IMPRESSÕES DE DORTMUND


O futebol tem destas coisas, torna o mundo mais pequeno, mais perto. Em onze jogadores duma equipa está toda a diversidade cultural dos quatros cantos da terra. E por causa disso e de outras coisas que agora não vêem aqui à liça, lá fui eu caminho de Dortmund, no coração da Renânia do Norte-Vestfália. Região conhecida pela indústria extractiva mineira, que foi a fonte onde a Alemanha do pós II Grande Guerra foi alimentar o seu ressurgimento enquanto potência económica e industrial. O peso desta região moldou de tal maneira o futuro da Alemanha que se tornou na mais populosa. Milhões de imigrantes oriundos de países europeus e da Ásia juntaram-se aos milhões de alemães que trabalharam nas minas e nas actividades associadas. Diariamente milhões de pessoas tinham de ir para o emprego e regressar a casa. Uma grande parte deles faziam-no de bicicleta. Cada vez mais continuam a fazê-lo.

Circular de carro numa cidade onde se respeita a velocidade máxima permitida e onde a prioridade é sempre dada ao mais vulnerável, é uma experiência diferente do dia a dia cá no burgo. A sensação de calma e, usando um termo futebolístico, tranquilidade que se sente a conduzir, mesmo sendo por caminhos e ruas desconhecidas, é reveladora de como o comportamento dos condutores é o principal factor de stress na via pública. Mesmo quando circulamos muito acima dos 120km/h permitidos em Portugal, nas auto-estradas alemãs, onde na maior parte o limite é mais do dobro, a sensação é que se vai com mais segurança que por cá. Porquê? Fico sempre com a ideia que deve ter a ver com o facto de ninguém andar colado como se quisesse entrar pelo tubo de escape, ou a acender os máximos furiosamente como se de canhões desintegradores se tratassem.

Quando entrámos na cidade de Dortmund, já a via reservada aos automóveis era acompanhada por uma outra para bicicletas e por onde andámos foi isso que verificámos sempre. As chamadas ciclovias estão por todo o lado! Grande parte tomando uma faixa dos largos passeios e, quando colidiriam com o espaço do peão, seguem pela estrada separadas por um grosso traço branco. A verdade é que nem por uma vez as vi ocupadas por veículos estacionados, e nem mesmo os peões as usam a não ser quando precisam de as cruzar. Posso dizer que cada utilizador das vias sabe o seu lugar e respeita o lugar dos outros. Excepções haverá, nós favor pudemos , embora por especial favor e depois de pedir, deixar o carro alugado estacionado à porta do hotel na última noite, já que a alvorada era muito cedo, mas em lado nenhum vi umcarro estacionado em cima do passeio ou sequer em segunda fila. Com frequência tem de se cruzar ciclovias e a minha tendência foi instintivamente parar e olhar com atenção, ainda antes de me dizerem que, em caso de colidir com um ciclista, o condutor do veículo motorizado é considerado à priori culpado, tendo  depois que tentar provar a sua inocência. De igual modo, o ciclista em caso de acidente com um peão terá que atestar a sua inocência.

O hotel em que ficámos, NH Dortmund, fica a poucos metros da Hauptbahnhof, a estação de comboios, em frente da entrada principal existe um parque para bicicletas vedado por rede e fechado. Lá dentro, centenas de pares de rodas pertencentes a quem ali chega e dali parte a pedalar. Em termos comparativos, o parque de táxis que serve a estação é superior em número ao do aeroporto de Lisboa. Coisa pequena, portanto.

Os carros que os habitantes de Dortmund conduzem são, comparativamente com os que nós conduzimos nas nossas cidades, maiores e mais compridos, existem mais lojas que cá, os alemães consomem mais, Em Dortmund todo o centro está praticamente vedado à circulação automóvel e não me pareceu que esteja muito ocupado por habitação, mas o espaço reservado ao carro é muito menor que no centro de qualquer cidade lusa. Como será possível? Durante o dia, na praça central, a Alter Markt, as esplanadas são convidativas e estão cheias, o movimento de dortmunders a pé ou de bicicleta é constante e as lojas não parecem sofrer muito com a ausência dos escapes parados à porta…

Novos e velhos, mulheres e homens, mais apressados ou caminhando com a bicicleta pela mão, cruzei-me com centenas de pessoas que escolhem a bicicleta diariamente para as suas deslocações ou parte delas, numa cidade desenhada para as pessoas. Coisas simples, bem projectadas e executadas numa cidade com pouco sex-appeal, mas que convida a andar, a caminhar e a pedalar, claro. Ruas que nos oferecem segurança, onde o carro tem lugar, mas ninguém é segregado em função das suas escolhas de mobilidade e onde se privilegiam os transportes públicos. Dortmund tem mais de meio milhão de habitantes que nas últimas décadas têm feito um esforço para não ficar para trás no comboio alemão. Uma visita de algumas horas a qualquer cidade não deixa impressões ao visitante para que se possa considerar um conhecedor para além “de lá já ter estado”. Das impressões de que os olhos viram, a mim deixou-me também estas que escrevi. E recordou-me a pergunta: Se eles conseguem, será assim tão difícil nós também conseguirmos?

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2 Respostas to “IMPRESSÕES DE DORTMUND”

  1. pedro santos Says:

    Pois, eu também já vivi na Alemanha uns tempos e tudo o que dizes é absolutamente verdade. A única dúvida é porque é que em Portugal continua esta selvajaria automóvel. Repara que mesmo no sul da Europa estamos a ficar bem para trás, em França e em Espanha é impensável para em cima de passeios ou em 2ª fila e em Itália só a Sicília é que se parece (talvez atá para pior) com Portugal. Porquê? Porque somos menos educados, inclusivamente a classe politica que apesar de saber ler e escrever não tem cultura suficiente.

    • Il Gladiatore Says:

      Eu não gosto muito de generalizar. Esse também julgo ser, um dos defeitos da discussão das “coisas” cá pela terra.
      Em matéria de segurança rodoviária, Espanha é um exemplo na U.E. e claro que a bicicleta é hoje olhada pela classe decisora do país vizinho como mais uma parte da solução. É uma pena que por cá seja ainda e apenas olhada como método rápido de tentar conquistar votos. A esperança é que os cidadãos tomem consciência das mudanças necessárias e obriguem os políticos (ou os troquem) a agirem no interesse do futuro.
      Infelizmente, acho que as parecenças com a Sicília não se ficam pelo trânsito caótico…

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