos no fundo do armário.

Respeitamos padrões de gosto pessoal influenciados pelos ventos da moda, ou remando contra eles, e adaptamos o que vestimos de acordo com as necessidades práticas do dia-a-dia. Ora, se pedalar puxa mais pelo cabedal que andar de carro ou apanhar um autocarro, por que carga d’água escolheríamos então o mesmo tipo de roupa? Desculpem o machismo da ideia, mas acreditem que a imagem de cruzar-me pela cidade com bicicletas conduzidas por mulheres, cortando o vento de vestidos curtos e saltos altos, seria um prazer para os olhos e, muito provavelmente um tormento para os joelhos. Seria até um excelente cartão de visita para Lisboa, como o é, por exemplo para Copenhaga.

Em cima da ideia de que se as pessoas acreditarem que podem pedalar com a roupa de todos os dias, maior número delas optará pela bicicleta, tem por baixo a leitura inversa: quem não conseguir pedalar com a roupa comum, não vai aderir à bicicleta. Se nos centrarmos no essencial –levar mais gente a considerar a bicicleta como opção– o importante será desdramatizar os detalhes, não descriminando ninguém independentemente do gosto que cada um põe no vestir. Algum fundamentalismo Chic de certas opiniões duma Europa plana, chuvosa e bem urbanizada, teima que a indumentária é fundamental na defesa da bicicleta na cidade, quase como se a bicicleta tivesse sido inventada como acessório de moda, acabando invariavelmente  por promover certos produtos específicos e estilos de vida associados.

Pedalar quatro ou cinco quilómetros ladeira acima, deixa marcas muito para além das axilas, mesmo que a cadência se fique pelos limites do equilíbrio, e percursos desse tipo são frequentes em Lisboa e ao redor. Mesmo ao fim de um pequeno esforço sentado num selim, ao descoberto do nosso generoso clima, não me venham dizer que um duche não é do que melhor calha. Da mesma forma, se a industria do vestuário nos oferece uma tão diversa escolha de materiais, por que se aponta a lycra como se não houvesse mais nada!

Quer-me cá parecer que o Nelson Évora quando se veste com aquela roupinha apertadinha não é bem porque gosta. É muito capaz de ter a ver com o facto daquilo se adaptar melhor à velocidade e liberdade de movimentos com que nos enche de orgulho patriótico. Sem pôr em causa a felicidade alheia que isso proporcionaria, sinceramente não estou a ver o rapaz a sair à rua naqueles preparos. Muitos praticantes de btt adoram dar a sua voltinha pelo Parque das Nações todos coloridos e aconchegados, como se andassem a treinar para as 24 horas de Monsanto, (um dia destes volto ao tema) mas isso é outra conversa, e nada tem a ver este ciclista com quem usa a bicicleta como meio de transporte. Salvo, claro, excepções que apenas confirmam a regra.

Escolher a roupa que melhor se adapte ao esforço de casa-trabalho-casa (com ou sem escalas) é um sinal de sensatez e uma opção pelo conforto. Também nesta matéria, esta coisa da bicicleta não é assim um mundo tão à parte nem um bicho de sete cabeças. Quer seja tweed escocês ou o último grito da DuPont, algodão suíço ou seda indiana, cada um deve escolher o melhor que lhe calhe. É que gostos não se discutem, quanto muito, lamentam-se!

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