OLHAR PARA CÁ DAS MONTRAS


Imagine que em todas as lojas de automóveis que conhece, mais não seja de vista, sempre que olha para a montra ou entra na sala de exposição, os carros que lá estão expostos são só veículos todo-o-terreno. Imagine que sempre que vai a uma loja de roupa apenas encontra exposta roupa para actividades ao ar livre. Imagine que quando vai ao super-mercado nada mais há nas prateleiras que comida pronta a comer.

Com as lojas que vendem bicicletas passa-se algo parecido com a ideia absurda que pedi para imaginar. Salvo raras excepções, as lojas que vivem de nos vender bicicletas e produtos associados, só nos propõem que compremos bicicletas desenhadas, feitas e montadas para nos ajudar a explorar as entranhas de montes e vales ou que rivalizem com a máquina do Sérgio Paulino. Na melhor da sortes, existe lá no meio uns quantos, poucos, exemplares de velocípedes mais próprios às ruas das nossas cidades, mas na maioria das lojas são excepções que só confirmam a regra.

A bicicleta de montanha teve o seu ponto alto na transição do milénio. Uns anos antes o mercado nacional, até então dominado por marcas nacionais e uma oferta pobre em termos de tecnologia e qualidade quer de modelos de estrada, quer das velhinhas “pasteleiras”, foi revolucionado pela importação. Aos poucos cresceu o domínio de três ou quatro marcas de origem transatlântica, que chegaram a Portugal pelas mãos de agentes locais. Algumas destas empresas mostraram mais pedalada que outras e o sucesso das suas marcas está ai como prova. As bicicletas fora de estrada ganharam terreno e impuseram-se na paisagem ao ponto serem a maioria das bicicletas que se viam “dentro de estrada”.

Nos últimos três anos houve um aumento exponencial de bicicletas na cidade. Algumas btt passaram a sair à rua para lá dos fim-de-semana e dos passeios mais ou menos desportivos e alguns candidatos a ciclistas começaram a procurar nas lojas modelos mais versáteis. Poucas lojas arriscaram apostar nesses modelos, sendo a Decathlon um exemplo com os seus modelos híbridos, tendo dessa forma alargado os horizontes de quem se propunha comprar uma bicicleta, mas não queria levar para casa um jeep! A verdade é que tudo isto foi acontecendo muito a medo e a oferta foi sempre menos que pouca. Poucos vendedores encomendaram modelos híbridas ou marcas novas com ofertas direccionadas para pavimentos citadinos, mas mesmo nesses espaços, as montras continuaram a apelar aos instintos off-road.

O sector de negócios mais beneficiado com o aumento do uso das duas rodas a pedal, será seguramente, para além da venda das ditas cujas, as lojas de vendem de acessórios. Não é preciso ser engenheiro para perceber que por muita tralha que se consiga impingir a alguém cujo desejo é ter a bicicleta mais leve lá da rua, a parafernália disponível para bicicletas de cidade é muito superior. É, mas não se encontra em lado nenhum! Quer dizer, encontrar encontra-se, na rede, nas lojas on-line espalhadas por esta Europa unificada, mas aquele gostinho de entrar numa loja, tocar, experimentar e comprar é ainda um luxo raro quando se procura até uma simples câmara de ar.

Bem, mas para vender os acessórios, é preciso que o cliente tenha onde os montar. Ou seja, é preciso que o cliente tenha uma bicicleta, e para isso que as lojas lhe vendam uma. Só que as lojas parece que não querem. Pelo menos agem como quem não quer. A maior parte pensa que o cliente é alguém que deve ficar extremamente agradecido por se lhe dignarem a vender algo, e esse algo é sempre o que o cliente verdadeiramente necessita, seja lá o que o cliente vier à procura, o vendedor é que sabe o que é bom para ele. “Mas para que é que quer essa câmara de ar? Tenho aqui esta que é outra referência, mas que também dá!” ou nunca ouviram nada disto da boca de algum vendedor?

A verdade é que a maioria das lojas não fazem grande esforço para promover novos produtos para além das bicicletas de montanha. Refiro-me às bicicletas “roda 28” de cidade, com pneus mais estreitos, guiador mais direito, posição de pedalar mais confortável, guarda-lamas, luzes, grade para alforges, sistemas de transmissão de baixa manutenção, etc. Se se listar os acessórios então nem chega a paciência… Fora de Portugal a maioria das lojas de bicicleta são especializadas em modelos vocacionados para o transporte. Claro que também há lojas especializadas na vertente desportiva, mas há seguramente uma diferenciação positiva que só favorece o cliente.

Como diz a canção, isto anda tudo ligado. No primeiro ano da introdução em Paris da Velib’, as receitas das lojas de bicicletas da capital francesa aumentaram  setenta por cento. Por cá, quem usa a bicicleta como meio de transporte queixa-se da falta de investimento público na criação de condições de mobilidade, por outro lado, os agentes económicos enquanto parte interessada, não se mostram minimamente activos na defesa dos seus próprios interesses. Promovam mais a bicicleta enquanto meio de transporte, sejam mais agressivos na introdução de modelos utilitários, tornem-se mais visíveis nas campanhas de divulgação da bicicleta e só terão a ganhar. Teremos todos a ganhar. Todos mesmos, incluindo os que não andam de bicicleta. Porque uma cidade com mais bicicletas, é uma cidade melhor. Ponto!

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6 Respostas to “OLHAR PARA CÁ DAS MONTRAS”

  1. Muito bom post! Já tinha pensado em abordar esta questão, mas não a faria tão bem! 5 estrelas! Abraço

  2. Il Gladiatore Says:

    Obrigado.
    Vá aparecendo.

  3. Ainda não há mercado suficiente para as lojas se especializarem nesse segmento. Como tal, para pagarem as contas têm sempre que depender bastante das bicicletas para desporto. O problema é que esse mercado está muito mais saturado e é muito mais concorrencial, pelo que as lojas são entaladas pelas marcas que representam. Para as venderem são-lhes exigidas condições de exclusividade, de compras mínimas por ano, de manutenção de determinados níveis de stock, de ocupação de terminada área da loja, etc, etc. Não lhes sobra muita margem para investirem em coisas novas. As lojas acabam por trabalhar e servir as marcas e não os clientes. É um sistema perverso. A única hipótese viável é esticarem-se para os modelos “utilitários” que quase todas as marcas de bicicletas de desporto começam a criar (veja-se o exemplo da Specialized com as bicicletas Globe, que de um ou dois modelos na gama normal da marca se transformaram agora numa marca à parte, com vários modelos). Assim poderão começar a ter alguns destes modelos na loja e começar lentamente a sondar o mercado e eventualmente começar a dedicar mais do seu investimento para esse segmento; mas sem dar saltos maiores que as pernas. De outro modo, a revolução será feita por empresas e lojas que ainda não existem, e que só existirão quando sentirem que há mercado para as tornar viáveis enquanto especializadas apenas no segmento não-desportivo. Depois, com o tempo, o aumento das marcas e da concorrência, tornar-se-ão igualmente reféns das marcas que revenderão. Parece uma inevitabilidade, infelizmente.

    • Pois não sei se há ou não mercado porque não tenho dados sobre isso. O que sei é que se quiser comprar produtos desse “mercado” não tenho onde ou o que há é uma amostra muito pobre do que é fabricado pelo mercado global.
      Trazer as lojas para onde estão as pessoas, como é exemplo uma loja muito perto da Praça do Município em Lisboa, pode ser uma solução. Apostar na importação própria pode ser outra. Vender em loja virtual, importando apenas os modelos que se vão vendendo pode ser outra forma de dar a volta à perversidade do sistema.
      O fabrico de quadros de bicicleta em Portugal é muito superior à representação desses mesmos fabricantes no nosso mercado. Pois se não há investimento em inovação, se não se promovem as marcas, se não se adaptam os produtos às necessidades nem sequer se criam as necessidades, vamos continuar a falar de inevitabilidades.
      Já importei directamente de lojas em Espanha, no Reino Unido e na Alemanha oito bicicletas, rodas, luzes, pneus, campainhas, câmaras-de-ar e outros acessórios e componentes de bicicleta. Sempre sem interesses comerciais e nem sempre por ser mais barato, mas sempre porque foi muito mais rápido.
      Continuar a apostar em marcas de dimensão gigantesca, como a Specialized, Trek, Cannondale, GT, Giant ou Scott, em vez de se apostar em fabricantes de dimensão mais próxima da do nosso mercado, pode não ser -não parece ter sido- o melhor caminho.

  4. «Trazer as lojas para onde estão as pessoas, como é exemplo uma loja muito perto da Praça do Município em Lisboa, pode ser uma solução.»

    Não sei se será. Essa empresa começou a sua existência (online) focada em bicicletas “especiais”, dobráveis essencialmente, mas com pretensões divulgadas de abarcar outras “especialidades”. Mas acabou por se tornar mais uma loja de bicicletas de desporto, essencialmente. Não posso saber as razões, mas presumo que para conseguir ter uma loja aberta na Baixa a vender bicicletas dobráveis exigiria outras fontes de receitas adicionais, pelo que virarem-se para o desporto seria talvez inevitável.

    «Apostar na importação própria pode ser outra. Vender em loja virtual, importando apenas os modelos que se vão vendendo pode ser outra forma de dar a volta à perversidade do sistema.»

    Claro, mas não se é competitivo face a outras lojas online lá fora, que conseguem ter muito maior rotatividade de stock, logo, melhores prazos de entrega, melhores preços, etc, etc. E muitas vezes as pessoas que valorizam a qualidade neste tipo de bicicletas utilitárias são do tipo que facilmente escolhe comprá-las online, lá fora.

    Pessoalmente, desisti de tentar perceber a indústria portuguesa das bicicletas…

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